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E se a Copa fosse no Brasil?

Postado por: Marcos Abrucio

A final vai ser aqui. Bem, mais ou menos aqui.

A final vai ser aqui. Bem, mais ou menos aqui.

Esse é o grande problema das datas: uma hora elas chegam. Já está entre nós 2014, o ano que há algum tempo é sinônimo em nossas cabeças de “Copa no Brasil! Copa no Brasil!”.

Desde pequeno ficava imaginando: como seria uma Copa do Mundo por aqui? Itália e Alemanha jogando no mesmo campo de Bangu x América. Os camelôs do Pacaembu vendendo camisetas de Argentina e Camarões. Um bandeirão abrindo no meio da torcida da Inglaterra…  Se o Mundial de 78 foi o do jeito argentino de jogar e torcer, com mais papel higiênico do que grama em campo, uma Copa no Brasil seria uma forma do mundo inteiro ver o jogo como a gente o vê.

A Seleção Alemã adentra o gramado do Maracanã.

A Seleção Alemã adentra o gramado do Maracanã.

Na Copa das Confederações do ano passado, tivemos uma boa amostra de como a “nossa” Copa vai ser, pelo menos dos portões para dentro: tudo no “padrão FIFA”, com o que isso tem de bom e de ruim.

Estádios novos (alguns já velhos), com visual moderno e conforto para o torcedor inédito por estas bandas (também, com as cadeiras e os estádios mais caros do mundo). Tudo muito organizado, limpo, bem sinalizado… e muito pouco brasileiro.

Ops.

Ops.

Já reparou que quando a câmera mostra o interior de qualquer uma dessas novas “arenas” (é, nem estádio chama mais), não dá para saber qual é? Do lado de fora, a arquitetura ainda é única, mas dentro é tudo no tal padrão: as cadeiras são iguais, a distância da torcida para o campo é igual, as dimensões do gramado são iguais, as redes são iguais, até o ângulo de câmera é sempre igual.

Não precisava ser assim. Poderíamos ter uma Copa do Mundo no Brasil que fosse… no Brasil.

Claro que os estádios estavam caindo aos pedaços. Que não dava mais para ser tratado como gado para entrar e sair da arquibancada. Mas era possível fazer reformas estruturais sem perder a nossa cara. Bastava ter pensado melhor em algumas questões:

• Por que em todo estádio o véu da noiva tem que chacoalhar da mesma forma?
A nova rede do Maracanã é igual à do Mané Garrincha que é igual à do Soccer City que é igual à de Yokohama… Por que não podemos ver uma semifinal de Copa do Mundo no Mineirão com seu filó do tamanho de um latifúndio? Ou no Maracanã com aquela rede que já acaba logo depois da linha? Melhor ainda: imagina um jogo decisivo na Fonte Nova com aquelas traves que pareciam de futebol de botão e a rede que quase arrastava no chão:

• Por que não posso comer um McPernil?
Ok, o McDonald’s tem acordo com a FIFA. Legal, vamos vender Big Mac. Mas sem proibir feijão tropeiro no Mineirão, acarajé em Salvador e sanduíche de pernil na porta do estádio em São Paulo (pensando bem, acho que esse a Vigilância Sanitária proibiria de qualquer jeito).

Número 2.

Número 2.

• Por que estádios, desculpe, arenas novinhas em Cuiabá, Manaus, Natal e Brasília, onde nenhum time consegue lotar um estádio, quanto mais uma arena?
Tudo bem, essa é fácil: muita politicagem e algum excesso de otimismo no turismo são a resposta. Mas prossigamos.

Em vez de Manaus, por que não jogar em Belém, onde o Mangueirão está sempre cheio para ver Remo e Paysandu? Em vez de Brasília e Cuiabá, por que não o Serra Dourada, que por décadas sempre foi conhecido como o único dos nossos campos com uma grama decente?

Serra Dourada e seu gramado psicodélico, 1981.

Serra Dourada e seu gramado psicodélico, 1981.

• A Copa tinha que ser no Itaquerão?
Temos que admitir: o Morumbi é um trambolho gigantesco. Tem milhares de pontos cegos, os assentos são distantes do campo, treme assustadoramente, é longe pra burro (desculpe se você mora ali perto, mas você mora longe pra burro) e muito feio esteticamente duvidoso.

Mas sua história também é gigantesca. Acostumamos a tê-lo de pano de fundo de jogos mitológicos. E vá lá: não é possível que uma reforminha bem feita não resolva boa parte dos seus problemas. Reforma que faria bem não só a ele e ao São Paulo, mas aos torcedores de todos os times.

E também à Copa do Mundo: imagine o Fred fazendo um golaço ali e correndo feliz para a galera, como tantas vezes o Careca e o Raí já fizeram. Imagine o Neymar fazendo algo parecido com isso.

Feio? Pensando bem, poucas coisas são tão bonitas como o Morumbi de casa cheia, com um mar de bandeiras como este:

A torcida alemã vibra no Morumbi.

A torcida alemã vibra no Morumbi.

• Mas só o Morumbi presta?
São Paulo já tinha o projeto de dois estádios novos, modernos, reluzentes, pimpões: o do Corinthians e o Palmeiras. Se eles ficassem prontos a tempo da Copa, ótimo. Seriam boas alternativas. Ou poderíamos ainda dar um tapa no Pacaembu, onde 40 mil pessoas estariam maravilhosamente acomodadas. Como sempre estiveram, aliás (lembrando que até jogo de Copa já rolou por ali).

Morumbi reformado, estádios novos, Pacaembu garibado. Na verdade, são todas boas opções. A escolha, então, deveria ser muito simples: a que custasse menos dinheiro público. É, então…

• E o Maraca, hein?
É, parece que do jeito que estava não dava mais. A estrutura estava podre e corria sério risco de cair. Nem vamos lembrar que outras duas reformas já tinham gastado rios de dinheiro nos últimos 15 anos – e que, pelo jeito, deram em nada.

Mas beleza: poderiam ter reformado de novo e mantido não só a fachada, mas também o layout interno, com seus anéis imponentes. E não deixá-lo com cara de uma arena genérica.

Veja bem: o Maracanã está lindo. Mesmo. Mas vale lembrar a impressão de Arbeloa, lateral da Espanha que foi judiado pelo Neymar na final da Copa das Confederações:

 “Quando estivemos no Maracanã, não tive a sensação de jogar em um estádio com tanta tradição. Você chega e vê um estádio moderno, novo, cheio de cores, então não é capaz de te transmitir a história. Tem vestiários confortáveis, modernos e amplos. Não é como quando vamos a Anfield, La Bombonera, ao Monumental de Nuñez, onde você sente o tempo, te transmite a história. Eu gostaria de jogar lá antes da reforma. Não fui capaz de sentir nem pensar que aqui atuaram jogadores tão importantes na história do futebol. Tive a mesma sensação quando joguei, por exemplo, nos estádios novos da África do Sul no Mundial ou os da última Eurocopa. Não parecia um estádio mítico do futebol.”

Disse tudo, cara.

Claro que não há mais espaço no futebol moderno para a geral do Maracanã, mas… peraí, será que não, mesmo? Na Alemanha os torcedores do Borussia tem um espaço para assistir aos jogos como sempre assistiram: em pé, urrando como doidos.

Mané e os geraldinos.

Mané e os geraldinos.

Talvez não desse para manter o fosso e os geraldinos quase sem visão, mas será que não dava para preservar o espírito do estádio, o mais democrático do mundo?

O povão dava o recado no Maraca.

O povão dava o recado no Maraca.

Será que não poderíamos ter a final da Copa em um estádio moderno e confortável, mas que carregasse as marcas da sua história? De perto, o Camp Nou é imponente, colossal, bem cuidado, mas não esconde que tem mais de 50 anos. O Maraca Nou poderia ser assim também.

Outra coisa: encurtaram o gramado! O Maracanã tinha um dos maiores campos do mundo, com espaço bastante para não deixar nenhuma retranca funcionar – o que sempre ajudou o nosso jeito de jogar.

• Resumindo:
Poderíamos consertar as infiltrações, melhorar a visibilidade da platéia, instalar um telão novo mas mantendo as dimensões do tapete – e deixando o palco de tantas histórias mais reconhecível.

Com cara de quem já viu vitórias e derrotas, comédias e tragédias. De quem já viu Pelé fazer o primeiro dos gols de placa e o milésimo dos gols de Rei. De quem viu Mané sorrir e dizer adeus. Já viu goleadas históricas e peladas perfeitamente esquecíveis. Viu Romário dar uma caneta em Maradona, viu Maradona acertar o travessão do meio do campo, viu Gaúcho pegar pênalti, viu Rivelino, Dinamite, ouviu o Frank. Viu Zico jogar.

Não é pouca coisa.

Gênios trabalhando no Maracanã.

Gênios trabalhando no Maracanã.

E, por fim,

• Pô, por que raios tiraram o orelhão de trás do gol do Maracanã?

Alô?

Cadê você?

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Chutou, é fogo, é gol – I

Postado por: Marcos Abrucio

Mestre Fiori

“Abrem-se as cortinas e começa uma nova seção no Copawriters, torcida brasileira!”

Acho bonito o egoísmo sincero de uma criança.
 
Em algum momento do Brasileirão de 90, por exemplo, passei a rezar todas as noites para o Corinthians ser campeão. Danem-se a paz mundial, a fome na Etiópia e mais ainda os milhões de torcedores dos outros times. Deus tinha é que cuidar daquele título, inédito para mim e para o clube.
 
Talvez a interferência divina fosse mesmo necessária, já que o time entrava em campo com Guinei, Jacenir e Mauro (apelidado gentilmente pelas arquibancadas como “Doença”). Por outro lado, tinha Neto.
 
Gordo, lento, metido e encrenqueiro. E, mesmo assim, levava o time na costas (ou na pança?). Decidia todos os jogos, não só com os gols de falta, mas também com a bola rolando e, acredite, até de cabeça, em uma afronta clara à Isaac Newton. Não nos esqueçamos dos lançamentos longos e precisos, que lembravam muito um outro camisa 10 corintiano e das comemorações explosivas, ora trepando no alambrado, ora deslizando de joelhos no gramado.
 
Neto era um pequeno milagre futebolístico. A prova de que o esporte era generoso o suficiente para permitir que qualquer jogador se tornasse um ídolo, não importa o o que a balança dissesse.
The original "Eu sou f..."

The original “Eu sou f…”

Com a ajuda dos céus e do pé esquerdo daquele cara, meu time foi avançando. Conquistou a última vaga para a fase final — ah, tempos gloriosos de regulamentos malucos que misturavam pontos corridos com mata-mata… — e foi passando por times mais fortes até derrotar o São Paulo de Telê na final.

Mas, para mim, o gol mais marcante daquela campanha foi marcado no primeiro jogo das quartas-de-final. Sábado à noite (não me pergunte por quê), Pacaembu lotado. O Corinthians perdia do Atlético Mineiro até Neto olhar para o banco e perceber que iria ser substituído. Possesso, resolveu virar o jogo. Um gol de cabeça (não disse?) e outro depois de um bate-rebate na área.

Naquela época, nem todo jogo passava na TV, não. Ouvi este e milhões de outras partidas no rádio, preferencialmente na voz do maior de todos os craques da narração esportiva: Fiori Gigliotti. E não é que achei o gol da virada, que tanto me fez pular em casa, narrado por ele?

Meu eterno agradecimento à Rede Mundial dos Computadores.

***

Mais uma seção estreia no Copawriters. Aqui, postaremos alguns dos gols mais merecidamente esgoelados da história do futebol mundial – de preferência, com as respectivas narrações.  Seu nome, “Chutou, é fogo, é gol”, é uma singela homenagem a Fiori Gigliotti, o moço de Barra Bonita.

Doutor, o professor

Postado por: Marcos Abrucio
There Goes My Hero

Sócrates Brasileiro

Além de um bom meia-armador, uma outra espécie anda em falta no futebol brasileiro: o ídolo.

Lembra? Aquele cara que matava a pau dentro de campo e que continuava sendo admirável quando o jogo acabava. E que assim garantia um lugar no pôster que você colava na parede do quarto. (Colava, vai.)

Pois é, as coisas mudaram um pouco. Hoje tem ídolo que ameaça emporcalhar sua biografia ao se bandear para o suspeitíssimo time da cartolagem. (Ainda bem que, surpreendentemente, há exceções.)

Tem ídolo que chega ao primeiro milhão muito antes de chegar ao primeiro titulo. Até aí, tudo bem. Mesmo. O problema é ele não saber que é o futebol que o alimenta. E que, ao mesmo tempo, o futebol é apenas uma parte do seu papel de ídolo e de cidadão.

Tudo bem pensar na balada, na chuteira colorida ou se apareceu bonito no telão. O problema é, simplesmente, não pensar.

Orientado por assessores e patrulhado pelo politicamente correto, os ídolos de hoje não ofendem ninguém, não contrariam chavões, não fogem do roteiro, enfim, não falam nada. (De novo, ainda bem que há exceções aqui e ali.)

E aí, nós, torcedores, começamos a preferir nem chegar muito perto deles, os ídolos. Para não descobrir que você nunca conversaria com o gênio da bola se ele não fosse… um gênio da bola. Melhor não. Eles lá e você aqui.

Mas houve uma época em que isso era diferente. Época em que o ganhador do moto-rádio da rodada também era um cara bem legal de se sentar ao lado numa mesa de bar.

Época de Zico, de Falcão, de Reinaldo.

Época de Sócrates.

O Magro

Minha formação como torcedor se deu assistindo ao time de Sócrates, Casagrande, Wladimir, Biro-Biro… Adorava todos eles, mas Sócrates era claramente o líder, a voz a ser respeitada. Era o herói dos meus irmãos mais velhos, logo, o meu herói.

Cresci admirando tudo que ele fazia ou falava. Sócrates parecia estar sempre do lado certo, embora nem sempre do lado vencedor.

Mesmo sem nunca o ter conhecido, posso dizer que aprendi muito com ele. O Doutor foi meu professor em aulas sobre:

Liberdade: se o jogador é adulto e responsável, por que tem que ficar confinado em uma concentração? Ou: para fazer seu trabalho direito, a pessoa tem que ficar presa?

Mais: se ele não queria comemorar com a torcida, não comemorava. Ponto. Se sim, sim. Simples assim.

O Magrão me ensinou que somos todos livres.

O gesto

Ele não jogava para a torcida. E a torcida adorava.

Democracia: todo mundo tem direito a voto, do dirigente ao roupeiro, seja para escolher o esquema de jogo, o nome do técnico ou o presidente da república.

Assim como muita gente, aprendi o significado da palavra “democracia” assistindo a uma partida de futebol.

Democracia a gente aprende jogando.

Pedagogia: o cara era jogador e… formado em medicina. O melhor argumento possível para mandar as crianças jogarem bola só depois de fazerem a lição de casa.

E esse cara do lado, é o Elzo?

O barbudo com o livro é um jogador de futebol.

E até…

Educação Moral e Cívica: na estréia do Brasil em 1986, em vez do Hino Nacional, tascaram o hino… da Bandeira. Percebendo a presepada, Sócrates deixa claro o seu protesto.

Mas acho que a maior lição sobre a vida que aprendi com Sócrates é que nem sempre você consegue o que quer.

Um exemplo: o Brasil inteiro queria, depois de duas décadas, votar para presidente. Milhões de pessoas invadiam as ruas em uma campanha emocionante. Entre elas, estava Sócrates. Um dos maiores ídolos esportivos do Brasil afirmava que abriria mão de qualquer transferência para o exterior se a emenda das Diretas Já fosse aprovada.

Era uma demanda popular justa, legítima, que tinha que ser atendida. Não foi.

Digam ao povo que fico

O time das diretas.

Outro exemplo: Sócrates brilhou em um dos melhores time de todos os tempos: a seleção de 82.

Poucas vezes tantos craques ocuparam de uma vez só a mesma escalação, uma espécie de “Best of” do futebol brasileiro.

Até hoje aquele time mexe com a torcida: num almoço na semana passada, a TV do restaurante mostrava os gols da campanha de 82. Em todas as mesas, as pessoas largaram os garfos e passaram a assistir, a comentar e a comemorar (!) cada gol como se não houvesse passado quase trinta anos.

O time de Sócrates, Zico, Falcão, Éder, Cerezo, Júnior e Leandro ganhava seus jogos com autoridade, jogava bem e encantava a torcida. Tinha que ganhar. Não ganhou.

Perder faz parte.

Aprendi muito com o camisa 8 do meu time. Mas admito: de nada adiantaria toda a inteligência dele se ela também não entrasse em campo. Se ele não fosse craque.

E que craque ele era.

Se ele era um herói para mim, o toque de calcanhar era o seu genial superpoder. Uma jogada que nasceu de uma deficiência (alto, magro e com os pés pequenos, Sócrates não conseguia girar o corpo com velocidade. Para não ser desarmado, passou a tocar de primeira,  de costas mesmo), que virou uma marca registrada mas sem nunca deixar de ser objetiva, eficiente — e brilhante.

Sócrates TM

Com a cabeça e o calcanhar.

Não há espaço no futebol de hoje para um jogador barbudão, magrelo, desengonçado, assumidamente fumante e cachaceiro como foi Sócrates. Infelizmente, também não há para um jogador com toda a sua inteligência, clareza, liderança e generosidade.

Sócrates seria um ídolo onde quer que atuasse. O futebol teve a sorte dele ter escolhido ser um jogador. A gente agradece.

Obrigado, Doutor.

***

Mais:

– Casagrande sobre o parceiro: “Metade da minha história foi embora.”

– Zico: “Gênio leal.

Homenagem na final.

– Por Alexandre Matias.

– Texto no New York Times.

– Na BBC.

– O melhor, no The Guardian.

Clique de @DedeLaurentino.

Seco, não nego. E secarei enquanto puder.

Queridos amigos, que time e seleção são coisas diferentes todo mundo sabe. O que eu sei é que futebol é futebol e, durante a Copa do Mundo, meu time vira oficialmente a Seleção Brasileira (e esse “oficialmente” faz total diferença).

Afinal, quando a Seleção vai até o Emirates Stadium enfrentar a Irlanda em um reles amistoso, eu obviamente assisto e torço – mas confesso estar muito mais preocupado com o jogo do meu Palmeiras no final de semana.

Agora, durante a Copa não… durante a Copa, o verde ganha a companhia do amarelo e eu viro brasileiro com muito orgulho e com muito amor (não, eu não chego a entoar esta canção).

Esse sou eu durante Brasil 3x0 Chile

Isso inclui ler todas as notícias, ver e rever todos os jogos, palpitar sobre a escalação e as opções de banco, falar da roupa do Dunga e, claro, secar os rivais. Seco mesmo. Pra mim, em Copa do Mundo, a Argentina é o ‘Curintia’ e ponto final!

Assim que rolou a bola na África, eu torci avidamente contra cada uma de nossas grandes rivais. Comemorei feito criança as eliminações de França e Itália, fiquei triunfante após a derrota da Espanha na estréia, vibrei com Sérvia 1×0 Alemanha e toquei até vuvuzela para apoiar Coréia do Sul, Grécia e Nigéria.

Vida de torcedor é assim. E o legal de ser torcedor é que você pode ser irracional. Não precisa medir palavras ou reações. Porque pouco importa o que você apostou no bolão: se a Argélia mete gol na Inglaterra, é mágica pura. (ou você preferia mesmo ter que enfrentar a Holanda ao invés de pegar Camarões ou Dinamarca na quartas?)

Eu preferia Bendtner ao invés de Sneijder.

Não estou negando que existam pessoas que realmente gostem desse papo de ver só ‘clássicos’ durante a Copa. Eu também gosto e eles são inevitáveis, graças a Deus. Mas, como torcedor brasileiro, eu prefiro muito mais enfrentar timecos do que timaços. Eu quero o hexa, o hepta, o octa. Mas, se eu não conseguir, que “eles” também não consigam.

Por isso, quando Müller desviou uma bola vinda da esquerda logo aos 3 minutos de jogo na última manhã de sábado, eu confesso ter comemorado demais. O gol foi nosso. Foi verde e amarelo. Foi do Brasil! E você pode ficar puto com isso.

Esse sou eu durante Alemanha 4x0 Argentina.

Só que seco, não nego, e secarei enquanto puder.

Postado por: Henrique Rojas.

Os goleiros que já fui

Desde criança, sempre gostei de ser goleiro. Mas não, nunca curti apanhar de chicotinho nem levar cera quente na barriga.

Minha opção não foi fruto de masoquismo, e sim da vontade de ser protagonista de uma partida de futebol. Queria decidir o jogo, e não apenas ser mais um dentro de campo. Como minha megalomania era inversamente proporcional ao talento com a bola, não deu para ser o centroavante matador ou o meia que dá ritmo ao jogo. Restou apenas um lugar no gol, refúgio infalível dos perebas de todo o mundo.

Ser goleiro era minha chance de virar herói. Nem que para isso corresse o risco de, no primeiro frango, virar vilão. Sem contar o risco permanente de levar porradas de tudo quanto é lado.

Desde os mais longínquos recreios, passei uma infinidade de partidas embaixo das traves. E fiquei ali até há pouco mais de um ano.

Quinta à noite, quadra perto de casa. O atacante adversário invade a área. Sem antes pensar se meu plano de saúde estava em dia, caio nos pés dele. O cara corta para o lado, eu estico o braço direito. O zagueiro do meu time também se joga no lance e, no meio daquele bolo, aconteceu isso aqui:

Ouch!

Depois, isso aqui:

Arrrrgh!

E, inevitavelmente, mais isso:

Eyjafjallajoekull!

Seguido de um bom período com isso aqui:

Ô, coisa linda!

Não sei até hoje quem chutou meu dedão. Só sei que ele quebrou feito um palito de dentes. Pronto-socorro, gesso, cirurgia, seis parafusos, mais gesso, depois uma órtese sob medida, fisioterapia.

E a carreira de goleiro, interrompida. Não que o futebol tenha sentido essa perda, claro.

Mas esse afastamento dos campos e quadras me fez lembrar de todos os goleiros que eu já fui. Sim, fui. Caso você tenha pulado a infância, saiba que quando criança a gente sempre brinca que é um craque famoso. No meu caso, um guarda-metas famoso.

Não qualquer goleiro, óbvio. Goleiro bom de ser é aquele que, alem de defender muito, tem um nome bem sonoro. Por que? Simples: para, a cada defesa, podermos gritá-lo a plenos pulmões.

Aqui vai outra explicação a quem foi direto do maternal para a faculdade: durante a infância, acumulamos as funções de jogador e narrador. Não basta fazer uma grande jogada, temos que narrá-la. Isso é normal, não vá bater no seu filho se ele fizer isso.

Saiba, aliás, que foi desse jeito que o maior de todos os jogadores ganhou seu apelido. Quando pequeno, Edson gostava de pegar no gol e gritar o nome de Bilé, goleiro do time em que seu pai jogava, em Bauru. Como a criançada não entendia bem o que o menino gritava (ou a dicção do rei nunca foi muito seu forte, entende?), ele passou a ser chamado de Pelé.

Um dos primeiros goleiros que eu fui cumpria bem os requisitos citados: Harald Shumacher (ou, depois de cada defesa, Schuuuuuumaaaaaaaaaaacher!!!!) jogava muito e tinha um nome que assustava — isso muito antes do seu homônimo queixudo assombrar a F-1.

Já falei bastante do arqueiro alemão aqui — onde, aliás, escrevi o nome dele errado: é Harald, não Herald.

Herald, ops, Harald defendeu sua seleção por sete anos e em duas Copas do Mundo. Na semifinal de 1982, se destacou ao defender duas cobranças na primeira decisão por pênaltis da história das Copas. Minutos antes, com a bola ainda rolando, quase destacou a cabeça do francês  Battiston do resto do seu corpo. Hoje Schumacher é mais lembrado por esse golpe do que pelas elásticas defesas mostradas na Espanha e, quatro anos depois, no México. Coitado. Do Battiston, claro.

Schumacher é o que não está inconsciente.

Em 1986, fui outro goleiraço. Embora não ostentasse um nome assim tão poderoso, ele tinha a vantagem de jogar nos meus times, a seleção e o Corinthians. Trata-se de Caaaaaaaaaaaaaaaaaarlooooos!

Meus vizinhos ouviram tanto esse grito que devem ter se perguntado se eu tinha trocado de nome.

Carlos: nos anos 80, goleiro da seleção e do Brasil.

Desde que surgiu na Ponte Preta, Carlos era apontado como um dos melhores goleiros do Brasil. Foi reserva de Leão em 1978 e, por causa de uma lesão no cotovelo, de Waldir Peres em 1982. Na Copa seguinte, finalmente conquistou um lugar no time. E correspondeu: até a partida contra a França, ele não tinha levado nenhum gol.

Só que este jogo mostrou de maneira cruel o motivo de Carlos até hoje não ser reconhecido como deveria: o cara era azarado pra burro.

Na decisão por pênaltis, Bellone manda uma bomba na trave. Carlos acerta o canto. A bola volta do poste, bate nas suas costas e entra. Os brasileiros ainda reclamam com o árbitro, dizendo que aquilo não valia. Mas valia.

Pior que não foi a primeira vez que a asa negra do destino enchia a boca de Carlos de penas (urgh). No primeiro jogo da histórica final do Paulistão de 1977, ainda defendendo a Ponte, Carlos tenta impedir um gol do corintiano Palhinha. O atacante chuta, a bola bate em Carlos, volta no nariz de Palhinha e entra.

Depois de Carlos, incorporei outro goleiro tão bom quanto, embora, admito, menos zicado: camaronês Thomas N’Kono.

Um dos melhores jogadores africanos de todos os tempos, N’Kono chamou a atenção do mundo na Copa de 1982. Levou só um gol e acabou indo jogar na Espanha. Na Copa da Itália, em 1990, ele fez parte do time para o qual todos acabamos torcendo. O italiano Gianluigi Buffon conta que decidiu ser goleiro ao ver de perto o arqueiro de Camarões.

Mas eu gostava mesmo de N’Kono porque ele jogava com uma calça igualzinha ao moleton que eu sujava no quintal. O problema era gritar o nome dele. Aquele “n” era mudo ou pronunciado? Complicado, complicado.

Lá em casa, N’Kono virava Niiiiiiiiiikooooono.

Mas o nome que mais vezes eu urrei a cada defesa foi outro: o do arqueiro soviético Rinat Dasaeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeev!

Já metia medo logo de cara.

Durante a década de 1980, Dasaev foi eleito quatro vezes o melhor goleiro do mundo. Os soviéticos finalmente tinham encontrado um sucessor para Lev Yashin, o Aranha Negra, talvez o melhor de todos. E os brasileiros viram de perto como o cara era bão.

O Brasil estreou na Copa de 1982 contra a URSS. Os adversários saíram na frente, num frangaço de Waldir Peres (e o Carlos no banco!). E aí começou um bombardeio contra os comunistas, não de Reagan, mas de Zico, Éder, Sócrates, Falcão…

Dasaev pegou todas as bolas possíveis. Só entraram duas impossíveis, dois tirambaços de fora da área de Sócrates e Éder, já no final do jogo.

Na Copa de 86, Dasaev operou mais alguns milagres, mas de novo a União Soviética foi eliminada. Ainda participou de um jogo da Copa de 1990, mas já estava no final da carreira. Em 1991, pendurou as luvas quando defendia o Sevilla, da Espanha.

Dasaev parecia frio como Ivan Drago e, como o rival de Rocky, também era o produto de muito treinamento. Ágil, flexível, saía do gol e armava contra-ataques como poucos. Mas sua maior arma era o nome: juro que os atacantes tremiam de medo quando me ouviam gritar: Dasaeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeev (é, eu fiquei rouco muitas vezes quando criança).

Trilha sonora dessa foto: Dasaeeeeeeeeev!

Com o passar do tempo, fui outros grandes goleiros, sempre com grandes nomes: Taffareeeeeeeeeeeeeeeeel, Schmeeeeeeeeeichel, Preud’Hooooomme… Tentei representar dignamente cada um deles, mas gritando cada vez menos. É que vai ficando meio chato gritar o nome de outro cara quando você já se tornou… um cara.

Mas mesmo com os gritos guardados, continuei jogando contra os colegas da firma como se fosse uma final de Copa do Mundo. As arquibancadas estavam sempre cheias. O atacante adversário, sempre um craque. As minhas defesas, sempre milagrosas.

Passado um ano da contusão, estou liberado para voltar. Falta apenas superar o temor de enfiar de novo minha mão numa dividida.

Enquanto isso, fico me perguntando qual nome gritarei (pelo menos na minha cabeça) quando fizer a primeira defesa.

Que tal Doooooooooooooooooooooooniiiiiiiiii!!?

Not!

Uia!

Postado por Marcos Abrucio

Última chamada para o craque

Já tentei de tudo. Humildemente, abri uma campanha para o Dunga limar pelo menos um dos volantes que infestam a seleção. Armei uma seleção “B” cheia de Gansos e Neymars só para atazanar a “A”. Mostrei que Ronaldinho Gaúcho decidiu muito mais do que um jogo. Quase fui para a fogueira ao dizer que ficaria feliz com o sucesso de Messi na Copa.

Nada deu certo, o que no fundo prova apenas a minha insignificância. Mas agora lanço meu último argumento para tentar introduzir um pouco mais de talento na seleção que sempre foi a mais talentosa de todas:

Os craques nos fazem torcer.

Repetindo: ao todo, Dunga pode levar oito volantes e possíveis volantes para a Copa. Uma desproporção, ainda mais que a moda agora é levar só quatro atacantes, e não cinco, como antigamente.

A lista têm muitos carregadores e poucos afinadores de piano. Sem contar que dentre os prováveis escolhidos vários passam por má fase. São reservas em seus times, ou sofrem com contusões. A zica acomete até o nosso principal pianista, Kaká.

Com tudo isso, fica claro: vai faltar craque. O cara que muda o andamento da partida, que surpreende a todos com um drible, que usa a fantasia para decidir o jogo etc.

Muricy Ramalho, que para muitos tem “retranqueiro” escrito na testa, disse na revista da ESPN deste mês:

“Copa do Mundo se ganha com um diferente, e o nosso único diferente é o Kaká, que é o cara que pode pegar a bola no meio campo e levar dentro do gol dos caras.”

Quer ver como o diferente faz diferença? A França fazia campanha opaca na última Copa. Na primeira fase, dois empates e uma vitória magra contra o Togo. Zidane mal aparecia. Nas oitavas de final, perdia de 1 a 0 da Espanha. Aí, ôôô, Zidane voltou. Ele comandou a virada sobre os espanhóis, com direito a um golaço no final:

Zizou engrenou e, no jogo seguinte, fez aquilo que todos lembram contra o Brasil. A França ainda passou por Portugal e só perdeu a final nos pênaltis — quando Zidane não estava mais em campo.

A crença no craque, no diferente, no iluminado, no ET explica a minha campanha pelo Gaúcho, que, pelo jeito, nem ele acreditou. Explica também o clamor popular pelo Ganso e pelo Neymar.

Mas inocular gênios no nosso time não serve apenas para resolver nossos problemas técnicos. O craque pode também nos fazer empolgar de novo com a seleção.

Alguns posts abaixo, listei os motivos do divórcio entre torcida e seleção — entre eles, a falta de jogadores dos times que torcemos, a discordância entre o gosto popular e o do técnico da seleção e a diferença entre o futebol que queremos e o que vemos o Brasil apresentar.

Tantos fatores não permitem uma solução fácil. Mas colocar craques no time pode ser um ótimo paliativo para essa relação.

Veja o caso do Corinthians. A torcida é enorme,  apaixonada e sempre lotou os estádios por onde vai. Aí chegou o Ronaldo. Mais gente, pagando (muito) mais começou a seguir o time. Mulheres, crianças, gente de outros estados, de outros países começaram a ir no estádio, a procurar notícias sobre o time. O ídolo tem seu próprio público.

O primeiro gol que ele fez com a camisa alvinegra, no último minuto de um jogo contra o Palmeiras, fez muitos palmeirenses esquecerem 96 anos de rivalidade para aplaudirem:

Palmeirenses que, independentemente da fase do seu time, sempre ficam mais tranqüilos quando vêem que Marcos está no gol. A mesma coisa com são-paulinos e Rogério Ceni.

Mas os maiores exemplos atuais são o Santos da molecada e o Barcelona de Messi. Neste primeiro semestre, até fiz força, mas não deu para torcer contra a garotada praiana. Não ao ver Neymar tabelando com Robinho e fazendo golaços atrás de golaços em plena final. Não ao presenciar Ganso reinventando o jogo, dando assistências de calcanhar, dando lençóis no espaço de um lenço e exigindo ficar em campo para fazer mais.

O mesmo vale para Messi. De novo: se ele continuar jogando nesse nível na Copa, vamos ter que, simplesmente, aplaudir.

Precisamos de craques para torcer. Para nos envolver, para nos grudar na cadeira. O ídolo faz isso. Jordan, Schumacher, Tiger Woods faziam isso. Pelé, Maradona, Romário, Ronaldo, todos fizeram em algum momento o mundo inteiro sentar do mesmo lado da arquibancada.

Se não temos mais aquela paixão pela “amarelinha” (você sim, Zagallo), ainda temos pelo ídolo. Na década de 80, tínhamos Zico, Sócrates, Falcão, Careca… Em 94, Romário. Em 98, Ronaldo. Em 2002, os 3 Rs: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Em 2006, tínhamos o quarteto mágico, que… é, mau exemplo. Nem sempre só o craque é suficiente. Mas dessa vez temos um time. A seleção de Dunga, fale o que quiser, é um time. Unido, sério, compenetrado, vencedor. Só falta o talento do craque.

O brilho de Kaká (ofuscado pela pubalgia), o de Robinho e o de Luis Fabiano (que de vez em quando piscam) podem não ser o bastante.

Ainda dá tempo de contar com o talento de Ganso. Apertando um pouquinho, dá para o Gaúcho e para o Neymar. Dava até para o Ronaldo — se a Copa fosse no ano passado…

Ainda dá tempo para chamar o craque, Dunga.

E com isso, aqui se encerram as minhas súplicas. Agora é esperar. Até amanhã, às 13h, horário de Brasília.

Postado por: Marcos Abrucio

Por um volante a menos

No Mundial 2010 de Fórmula 1, estarão nas pistas Felipe Massa, Rubens Barrichello, Lucas Di Grassi e Bruno Senna — se a equipe dele realmente existir. Ao todo, serão 3 ou 4 volantes brasileiros.

Já no Mundial 2010 de Futebol, esse número sobe para 8.

É esse o tanto de volantes, ex-volantes e possíveis volantes que Dunga chamou para o amistoso contra a Irlanda. Contem comigo: os “oficiais” Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué e Kleberson. Adicione quem já jogou por ali (e pode jogar de novo sem problema nenhum): Daniel Alves, Elano, Ramires e Julio Batista. Oito.

Como este é o último jogo antes da convocação para a Copa, podemos concluir que essa turma toda já botou um pezinho na África do Sul. E que Ronaldinho Gaúcho, como não foi convocado, deve pensar seriamente em comprar uma TV maior para ver o Mundial em casa.

Calma. Não vamos discutir nomes (senão o Josué nem pegava o passaporte), mas sim o número de volantes.

Com ele, são 9.

Há no grupo de Dunga uma desproporção entre quem é esforçado e quem pode decidir um jogo. São muitos os raçudos, e que bom que eles estão lá. Mas a Alemanha, a Inglaterra, a Itália e a Espanha também os têm aos montes.

Quem sempre fez diferença a nosso favor foi o jogador habilidoso, criativo, imprevisível, capaz de quebrar o esquema adversário com um drible, um lançamento, um corta-luz. Na seleção atual, poucos têm essas credenciais: Kaká (se a pubalgia deixar), Robinho e, vá lá, Luis Fabiano.

Enquanto isso, Ronaldinho Gaúcho voltou a jogar bem pelo Milan. Com alguma irregularidade, mas voltou. Parece mais maduro que na Alemanha e com vontade de voltar à forma de 2004/2005, quando foi o melhor do mundo. Ele não precisa (ainda) ser titular da seleção. Mas precisa estar no avião para a Copa.

Porque craque tem que ir. Dá-se um jeito. Se o treinador Dunga der esse jeito, pode entrar para a história. Onde já está o jogador (volante!) Dunga.

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Sempre gostei do Dunga dentro de campo. Primeiro, claro, porque ele jogou no Corinthians. Jogou pouco, mas bem. Em um jogo contra o Santos, fez um golaço quase do meio de campo (Juro que isso aconteceu, embora não tenha achado no You Tube. Ou será que o que não está no You Tube não aconteceu?).

Você já se vestiu melhor, Dunga.

Quando criança, achava legal o estilo dele. Era sério e incansável na marcação e, de vez em quando, soltava uns tirambaços de fora da área. No meu quintal, quando mandava umas bicas que faziam voar o chinelo, sempre gritava o nome dele. Por tudo isso, achei injusta a sua crucificação solitária em 1990. Era um time cheio de defeitos e a franjinha do cabeça-de-área, só mais um deles.

Em 1994, o cara fez uma Copa brilhante. Ajudou a proteger a melhor defesa brasileira que eu tinha visto até então. Mais do que isso: liderou a equipe e acertou inúmeros lançamentos longos para os atacantes. Além de converter seu pênalti na final, claro.

Com a inevitável decadência física, em 98 sua liderança já era mais anedótica do que efetiva. Mas ao contrário de outros, caiu em pé. Foi um grande jogador.

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Nunca gostei do Dunga à beira de campo. Não era o melhor nome para o cargo, insistiu em nomes duvidosos (Afonso? Doni?), foi mal-humorado e rancoroso demais com quem o criticou, muitas vezes lento nas ações e pouco criativo nas substituições. E, como 11 entre 10 técnicos da seleção, teimoso pra dedéu.

Mas é um vencedor. Não se pode negar isso. Levou uma Copa América e uma Copa das Confederações, liderou as eliminatórias e chacoalhou a Argentina algumas vezes. Mais importante: com alguns solavancos, montou uma base.

Por respeito aos resultados de Dunga como técnico, aqui não se discute tanto a convocação que ele fez. Um ou outro jogador, apenas. E principalmente: a opção por levar uma manada de volantes e quase nenhum fora-de-série.

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O bom trabalho de Dunga até agora o fez convicto de suas decisões. Só que a coerência e a fidelidade a seu grupo podem fazê-lo cometer o único crime que os brasileiros não perdoam numa Copa: dispensar o talento.

Pensa: e se o púbis do Kaká não trabalhar direito e, sei lá, o púbis do Robinho trabalhar demais e por conta disso os dois não brilharem na África? Aí dependeremos apenas da garra. Porque a habilidade vai estar em falta.

#tiraumvolante, Dunga. E leva o Gaúcho.

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Ok, agora vamos falar de nomes. Com um volante a menos, abre-se espaço para Ronaldinho Gaúcho. O que torna inútil a presença de Júlio Batista, jogador voluntarioso e aguerrido, mas em má fase na Roma.

Sem ele, sobraria mais um lugar na seleção. Lugar pra quem? Responde para eles, Zina.

Porque craque tem que ir.

Postado por: Marcos Abrucio