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Neymar está resfriado

Postado por: Marcos Abrucio

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Neymar, segurando uma latinha de energético numa mão e o celular na outra, estava sentado num canto escuro do vestiário, entre dois parças que esperavam ouvir uma palavra dele. Mas ele não dizia nada; apenas triscava o polegar direito na tela do telefone, empurrando para cima fotos e vídeos do Instagram. Os outros jogadores evitavam chegar perto; tomavam banho rapidamente, botavam grandes fones nas orelhas e partiam para a zona mista, onde repórteres do mundo inteiro estavam esperando. Dava para ouvir o batuque que vinha da arquibancada, os torcedores comemorando a vitória que nos levou à final da Copa. Mas Neymar não foi o craque do jogo, nem sequer entrou em campo: Neymar está resfriado.

Pertinho de mim, conversando com um assistente, estava o técnico da seleção, Tite. Eles escondiam a boca com a mão em concha enquanto falavam. Sabiam que não era uma boa ideia irritar ainda mais o craque do time. Neymar parecia estar a quilômetros de distância, num mundo só dele, desde que, minutos antes da partida, ficou sabendo que não jogaria.

Naquele momento, o médico deu o diagnóstico à comissão técnica: o cara estava baleado, não dava para jogar. Mas um resfriadinho? Resfriadão, disse o doutor: o corpo todo dele doía, os olhos mal abriam. No aquecimento, ele não conseguiu enfileirar nem três embaixadinhas. Não era prudente escalá-lo nessa condição, expô-lo ao ridículo. Havia muitos interesses envolvidos. Se as pessoas soubessem, ficariam enojadas. Ele estava fora.

Mas todos nós sabemos o que aconteceu da última vez em que Neymar não pôde disputar uma semifinal pelo Brasil. Foi preciso entrar em ação um plano arquitetado meses antes para evitar um novo 7×1 caso a nossa principal joia se contundisse.

No seu lugar, entraria aquele que mais se aproxima dele em habilidade, inteligência tática, dribles, passes, fôlego, corte de cabelo e coreografias: eu.

***

Eu sou o Neymar do Playstation. Aquele que você controla com o joystick aí na sua casa. Aquele que aparece sorridente na caixinha do game da Fifa. Aquele que, ano após ano, fica cada vez mais idêntico ao original, com as mesmas reações físicas e emocionais, a mesma criatividade e intempestividade, as mesmas tatuagens e unhas pintadas. Tudo graças ao trabalho duro de programadores e artistas gráficos. E o resultado deste trabalho é que, tempos atrás, eu recebi um telefonema do Tite.

Ele sabia que o Brasil não poderia ficar sem o Neymar novamente na Copa da Rússia. Se alguma coisa acontecesse a ele, e nesse momento eu juro que ouvi um toque-toque-toque do outro lado da linha, precisávamos de um plano melhor do que colocar o Bernard aberto na ponta. Eu jogaria. Tite apelou para os brios presentes nas minhas linhas de programação, dizendo que eu deveria fazer isso pelo meu país — embora eu tenha sido desenvolvido por chineses e indianos a serviço de uma empresa americana.

Eu topei. Afinal, seria a primeira chance de encontrar aquele de quem eu tudo herdei, do nome aos gomos do abdômen. Todos os dias, eu defendo sua fama em jogos disputados no mundo inteiro. Acho que eu merecia um aperto de mão, um abraço, quem sabe uma foto com nós dois, lado a lado, fazendo o sinal de “É Tóis” com o braço. Algo assim, sabe?

***

Neymar não podia saber do plano, sob o risco de ficar melindrado (lembram o que ele fez com o Cavani?). Então eu passava os dias treinando separado, escondido da imprensa, da torcida e do Neymar. Estava sempre a postos. A chance veio quando, na véspera da semifinal, ele passou a noite sem camisa, gravando um comercial para a Nike a ser exibido, se o Brasil for campeão, no primeiro intervalo depois da final. Acordou tossindo.

Os outros jogadores não ficaram preocupados quando eu apareci no vestiário, já de uniforme. Eles conheciam meu potencial: passavam a noite jogando videogame no quarto, sabiam que eu chamo a responsa, que eu sou moleke zika que nem ele. Já Neymar estrilou. Quem é esse comédia, perguntou. Ficou me medindo, não quis me cumprimentar. Ameaçou contar tudo no Twitter, mas seu pai apareceu e o convenceu a ficar quieto (em troca da permissão de comprar um Porsche novo). Tive que driblar o roupeiro e me jogar no chão pedindo pênalti para ele se convencer que ninguém desconfiaria de nada. Por fim, sentou-se em um banco e não saiu de lá até o fim do jogo.

***

Fiz dois gols. No primeiro, vim driblando desde o meio de campo e chutei na saída do goleiro, como acontece quando alguém pressiona o quadrado e o R2 simultaneamente. O segundo foi de pênalti, que não deixei o Philippe Coutinho bater. Briguei com um zagueiro e por pouco não fui expulso. Quando o jogo estava decidido, passei o pé por cima da bola levei uma voadora que quase quebrou minha perna. Rolei várias vezes no chão. Ou seja, ninguém desconfiou de nada.

***

O jogo acabou, ganhei o prêmio de melhor em campo, dei entrevistas em espanhol meio atrapalhado, acenei para a galera. Fui o último a entrar no túnel. Esperava uma chuva de abraços e cumprimentos, principalmente dele, mas, no lugar disso, encontrei um climão. Meus companheiros nem olhavam para mim, só o Philippe Coutinho, que me olhava com raiva. Como eu disse, também não falavam com Neymar, que estava do outro lado do salão, com cara de poucos amigos. Tite disse ao meu ouvido: melhor tu ir pro hotel, depois a gente conversa. Não estava entendendo nada.

O lugar já estava quase vazio quando Neymar ergueu os olhos na minha direção. Veio andando devagar, sob protestos dos parças: deixa pra lá, Ney. O que é isso aqui, ele perguntou. E me mostrou o celular.

Era uma foto minha com a Bruna Marquezine. Eu posso explicar, disse a ele e repito a vocês. Eu tinha cruzado com ela há pouco na saída do campo. Não imaginava que ela já iria postar assim, e todo mundo veria tão rápido. Às vezes até eu fico deslocado com tanta modernidade. Ela veio me dar parabéns — te dar parabéns, Neymar. E dizer que queria te encontrar à noite, como nos velhos tempos. Ela quer você de novo, parça.

Neymar ficou parado. Olhou para mim com o canto do olho e sorriu. E se foi.

***

Mas teve algo que eu não disse a ele:  Bruna me segurou pelo braço e comentou que havia visto algo diferente em mim. Estava mais humano, mais sensível, mais maduro. Um Neymar diferente, ela não sabia explicar. Por isso, queria me ver de novo. Hoje à noite. Como nos velhos tempos.

Estarei a postos. Vai que o resfriado piora.

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Postado por: Marcos Abrucio

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A diferença entre o número 5100 da avenida Francisco Matarazzo e o Continente Perdido de Atlântida é que Atlântida até pode estar em algum lugar, vai saber. Já o 5100 da Francisco Matarazzo, não. Eu e um motorista da Folha de S. Paulo passamos quase três horas procurando esse endereço, embaixo de muita chuva e no meio de muito trânsito, e podemos garantir: ele não existe.

“Perdido” é uma boa palavra para me descrever naquela manhã de segunda-feira (“encharcado” e “emputecido” também são fortes concorrentes). Primeiro, claro, por eu estar preso em um carro que virou barco em um mar de bueiros entupidos na Água Branca, a Atlântida paulistana, sem conseguir achar uma maldita escolinha de futebol. Mas a verdade é que eu já estava perdido antes.

Em um dia de tráfego igualmente caótico no começo daquele ano, eu havia pego dois ônibus e um metrô para chegar à USP e trancar a faculdade de Publicidade e Propaganda. Faltava pouco para terminar. Era só entregar o Trabalho de Conclusão de Curso e pronto: eu concluiria o curso. Congelar a minha matrícula era uma forma de me manter como estudante por mais tempo e assim conseguir um estágio na área — algo tão difícil de encontrar quanto, bem, quanto o 5100 da Francisco Matarazzo. Foi o que fiz, depois de duas horas na condução e cinco minutos na secretaria da faculdade.

O resultado, porém, foi outro: o dia inteiro em casa, assistindo TV de pijamas, sem estudar e sem descolar nenhum emprego. Vendo a situação, e como último recurso antes de mandar um pé na bunda, a minha namorada na época resolveu me ajudar. Ela trabalhava na Folhinha, o suplemento infantil da Folha, e falou com a editora dela. Dias depois, a mulher me ligou:

— Não quer escrever sobre futebol de agora até a Copa?

Estávamos em 2002, ano da Copa da Coreia e do Japão. Assistir e escutar e ler notícias sobre ela era tudo que eu fazia. Claro que aceitei a proposta. Ainda mais que eu sei tudo de futebol, pensei.

Só que não sabia nada de jornalismo. Quando acordei naquela manhã de raios e trovões escandalosos, não me passou pela cabeça, por exemplo, conferir o endereço de onde seria a minha pauta, o Pequeninos do Jockey. O clube de futebol infantil era famoso por revelar craques e disputar torneios internacionais das categorias de base. Era lá que eu ouviria a expectativa dos aprendizes de jogadores para a Copa que começaria dali a três meses. Mas “lá” aonde?

Ainda demoraria alguns anos para eu ter um celular. No bolso do motorista do jornal, ilhado ao meu lado, até que tinha um, “mas só pra receber ligação!”. Depois de muito navegar, conseguimos atracar ao lado de um orelhão. Liguei para a Folha:

— Vocês me mandaram para o Pequeninos do Jockey, na altura do 5100 da avenida Francisco Matarazzo. Mas não tem nada aqui!

— Francisco Matarazzo? Ah, desculpa, era Francisco Morato. Corre pra lá que as crianças estão esperando, desligou a editora.

A avenida Professor Francisco Morato, na zona sul, ficava a mais de 11 quilômetros do orelhão onde eu estava, na zona oeste. Um oceano de distância, ainda mais aquela hora, com aquele trânsito. Levantamos as velas e partimos.

Durante o caminho inteiro, o motorista, testemunha orgulhosa de centenas de coberturas muito mais importantes, assassinatos, manifestações, guerras, invasões alienígenas, sei lá, achava tudo muito engraçado. E riu mais ainda quando chegamos ao clube, por volta do meio-dia. Atrás do campinho alagado, em um pátio apertado, estavam os rostos nada felizes das crianças que esperavam desde as oito da manhã para serem entrevistadas.

Eram cem. Cem rostos de menino olhando para mim como se eu tivesse pessoalmente roubado a sobremesa de cada um deles. Pior ainda estava o humor do coordenador da escolinha.

— Tá todo mundo esperando o repórter, disse o homem de cabelos brancos e agasalho esportivo, um Zagallo dos juvenis.

O motorista quase engasgou de tanto gargalhar:

— Vai entrevistar todos eles, garoto?

Pedi para usar o telefone da diretoria, enquanto me perguntava como conseguiria ser demitido sem ser contratado. Liguei de novo para a redação:

— Por que não pediram para selecionar uns meninos? Tem cem aqui fora me esperando. Como eu vou falar com cem meninos?

Do outro lado, ouvi uma respirada profunda. Silêncio. Depois, à queima-roupa:

— Ué, se vira.

Voltei para a chuva e encarei os garotos de braços cruzados. O motorista e o coordenador técnico já tinham virado compadres, e cochichavam algo enquanto observavam a cena. Falei o mais alto que pude:

— Pessoal! Dividam-se em grupos de dez!

A molecada devia estar acostumada a seguir esse tipo de instrução — mesmo quando ela não fazia o menor sentido, como era o caso naquele momento, ou dita por alguém sem nenhuma autoridade sobre eles, como eu. Só isso explica eles começarem a se movimentar e se juntar em pequenos grupos.

Na primeira rodinha, já percebi que os garotos eram quase todos pobres, o estereótipo do futuro jogador que, assim que se torna famoso, aparece no Faustão e chora quando vê sua história triste retratada na tela. Eram também quietos e desconfiados, característica comum a entrevistados mirins de todas as origens, como fui descobrir em pautas seguintes.

A sorte foi que o tema ajudava. Comecei perguntando para qual time cada um deles torcia. São Paulo, Corinthians? E você? E você aí do outro lado? Depois, quis saber que jogador do seu time eles gostariam que estivesse na seleção. Surgiram as primeiras risadas e provocações entre eles, e logo as declarações começaram a pingar. Fui anotando tudo no meu caderno. Estava gostando daquilo.

Meia hora depois, terminei o grupo inicial. Faltavam agora só nove rodinhas, ou mais quatro horas e meia, seguindo aquele ritmo. O coordenador se aproximou dos garotos:

— Quem já falou pode almoçar.

Aqueles meninos estavam me esperando desde de manhã sem comer. Como assim?

— Os outros não podem ir comendo também?

— Não, depois de comerem eles pegam o ônibus pra casa, esbravejou o homem, agora mais parecido com o Dunga que com o Zagallo.

A lógica do homem era absurda, como tudo naquele dia, naquele ano. Os garotos não podiam esperar mais quatro horas e meia; arranquei algumas folhas do meu caderno e distribui entre eles.

— Galera, escrevam qual deveria ser a escalação do Brasil, que jogos vocês querem ver e como vão fazer para ficarem acordados de madrugada.

Enquanto eu tentava adiantar o trabalho, chegou o fotógrafo escalado para registrar a matéria. Olhou desolado para o campo inundado. Depois, perguntou quem eram os personagens.

— Esses, apontei para o cardume de minicraques.

Ele riu baixinho. Jurei tê-lo visto trocando olhares com o motorista da Folha, que agora filava o almoço da garotada. Então chamou meia-dúzia de meninos, pediu para eles chutarem algumas bolas entre os lagos do gramado e saiu clicando. Menos de vinte minutos depois, o trabalho dele estava terminado.

O meu, ainda não. Tentei ser o mais rápido possível, mas ainda ouvindo ao menos uma palavra de cada garoto. Queria que sentissem que a espera tinha valido a pena. Ah, você quer ver os jogos da Inglaterra? Por causa do Beckham, né? Ah, vai dormir de dia e ficar acordado à noite? E a escola? Era quase três da tarde quando dispensei a última criança faminta.

O coordenador me chamou sem muita convicção para almoçar. Recusei, embora morrendo de fome. Não queria atrapalhar ainda mais a formação dos novos Ronaldinhos, Romários e Rivaldos. A chuva continuava, e o motorista roncava feito um navio no banco rebatido do carro. Cheguei em casa no começo da noite.

Mais tarde, olhei o calhamaço de páginas preenchidas pelos meninos. Juntei com as minhas anotações amolecidas de tão úmidas e vi em minhas mãos um verdadeiro dossiê sobre o que a nova geração do futebol brasileiro esperava da Copa do Mundo de 2002. Liguei mais uma vez para o jornal e perguntei quantas linhas eu poderia escrever.

— Ah, umas vinte.

O equivalente, na Folhinha, a umas duzentas palavras. Duas para cada pequenino do Jockey.

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O medo do ano que vem

Postado por: Marcos Abrucio

24

Seu Domingos entrou no vestiário e foi de um em um com a garrafa de café. Os mais novos recusaram. Eu não. Nesse momento da carreira — os acréscimos — todo estímulo extra é bem-vindo. Virei dois copinhos.

No ano que vem, não vou estar mais aqui, sentado no chão de azulejos, respirando uma mistura de suor, umidade e cheiro de plástico das chuteiras baratas. Não quero mais fazer isso. Já são quase vinte anos. Cada temporada em uma cidade diferente, jogando quarta e domingo, tomando banho gelado, sentando no piso gelado, bebendo café gelado. Porra, seu Domingos!

Preciso fazer alguma coisa diferente na vida do que arrumar a mochila, ir para o estádio, vestir o uniforme, prender as caneleiras e chutar uma bola por 90 minutos. Por isso eu quis parar.

Mentira. Por mim, eu continuava, mas o corpo não aguenta mais. Queria ter o joelho de vinte anos com a cabeça de 39. Hoje eu sei que o futebol é um negócio simples. Duas jogadas antes, já vejo o que vai acontecer. Aprendi onde eu tenho que estar, o que eu tenho que fazer. Mas as pernas não chegam. Não correm, não chutam. Eu vou parar porque a cabeça está com vergonha delas.

A dúvida é: como vai ser depois? Não sei fazer mais nada, não me preparei para mais nada. Meu maior medo na vida é o ano que vem.

Começou o aquecimento. Piques rápidos ao redor de baldes dentro do vestiário apertado. Depois, um bobinho. Eu sempre pulo o aquecimento. Não vou me cansar antes da hora. Fico encostado em uma parede, mexendo devagar as pernas e os pés. Cada articulação tem sua trilha sonora: algumas parecem dobradiças mal-lubrificadas; outras são cascas de nozes sendo trituradas. Às vezes, sou só eu gemendo, mesmo.

Dobrei a perna esquerda. As mesmas dores e estampidos de sempre. Estiquei de novo. Depois, girei o pé no sentido horário. Som de pipocas estourando no micro-ondas. Fiz o mesmo com a perna direita: dobrei, estiquei, girei. Silêncio. Esquisito.

Repeti os movimentos e senti a canela e a coxa quentes, formigando. Mas não um formigamento paralisante, pelo contrário. A perna parecia mais firme. Pensei em falar com o doutor, mas fiquei com medo dele me tirar do time. Pior do que jogar com dor é ficar no banco com dor (e o bicho é pela metade).

Já no gramado, o formigamento e o calor estavam ainda mais fortes. Um milhão de ferroadas em brasa, mas que juntas formavam uma sensação agradável. Será que eu deveria ter falado com o doutor? Nem deu tempo de continuar pensando: o jogo começou e a bola veio para mim. Tentei um lançamento e mandei a coitada no estacionamento atrás da arquibancada de madeira. Não tinha essa força na perna havia muito tempo. Talvez nunca.

O resto, vocês podem ler no jornal da cidade: fiz três gols, todos de fora da área, todos no ângulo, todos de perna direita. No último, a rede até furou.

***

No fim do jogo, as ferroadas passaram, como se as abelhas tivessem voado para longe. Um jornalista de uma rádio local veio correndo e enfiou um microfone gigante na minha boca. Lembrei de quando eu joguei no Morumbi, no Pacaembu, na Vila Belmiro.

Em duas décadas, joguei em quinze times diferentes. Quase todos do interior de São Paulo, mas também alguns do Nordeste e do Paraná. A passagem mais reluzente foi no Bragantino: oito gols nas dez primeiras rodadas do Campeonato Paulista. Olheiro da Rússia na arquibancada. Enfiei o pé em um buraco perto da linha de fundo, torci o joelho e fiquei onze meses parado. O Bragantino não renovou meu contrato.

O jogo seguinte foi fora de casa, em Limeira. O vestiário cheio de goteiras e poças por toda parte. Nem pensar em andar por aí só de meias, e eu adoro andar de meias. Começou o aquecimento e de novo me mantive à parte. Quando as picadas começaram a esquentar minha perna direita, corri para as escadas e fui o primeiro a chegar no campo.

Eu estava cheio de confiança. Mas era uma sensação tão diferente para mim que parecia que eu estava com febre. Escanteio a nosso favor, fiquei na entrada da área, esperando algum rebote. O rebote veio, e peguei na bola de primeira. “Na gaveta!”, gritou o narrador do rádio. O goleiro nem se mexeu.

No intervalo, chamei o seu Domingos, que além de fornecedor de café também era o roupeiro do time. Pedi outra chuteira: a minha tinha rasgado ao meio, de ponta a ponta.

***

A força que enrijecia minha perna um pouco antes de entrar no gramado ia embora após o apito final. Em casa e nos treinos, nada. Só dores, guinchos e estalares. Na outra rodada, o formigamento e o calor voltavam, sem falta. Os gols, também — cadê o olheiro da Rússia agora?

O professor Samuel, nosso técnico, não era nenhum gênio. Todo mundo dava uma risadinha depois de chamá-lo de “professor”. Já estava velhinho e parecia dormir durante os jogos, principalmente à noite. Mas antes de um treino, ele bateu no meu ombro e disse que eu iria jogar mais adiantado. Que eu não precisaria mais voltar para marcar: era só para ficar lá na frente. Depois, ele foi para o banco, sentou e não falou mais nada.

Na partida seguinte, fui sorteado para o antidoping. Na outra e na outra, também. A bola parava, minha perna esfriava e eu já ia em direção ao fiscal. Sabia que seria “sorteado” toda vez. Fiquei amigo dos caras dos frasquinhos. Batíamos um papo e tomávamos uma cerveja até me dar vontade de mijar. Entregava o pote e ia embora. Nunca deu nada em nenhum exame.

***

A Débora, eu conheci na saída de um jogo em casa. Três a dois para nós, fiz o gol da vitória aos 42 do segundo tempo, de fora da área. Como sempre, fui o último a sair, depois das entrevistas, da cerveja e do mijo. No estacionamento, só estava o meu Corsa. Quando abri a porta, pensei que era a hora de falar com o presidente do clube: ele tinha que me dar um aumento, um carro novo, ou então eu me mandava para outro time. Quem sabe no próximo ano eu vou para um time grande?

“Anderson, a patada do Oeste”, disse a mulher atrás de mim, reproduzindo a manchete de um jornal local. Mais alta do que eu, loira tingida, vestia camisa do time, uma calça jeans bem justa e saltos plataforma. Me empurrou para dentro do carro e fechou a porta. Logo estávamos no banco de trás, e não entendi até agora como ela conseguiu tirar tão rápido aquela calça tão justa.

Depois dos treinos e dos jogos, encontrava a moça no estacionamento e íamos a um motel perto da rodovia. A Shirley sacou tudo e deu um jeito de acabar com aquilo. Um dia, depois de uma goleada, cheguei no carro e lá estava ela, em vez da Débora. Entramos no carro e fomos para casa. Não falamos nada a respeito nem ali, nem depois. Não vi mais a loira.

***

Estávamos no vestiário, antes da partida que decidiria o acesso para a primeira divisão. O empate era nosso. “Tem um empresário querendo falar com você depois do jogo”, disse o professor Samuel, sem nenhuma alteração na voz. Os outros estavam se aquecendo, e eu bebia o meu café, de meias.

Mais uma vez, o calor brotou de dentro da minha chuteira direita, subiu pelo tornozelo e envolveu a perna como uma meia-calça. Micropicadas frenéticas ativavam minha circulação com ainda mais força do que nas rodadas passadas.

O jogo foi duro. No intervalo, perdíamos de um a zero, mas eu estava calmo. Dava para ver minha perna pulsando. Dois adversários me marcavam de perto, e a bola quase não chegava em mim. Só fui conseguir chutar em direção ao gol aos 40 do segundo tempo, e foi o que bastou: um a um, placar que nos faria jogar na série A no ano que vem.

O juiz apitou, os jogadores do time e alguns torcedores correram para me abraçar. Eu fiquei parado, olhando para baixo: em vez da perna parar de formigar, ela começou a ficar roxa. Fervia. As picadas haviam se transformado em facadas ininterruptas. Chamei o doutor e saí de campo na maca. Seu Domingos apertava minha mão.

O que aconteceu depois também saiu nos jornais e até no Fantástico: tiveram que amputar minha perna direita para salvar minha vida. Os médicos não sabem explicar o que aconteceu. Minha carreira acabou junto com aquele campeonato. Como era previsto.

Eu estou bem. Só continuo com a mesma dúvida: como vai ser depois?

Há um ano

Postado por: Marcos Abrucio

Sejamos francos (sempre quis começar um texto assim, com “sejamos francos”; legal, gostei): na maioria dos dias, não acontece nada.

Nada de realmente importante, quero dizer. Tudo bem, de vez em quando rola “Curtindo a Vida Adoidado” na Sessão da Tarde. Mas fora isso, é o mesmo trânsito de sempre, uma ou outra discussão no Congresso, mais um golaço do Messi. Nenhuma novidade.

No entanto, existem alguns dias em que tudo acontece. 11 de junho do ano passado foi um deles.

Foram tantas coisas legais juntas que fica difícil dizer qual foi a mais incrível. Vejamos (sempre quis botar um “vejamos” no meio de um texto…):

***

Para começar, 11 de junho de 2014 foi o meu aniversário. O dia mais legal que existe — pelo menos para quem faz aniversário nesse dia, no caso eu, o Hugh Laurie, o Gene Wilder e, droga, o J.Hawilla.

No seu aniversário, o universo inteiro o trata como você e a sua autoestima gostariam de ser tratados todos os dias. Naquelas 24 horas, você é o cara.

Fale por você. Eu sou cara todo dia.

Fale por você. Eu sou o cara todo dia.

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Mas beleza, aniversário tem todo ano. Ontem mesmo rolou um deles, valeu, galera! Mas 11 de junho do ano passado foi também a véspera das minhas férias.

E todo mundo que já foi à escola sabe o que isso significa: é o dia mais cheio de esperanças, expectativas e empolgação do ano todo. Todas as obrigações estão às suas costas. À sua frente, só alegria. O despertador some da sua vida e você experimenta a inigualável sensação de não ter a menor ideia de que dia da semana é hoje. É demais.

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Tá legal, férias também tem todo ano (cara, espero do fundo do meu coração que você tenha férias todo ano), mas 11 de junho do ano passado também foi o dia da véspera da Copa do Mundo. E aí vamos para outro patamar de coisa legal.

Big Itaquera Stadium, one year ago.

Big Itaquera Stadium, one year ago.

***

Como esse espaço (não muito frequentado ultimamente, é verdade) sempre repete: a época da Copa é a mais legal de todas. Ela começa quando o Brasil se classifica para o Mundial (sempre, por favor) e vai até o zelador do estádio da final apagar os refletores.

Mas o auge é mesmo no mês em que o mundo inteiro para para ver os jogos mais fantásticos que existem (ok, menos Nigéria x Irã).

E lembremos todos (“lembremos todos” também é legal, hein?) que esta não foi uma Copa qualquer, e sim a Copa das Copas.

Não foi (só) papo da Dilma. Torcedores, jogadores, jornalistas de todo o mundo consideraram a Copa do Brasil uma das melhores de todos os tempos. Jogões, golaços, viradas emocionantes, prorrogações… Para quem gosta de futebol, a nossa Copa teve de tudo (clique aqui, vale a pena).

Gracias!

Gracias!

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Só que, há um ano, nem todo mundo estava empolgado com isso. O rescaldo das manifestações de 2013 ainda pairava sobre a Copa. O mau-humor era generalizado. Olha só a capa da Folha no dia da abertura da Copa:

30 dias depois, essa manchete seria o contrário.

30 dias depois, essa manchete estaria invertida.

Ok, havia motivos para o pé atrás: o gasto exagerado em estádios que poderiam virar elefantes brancos (e, surpresa!, viraram) era uma preocupação mais do que válida. Sim, podíamos ter feito uma Copa mais brasileira. Com menos gastos, desconfianças, roubalheiras. Sim, a FIFA é abominável — e que bom que seus líderes fétidos começaram a cair.

Mas eu acreditava que dava para ser crítico à organização do Mundial e, ao mesmo tempo, curtir a melhor época que existe. No fim, foi o que rolou: quem não tinha ingresso deu um jeito de comprar, os estádios lotaram, os gringos vieram para se divertir, a gente se divertiu com eles, a Vila Madalena virou a ONU (e mictório, também) compramos toneladas de figurinhas e todos gritamos a plenos pulmões: OEAAAAA!

Foi tão legal que nem a maior derrota de todos os tempos foi capaz de tirar o gosto bom que essa Copa nos deixou.

***

A expectativa pela Copa teria tudo para ser a coisa mais bacana daquele 11 de junho. Mas…

Mas em 11 de junho do ano passado eu fiquei sabendo que aquele voluminho na barriga da minha mulher não era um voluminho qualquer. Era uma menininha.

E não era uma menininha qualquer, e sim a menininha das menininhas: Olívia!

Sorry, Copa, mas não dá para competir com isso:

Falemos a verdade!

Falemos a verdade!

Eu nem imaginava, mas há um ano verdadeiramente começava a época mais legal de todas…

A Copa que eu vi(vi)

Postado por: Marcos Abrucio 

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Agora que já varremos a última rua da Vila Madalena e o último argentino dormindo no sambódromo já foi para casa (a pé), podemos respirar fundo e desabafar: ufa, #tevecopa.

Podemos até dizer, olha só, que a esperança venceu o medo. Mas não foi fácil, não.

Antes da Copa, o medo era de que a indignação coletiva contra os gastos do evento e, principalmente, a nuvem de mau humor estacionada sobre o país nos impedisse de aproveitar a época mais legal que existe.

Se a indignação era (e é) justa, deixar de curtir a Copa seria imperdoável. Por isso, tentei lembrar por que a detestável Copa do Mundo era tão apaixonante. E que era possível ser critico à organização do Mundial e, ao mesmo tempo, se emocionar com ele.

No fundo, acreditava que quando a bola rolasse, conseguiríamos separar as coisas. Mais que uma certeza, era uma esperança – que, no fim das contas, estava certa: as nuvens se dissiparam, os memes se espalharam, os jogos ajudaram, a Copa pegou e o bicho, não.

Resultado: nossos netos vão ficar de saco cheio de nos ouvir falar como foi incrível curtir uma Copa tão de pertinho. Bom, pelo menos pra mim, foi.

DIreto do camarote

DIreto do camarote

***

A cada quatro anos, sempre tento viver a Copa. E viver a Copa é muito mais do que assistir aos jogos. É:

( ) Assistir aos jogos, ( ) ler sobre eles no jornal e na internet, ( ) assistir às mesas redondas depois deles, ( ) discutir sobre eles no café, ( ) escrever umas pataquadas sobre eles aqui nas internets, ( ) colecionar o álbum de figurinhas, ( ) trocar figurinhas repetidas, ( ) decorar a casa, ( ) vestir uma camisa amarela, ( ) dar pelo menos uma sopradinha na vuvuzela, ( ) xingar o Galvão.

Mas para viver uma Copa dentro da nossa casa, fazer tudo isso ainda era pouco, muito pouco. Era preciso também:

( ) Ver pelo menos um jogo ao vivo, ( ) viajar pelo Brasil pra sentir o clima da Copa em outras cidades, ( ) interagir com gringos de toda parte querendo saber onde fica o bar da esquina da sua casa, ( ) juntar copos daquela famosa cervejaria, ( ) ver o melhor jogador do mundo bem de perto, ( ) só falar disso o dia inteiro, ( ) ficar às raias da demissão.

Hmmm, deixa eu ver. É, tiquei todos os itens.

***

E o legal é que não vivemos uma Copa qualquer. Para muitos, especialistas e não-especialistas, brasileiros e gringos, empolgados e realistas, essa foi a melhor dos últimos tempos.

De fato: vimos times buscando a vitória o tempo todo, muita velocidade, trocas de passes precisas, viradas emocionantes, enfim, o extremo oposto do Brasileirão. Com tudo isso, até jogos que tinham tudo para ser sofríveis viraram jogões, como Argélia x Coreia e Grécia x Costa Rica.

A inglesa Four-Four-Two, uma das revistas de futebol mais importantes do mundo, fez um ranking dos melhores jogos da Copa no Brasil. Eu vi de perto cinco dessas partidas.

Aí vão elas, em ordem crescente de qualidade, segundo o ranking dos caras, com algumas breves observações de quem esteve lá:

5) Bélgica 1 x 0 Coreia, 26/06/2014, 17h, Itaquerã, ops, Arena Corinthians (61o. no ranking)

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Os belgas bêbados e empolgados eram divertidos, os coreanos, coitados, até tentaram torcer, o Biro-Biro estava na porta do estádio, mas pra mim, o que vai ficar desse jogo é que na Copa do Mundo, até jogo ruim é legal.

4) Argentina 0 (1) x 0 (0) Suíça, 01/07/2014, 13h, Arena São Pa, ops, Arena Corinthians (45o. no ranking)

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Lá estava eu, no meio da torcida argentina, suando muito. Não, não era medo de apanhar ao eventualmente ser pego torcendo pelos suíços – o problema era o sol da hora do almoço rachando o nosso coco. Boa, FIFA. O jogo foi tenso e truncado até o fim da prorrogação, quando Messi passou por três e achou Di Maria em um lance de gênio (ou de Ronaldinho Gaúcho – logo, de gênio). Ainda deu tempo para a Suíça meter uma bola na trave e quase matar do coração todos à minha volta.

3) Colômbia 2 x 0 Uruguai, 28/06/2014, 17h, Maracanã (27o. no ranking)

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Mais cedo naquele dia, o Brasil jogava contra o Chile. Estávamos em Botafogo, roendo as unhas em frente à TV. O jogo foi para a prorrogação, e a gente roendo os dedos. O jogo foi para os pênaltis, não acabava nunca… Só acabou quando já estávamos roendo os cotovelos e faltava uma hora para atravessarmos a cidade e chegarmos ao Maraca. Nunca corri tanto na minha vida. Botamos o pé no estádio junto com o pontapé inicial. Sentei aliviado no meio dos colombianos, com câimbra até no suvaco. A recompensa: vimos o maior golaço do campeonato e gritamos RÂMES! RÂMES! com a galera no estádio mais bonito do mundo.

2) Inglaterra 1 x 2 Uruguai, 19/06/2014, 16h, ZL Stadiu, ops, Arena Corinthians (23o. no ranking)

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Já escrevi bastante sobre esse jogo aqui. Foi meu primeiro jogo de Copa do Mundo, então vai ter sempre um lugarzinho especial no coração. Não dá pra esquecer o show de Luis Suárez nem a tristeza dos torcedores ingleses. Deve ser horrível ver do estádio o seu país ser desclassificado, né?

1) Brasil 1 x 7 Alemanha, 08/07/2014, 17h, Mineirão (1o. no ranking)

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É, é horrível ver do estádio o seu país ser desclassificado. Segundo a lista da FourFourTwo, foi o jogo mais memorável desta e talvez de TODAS as Copas. Da minha parte, concordo: não vou esquecer aquela tarde tão cedo. Mas como já escrevi antes, foi uma derrota mais vergonhosa do que traumática. Por conta do país e do nosso futebol hoje serem diferentes, os 7 a 1 não serão tão lamentados como foi o Maracanazzo ou a tragédia de Sarriá. Sei lá, é o que eu acho. Ou talvez eu esteja apenas querendo economizar na conta do psicólogo.

***

Só sei que a sova alemã não vai, de forma alguma, apagar da nossa memória a Copa incrível que tivemos por aqui. Por fim, mais duas conclusões que esses dois meses só consolidaram em minha mente:

1) Não existe palco melhor para uma Copa do Mundo do que aqui.

2) A Copa no Brasil foi a melhor coisa que aconteceu em muito, muito tempo. Para a Copa e para o Brasil.

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O Copawriters errou. (Mas o Brasil, muito mais.)

Postado por: Marcos Abrucio

Pois é.

Havia um erro elementar no meu último post. Eu dizia que, sem Neymar, a seleção não tinha mais a obrigação de ser campeã. Sem essa pressão, poderia a) se acomodar e aceitar a provável derrota para a Alemanha; ou b) se encher de brios e, mesmo sem seu craque, jogar de forma inteligente e ambiciosa pra tentar ganhar dos caras.

Mas, como até os marcianos agora sabem, existia uma outra alternativa: levar a maior piaba da nossa história.

Cadê a bola?

Cadê a bola?

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(Melhores partes daquele texto: “…não havia mais o risco de um vexame catastrófico, um novo Maracanazo “; “Vergonha nenhuma cair agora [contra a Alemanha]”.

Sabe de nada, inocente.)

***

Se não dava para prever esse atropelamento, mesmo agora ainda é difícil entender o que aconteceu.

Porque 7×1 não existe. Nem no primário, nem na quadra do condomínio. Nem jogando contra o time do seu irmão mais velho. Nem com três jogadores a menos. Também não existe levar quatro gols em seis minutos. Nem no pebolim você consegue tal proeza.

Mesmo no estádio, eu também achei.

Mesmo no estádio, eu também achei.

Mas existem, sim, explicações. E responsáveis:

1) Os jogadores, claro. Foi certamente o pior desempenho da vida de todos – menos de Fred, que foi igualmente péssimo em todos os jogos. Mas mais grave foi a falta de maturidade e controle emocional naqueles malditos 360 segundos. Ninguém conseguiu botar a bola no chão, ou chutá-la para o mato, ou simular um enfarto, enfim, fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Ao contrário do Fred, a zoeira não para.

Ao contrário do Fred, a zoeira não para.

Porém, culpar o “apagão” é simplificar demais. Pior, é esconder o principal: esse time foi mal montado, mal treinado, mal preparado. Mal era um time. E aí chegamos ao maior dos responsáveis, pelo menos pelo que aconteceu na terça:

2) Luiz Felipe Scolari. Dói apontar o dedo para ele. Sem Felipão, o penta não teria vindo. Mas se em 2002 ele foi perfeito, agora foi desastroso. Teimoso, apegou-se ao time do ano passado como quem se apega a uma cueca da sorte. Tudo bem, a lista de convocados não seria muito diferente dessa, mas faltou treinar alternativas de jogo. Fred claramente não estava funcionando, e nunca foi treinada uma opção sem ele. Nosso meio de campo nunca existiu.

Contra a Alemanha, Felipão se superou. O mundo inteiro conhece, pelo menos desde 2006, a força e o brilho do meio-campo alemão. Os olheiros da seleção, Gallo e Roque Jr., recomendaram povoar aquela área (bom, até o meu post recomendava isso!). Sugeriram escalar Paulinho e William. Mas o técnico bancou Bernard, aberto e solitário na ponta. No meio, um deserto.

Oscar sozinho no meio.

Oscar sozinho no meio.

No dia seguinte, Felipão e Parreira afirmaram que não haviam feito nada de errado. Além de incompetentes, arrogantes.

Mas é ilusão achar que nossos problemas acabam aí. Nunca, jamais, podemos esquecer da…

3) Multimilionária CBF, responsável direta pelo paupérrimo futebol praticado por aqui. Quem acompanha o Brasileirão sabe do que estou falando:

Nossos times estão falidos; os jogos, feios, faltosos e modorrentos; a média de público é pífia; o calendário é burro; os técnicos são defasados e prepotentes (mas também milionários); as categorias de base já não revelam mais ninguém.

Nosso “futebol bonito” agora é um jogo defensivo e covarde. Os craques do meio-de-campo deram lugar a zagueiros gigantes, que fazem gols nas bolas paradas e depois fecham o time para garantir o 1×0.

A raiz disso tudo? Nossa maior paixão é administrada por dinossauros arrogantes, despreparados e/ou corruptos.

Tiranossaurus Marinus

Tiranossaurus Marinus.

Mas se está tudo errado, por que não tínhamos passado por essa vergonha interplanetária antes? Primeiro, porque trata-se de futebol, esporte que nem sempre respeita a meritocracia (olha a Argentina, de administração tão arcaica e corrupta quanto a nossa, na final da Copa); segundo, porque nossos craques sempre livraram a cara da seleção.

Só que eles foram rareando, rareando, até sobrar apenas um – e desde a joelhada do Zuñiga na sexta passada, nenhum. Sem nenhum fora-de-série, nós (e o mundo) demos de cara com o real estado de coisas do nosso futebol.

***

Tudo isso, somado, não explica o 7×1. Sim, foi um resultado atípico. Mas não à toa. Só pra comparar:

Desde 2000, a Alemanha reformulou todo o seu futebol, desde as divisões de base de cada clube. Foram anos estimulando a formação de novos jogadores e técnicos. O físico deixou de ser o mais importante no futebol alemão: desde pequenos, os atletas treinam a parte técnica e tática. Em 2006, começa a aparecer uma nova geração de craques habilidosíssimos, fruto dessa política. A comissão técnica da seleção foi mantida e o time foi ficando mais forte. Chegando ao Brasil, construíram um centro de treinamento na Bahia. Testaram diferentes formações, crescendo ao longo da Copa. Para a semifinal, eles estudaram nossa seleção e montaram ensaiaram jogadas como a do primeiro gol.

E o Brasil, o que fez? Chamou o Vampeta e o Edilson para puxarem o pagode no busão.

Depois eu que não sei de nada.

***

O Mineirão antes do caos.

O Mineirão antes do caos.

Foi duro ver de perto Brasil x Alemanha (ou Alemanha x catado dos moleques do meu bairro, não sei ainda). Ainda mais NO MEIO da torcida alemã!

A Alemanha às minhas costas.

A Alemanha às minhas costas.

Mas o sentimento não é de tristeza, como em 50 ou em 82. No Maracanazo, o país era muito diferente, e a virada no finalzinho foi sofrida e inesperada. No Sarriá, choramos a derrota de uma geração admirável, que jogava como sempre sonhamos.

Não é o caso agora.

O que vai doer mesmo é associar uma Copa que foi tão legal, a esse jogo.

A Copa das Copas, dos memes, da zoeira, das zebras, das prorrogações emocionantes, do times ofensivos, da maior média de gols em décadas, das invasões de torcedores do mundo todo, dos latinos acampando na nossa porta, a Copa mais divertida de todas, a que eu assisti em casa, seja no sofá ou no estádio aqui do lado, não merecia isso.

Vou sempre lembrar dessa Copa com alegria. E para manter viva essa sensação, é só dar play aqui embaixo:

OOOOEEEEEEAAAAAAAAA!

Uma desculpa para perder ou uma força para ganhar?

Postado por: Marcos Abrucio

Qual a alternativa?

Qual a alternativa?

Leia (ou releia, vai) este texto amanhã, lá pelas sete e pouco da noite. Logo depois de Brasil x Alemanha. Pegue então uma caneta e assinale a alternativa que mais se aproxima do que aconteceu nesse jogo.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. A seleção já não tinha mais a obrigação de ser campeã mundial. Sem nenhum fora-de-série, sem nenhum gênio, sem nenhum extraterrestre, o favorito virou azarão. Também não havia mais o risco de um vexame catastrófico, um novo Maracanazo. Evidente que os jogadores tiveram esse medo contra o Chile. Não dava para cair numa oitavas-de-final, em casa, contra o eterno freguês. Ninguém queria ser o responsável por essa mancha no nosso currículo. Daí tanto choro, tanta tremedeira, ai, meu estômago ainda dói. Também não podíamos perder para a Colômbia, com todo respeito à seleção que melhor havia jogado até então. Mas beleza, passamos por um e por outro. Agora era semifinal, amigo, só cachorro grande. E contra a Alemanha, o rottweiler das Copas. Mais: uma Alemanha renovada, que une a eterna eficiência alemã ao toque de bola (quem diria!) de caras como Müller, Schweinsteiger, Lahm e Kroos. Vergonha nenhuma cair agora. Isso tirou o peso das pernas dos nossos jogadores – mas também o sangue dos olhos deles. Quando o jogo começou, o Brasil aceitou facilmente o favoritismo alemão. Preocupado demais em cercar os craques tedescos, abriu mão de jogar o seu jogo. E aí não teve jeito: uma hora o talento e o entrosamento dos loirões fez a diferença, vazando o Júlio César sem dó. Claro, nosso extraterrestre fez muita falta. Mas o resto do time aceitou fácil demais a derrota. Talvez achassem que já tinham ido longe demais. Afinal, tinham desculpas demais para entregar os pontos. No fim, a torcida aplaudiu tristemente o esforçado time de operários. Saímos derrotados – na verdade, entramos derrotados.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. No lugar dela, uma motivação ainda maior. Um time que nessa Copa já tinha se mostrado de mais empenho do que de futebol bonito (quem diria!) entrou em campo ainda mais ligado. Era preciso correr não só por Neymar, mas também pelo capitão Thiago Silva. Mas a seleção chegou ao Mineirão sabendo que não adiantava só entrar com a raça redobrada: tínhamos que jogar bola. E os brasileiros jogaram. Primeiro, marcaram os craques do outro time como se deve: grudadinhos no cangote deles. Depois, botaram os nervos no lugar e a bola no chão. Foi como se lembrássemos que, mesmo sem Neymar, temos um ótimo time, com jogadores habilidosos, que jogam nos maiores clubes do mundo. Um time muito melhor, por exemplo, que Gana e Argélia, que empataram com a Alemanha nessa Copa. Claro, o jogo foi duro, duríssimo. Neymar fez muita falta (em que time ele não faria?), mas o meio-campo, antes um Atacama, foi finalmente povoado. Com as ações equilibradas ali na meiúca, foi a vez da seleção alemã lembrar do trauma que eles têm de jogar contra o Brasil. O jogo deles não encaixa com o nosso, como o nosso não encaixa direito com o do México. E descobrimos, olha só, que a geração dourada alemã também tem seus cabeças-de-bagre. Foi em cima de Höwedes que saíram nossas principais jogadas – e o gol da nossa vitória. Os operários brasileiros também foram solistas e, empurrados pela torcida, pela gana de honrar nosso craque e pelo seu próprio talento, derrotaram a temida seleção alemã e conseguiram seu lugar na final da Copa do Mundo.

***

Amanhã estarei no Mineirão para ver de perto qual alternativa o Brasil vai escolher. E também para ajudar a botar o xizinho no lugar certo.

Minha aposta? Essa aqui: