Arquivo da categoria: Marcos Abrucio

Hipoteticamente escrevendo

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— Eu vou contar um caso hipotético, tá bom?

— Como assim?

— Não aconteceu de verdade. Com ninguém que eu conheça, muito menos comigo. Não tinha nem como acontecer comigo. Eu não tenho dificuldade nenhuma para mijar, você sabe…

— Eu sei?

— É, meia cervejinha depois do expediente e lá vou eu pro banheiro do bar. Pedra no rim não se cria comigo. Entrou, saiu. Então isso que eu vou contar é só hipotético, entendeu?

— Acho que sim.

— Aliás, isso que é ser escritor, né? Ficar escrevendo histórias hipotéticas. Enfim…

— Serjão, onde você tá querendo chegar?

— Eu quero contar uma história de um homem que está no banheiro, mas não consegue mijar, e eu preciso da sua ajuda.

— Ih, caralho. Tá louco?

— Espera, pô. Não fica pensando besteira. É que quem vai contar essa história é um jogador de futebol. Quer dizer, sou eu, mas fingindo que sou um jogador de futebol. Na primeira pessoa, manja?

— Sim, sim. Quer dizer, não. Sei lá.

— Se eu fosse contar essa história na terceira pessoa, seria assim: “Um jogador de futebol está trancado no banheiro há mais de meia hora, mas não consegue fazer xixi.”

— Ok.

— Mas como eu vou escrever na primeira pessoa, como se eu fosse o jogador, seria assim: “Estou trancado no banheiro há mais de meia hora, mas não consigo mijar.” E aí?

— Entendi, entendi.

— Então, agora eu preciso da sua ajuda.

— Não entendi.

— Para continuar essa história!

— Ah, tá. Mas por que você não continua?

— Porque eu não sei nada de futebol. E você passa o dia vendo mesa redonda. Queria tirar umas dúvidas com você…

— Claro! Por que você não falou antes?

— Eu juro que eu tô tentando, Rildo.

— Mas fala aí, como é que começa essa história?

— Pensei em começar assim:

Sempre ouvi dizer que o tempo é relativo. Agora, eu posso confirmar: os minutos passam mais rápido ou mais devagar dependendo do lado do banheiro em que você está — dentro ou fora.

— Sério?

— Uma bosta, né?

— Olha…

— Melhor começar já contando o que aconteceu. Quer dizer, o que hipoteticamente aconteceu:

Estou aqui há mais de meia hora, trancado em um banheiro depois do jogo, com um cara olhando para o meu pau, quando batem na porta:

 “Porra, é tão difícil assim dar uma mijada?”, gritam lá de fora.

Porra, claro que é. Ainda mais com um cara do meu lado, vendo se o mijo que vai para o vidrinho é meu, mesmo.

“Espera, mano”, eu respondo.

Não era para isso estar acontecendo. Não depois de fazer três gols no mesmo jogo. Caramba, meu filho tava na arquibancada, ele tá me esperando lá fora. Ele vai falar a semana inteira que o pai dele é um cracaço, vai encher o saco da mãe até estourar.

Olhei para o homem ao meu lado. Prancheta na mão, óculos, avental. Um cientista analisando meu aparelho urinário. Sorri para ele, ele não sorriu de volta. Entrei em desespero — e minha uretra fechou-se mais ainda.

— E depois?

— Depois nada. Só escrevi isso.

— Só isso?

— Só.

— Eita.

— Tá ruim, Rildo? Muito ruim?

— Não, tá ótimo! Mas é só um começo, né. E tem umas coisinhas…

— Fala, pode falar.

— Primeiro: pode escrever essas coisas de pau, porra, mijada?

— Pode, o texto fica até melhor, mais real. Mais cortante.

— Ah, do caralho. Outra coisa: esse cara, como ele chama?

— Ainda não botei.

— Mas ele tem que ter nome, né? Qual o nome dele?

— É… Roberto.

— Roberto. O Roberto é jogador de futebol, não é?

— É.

— Então ele está acostumado a fazer antidoping. Depois de cada jogo, pelo menos um cara de cada time é sorteado.

— É?

— É.

— Mais cedo ou mais tarde, todo jogador vai para o antidoping. Então por que o Roberto tá assim, com o pau na mão, sem conseguir mijar?

— Hum.

— Se ele tá assim, é porque tem culpa. Sabe que vai pego.

— Porra, Rildo!

— O quê?

— É isso! É a grande revelação: o nosso herói, o craque que reconquista o amor do filho com dois golaços é, na verdade, um golpista inescrupuloso. Tá-daaammm!

Solto o vidrinho vazio e pego o homem de avental pelo colarinho. Tiro uma faca do calção e encosto na jugular dele:

“Você que vai mijar aqui.” 

“Eu? Mas…”

“Vai mijar e vai dizer que o seu mijo é meu. E não vai contar que isso aqui aconteceu, ou eu acho você onde você for e te enforco. O PCC tá comigo, entendeu?”

— Sei não.

— COMO NÃO?

— Calma, cara.

— Desculpa.

— Segura o facho.

— Já pedi desculpa. Mas qual o problema? Você é um gênio, deu a virada que eu precisava para a história…

— Ah, não sei. PCC?

— Tá, eu posso tirar o PCC.

— Não sei se as pessoas querem ler isso. Já veem as manchetes dos jornais todo dia. Vão querer mais violência nos livros?

— Hum.

— E outra, o cara é mauzão, asquerozão, maníaco do antidoping? Não sei se existe alguém assim.

— É uma história hipotética, eu disse…

— Eu sei, mas os leitores querem histórias mais profundas, complexas, contraditórias.

— É… boa, boa!

Seguro o vidrinho vazio, olho para o homem de avental. 

“Só mais um pouquinho, eu vou conseguir”, respondo para a voz que esmurra a porta. 

Eu não devia ter acreditado naqueles caras da federação. Mas eu precisava da grana: quatro meses sem pagar a pensão da Elaine e do Robertinho, prestes a ser preso. E os caras do campeonato precisavam dos meus gols. Sabiam que eu estava fora de forma, com problema de bebida. Para voltar a jogar, só com remédio para emagrecer. E me prometeram que eu nunca seria sorteado no antidoping. Alguém deve ter descoberto. Agora estou a alguns mililitros da ruína. 

— Melhor.

— Muito melhor, Rildo! Você é bom nisso. Vou botar seu nome na dedicatória do meu livro. E vai vender pra caralho! “A história de Roberto”, o herói brasileiro, craque de bola, profundo, complexo.

— Contraditório…

— Contraditório. Pô, vou vender os direitos para a Globo. Cauã Raymond no papel de Roberto. Mariana Ximenes no papel de Elaine, delícia.

— Mas espera. E como termina essa história?

— Hum.

— É importante, né. O final.

— Ah, é. É sim.

— E?

— Não sei. Você que entende de futebol, como poderia acabar essa parada?

— Bom, tem jogador dopado que injeta o mijo de outro jogador limpo, para não ser pego no antidoping.

— Legal, hein?

— O Roberto podia ter uma seringa escondida no calção. Quando o representante da comissão antidopagem…

— Quem?

— O cara que tá junto com ele!

— Ah.

— Quando o representante da comissão antidopagem tivesse um momento de distração, ele fincaria a agulha na bexiga e faria a transfusão de mijos.

— Eita, Rildo. Só de ouvir me deu aflição. Não gosto de agulhas.

— Aí fica difícil.

— Mas você tem razão. O escritor tem que sair da zona de conforto. Escrever sobre aquilo que não é familiar para ele. Vou botar a seringa… A não ser que fosse assim:

Vejo que o representante da comissão antidopagem têm um momento de distração. Então aponto o pau pra ele e mijo no seu avental.   

“O que é isso?”, ele grita.

“O que está acontecendo aí?”, diz o chefe dele, do lado de fora da porta.

Estico o vidrinho e o encho com as gotas que pingam do avental.

“Toma o meu mijo.”

Agora eles poderiam fazer o exame que quisessem. A amostra estava contaminada, eu diria no tribunal. Quimicamente comprometida. Saio do banheiro como quem sai de uma batalha, ainda ouvindo a torcida gritar o meu nome.

— Serjão…

— O quê?

— Essa história de você virar escritor…

— Sim.

— Ela é hipotética, né?

Postado por: Marcos Abrucio

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As marcas da corrente

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Não era fácil encontrar traços de humanidade naquele tempo, mas eles ainda existiam.

Vivíamos nos túneis do metrô havia algumas semanas. Por segurança, andávamos o dia inteiro. Os mais fortes na frente, com lanternas e lampiões, depois os pais e mães com as crianças e, lá atrás, os mais velhos e eu — por causa da minha perna. Às vezes o grupo chegava em uma passagem bloqueada por um desabamento. Aí os líderes voltavam, em busca de outro caminho, e nós do fundo nem tínhamos tempo de tomar fôlego antes de mudar de direção. Quando os relógios de pulso diziam que era noite, a gente se sentava nos trilhos e tentava descansar, ignorando o barulho das explosões da superfície. A comida era racionada, e homens e ratazanas estavam sempre tentando roubá-la.

Em uma dessas noites, a moça dos mantimentos se aproximou de mim. Eu massageava a perna boa, sobrecarregada pelo esforço de arrastar a outra. A garota trouxe as quatro bolachas a que eu tinha direito e um pouco de água num copo sujo. Depois, tirou do bolso de trás da calça um velho tablet.

— Você era corintiano, né?, ela perguntou.

Era. Ela então deu play na tela, e começamos a ver juntos a final do Mundial de 2012. Corinthians e Chelsea em Yokohama. Gol do Guerrero no segundo tempo. Fomos campeões do mundo. A moça me deu de presente esse momento de novo.

Assistir a jogos de muitos anos atrás em computadores e celulares recondicionados que passavam de mão em mão era uma espécie de droga para a gente. Uma dose de prazer e entorpecência de 90 minutos mais os acréscimos — com sorte, conseguíamos VTs de partidas com prorrogação e disputa de pênaltis, e era sensacional.

As pessoas se aglomeravam para ver conquistas históricas dos seus antigos clubes, mas não só. O teipe de uma partida sem importância do Campeonato Paulista bastava para um pouco de alegria. Espiávamos até as vitórias dos adversários, mesmo em cima dos nossos times. O segredo era fingir que você não se lembrava do resultado e torcer como da primeira vez.

O vídeo acabava com os jogadores do Corinthians de 2012 dando a volta olímpica. A garota se levantou. Eu agradeci. Até melhorou minha perna, eu disse. Ela se afastou sorrindo. Ao meu lado, ouço uma voz enferrujada:

— Eu estava lá.

O velho não tinha um braço, mas era forte feito um marinheiro aposentado. Havia se juntado ao grupo alguns dias antes. Ficava afastado — e quase nunca se ouvia ele falar. Como seu rosto era irritantemente familiar, muitas vezes eu ficava olhando para ele por mais tempo do que o recomendado. Então eu disfarçava. Quem era ele? Não conhecia ninguém sem braço. Meu cérebro fazia força para responder, mas as sinapses pareciam interrompidas como os túneis pelos quais a gente perambulava. Agora, pela primeira vez, ele lançava uma pista para mim.

— Você foi até o Japão ver o Mundial?, perguntei.

— Eu fui até o inferno pra ver o Corinthians.

Eu não. Desde os quinze anos eu não via um jogo no estádio. Meu pai tinha me proibido, depois que eu me meti em uma briga feia de torcida. Quis continuar o papo com o velho, mas ele já tinha deitado no espaço entre os trilhos, de lado, a cabeça encostada no chão, sem o apoio do braço direito.

No dia seguinte, encontramos um vagão abandonado e montamos acampamento. Perto dali, em uma ramificação sem saída do túnel, havia uma torneira. Depois de algumas marretadas, ela voltou a girar. Aproveitamos para encher algumas garrafas e, depois de muito tempo, tomar banho.

Eu tinha conseguido um vídeo incompleto, mas de boa qualidade, de um Corinthians x Guarani de 1993. 5 a 1 para a gente, gols de Paulo Sérgio, Adil, Viola (2) e Neto. Procurei o homem sem braço. Ele se trocava depois de lavar o corpo. De calça e sem camisa, exibia mais de uma dezena de tatuagens, quase todas sobre o nosso time. Uma delas era igual a de milhares de outros corintianos: um gavião pedindo silêncio com o polegar erguido. Já outra, um relógio de ponteiros bem no centro do peito, eu só tinha visto uma vez na vida. E foi ela que me contou de onde eu conhecia o velho.

Quase trinta anos antes, eu ia ao Pacaembu toda semana, sempre no meio das torcidas organizadas. Era dos mais novos, e me sentia protegido pelos brutamontes que lideravam os pelotões de preto e branco pelas ruas. Eles sabiam que eu não podia correr, então davam um jeito de cuidar de mim. Roubávamos lojas de conveniência de postos de gasolina, e os caras não arredavam pé enquanto eu não conseguisse pegar algo da prateleira.

A gente se encontrava em uma estação de metrô, na Marechal Deodoro ou na Clínicas, e ia a pé para o estádio. Em um dia de jogo contra o Palmeiras, eu estava com outros moleques passando por cima de um viaduto do centro — um que, mais tarde, foi demolido pelos tanques de guerra. Os mais velhos estavam mais à frente. Lá embaixo, um grupo de torcedores rivais bebia cerveja. A ideia foi minha: subimos no parapeito e mijamos nos caras. Eles ficaram loucos, e chamaram os líderes das hordas de verde e branco. Antes que pudéssemos pensar em algo, os brutamontes deles já tinham subido o viaduto.

Meus amigos saíram correndo. Eu fiquei para trás. Tentei alcançá-los e acabei tropeçando. Acho que torci o tornozelo da outra perna. Os palmeirenses tinham me visto mijando e pularam em cima de mim. Obviamente eu teria morrido se um corintiano, com um relógio tatuado no peito, não tivesse voltado para enfrentar sozinho uma dúzia de adversários. Na mão direita, uma corrente de ferro girando sem parar arrancava dentes e olhos de quem estivesse pela frente.

Fabião. Fabião era o nome dele. Algum tempo antes desse dia, lembro de perguntar para ele na arquibancada, quando todos tirávamos a camisa para girar no ar — exatamente como ele fazia agora com a corrente de ferro —, por que ele tinha tatuado um relógio no peito.

— Para não esquecer a hora de voltar para casa, ele respondeu, rindo. Depois, tirou da carteira a foto da mulher e do filho pequeno. Então completou: se deixar, eu fico aqui até de madrugada.

— Some daqui, moleque!, ele gritou pra mim no dia da briga no viaduto.

Me arrastei para fora do bolo. Alguns dos nossos chegavam para ajudar. Tirei a camisa do Corinthians e botei na bermuda. Um minuto depois, olhei para trás. Fabião continuava rodando sua corrente, até um reforço de palmeirenses aparecer e imobilizar o braço direito dele. Um desses homens ergueu um facão de meio metro de comprimento. Não quis mais ver. Me escondi no banheiro de um supermercado.

Eu segurava o celular enferrujado com o VT do jogo de 93 e olhava para o velho sem braço. Fabião. Ele vestiu a camiseta de lã preta e rasgada e tapou o relógio do peito. Percebeu que eu estava estático à sua frente, mas não deu tempo de falarmos nada. A moça dos mantimentos gritou do vagão: tinham roubado parte da nossa comida. Estavam faltando 12 pacotes de bolachas.

Não dormi naquela noite. Primeiro os mais fortes nos obrigaram a ficar enfileirados, em pé sobre os trilhos, enquanto reviravam nossas coisas atrás da comida. Não acharam nada. Depois, voltamos aos nossos lugares e agarramos tudo que tínhamos, com medo de novos ataques. Aos poucos, todos foram silenciando. Assisti, sem som, aos gols do Paulo Sérgio, Adil, Viola (2) e Neto. Até alguém gritar de novo.

Acharam o corpo de um dos líderes com o pescoço esmagado, o rosto todo roxo. Um casaco dele estava jogado no chão; dentro, uma bolsa de pano com os nossos pacotes de bolacha. Olhei em volta, procurando o Fabião. Nem ele, nem os trapos dele estavam mais por perto. Um bolo de pessoas cercava o homem esganado. Passei por elas, me agachei e cheguei bem perto da cabeça. No pescoço, marcas de corrente.

Naquele tempo, até os traços de humanidade tinham traços de selvageria.

Postado por: Marcos Abrucio

 

Tutto tem su pressio

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Não é preciso ser jogador de futebol para saber como é passar a noite encarcerado em uma concentração. Presidiários, faroleiros e tripulantes de missões espaciais também conhecem a força medonha que faz você não aguentar mais a cara de quem está ao seu lado. Que faz você chutar longe livros, DVDs, laptops e Playstations. Que faz você sair andando pelos corredores vigiados de um hotel cafona em busca de uma nesguinha de liberdade. Em uma dessas noites — a mais importante delas —, eu descobri porque o Naldo e o Robson, atacantes titulares da seleção brasileira na Copa do Mundo, queriam se matar. Digo, um matar o outro. Ah, vocês entenderam.

***

A treta entre os dois era manchete há um bom tempo. Voltei ao meu quarto, peguei o laptop caído no chão e, sem acordar o Fabinho, meu companheiro de cela, trombei com algumas:

“Naldo e Robson trocam socos em bar no Rio” (O Globo);

“Naldo jura Robson de morte” (Extra);

“Magia Negra: Robson é visto fazendo despacho para Naldo” (Meia Hora);

“Mesmo com briga, dupla ‘Naldobson’ é aprovada por 58,2% dos paulistanos” (Folha);

“Discussões como a de Naldo e Robson podem ser positivas, aponta estudo” (Estadão);

“Batalha de maria-chuteiras: quem tem as melhores ‘affairs’, Naldo ou Robson?” (UOL).

Parece que a história começou quando eram juvenis do Flamengo. Parceiros em campo, amigos fora. Então discutiram em um treino, o pessoal apartou, mas no vestiário a porrada correu solta. Naldo foi vendido para o Barcelona, Robson para o Real Madrid. Até hoje, a cada jogo entre eles, um novo ‘round’. Os dois, somados, já foram expulsos 17 vezes — sempre por discussões ou entradas violentas que um aplica no outro.

O Fabinho, como sempre, roncava como um motor de camburão a 90 centímetros de mim. Eu continuei googlando, sem me importar com o horário. E daí que amanhã é a final da Copa do Mundo? Eu não vou jogar, mesmo. Sou apenas um zagueiro reserva-do-reserva que fez um campeonato catarinense razoável pelo Joinville e que só foi convocado, às pressas, porque uma sequência absurda de contusões fez com que cinco outros zagueiros fossem cortados. É como se eu estivesse aqui de férias. Um turista em uma cadeia cinco estrelas.

Naldo e o Robson aumentavam a temperatura da briga a cada declaração à imprensa. “É um lixo humano”, dizia um sobre o outro, “Não merece viver”, dizia o outro sobre o um. Apesar do comportamento deplorável, reprovado até pela FIFA, os dois foram convocados para jogarem juntos no ataque da seleção. Por quê? Porque em campo os dois são geniais. Se um faz um gol, o outro se mata para fazer dois ou três. Sem trocar nenhum passe entre si, mas arrebentando em todos os jogos, eles levaram o Brasil até a final. Por isso o pessoal releva essa discussão infinita nos jornais. Por isso eles podem tudo, até terem quartos individuais na concentração — mas isso os jornais não sabem.

Ouvi passos chegando no quarto. Deve ser o segurança, pensei. Era o seu Matias, nosso técnico. Achei que ele ia dividir com a gente mais uma palavra de autoajuda puxada de um livro oriental de guerra. Alguma mensagem especial na véspera do “jogo das nossas vidas”. Ia acordar o Fabinho, mas ele só falou:

— Fica quieto, ouviu? Amanhã a sua hora vai chegar.

E foi embora.

***

Claro que não dormi depois disso. O grupo da seleção (e os torcedores e o Brasil inteiro) estavam divididos entre os simpatizantes do Naldo e os do Robson. No café da manhã, o “Team Naldo” ocupava as mesas perto da cozinha, o “Team Robson” ficava ao lado da janela. Eu, que chegara por último e era o único que não jogava na Europa, não pertencia a “team” nenhum.

Vi o Naldo entrando na fila dos ovos mexidos com o semblante fechado. Queria dizer para ele se não se preocupar. Não sou X-9, não, eu diria. No xadrez, a pior coisa que existe é acharem que você é cagueta. Aqui no Four Seasons Golden Palace, deve ser a mesma coisa. Fui atrás dele. Quando ia encostar em seu braço, seu Matias apareceu na frente e não me deixou passar. Porra, ele era melhor do que eu na marcação. Naldo voltou para a mesa. Virei para o outro lado: Robson levantava-se e saía pela porta de ferro do refeitório, com cara de prisão de ventre. Eu tinha lido que ele é amigo de uns traficas. Tô fudido.

No caminho para o ônibus que nos levaria para o estádio, o Fabinho cochichou no meu ouvido. Não entendi nada. Ele jogava na Itália há anos, mas não tinha aprendido direito o italiano — e ainda havia esquecido o português. Sem contar a língua presa. Enfim, seu idioma particular era um desafio para os melhores fonoaudiólogos. Pedi para ele repetir.

— Tutto tem su pressio. Tu vai recebere seu valore.

O Fabinho sabia de tudo! Mas fiquei confuso. Aquilo que ele falou foi o quê, uma ameaça? Sentei em uma poltrona no meio do ônibus, entre o fundão do Naldo e a frente dos parças do Robson. Revivi na minha mente a noite anterior.

***

Lembrei que eu estava sem saco para mais uma partida de videogame. Liguei no SexyHot mas nem uma punhetinha me animava. Sem chance de dormir, com o Fabinho trovejando na outra cama. Abri a porta, vi dois seguranças conversando de um lado. Do outro, caminho livre. Fluf, fluf, fluf, minhas pantufas deslizaram pelo carpete fofo do corredor. Cheguei à saída de emergência. Eram dois andares fechados para a seleção, com seguranças em cada porta, mas naquela hora um deles tinha abandonado o posto e atravessado o andar para trocar alguma ideia com seu parceiro. Consegui sair para a escada de incêndio que circundava o prédio em estilo neoclássico. A noite linda, estrelada. Ninguém por perto. Até os jornalistas que acampavam lá embaixo dormiam. O ar fresco bateu de leve nos meus pulmões como há muito tempo não acontecia. Desde que nos prenderam nesse lugar. Um barulho interrompeu minha paz: blam! O segurança estava voltando. Para despistar, dei a volta no edifício por fora e entrei pela porta corta-fogo do outro lado do andar. Mais ruídos: o outro segurança devia estar ajudando o primeiro a me procurar. Apareci no corredor deserto. Qual é o meu quarto? Todas as portas são iguais. Deve ser essa. Entrei e vi. Eles viram que eu vi. Fugi.

Depois, no ônibus, não sabia mais se ia para a final da Copa do Mundo ou para a minha execução. Tutto tem su pressio.

***

Como toda final de Copa, foi um jogo truncado, feio, nervoso. Nosso time não repetia as partidas anteriores, vencidas todas com goleadas. A diferença estava em Naldo e Robson, que pareciam perdidos no meio da zaga adversária.

Depois de mais uma bola que a dupla de ataque perdeu, o Sálvio, goleiro reserva, aproximou da minha orelha a mão coberta por uma enorme luva e explicou porque deveria acabar com a minha raça:

— Você estragou tudo!

Mais um que sabia. Seu Matias o afastou, dizendo que tudo daria certo, ele ia ver. O jogo estava chegando ao fim, continuava 0 a 0, e eu não tinha a menor ideia de como tudo poderia dar certo.

Então Robson entrou na área marcado por três adversários, ergueu a cabeça e, pela primeira vez no Mundial, passou a bola para Naldo. Ele dominou, ia chutar para o gol quando um zagueiro o derrubou por trás. Pênalti!

Pulamos todos ao mesmo tempo do banco, como se estivéssemos em assentos ejetores de caças supersônicos. Vamos ser campeões! O goleiro reserva até me abraçou. Só algo nos incomodava: Naldo continuava caído. Não parecia ser para tanto. Uma faltinha normal. Mas ele se contorcia e rolava de um lado para outro. O técnico me chamou. Rápido! Fui até ele, que disse baixinho:

— Sua hora chegou. Entra lá e aproveita.

Tentei argumentar: eu sou zagueiro, vou entrar no lugar do 9? Mas o velho não me ouviu. Naldo saiu de maca e passou perto de mim, olhando fundo nos meus olhos, transmitindo algum recado que eu não conseguia decodificar. Entrei em campo e Robson entregou a bola para mim. Ok. Entendi tudo.

Eu, zagueiro reserva-do-reserva, atleta do modesto Joinville, convocado na última hora depois de uma onda de contusões varrer todos os zagueiros do Brasil, iria bater um pênalti decisivo na final da Copa. Para me consagrar. Para virar ídolo, ser comprado por um time da Europa, ganhar milhões. Esse era o preço do meu silêncio. Um prêmio adiantado que estavam me pagando para eu nunca abrir a boca. Para eu não contar para ninguém que entrei num quarto da concentração e vi Naldo e Robson, os maiores arqui-inimigos do futebol mundial, dormindo de conchinha como antigos amantes.

Agora estava tudo claro. Botei a bola no chão.

***

E, como vocês sabem, chutei pra fora.

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Postado por: Marcos Abrucio

Homem a homem

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JOHN BROWN, narrador escocês: Desculpe, eu não costumo ser assim tão piegas. Mas não há dúvidas, senhoras e senhores, de que nesta noite assistimos à História sendo escrita bem na nossa frente — uma pena que com tintas tão tristes.

Este jogo, que valia uma vaga para a repescagem das eliminatórias da Copa do Mundo, passou a significar muito mais para todos os que participaram dele. Alan Rough e Davie Cooper, por exemplo. Acabo de vê-los subindo no ônibus do time. Jock Stein colocou esses dois em campo no segundo tempo e, com muita coragem e nenhum pingo de hesitação, eles acabaram salvando a nossa pele. Tinham agora que estar cantando, bebendo, celebrando o belíssimo jogo que fizeram. Mas não: estavam calados, cabisbaixos, as mãos segurando a cabeça, pobres homens. Como todos nós, eles vieram ao Ninian Park, aqui no País de Gales, preparados para a alegria da vitória ou para a decepção de uma derrota, mas nunca para isso. Nunca.

Este é um momento de muita dor, e não só para nós, escoceses; não só para nós, apaixonados pelo futebol; não só para nós, que vivemos profissionalmente dele. Quando um homem morre, todo o drama de uma partida se torna pequeno, ínfimo, e o sentimento da perda fala mais alto. Fala com todos. Com certeza, o mundo inteiro vai se lembrar deste jogo por muitos e muitos an…

***

JIM LEIGHTON, goleiro escocês: Com certeza, um dia para esquecer. Deus me livre. Quero apagar para sempre o que eu vivi nesse estádio. Não tenho mais nada a fal…

***

ALAN ROUGH, goleiro reserva escocês: Ainda não consigo entender muito bem o que aconteceu, sabe? Digo, tenho 34 anos, quase aposentado, não era nem para eu estar aqui. Eu engordei, já tinha desistido da seleção. Jock Stein disse que só me convocou porque a senhora dele sugeriu. Ele precisava de um goleiro reserva e não tinha ideia de quem escolher. Aí ela disse: “Eu gosto daquele Alan Rough.” E ele me chamou! “Agradeça à minha mulher”, ele me falou na concentração.

Não esperava jogar hoje. Jim Leighton é um grande goleiro. Há três anos ele é o titular, desde o fim da Copa de 82. Mas com pouco mais de dez minutos, Gales já tinha feito um gol. Eu estava no banco e vi que tinha alguma coisa errada com o Jim. Teve um cruzamento que ele simplesmente deixou passar, como se não tivesse visto a trajetória da bola. No fim do primeiro tempo, ele passou pela gente parecendo uma criança que tinha encontrado um fantasma embaixo da cama.

No intervalo, nós, os reservas, não descemos para o vestiário. Era para fazermos um aquecimento leve, mas não podíamos usar o gramado: uma banda militar ficava andando pelo campo, pra lá e pra cá. Então Davie Cooper e eu inventamos um jogo: ficamos um de cada lado da cancha chutando a bola por cima da cabeça dos músicos e vendo quantos chapéus conseguíamos derrubar. Foi engraçado.

Aí o fisioterapeuta chegou correndo, mandando eu descer. “O Jim está fora!”, ele gritou. Achei que era brincadeira, mas o cara tinha a expressão tão desfigurada que acabei indo. Jock estava em pé na área dos chuveiros, pálido, pensativo. Alex Ferguson, o assistente técnico, mandou eu vestir as luvas. Eu teria que jogar. “Sério?”, eu perguntei. O treinador veio andando devagar até chegar a menos de um palmo do meu nariz. Disse baixinho: “Conto com você, Alan.”

Respirei fundo, botei a luvas bem apertadas nas mãos e saí do vestiário de cabeça erguida. Olhei no fundo dos olhos daqueles milhares de galeses e me senti confiante como nunc…

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***

DAVIE COOPER, atacante reserva escocês: Alan, Alan. Quase se borrou quando soube que jogaria… Eu desci para o vestiário com ele e levamos um susto. Jock Stein estava vermelho, berrando como um capitão viking. Ninguém entendia o que ele falava. Estava puto da vida com o Jim. Claro, o maldito goleiro tinha tido a carreira inteira para contar que era míope, deixou para contar agora, no meio de uma partida decisiva? Tenha dó.

O pessoal me contou depois: ele chegou falando que tinha perdido uma das lentes de contato, por isso estava deixando passar as bolas. Não estava vendo direito! “Lente? Você usa lente?”, alguém perguntou. E aí ele disse que nunca tinha contado a ninguém, com medo de prejudicar a carreira. E prejudicar a gente, ele não pensou? Pior: ele não tinha uma lente reserva. “Mas eu tenho um goleiro reserva!”, gritou Jock. E mandou chamar Alan Rough.

Alan estava com os olhos arregalados. Jock foi andando devagar até ele e falou quase sem abrir a boca: “Você vai entrar, seu gordo filho da puta”. O cara botou as luvas correndo e subiu para o campo. Passou os 45 minutos seguintes tremendo, torcendo para a bola nem chegar perto. Sorte que Gales ficou enrolando no segundo tempo. Só tocando de lado.

Mas ainda estávamos fodidos, né. O resultado era dos caras. E o nosso melhor jogador, Kenny Dalglish, estava na arquibancada, machucado. Faltando uns trinta minutos para o jogo acabar, Jock me botou em campo. E eu resolvi a parada.

Corri, driblei, chutei, infernizei a defesa dos caras até uma bola bater na mão de um zagueiro. Pênalti. Na hora, pedi para bater. Gol. Ainda faltavam uns dez minutos, mas a gente se fechou. A vaga era nossa. Foi lind…

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***

KENNY DALGLISH, atacante escocês (contundido): Foi horroroso, cara. Que jogo horroroso. Vendo de fora, deu para sentir um pouco a merda que é torcer para essa seleção! A gente deu um rabo tremendo. Se aquela bola não batesse na mão do zagueiro, não faríamos um gol nem se o jogo durasse uma semana.

E quase que o Davie Cooper perde o pênalti. Ele nem queria bater, na verdade, mas os outros dez caras se esconderam. Teve gente que fingiu amarrar o tênis e ficou lá abaixado. Davie não teve alternativa senão pegar a bola e chutar. No fim, foi aquele sufoco. Dava para ver o Jock sem cor, sem expressão. Parecia um peru de Natal antes de entrar no forno. Acabou o jogo, conseguimos um lugar na repescagem — e nem assim deu para comemorar. Tem coisas que só acontecem com a Escócia, mesm…

***

MIKE ENGLAND, treinador galês: Eram 43 minutos do segundo tempo, e o juiz apitou uma falta. Jock Stein achou que era o apito final e veio em minha direção, com a mão estendida, para me cumprimentar. Jock era assim: duro, mal-humorado, mas leal até os ossos. “Mantenha a dignidade”, era o que sempre falava.

No meio do caminho, ele tropeçou. Antes de cair, o pessoal segurou o corpo dele. Parecia estar sofrendo um ataque. Os médicos o levaram para os vestiários. Ele nem viu o jogo acabar. Morreu nos vestiários. Depois, Ferguson me disse que ele tinha tido um edema pulmonar. Disse também que ele tinha parado de tomar seus remédios, com medo dos efeitos colaterais. Jock queria estar 100% focado nesse jogo.

Foi muita pressão para ele. A semana inteira só se falava nesse jogo, na Grã-Bretanha inteira. A televisão estava transmitindo ao vivo desde manhã. E todo mundo criticando o homem, dizendo que seria uma vergonha a Escócia não se classificar para a Copa. Agora até a primeira-ministra está fazendo comentários sobre futebol… Gente, é só um jogo. Se Jock ficasse de fora, como no fim eu fiquei, paciência, oras. Esse negócio de “a história está sendo escrita…” me irrita profundamen…

***

JOHN BROWN, narrador escocês: Bem, com este resultado, a Escócia vai para a repescagem, e joga por um empate com a Austrália para ir à Copa do México, no ano que vem. E estaremos lá, não é, Joseph?

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JOSEPH JORDAN, comentarista escocês: Com certeza, John!

Postado por: Marcos Abrucio

Neymar está resfriado

Postado por: Marcos Abrucio

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Neymar, segurando uma latinha de energético numa mão e o celular na outra, estava sentado num canto escuro do vestiário, entre dois parças que esperavam ouvir uma palavra dele. Mas ele não dizia nada; apenas triscava o polegar direito na tela do telefone, empurrando para cima fotos e vídeos do Instagram. Os outros jogadores evitavam chegar perto; tomavam banho rapidamente, botavam grandes fones nas orelhas e partiam para a zona mista, onde repórteres do mundo inteiro estavam esperando. Dava para ouvir o batuque que vinha da arquibancada, os torcedores comemorando a vitória que nos levou à final da Copa. Mas Neymar não foi o craque do jogo, nem sequer entrou em campo: Neymar está resfriado.

Pertinho de mim, conversando com um assistente, estava o técnico da seleção, Tite. Eles escondiam a boca com a mão em concha enquanto falavam. Sabiam que não era uma boa ideia irritar ainda mais o craque do time. Neymar parecia estar a quilômetros de distância, num mundo só dele, desde que, minutos antes da partida, ficou sabendo que não jogaria.

Naquele momento, o médico deu o diagnóstico à comissão técnica: o cara estava baleado, não dava para jogar. Mas um resfriadinho? Resfriadão, disse o doutor: o corpo todo dele doía, os olhos mal abriam. No aquecimento, ele não conseguiu enfileirar nem três embaixadinhas. Não era prudente escalá-lo nessa condição, expô-lo ao ridículo. Havia muitos interesses envolvidos. Se as pessoas soubessem, ficariam enojadas. Ele estava fora.

Mas todos nós sabemos o que aconteceu da última vez em que Neymar não pôde disputar uma semifinal pelo Brasil. Foi preciso entrar em ação um plano arquitetado meses antes para evitar um novo 7×1 caso a nossa principal joia se contundisse.

No seu lugar, entraria aquele que mais se aproxima dele em habilidade, inteligência tática, dribles, passes, fôlego, corte de cabelo e coreografias: eu.

***

Eu sou o Neymar do Playstation. Aquele que você controla com o joystick aí na sua casa. Aquele que aparece sorridente na caixinha do game da Fifa. Aquele que, ano após ano, fica cada vez mais idêntico ao original, com as mesmas reações físicas e emocionais, a mesma criatividade e intempestividade, as mesmas tatuagens e unhas pintadas. Tudo graças ao trabalho duro de programadores e artistas gráficos. E o resultado deste trabalho é que, tempos atrás, eu recebi um telefonema do Tite.

Ele sabia que o Brasil não poderia ficar sem o Neymar novamente na Copa da Rússia. Se alguma coisa acontecesse a ele, e nesse momento eu juro que ouvi um toque-toque-toque do outro lado da linha, precisávamos de um plano melhor do que colocar o Bernard aberto na ponta. Eu jogaria. Tite apelou para os brios presentes nas minhas linhas de programação, dizendo que eu deveria fazer isso pelo meu país — embora eu tenha sido desenvolvido por chineses e indianos a serviço de uma empresa americana.

Eu topei. Afinal, seria a primeira chance de encontrar aquele de quem eu tudo herdei, do nome aos gomos do abdômen. Todos os dias, eu defendo sua fama em jogos disputados no mundo inteiro. Acho que eu merecia um aperto de mão, um abraço, quem sabe uma foto com nós dois, lado a lado, fazendo o sinal de “É Tóis” com o braço. Algo assim, sabe?

***

Neymar não podia saber do plano, sob o risco de ficar melindrado (lembram o que ele fez com o Cavani?). Então eu passava os dias treinando separado, escondido da imprensa, da torcida e do Neymar. Estava sempre a postos. A chance veio quando, na véspera da semifinal, ele passou a noite sem camisa, gravando um comercial para a Nike a ser exibido, se o Brasil for campeão, no primeiro intervalo depois da final. Acordou tossindo.

Os outros jogadores não ficaram preocupados quando eu apareci no vestiário, já de uniforme. Eles conheciam meu potencial: passavam a noite jogando videogame no quarto, sabiam que eu chamo a responsa, que eu sou moleke zika que nem ele. Já Neymar estrilou. Quem é esse comédia, perguntou. Ficou me medindo, não quis me cumprimentar. Ameaçou contar tudo no Twitter, mas seu pai apareceu e o convenceu a ficar quieto (em troca da permissão de comprar um Porsche novo). Tive que driblar o roupeiro e me jogar no chão pedindo pênalti para ele se convencer que ninguém desconfiaria de nada. Por fim, sentou-se em um banco e não saiu de lá até o fim do jogo.

***

Fiz dois gols. No primeiro, vim driblando desde o meio de campo e chutei na saída do goleiro, como acontece quando alguém pressiona o quadrado e o R2 simultaneamente. O segundo foi de pênalti, que não deixei o Philippe Coutinho bater. Briguei com um zagueiro e por pouco não fui expulso. Quando o jogo estava decidido, passei o pé por cima da bola levei uma voadora que quase quebrou minha perna. Rolei várias vezes no chão. Ou seja, ninguém desconfiou de nada.

***

O jogo acabou, ganhei o prêmio de melhor em campo, dei entrevistas em espanhol meio atrapalhado, acenei para a galera. Fui o último a entrar no túnel. Esperava uma chuva de abraços e cumprimentos, principalmente dele, mas, no lugar disso, encontrei um climão. Meus companheiros nem olhavam para mim, só o Philippe Coutinho, que me olhava com raiva. Como eu disse, também não falavam com Neymar, que estava do outro lado do salão, com cara de poucos amigos. Tite disse ao meu ouvido: melhor tu ir pro hotel, depois a gente conversa. Não estava entendendo nada.

O lugar já estava quase vazio quando Neymar ergueu os olhos na minha direção. Veio andando devagar, sob protestos dos parças: deixa pra lá, Ney. O que é isso aqui, ele perguntou. E me mostrou o celular.

Era uma foto minha com a Bruna Marquezine. Eu posso explicar, disse a ele e repito a vocês. Eu tinha cruzado com ela há pouco na saída do campo. Não imaginava que ela já iria postar assim, e todo mundo veria tão rápido. Às vezes até eu fico deslocado com tanta modernidade. Ela veio me dar parabéns — te dar parabéns, Neymar. E dizer que queria te encontrar à noite, como nos velhos tempos. Ela quer você de novo, parça.

Neymar ficou parado. Olhou para mim com o canto do olho e sorriu. E se foi.

***

Mas teve algo que eu não disse a ele:  Bruna me segurou pelo braço e comentou que havia visto algo diferente em mim. Estava mais humano, mais sensível, mais maduro. Um Neymar diferente, ela não sabia explicar. Por isso, queria me ver de novo. Hoje à noite. Como nos velhos tempos.

Estarei a postos. Vai que o resfriado piora.

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100 x 1

Postado por: Marcos Abrucio

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A diferença entre o número 5100 da avenida Francisco Matarazzo e o Continente Perdido de Atlântida é que Atlântida até pode estar em algum lugar, vai saber. Já o 5100 da Francisco Matarazzo, não. Eu e um motorista da Folha de S. Paulo passamos quase três horas procurando esse endereço, embaixo de muita chuva e no meio de muito trânsito, e podemos garantir: ele não existe.

“Perdido” é uma boa palavra para me descrever naquela manhã de segunda-feira (“encharcado” e “emputecido” também são fortes concorrentes). Primeiro, claro, por eu estar preso em um carro que virou barco em um mar de bueiros entupidos na Água Branca, a Atlântida paulistana, sem conseguir achar uma maldita escolinha de futebol. Mas a verdade é que eu já estava perdido antes.

Em um dia de tráfego igualmente caótico no começo daquele ano, eu havia pego dois ônibus e um metrô para chegar à USP e trancar a faculdade de Publicidade e Propaganda. Faltava pouco para terminar. Era só entregar o Trabalho de Conclusão de Curso e pronto: eu concluiria o curso. Congelar a minha matrícula era uma forma de me manter como estudante por mais tempo e assim conseguir um estágio na área — algo tão difícil de encontrar quanto, bem, quanto o 5100 da Francisco Matarazzo. Foi o que fiz, depois de duas horas na condução e cinco minutos na secretaria da faculdade.

O resultado, porém, foi outro: o dia inteiro em casa, assistindo TV de pijamas, sem estudar e sem descolar nenhum emprego. Vendo a situação, e como último recurso antes de mandar um pé na bunda, a minha namorada na época resolveu me ajudar. Ela trabalhava na Folhinha, o suplemento infantil da Folha, e falou com a editora dela. Dias depois, a mulher me ligou:

— Não quer escrever sobre futebol de agora até a Copa?

Estávamos em 2002, ano da Copa da Coreia e do Japão. Assistir e escutar e ler notícias sobre ela era tudo que eu fazia. Claro que aceitei a proposta. Ainda mais que eu sei tudo de futebol, pensei.

Só que não sabia nada de jornalismo. Quando acordei naquela manhã de raios e trovões escandalosos, não me passou pela cabeça, por exemplo, conferir o endereço de onde seria a minha pauta, o Pequeninos do Jockey. O clube de futebol infantil era famoso por revelar craques e disputar torneios internacionais das categorias de base. Era lá que eu ouviria a expectativa dos aprendizes de jogadores para a Copa que começaria dali a três meses. Mas “lá” aonde?

Ainda demoraria alguns anos para eu ter um celular. No bolso do motorista do jornal, ilhado ao meu lado, até que tinha um, “mas só pra receber ligação!”. Depois de muito navegar, conseguimos atracar ao lado de um orelhão. Liguei para a Folha:

— Vocês me mandaram para o Pequeninos do Jockey, na altura do 5100 da avenida Francisco Matarazzo. Mas não tem nada aqui!

— Francisco Matarazzo? Ah, desculpa, era Francisco Morato. Corre pra lá que as crianças estão esperando, desligou a editora.

A avenida Professor Francisco Morato, na zona sul, ficava a mais de 11 quilômetros do orelhão onde eu estava, na zona oeste. Um oceano de distância, ainda mais aquela hora, com aquele trânsito. Levantamos as velas e partimos.

Durante o caminho inteiro, o motorista, testemunha orgulhosa de centenas de coberturas muito mais importantes, assassinatos, manifestações, guerras, invasões alienígenas, sei lá, achava tudo muito engraçado. E riu mais ainda quando chegamos ao clube, por volta do meio-dia. Atrás do campinho alagado, em um pátio apertado, estavam os rostos nada felizes das crianças que esperavam desde as oito da manhã para serem entrevistadas.

Eram cem. Cem rostos de menino olhando para mim como se eu tivesse pessoalmente roubado a sobremesa de cada um deles. Pior ainda estava o humor do coordenador da escolinha.

— Tá todo mundo esperando o repórter, disse o homem de cabelos brancos e agasalho esportivo, um Zagallo dos juvenis.

O motorista quase engasgou de tanto gargalhar:

— Vai entrevistar todos eles, garoto?

Pedi para usar o telefone da diretoria, enquanto me perguntava como conseguiria ser demitido sem ser contratado. Liguei de novo para a redação:

— Por que não pediram para selecionar uns meninos? Tem cem aqui fora me esperando. Como eu vou falar com cem meninos?

Do outro lado, ouvi uma respirada profunda. Silêncio. Depois, à queima-roupa:

— Ué, se vira.

Voltei para a chuva e encarei os garotos de braços cruzados. O motorista e o coordenador técnico já tinham virado compadres, e cochichavam algo enquanto observavam a cena. Falei o mais alto que pude:

— Pessoal! Dividam-se em grupos de dez!

A molecada devia estar acostumada a seguir esse tipo de instrução — mesmo quando ela não fazia o menor sentido, como era o caso naquele momento, ou dita por alguém sem nenhuma autoridade sobre eles, como eu. Só isso explica eles começarem a se movimentar e se juntar em pequenos grupos.

Na primeira rodinha, já percebi que os garotos eram quase todos pobres, o estereótipo do futuro jogador que, assim que se torna famoso, aparece no Faustão e chora quando vê sua história triste retratada na tela. Eram também quietos e desconfiados, característica comum a entrevistados mirins de todas as origens, como fui descobrir em pautas seguintes.

A sorte foi que o tema ajudava. Comecei perguntando para qual time cada um deles torcia. São Paulo, Corinthians? E você? E você aí do outro lado? Depois, quis saber que jogador do seu time eles gostariam que estivesse na seleção. Surgiram as primeiras risadas e provocações entre eles, e logo as declarações começaram a pingar. Fui anotando tudo no meu caderno. Estava gostando daquilo.

Meia hora depois, terminei o grupo inicial. Faltavam agora só nove rodinhas, ou mais quatro horas e meia, seguindo aquele ritmo. O coordenador se aproximou dos garotos:

— Quem já falou pode almoçar.

Aqueles meninos estavam me esperando desde de manhã sem comer. Como assim?

— Os outros não podem ir comendo também?

— Não, depois de comerem eles pegam o ônibus pra casa, esbravejou o homem, agora mais parecido com o Dunga que com o Zagallo.

A lógica do homem era absurda, como tudo naquele dia, naquele ano. Os garotos não podiam esperar mais quatro horas e meia; arranquei algumas folhas do meu caderno e distribui entre eles.

— Galera, escrevam qual deveria ser a escalação do Brasil, que jogos vocês querem ver e como vão fazer para ficarem acordados de madrugada.

Enquanto eu tentava adiantar o trabalho, chegou o fotógrafo escalado para registrar a matéria. Olhou desolado para o campo inundado. Depois, perguntou quem eram os personagens.

— Esses, apontei para o cardume de minicraques.

Ele riu baixinho. Jurei tê-lo visto trocando olhares com o motorista da Folha, que agora filava o almoço da garotada. Então chamou meia-dúzia de meninos, pediu para eles chutarem algumas bolas entre os lagos do gramado e saiu clicando. Menos de vinte minutos depois, o trabalho dele estava terminado.

O meu, ainda não. Tentei ser o mais rápido possível, mas ainda ouvindo ao menos uma palavra de cada garoto. Queria que sentissem que a espera tinha valido a pena. Ah, você quer ver os jogos da Inglaterra? Por causa do Beckham, né? Ah, vai dormir de dia e ficar acordado à noite? E a escola? Era quase três da tarde quando dispensei a última criança faminta.

O coordenador me chamou sem muita convicção para almoçar. Recusei, embora morrendo de fome. Não queria atrapalhar ainda mais a formação dos novos Ronaldinhos, Romários e Rivaldos. A chuva continuava, e o motorista roncava feito um navio no banco rebatido do carro. Cheguei em casa no começo da noite.

Mais tarde, olhei o calhamaço de páginas preenchidas pelos meninos. Juntei com as minhas anotações amolecidas de tão úmidas e vi em minhas mãos um verdadeiro dossiê sobre o que a nova geração do futebol brasileiro esperava da Copa do Mundo de 2002. Liguei mais uma vez para o jornal e perguntei quantas linhas eu poderia escrever.

— Ah, umas vinte.

O equivalente, na Folhinha, a umas duzentas palavras. Duas para cada pequenino do Jockey.

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O medo do ano que vem

Postado por: Marcos Abrucio

24

Seu Domingos entrou no vestiário e foi de um em um com a garrafa de café. Os mais novos recusaram. Eu não. Nesse momento da carreira — os acréscimos — todo estímulo extra é bem-vindo. Virei dois copinhos.

No ano que vem, não vou estar mais aqui, sentado no chão de azulejos, respirando uma mistura de suor, umidade e cheiro de plástico das chuteiras baratas. Não quero mais fazer isso. Já são quase vinte anos. Cada temporada em uma cidade diferente, jogando quarta e domingo, tomando banho gelado, sentando no piso gelado, bebendo café gelado. Porra, seu Domingos!

Preciso fazer alguma coisa diferente na vida do que arrumar a mochila, ir para o estádio, vestir o uniforme, prender as caneleiras e chutar uma bola por 90 minutos. Por isso eu quis parar.

Mentira. Por mim, eu continuava, mas o corpo não aguenta mais. Queria ter o joelho de vinte anos com a cabeça de 39. Hoje eu sei que o futebol é um negócio simples. Duas jogadas antes, já vejo o que vai acontecer. Aprendi onde eu tenho que estar, o que eu tenho que fazer. Mas as pernas não chegam. Não correm, não chutam. Eu vou parar porque a cabeça está com vergonha delas.

A dúvida é: como vai ser depois? Não sei fazer mais nada, não me preparei para mais nada. Meu maior medo na vida é o ano que vem.

Começou o aquecimento. Piques rápidos ao redor de baldes dentro do vestiário apertado. Depois, um bobinho. Eu sempre pulo o aquecimento. Não vou me cansar antes da hora. Fico encostado em uma parede, mexendo devagar as pernas e os pés. Cada articulação tem sua trilha sonora: algumas parecem dobradiças mal-lubrificadas; outras são cascas de nozes sendo trituradas. Às vezes, sou só eu gemendo, mesmo.

Dobrei a perna esquerda. As mesmas dores e estampidos de sempre. Estiquei de novo. Depois, girei o pé no sentido horário. Som de pipocas estourando no micro-ondas. Fiz o mesmo com a perna direita: dobrei, estiquei, girei. Silêncio. Esquisito.

Repeti os movimentos e senti a canela e a coxa quentes, formigando. Mas não um formigamento paralisante, pelo contrário. A perna parecia mais firme. Pensei em falar com o doutor, mas fiquei com medo dele me tirar do time. Pior do que jogar com dor é ficar no banco com dor (e o bicho é pela metade).

Já no gramado, o formigamento e o calor estavam ainda mais fortes. Um milhão de ferroadas em brasa, mas que juntas formavam uma sensação agradável. Será que eu deveria ter falado com o doutor? Nem deu tempo de continuar pensando: o jogo começou e a bola veio para mim. Tentei um lançamento e mandei a coitada no estacionamento atrás da arquibancada de madeira. Não tinha essa força na perna havia muito tempo. Talvez nunca.

O resto, vocês podem ler no jornal da cidade: fiz três gols, todos de fora da área, todos no ângulo, todos de perna direita. No último, a rede até furou.

***

No fim do jogo, as ferroadas passaram, como se as abelhas tivessem voado para longe. Um jornalista de uma rádio local veio correndo e enfiou um microfone gigante na minha boca. Lembrei de quando eu joguei no Morumbi, no Pacaembu, na Vila Belmiro.

Em duas décadas, joguei em quinze times diferentes. Quase todos do interior de São Paulo, mas também alguns do Nordeste e do Paraná. A passagem mais reluzente foi no Bragantino: oito gols nas dez primeiras rodadas do Campeonato Paulista. Olheiro da Rússia na arquibancada. Enfiei o pé em um buraco perto da linha de fundo, torci o joelho e fiquei onze meses parado. O Bragantino não renovou meu contrato.

O jogo seguinte foi fora de casa, em Limeira. O vestiário cheio de goteiras e poças por toda parte. Nem pensar em andar por aí só de meias, e eu adoro andar de meias. Começou o aquecimento e de novo me mantive à parte. Quando as picadas começaram a esquentar minha perna direita, corri para as escadas e fui o primeiro a chegar no campo.

Eu estava cheio de confiança. Mas era uma sensação tão diferente para mim que parecia que eu estava com febre. Escanteio a nosso favor, fiquei na entrada da área, esperando algum rebote. O rebote veio, e peguei na bola de primeira. “Na gaveta!”, gritou o narrador do rádio. O goleiro nem se mexeu.

No intervalo, chamei o seu Domingos, que além de fornecedor de café também era o roupeiro do time. Pedi outra chuteira: a minha tinha rasgado ao meio, de ponta a ponta.

***

A força que enrijecia minha perna um pouco antes de entrar no gramado ia embora após o apito final. Em casa e nos treinos, nada. Só dores, guinchos e estalares. Na outra rodada, o formigamento e o calor voltavam, sem falta. Os gols, também — cadê o olheiro da Rússia agora?

O professor Samuel, nosso técnico, não era nenhum gênio. Todo mundo dava uma risadinha depois de chamá-lo de “professor”. Já estava velhinho e parecia dormir durante os jogos, principalmente à noite. Mas antes de um treino, ele bateu no meu ombro e disse que eu iria jogar mais adiantado. Que eu não precisaria mais voltar para marcar: era só para ficar lá na frente. Depois, ele foi para o banco, sentou e não falou mais nada.

Na partida seguinte, fui sorteado para o antidoping. Na outra e na outra, também. A bola parava, minha perna esfriava e eu já ia em direção ao fiscal. Sabia que seria “sorteado” toda vez. Fiquei amigo dos caras dos frasquinhos. Batíamos um papo e tomávamos uma cerveja até me dar vontade de mijar. Entregava o pote e ia embora. Nunca deu nada em nenhum exame.

***

A Débora, eu conheci na saída de um jogo em casa. Três a dois para nós, fiz o gol da vitória aos 42 do segundo tempo, de fora da área. Como sempre, fui o último a sair, depois das entrevistas, da cerveja e do mijo. No estacionamento, só estava o meu Corsa. Quando abri a porta, pensei que era a hora de falar com o presidente do clube: ele tinha que me dar um aumento, um carro novo, ou então eu me mandava para outro time. Quem sabe no próximo ano eu vou para um time grande?

“Anderson, a patada do Oeste”, disse a mulher atrás de mim, reproduzindo a manchete de um jornal local. Mais alta do que eu, loira tingida, vestia camisa do time, uma calça jeans bem justa e saltos plataforma. Me empurrou para dentro do carro e fechou a porta. Logo estávamos no banco de trás, e não entendi até agora como ela conseguiu tirar tão rápido aquela calça tão justa.

Depois dos treinos e dos jogos, encontrava a moça no estacionamento e íamos a um motel perto da rodovia. A Shirley sacou tudo e deu um jeito de acabar com aquilo. Um dia, depois de uma goleada, cheguei no carro e lá estava ela, em vez da Débora. Entramos no carro e fomos para casa. Não falamos nada a respeito nem ali, nem depois. Não vi mais a loira.

***

Estávamos no vestiário, antes da partida que decidiria o acesso para a primeira divisão. O empate era nosso. “Tem um empresário querendo falar com você depois do jogo”, disse o professor Samuel, sem nenhuma alteração na voz. Os outros estavam se aquecendo, e eu bebia o meu café, de meias.

Mais uma vez, o calor brotou de dentro da minha chuteira direita, subiu pelo tornozelo e envolveu a perna como uma meia-calça. Micropicadas frenéticas ativavam minha circulação com ainda mais força do que nas rodadas passadas.

O jogo foi duro. No intervalo, perdíamos de um a zero, mas eu estava calmo. Dava para ver minha perna pulsando. Dois adversários me marcavam de perto, e a bola quase não chegava em mim. Só fui conseguir chutar em direção ao gol aos 40 do segundo tempo, e foi o que bastou: um a um, placar que nos faria jogar na série A no ano que vem.

O juiz apitou, os jogadores do time e alguns torcedores correram para me abraçar. Eu fiquei parado, olhando para baixo: em vez da perna parar de formigar, ela começou a ficar roxa. Fervia. As picadas haviam se transformado em facadas ininterruptas. Chamei o doutor e saí de campo na maca. Seu Domingos apertava minha mão.

O que aconteceu depois também saiu nos jornais e até no Fantástico: tiveram que amputar minha perna direita para salvar minha vida. Os médicos não sabem explicar o que aconteceu. Minha carreira acabou junto com aquele campeonato. Como era previsto.

Eu estou bem. Só continuo com a mesma dúvida: como vai ser depois?