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Os Renegados da Copa (Parte I)

O telefone tocou, mas ele não atendeu. Era de se imaginar que um jogador de futebol não vá ficar grudado em seu celular durante o único mês de férias que tem no ano. Pior: durante o único mês de férias que nenhum jogador que ter a cada quatro anos.

Na terceira tentativa, no entanto, uma voz meio grogue veio do outro lado:
Bonjour, qui parle?
– Karim, é Jürgen. Precisamos de você.

Benzema estava em algum lugar do Mar Mediterrâneo, descansando com sua família após conquistar o tricampeonato da Champions League com o Real Madrid. Mas aquela mensagem direta e tipicamente alemã, vinda de um dos maiores camisas 9 que ele havia visto jogar, o deixou curioso.

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“Xá co papai”

Do outro lado do telefone, Jürgen Klinsmann explicou o porquê do telefonema. E, mesmo sendo bávaro até o último fio de cabelo loiro, deixou transparecer seu lado emocional de ter sido demitido pela Federação Norte Americana dois anos antes da Copa. O que fez o multicampeão e multicriticado atacante francês a se reconhecer – e aceitar o convite.

Outra coisa pesou na hora do oui final. Dias antes, dois compatriotas seus haviam recebido o mesmo telefonema e aceitado o mesmo convite: o jovem Rabiot e o já experiente Ribery.

A Torre de Babel em que se transformaram os grandes clubes europeus havia ajudado demais o projeto até ali. Sem sair do submundo dos vestiários, Ribery trouxe de Munique o lateral-direito Rafinha, que mandou um WhatsApp para Turim e convocou o canhoto Alexsandro, que por sua vez encontrou o belga Naiggolian no aeroporto de Roma e o colocou na parada.

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O belo e a fera

Cinco dias depois, a Seleção dos Renegados já contava com Fábregas, David Luiz, Hart, Payet, Rafinha Alcântara, Mustafi e tantos outros. Faltava apenas um nome, certamente o mais difícil de convencer, mas Kilnsmann estava pousando em Los Angeles justamente para fazê-lo.

Não a toa, o atacante que havia disputado três mundiais tinha o suor latente em sua avantajada testa ao tocar a campainha de uma gigantesca mansão em LA. Quando a porta se abriu, não somente uma música alta saiu lá de dentro, como também saiu um alto ser humano com coque samurai na cabeça e um sorriso no rosto. A conversa que prometia ser difícil se mostrou bastante simples e, em um passe de mágica (IBRACADABRA!) estava tudo resolvido.

– Diga ao mundo que Zlatan está dentro.

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Chamou?

Aquele plano havia sido nascido dois anos atrás. Assim que o selecionado dos Estados Unidos sofreu a sua segunda derrota seguida no hexagonal final da CONCACAF e Klinsmann foi demitido pela federação local, seu telefone tocou. Alguém, identificando-se apenas como “Mister”, disse que tinha um plano para abalar a sujeira do mundo do futebol e o queria como treinador.

Em um primeiro momento, claro, o alemão negou. Era contra o seu instinto. Mas após uma reunião com o tal desconhecido em território suíço, sempre neutro apesar de presente na Rússia, ele voltou atrás.

As condições para o projeto se desenrolar eram muito claras:

  • Apenas jogadores de países classificados para a Copa e não convocados poderiam ser chamados (nada de holandeses e italianos, portanto).
  • Quem aceitasse, estava declarando que estaria pronto para jogar uma partida única no dia 21 de julho de 2018.
  • Ninguém seria remunerado, mas receberia as passagens de ida a e volta + hospedagem de uma noite em um hotel 5 estrelas.
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der Kommandant

Essa última regra era pétrea, imutável. Afinal, além de se tratar de atletas muito bem pagos e vindos de todos os cantos do planeta, deveria haver uma única coisa que os unia: o desejo de vingança. Alguns estavam decepcionados, outros bravos, alguns furiosos; mas todos, sem exceção, queriam provar seu valor.

Porque pouco importa o seu salário ou quantas taças existem na sala da sua casa. Atletas não gostam de perder. Nunca. E ficar fora do maior evento esportivo do mundo era uma afronta bem difícil de se engolir.

(Continua…)

Postado por: Rojas

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O Despertar pra Copa*

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Dia frio e seco de outono em São Paulo. Um homem de quase 40 anos desperta do sono, com uma leve dor de cabeça e um mal-estar pelo corpo. Tem aquela sensação de quem dormiu além da conta. Olha em volta e percebe que está em um quarto de hospital. Assim que tenta se levantar – sem sucesso, diga-se de passagem – uma enfermeira se aproxima da cama. Parece espantada por vê-lo acordado e sai pela porta dizendo que vai chamar um médico. Logo ele nota o rosto de um velho conhecido a seu lado no quarto.

– Pô, quem diria que você acordaria bem no dia em que eu tivesse um tempinho pra te fazer uma visita…

– Como assim…?

– Ah, faz tempo que eu tava pensando em dar uma passada, mas o trampo na agência…

– Não, não… Quero dizer, “como assim, acordar…?”

O amigo puxa a cadeira para perto da cama e sua expressão, antes de leveza e alegria, fica pesada e séria.

– Cara, você não lembra? Faz 4 anos que você tá assim…

– Assim como?

– De cama… Sem acordar…

– Eu tava em coma?

– Mais ou menos… Bom, os médicos nunca conseguiram diagnosticar exatamente o que você teve…

– Não entendi. O que aconteceu? Foi acidente?

– É, dá pra dizer que foi… Não gosto nem de lembrar.

– Fala logo ou vou ter um piripaque!

– Outro piripaque não! Espera o médico chegar. Vai que você não pode reviver o que causou o trauma.

– Trauma? É, pode ser…

– Vamos mudar de assunto.

– Tá, tá… Até porque esse papo já tá me dando mais dor de cabeça. Pô, 4 anos, né? Deve ter mudado muita coisa…

– Pois é…

O homem se ajeita na cama enquanto o amigo vai lhe contando as novidades.

– E minha família?

– Todos bem, inclusive a sua sobrinha de 3 anos.

– Eu tenho uma sobrinha de 3 anos?! Caraca! Como ela é? Tem foto pra eu ver?

– Segura a ansiedade que ela tá vindo aí com sua família. Já mandei uma mensagem pra eles.

– Ah, boa. Que baita novidade. O que mais rolou?

– Tanta coisa… Nem sei por onde começar.

– A gente tinha um blog para falar da Copa, né?

– Pois é, tô escrevendo semana sim e outra também pra manter nosso blog ativo.

– Tá no ar ainda? Boa. E a seleção? A última coisa que lembro é que tava aos trancos e barrancos na Copa…

– Mudou muito de lá pra cá. Do que mais você lembra?

– Deixa eu ver… Thiago Silva capitão, o gol contra do Marcelo, o Neymar se contundindo…

– Tem muita gente nova no time, mas o Thiago e o Marcelo tão aí até hoje. E o Neymar foi confirmado com a 10 depois de se recuperar da contusão.

– Nossa, ele ainda tava se recuperando da entrada do Zuñiga?

– Não, tava em tratamento de outra contusão… Aliás, daquele time, o Dani Alves e o Fred tão fora de ação, contundidos.

– Dani Alves seguir na seleção, ok. Mas o Fred “cone”?

– Cara, quanto rancor. O Fred até recuperou o faro de gol depois da Copa.

– Difícil de acreditar… Ele ainda é o camisa 9?

– Não, o 9 é o Gabriel Jesus. E o reserva do ataque é o Firmino.

– Jesus? Firmino?

– Os dois surgiram depois da Copa de 2014 e tão entre os 23 convocados pelo Tite pra Copa na Rússia.

– Ah, o Tite assumiu a seleção depois de 2014. Demorou!

– Demorou mesmo porque quem assumiu depois da Copa foi o Dunga. O Tite só veio em 2016.

– Dunga de novo?! É sério? Não faz sentido algum.

– Desencana de tentar entender. E aí, mais alguma lembrança vem à cabeça?

– Bom, o Brasil tava na semi contra a Alemanha, com Bernard e sem Neymar. Me dava até um desespero…

– Vai com calma aí.

– Peraí, agora eu tô lembrando: o Brasil tava perdendo de lavada! E no primeiro tempo!

– Olha o monitor cardíaco bipando: você tá ficando agitado. E cadê o tal médico que tava vindo? Enfermeira!

– Tá bom, tá bom. Mas me conta o que aconteceu. Tem a ver com meu trauma?

– Então… Você entrou em choque quando o Brasil tomou o terceiro gol e não conseguiu mais ver o resto do jogo. Na verdade, nenhum de nós conseguiu. A gente chamou a ambulância e veio pro hospital com você.

– Que trauma. A Alemanha foi pra final então?

– Sim, os alemães pegaram os hermanos na decisão.

– Argentina finalista?! Com aquele time? Só o Messi se salvava. Deve ter sido outra lavada…

– Pior que não. Teve grande chance de ganhar. O Higuaín perdeu um gol feito quando tava zero a zero. Na prorrogação, a Alemanha fez 1 a 0 e levou o caneco.

– Quem diria, o time que nos massacrou contra a nossa maior rival na final. A torcida deve ter ficado dividida.

– Na verdade, os brasileiros torceram em massa pelos alemães. Nossos vizinhos ficaram bem chateados com isso.

– Os Almeida ficaram chateados?

– Não, os meus vizinhos… Os nossos vizinhos: os argentinos.

– Ah, entendi. Mas depois daquela goleada na semi, dá pra entender por que os hermanos esperavam apoio da nossa torcida.

– Com certeza. Mas a rivalidade falou mais alto.

– Eu não sei o que faria. Acho que não conseguiria torcer pelo time que acabou com nosso sonho do Hexa.

– Foi difícil mesmo.

– Pô, torcer pros “culpados” pela nossa maior derrota em uma Copa jogando em casa…

– É, o Maracanazzo já não detém mais esse título.

– Fora a humilhação de levar 3 a 0 em pleno Mineirão…

– Ih, azedou… Você ainda acha que o jogo acabou 3 a 0? Peraí, que agora eu preciso ter certeza de que alguém tá vindo pra te medicar… Enfermeeeeeira!

*História baseada em fatos bem reais e outros nem tanto pra marcar a volta ao blog após 4 anos.

Postado por: Flavio Tamashiro

Sobre os critérios de convocação do Senhor

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Bem que a moça do tempo tinha dito, Neílson pensou. Na hora do jogo ia cair um dilúvio. Mesmo assim, ele saiu de casa de shorts e chinelo, com o uniforme dobrado dentro da mochila e sem guarda-chuva. Como morava perto do velho estádio, dispensava o ônibus fretado dos outros jogadores e ia sempre a pé para as partidas. No meio do caminho, o aguaceiro o pegou. Chegou correndo e ensopado ao vestiário, lamentando-se de ter esquecido a previsão da apresentadora bonita do jornal. Mas ela estava errada. Aquele aguaceiro que agora Neílson via pela veneziana não era “um” dilúvio, mas “o” dilúvio. Foi o que a figura bonachona, de terno azul-bebê, veio avisar.

“Preciso falar com você, meu querido”, disse baixinho o homem, com sotaque indecifrável, ao meia-esquerda parado em frente à janela.

O vestiário estava quase vazio. Dois funcionários do clube usavam rodos e panos para secar o chão que começava a ser batucado pelas goteiras. Nenhum jogador tinha chegado — a chuva deve ter atrasado o ônibus, que também não era tão novo assim. Capaz de ter enferrujado de vez. Neílson virou-se para o homem. Ele tinha uma espécie de sorriso perpétuo no rosto, cabelos muito loiros, roupa de representante de vendas de alguma marca de sapatos baratos. Só podia ser uma coisa: empresário de jogador. Italiano. Russo, quem sabe. Dos mais mafiosos. Bom, era o que Neílson gostaria que ele fosse.

“Desculpa, agora não posso. O jogo vai começar assim que a chuva der uma parada”, Neílson respondeu.

“A chuva não vai parar. As janelas do céu se abriram.”

Neílson reconheceu aquele tom. Parecia a Renata, sua mulher. De vez em quando, ela falava coisas simples de um jeito difícil. Quando se conheceram, ela disse que “Deus tinha feito o caminho deles virar um só.” Se ele perdia algum jogo, era “um chamamento para renovar a sua fé.” Agora, estava chovendo, e o homem dizia que “as janelas do céu se abriram”.

“Como você sabe que não vai parar?”, perguntou Neílson. “Também trabalha com previsão do tempo, que nem a moça da TV?”

“Com outro tipo de previsões”, respondeu o homem, sempre sorrindo.

“Ah. Achei que você era empresário”, disse o jogador, sem esconder a decepção. “Da Itália.”

“Não, eu vim te levar para mais longe do que a Itália.”

“Rússia?”

“O reino dos céus.”

Ih, Neílson entendeu tudo. Já tinha ouvido aquela conversa muitas vezes durante a carreira.

“Você é dos Atletas de Cristo?”, perguntou.

O homem deu uma gargalhada de vovô em comercial de margarina: “De certa forma, sim.”

Os funcionários do clube agora usavam baldes para levar a água que subia dos ralos. Lá fora, nenhum torcedor nas arquibancadas de cimento ensopado. Ao fundo, Neílson ouviu de um radinho a voz abafada de um repórter falando algo sobre as chuvas, pontos de alagamento, enchentes. Março era sempre assim. Será que a Renata tinha conseguido chegar em casa? Ela trabalhava como caixa em um supermercado do centro, às vezes ficava duas horas no trânsito, mas nem ligava, ia lendo a Bíblia.

O homem percebeu que tinha perdido a atenção de Neílson, parou de rodeios e foi direto ao ponto: aquela chuva que encharcava o gramado judiado do Santo Antônio F.C. ainda duraria quarenta dias e quarenta noites e mataria toda forma de vida que não estivesse protegida em uma arca. Uma arca mais moderna, com cabines individuais e entretenimento a bordo, mas ainda uma arca. Quem estivesse fora dela, já era.

“Por que tanta violência?”, disse Neílson, com a boca entreaberta.

“O Senhor viu que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra. Ela estava corrompida diante da face de Deus. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem.”

“Caramba, Ele tá nervosão, hein?”

“Tá”. Pela primeira vez, o sorriso some da expressão do homem de terno. “Peraí, você está fazendo pouco das minhas palavras? Não acredita na vontade de Deus?”

“N’Ele eu até acredito”, defendeu-se Neílson, da mesma maneira com que respondia aos Atletas de Cristo e às conversas da Renata. “O que está difícil de acreditar é nessa história de arca aí…” Um relâmpago iluminou o céu e o campo ficou escuro. Aparentemente, os refletores se apagaram. Nenhuma novidade, o clube estava sempre com a conta de luz atrasada. Mas Neílson ficou mais sério: se os túneis do centro encheram, a Renata podia estar presa em algum ônibus.

O enviado de Deus entendeu que sua abordagem não estava adequada. Como Neílson acreditaria no que ele estava falando? Precisava dar a ele uma prova. Uma prova concreta.

“Você está preocupado com a Renata, não é?”, disse o homem.

“Você conhece a minha mulher?”. Neílson não era de ter ciúmes, mas dava para perceber um incômodo na sua voz.

“Na minha função, eu tenho que conhecer todo mundo. A Renata está bem. Fale você mesmo com ela.”

Um ruído como o de um choque elétrico às costas de Neílson o fez virar. Sua mulher estava ali.

“O que aconteceu? Neílson, onde eu tô?”, Renata perguntou, alarmada.

O homem de terno azulzinho tomou a frente: “Eu, na qualidade de mensageiro do Senhor, trouxe você para o lado do seu marido. Estava dizendo para ele que esse mundo vai se acabar em água, e não é maneira de dizer, não.” Um halo amarelado parecia envolver sua cabeça, mas era a lâmpada do vestiário que começava a falhar. Os empregados que tentavam manter o vestiário seco tinham sumido e a água agora chegava aos tornozelos de Neílson, sua mulher e o tal mensageiro.

Renata se ajoelhou na água gelada e ergueu os braços para o teto infiltrado do vestiário: “Sabia que esse dia ia chegar, Senhor. Pode me levar! Estou pronta para ser sacrificada! Pode sacrificar o Neílson também!”

“Pô, Rê…”, Neílson protestou.

“Calma, Renata”, disse o outro homem, ajudando a mulher a se levantar. “Eu vim aqui justamente para dizer ao Neílson que ele vai ser poupado.”

O jogador e sua mulher se entreolharam e falaram ao mesmo tempo: “Como é que é?”

“A ideia inicial era fazer como no primeiro dilúvio”, foi explicando o homem, como se virasse as páginas de um catálogo de vendas. “Salvar os animais, de dois em dois. Faz uma semana que eles foram convocados, já estão lá na arca. Mas como o Senhor queria preservar tudo que o mundo tinha de bom para a eternidade, tivemos que adicionar alguns outros seres.”

Ele contou que, embora decepcionado com a raça humana em geral, Deus também tinha escolhido para povoar o paraíso pintores, poetas, músicos, militantes da paz mundial e contra o aquecimento global, a Fernanda Montenegro, o Paulinho da Viola e o Dráuzio Varella, entre outros. O que a Terra tinha de melhor. Mas esse mundo não seria perfeito, continuou a figura celestial, sem um futebolzinho no domingo — dia em que o Senhor gostava de dar uma relaxada.

“Então eu fiquei de chamar dois goleiros, dois zagueiros-centrais, dois volantes, dois centroavantes… bem, você entendeu. De dois em dois, sempre. Para montar dois times, sabe?”

“E eu?…”, inclinou a cabeça Neílson, cada vez mais atônito.

“Meia-esquerda de um dos times.”

“Caramba, não tinha meia-esquerda melhor no mundo do que eu? E o Messi?”

“O critério não foi só chamar bons jogadores, Neílson. Queríamos pessoas boas.”

“Mas eu, bom? Eu nem sou Atleta de Cristo!”

“Pois é”, sorriu o homem, com o máximo de maldade que era permitida a alguém como ele. Então descreveu a vida e a carreira de Neílson: nunca tinha traído, nunca tinha roubado, nunca tinha entregado um jogo por dinheiro, avisava o juiz quando cometia alguma falta, jogava a bola para fora quando o adversário estava caído. Muitas vezes a torcida o odiava por isso, mas o pessoal lá de cima era fã dele. Seu lugar era no céu, ou melhor, no campo dos céus, ao lado dos mais puros e decentes jogadores.

“O Marcelinho Carioca também foi chamado?”, Neílson perguntou.

“Em princípio não, mas ninguém bate faltas como ele, então o Senhor fez questão. Você vem, Neílson?”

Uma coluna de água entrou pela janela. O mundo inteiro devia estar submergindo naquele momento. Neílson olhou para a mulher. Ninguém mais do que ela merecia a redenção final. “E a Renata?”, perguntou.

O homem de terno fez um gesto pedindo calma e começou a mexer no bolso. Tirou de lá um caderninho com uma caneta presa à capa. Folheou algumas páginas até encontrar o que procurava: “A Renata tá na lista de espera, mas posso dar um jeito de botar vocês na mesma cabine, sem problema!”

Neílson virou de novo para a mulher, dessa vez com os olhos apertados: “Por que você estava só na lista de espera?”

Ela gaguejou, baixou os olhos e foi salva pelo representante divino, que apontou a água que já batia na barriga deles: “Gente, estamos meio sem tempo…”

Silêncio entre o jogador e a mulher. Para acabar com aquilo, o parça de Deus pegou os dois pelos braços e falou: “Neílson, a Renata vai ter quarenta dias e quarenta noites para te explicar. Vamos!”

E desapareceram do vestiário, bem na hora em que a água tomou conta de tudo.

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Postado por: Marcos Abrucio

O consertador de maxilares

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6/3/1994

O pai chegou bem cedo para pegar a gente. Eu já estava acordado, mas o Henrique não levantava de jeito nenhum. É muito engraçado quando ele tá com sono, fala umas groselhas sem sentido. Eu disse que estava na hora, e ele gritou de volta: “Mas eu só tenho sete anos!”, como se estivesse sendo levado para a prisão, e não para ver o jogo do nosso time. Só despertou, ainda com cara de filhote de zumbi, quando o pai entrou no quarto e disse baixinho que ia comprar sorvete para a gente no intervalo do jogo.

Antes de sairmos, a mãe nos fez prometer as coisas de sempre: que vamos tomar cuidado com o sol, ficar longe das brigas, não falar palavrão, não comer porcarias e voltar na hora marcada. Ela pede essas coisas olhando para a gente, mas eu sei que é com o pai que ela está falando. Tanto que é ele que sempre responde: “Combinado, Marina.”

Nosso time não anda muito bem. Faz três sábados que a gente não vê os caras fazerem um golzinho sequer. Meu pai fala que os jogadores estão de sacanagem, querem derrubar o técnico. Que parecem uns jogadores de pebolim, paradões. “Filhos da puta!”, ele grita sem tirar o cigarro da boca, o meu irmão grita igual, e a gente dá risada. Todo mundo em volta dá risada.

O jogo foi duro, como sempre. Muita marcação, gramado ruim, sol forte. Meu pescoço ficou todo vermelho, mas a mãe não percebeu. Zero a zero no primeiro tempo. Fomos ao banheiro, meu pai ensinou o Henrique a mijar sem abaixar a bermuda e deixar a bunda de fora. Manezão. No começo do segundo tempo, quando terminávamos de chupar nossos picolés, o meu de coco, o do Henrique de chocolate, teve um escanteio para nós. Nosso lateral bateu, o goleiro deles espalmou, a bola sobrou para o Zezão, o volante que o pai chama de “Tanque”, não de lavar roupa, de guerra, mesmo, e ele soltou uma bomba.

Aí foi muito horrível.

A bola foi direto no queixo do zagueiro adversário, que caiu na hora. A gente levantou para ver o cara estendido no chão e, juro, ele estava com o rosto todo torto. A bola deslocou o maxilar dele, e a cabeça ficou parecendo um “J”. Rolou um desespero entre os jogadores, entraram correndo os médicos dos dois times para acudir o zagueiro, mas ele não acordava. O Zezão foi até o juiz com os braços para o alto, acho que para não ser expulso. Mas ele seria expulso por quê? Por ter matado um adversário com uma bolada?

Todo mundo ficou nervoso. O Henrique começou a chorar muito. Eu me segurei. Sou oito anos mais velho do que ele, tenho que dar o exemplo. Meu pai pegou o moleque no colo. O jogo já estava parado há uns dez minutos quando veio um homem lá do vestiário do nosso time. Gordinho, barbudo, um rabinho de cavalo atrás da cabeça. Ele tinha os olhos meio fechados, era tão calmo que parecia assoviar. Estranho. Há anos a gente vai no estádio e nunca tinha visto aquele cara antes. E ele ainda mancava de um jeito engraçado, o pé direito girando, como se estivesse encerando o chão. Foi tropicando em direção ao bolinho de jogadores.

A gente foi alguns degraus para cima na arquibancada de cimento para ver melhor o que ia acontecer. O homem ajoelhou ao lado do cara desacordado. Os médicos se levantaram e abriram os braços, para isolar a área, e os jogadores todos deram um passo para trás. Então o gordinho agarrou a cabeça do zagueiro, empurrou com tudo o queixo dele para um lado enquanto puxava a parte de cima da cabeça para o outro. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. Como se ele fosse um profissional daquilo, um consertador de maxilares. Parecia a mãe abrindo o vidro de azeitonas, só que com menos esforço.

O estádio ficou em silêncio durante um instante e então o zagueiro do outro time, que depois eu descobri que chamava Dorival, levantou a cabeça. Aí se sentou no gramado, tossiu um pouco e passou a mão no queixo, como o meu pai quando termina de fazer a barba. Estava inteiro. Logo o jogo começou de novo.

E o legal foi que, uns dez minutos depois, fizemos um gol e o time ganhou pela primeira vez em várias rodadas. Saímos cantando do estádio. Almoçamos no rodízio de pizzas, passamos a tarde no meu pai jogando videogame e comendo pipoca enquanto ele fumava e lia jornal. Chegamos à noite em casa. O Henrique veio no colo do pai, dormindo.

***

31/8/2016

Cheguei na cidade ontem e fui direto para o hospital. Nem vi minha mãe. Eu e o Henrique acabamos passando a noite lá, porque o médico visita os quartos às 7h e queríamos estar por perto. Meu irmão me deixou deitar no sofá. “Eu durmo em qualquer lugar, mesmo”, ele disse. Verdade. Ele logo estava roncando sentado em uma cadeira dura, e eu não fechei os olhos em nenhum minuto.

Fiquei boa parte do tempo olhando para o meu pai todo espetado de sondas, respiradores e canos que eu nem sei para o que servem. Queria falar com ele, embora não soubesse o quê. Deveria ter falado tempos atrás, para ele parar de fumar — e então receber uma risada alta como resposta.

A televisão ficou ligada sem som a noite inteira. Lá pelas quatro, botei no canal de esportes. Estava passando um VT do jogo do último sábado do nosso time. Assisti como se fosse a enésima reprise de um filme querido. Foi difícil acompanhar os jogos nesses anos todos. O time na terceira divisão, eu morando fora. A internet sempre mandava notícias, os últimos resultados, os (poucos) acessos e os (muitos) descensos. Mas ver assim um jogo inteiro, faz tempo que eu não via.

O estádio continuava igual, talvez com a pintura mais descascada. O time também não havia mudado muito, um misto de moleques loucos para jogar na capital e alguns veteranos que haviam rodado todas as divisões até chegar lá. Jogo feio, a bola pulava feito pipoca nos buracos do gramado (gramado?). No fim, zero a zero, a imagem dos torcedores xingando no mute. As vaias que eu não ouvia poderiam ser do meu pai, se ele não estivesse em coma desde a semana passada.

Às 6h30, eu saí para tomar uma água. Fiquei um tempo no corredor, olhando as primeiras luzes do dia entrando pela janela do fundo. Engraçado, não importa se você está numa praia de Fernando de Noronha, às margens do Sena ou num corredor de um hospital velho de uma cidade do interior, o sol nasce bonito em todo lugar. Um homem limpava o chão com um esfregão, movendo-se de lá pra cá sem pressa. Era gordinho, barbudo, rabo de cavalo atrás da cabeça. Quando girou o corpo para trazer o esfregão pingando para o meu lado, vi os olhos semicerrados, tranquilos como os de mestre de ioga. Veio manquitolando e limpando, manquitolando e limpando. Era ele.

“É ele”, falei para o Henrique, chacoalhando seus ombros para acordá-lo. Comecei a falar que eu tinha visto o cara daquele jogo de mais de vinte anos atrás, aquele que salvou o dia de todos nós quando tudo parecia perdido, o homem capaz de desentortar um rosto sem fazer força, era ele, só podia ser. Mas as palavras saíram meio desconexas, o Henrique estava sonado, então percebi que talvez ele fosse pequeno demais na época para lembrar e que provavelmente também eu estivesse com sono demais para ter qualquer certeza. Meu irmão não entendeu nada, claro.

Puxei-o para fora do quarto: “Vem ver”. No corredor, quem se aproximava era o médico do meu pai. Congelamos. Atrás dele, lá no fundo, o consertador de maxilares continuava dando um jeito no piso e assoviava baixinho. Reconheci a melodia: era o hino do nosso time.

Tudo isso misturado, por alguma razão, me fez ficar calmo. Não importava o que o médico falaria depois de examinar o meu pai. Não importava sequer o que aconteceria com o velho dali para frente. Eu sabia que ele estaria bem.

Virei para o meu irmão: “Vamos no jogo semana que vem?”

Postado por: Marcos Abrucio

Homem a homem

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JOHN BROWN, narrador escocês: Desculpe, eu não costumo ser assim tão piegas. Mas não há dúvidas, senhoras e senhores, de que nesta noite assistimos à História sendo escrita bem na nossa frente — uma pena que com tintas tão tristes.

Este jogo, que valia uma vaga para a repescagem das eliminatórias da Copa do Mundo, passou a significar muito mais para todos os que participaram dele. Alan Rough e Davie Cooper, por exemplo. Acabo de vê-los subindo no ônibus do time. Jock Stein colocou esses dois em campo no segundo tempo e, com muita coragem e nenhum pingo de hesitação, eles acabaram salvando a nossa pele. Tinham agora que estar cantando, bebendo, celebrando o belíssimo jogo que fizeram. Mas não: estavam calados, cabisbaixos, as mãos segurando a cabeça, pobres homens. Como todos nós, eles vieram ao Ninian Park, aqui no País de Gales, preparados para a alegria da vitória ou para a decepção de uma derrota, mas nunca para isso. Nunca.

Este é um momento de muita dor, e não só para nós, escoceses; não só para nós, apaixonados pelo futebol; não só para nós, que vivemos profissionalmente dele. Quando um homem morre, todo o drama de uma partida se torna pequeno, ínfimo, e o sentimento da perda fala mais alto. Fala com todos. Com certeza, o mundo inteiro vai se lembrar deste jogo por muitos e muitos an…

***

JIM LEIGHTON, goleiro escocês: Com certeza, um dia para esquecer. Deus me livre. Quero apagar para sempre o que eu vivi nesse estádio. Não tenho mais nada a fal…

***

ALAN ROUGH, goleiro reserva escocês: Ainda não consigo entender muito bem o que aconteceu, sabe? Digo, tenho 34 anos, quase aposentado, não era nem para eu estar aqui. Eu engordei, já tinha desistido da seleção. Jock Stein disse que só me convocou porque a senhora dele sugeriu. Ele precisava de um goleiro reserva e não tinha ideia de quem escolher. Aí ela disse: “Eu gosto daquele Alan Rough.” E ele me chamou! “Agradeça à minha mulher”, ele me falou na concentração.

Não esperava jogar hoje. Jim Leighton é um grande goleiro. Há três anos ele é o titular, desde o fim da Copa de 82. Mas com pouco mais de dez minutos, Gales já tinha feito um gol. Eu estava no banco e vi que tinha alguma coisa errada com o Jim. Teve um cruzamento que ele simplesmente deixou passar, como se não tivesse visto a trajetória da bola. No fim do primeiro tempo, ele passou pela gente parecendo uma criança que tinha encontrado um fantasma embaixo da cama.

No intervalo, nós, os reservas, não descemos para o vestiário. Era para fazermos um aquecimento leve, mas não podíamos usar o gramado: uma banda militar ficava andando pelo campo, pra lá e pra cá. Então Davie Cooper e eu inventamos um jogo: ficamos um de cada lado da cancha chutando a bola por cima da cabeça dos músicos e vendo quantos chapéus conseguíamos derrubar. Foi engraçado.

Aí o fisioterapeuta chegou correndo, mandando eu descer. “O Jim está fora!”, ele gritou. Achei que era brincadeira, mas o cara tinha a expressão tão desfigurada que acabei indo. Jock estava em pé na área dos chuveiros, pálido, pensativo. Alex Ferguson, o assistente técnico, mandou eu vestir as luvas. Eu teria que jogar. “Sério?”, eu perguntei. O treinador veio andando devagar até chegar a menos de um palmo do meu nariz. Disse baixinho: “Conto com você, Alan.”

Respirei fundo, botei a luvas bem apertadas nas mãos e saí do vestiário de cabeça erguida. Olhei no fundo dos olhos daqueles milhares de galeses e me senti confiante como nunc…

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***

DAVIE COOPER, atacante reserva escocês: Alan, Alan. Quase se borrou quando soube que jogaria… Eu desci para o vestiário com ele e levamos um susto. Jock Stein estava vermelho, berrando como um capitão viking. Ninguém entendia o que ele falava. Estava puto da vida com o Jim. Claro, o maldito goleiro tinha tido a carreira inteira para contar que era míope, deixou para contar agora, no meio de uma partida decisiva? Tenha dó.

O pessoal me contou depois: ele chegou falando que tinha perdido uma das lentes de contato, por isso estava deixando passar as bolas. Não estava vendo direito! “Lente? Você usa lente?”, alguém perguntou. E aí ele disse que nunca tinha contado a ninguém, com medo de prejudicar a carreira. E prejudicar a gente, ele não pensou? Pior: ele não tinha uma lente reserva. “Mas eu tenho um goleiro reserva!”, gritou Jock. E mandou chamar Alan Rough.

Alan estava com os olhos arregalados. Jock foi andando devagar até ele e falou quase sem abrir a boca: “Você vai entrar, seu gordo filho da puta”. O cara botou as luvas correndo e subiu para o campo. Passou os 45 minutos seguintes tremendo, torcendo para a bola nem chegar perto. Sorte que Gales ficou enrolando no segundo tempo. Só tocando de lado.

Mas ainda estávamos fodidos, né. O resultado era dos caras. E o nosso melhor jogador, Kenny Dalglish, estava na arquibancada, machucado. Faltando uns trinta minutos para o jogo acabar, Jock me botou em campo. E eu resolvi a parada.

Corri, driblei, chutei, infernizei a defesa dos caras até uma bola bater na mão de um zagueiro. Pênalti. Na hora, pedi para bater. Gol. Ainda faltavam uns dez minutos, mas a gente se fechou. A vaga era nossa. Foi lind…

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KENNY DALGLISH, atacante escocês (contundido): Foi horroroso, cara. Que jogo horroroso. Vendo de fora, deu para sentir um pouco a merda que é torcer para essa seleção! A gente deu um rabo tremendo. Se aquela bola não batesse na mão do zagueiro, não faríamos um gol nem se o jogo durasse uma semana.

E quase que o Davie Cooper perde o pênalti. Ele nem queria bater, na verdade, mas os outros dez caras se esconderam. Teve gente que fingiu amarrar o tênis e ficou lá abaixado. Davie não teve alternativa senão pegar a bola e chutar. No fim, foi aquele sufoco. Dava para ver o Jock sem cor, sem expressão. Parecia um peru de Natal antes de entrar no forno. Acabou o jogo, conseguimos um lugar na repescagem — e nem assim deu para comemorar. Tem coisas que só acontecem com a Escócia, mesm…

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MIKE ENGLAND, treinador galês: Eram 43 minutos do segundo tempo, e o juiz apitou uma falta. Jock Stein achou que era o apito final e veio em minha direção, com a mão estendida, para me cumprimentar. Jock era assim: duro, mal-humorado, mas leal até os ossos. “Mantenha a dignidade”, era o que sempre falava.

No meio do caminho, ele tropeçou. Antes de cair, o pessoal segurou o corpo dele. Parecia estar sofrendo um ataque. Os médicos o levaram para os vestiários. Ele nem viu o jogo acabar. Morreu nos vestiários. Depois, Ferguson me disse que ele tinha tido um edema pulmonar. Disse também que ele tinha parado de tomar seus remédios, com medo dos efeitos colaterais. Jock queria estar 100% focado nesse jogo.

Foi muita pressão para ele. A semana inteira só se falava nesse jogo, na Grã-Bretanha inteira. A televisão estava transmitindo ao vivo desde manhã. E todo mundo criticando o homem, dizendo que seria uma vergonha a Escócia não se classificar para a Copa. Agora até a primeira-ministra está fazendo comentários sobre futebol… Gente, é só um jogo. Se Jock ficasse de fora, como no fim eu fiquei, paciência, oras. Esse negócio de “a história está sendo escrita…” me irrita profundamen…

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JOHN BROWN, narrador escocês: Bem, com este resultado, a Escócia vai para a repescagem, e joga por um empate com a Austrália para ir à Copa do México, no ano que vem. E estaremos lá, não é, Joseph?

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JOSEPH JORDAN, comentarista escocês: Com certeza, John!

Postado por: Marcos Abrucio

Neymar está resfriado

Postado por: Marcos Abrucio

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Neymar, segurando uma latinha de energético numa mão e o celular na outra, estava sentado num canto escuro do vestiário, entre dois parças que esperavam ouvir uma palavra dele. Mas ele não dizia nada; apenas triscava o polegar direito na tela do telefone, empurrando para cima fotos e vídeos do Instagram. Os outros jogadores evitavam chegar perto; tomavam banho rapidamente, botavam grandes fones nas orelhas e partiam para a zona mista, onde repórteres do mundo inteiro estavam esperando. Dava para ouvir o batuque que vinha da arquibancada, os torcedores comemorando a vitória que nos levou à final da Copa. Mas Neymar não foi o craque do jogo, nem sequer entrou em campo: Neymar está resfriado.

Pertinho de mim, conversando com um assistente, estava o técnico da seleção, Tite. Eles escondiam a boca com a mão em concha enquanto falavam. Sabiam que não era uma boa ideia irritar ainda mais o craque do time. Neymar parecia estar a quilômetros de distância, num mundo só dele, desde que, minutos antes da partida, ficou sabendo que não jogaria.

Naquele momento, o médico deu o diagnóstico à comissão técnica: o cara estava baleado, não dava para jogar. Mas um resfriadinho? Resfriadão, disse o doutor: o corpo todo dele doía, os olhos mal abriam. No aquecimento, ele não conseguiu enfileirar nem três embaixadinhas. Não era prudente escalá-lo nessa condição, expô-lo ao ridículo. Havia muitos interesses envolvidos. Se as pessoas soubessem, ficariam enojadas. Ele estava fora.

Mas todos nós sabemos o que aconteceu da última vez em que Neymar não pôde disputar uma semifinal pelo Brasil. Foi preciso entrar em ação um plano arquitetado meses antes para evitar um novo 7×1 caso a nossa principal joia se contundisse.

No seu lugar, entraria aquele que mais se aproxima dele em habilidade, inteligência tática, dribles, passes, fôlego, corte de cabelo e coreografias: eu.

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Eu sou o Neymar do Playstation. Aquele que você controla com o joystick aí na sua casa. Aquele que aparece sorridente na caixinha do game da Fifa. Aquele que, ano após ano, fica cada vez mais idêntico ao original, com as mesmas reações físicas e emocionais, a mesma criatividade e intempestividade, as mesmas tatuagens e unhas pintadas. Tudo graças ao trabalho duro de programadores e artistas gráficos. E o resultado deste trabalho é que, tempos atrás, eu recebi um telefonema do Tite.

Ele sabia que o Brasil não poderia ficar sem o Neymar novamente na Copa da Rússia. Se alguma coisa acontecesse a ele, e nesse momento eu juro que ouvi um toque-toque-toque do outro lado da linha, precisávamos de um plano melhor do que colocar o Bernard aberto na ponta. Eu jogaria. Tite apelou para os brios presentes nas minhas linhas de programação, dizendo que eu deveria fazer isso pelo meu país — embora eu tenha sido desenvolvido por chineses e indianos a serviço de uma empresa americana.

Eu topei. Afinal, seria a primeira chance de encontrar aquele de quem eu tudo herdei, do nome aos gomos do abdômen. Todos os dias, eu defendo sua fama em jogos disputados no mundo inteiro. Acho que eu merecia um aperto de mão, um abraço, quem sabe uma foto com nós dois, lado a lado, fazendo o sinal de “É Tóis” com o braço. Algo assim, sabe?

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Neymar não podia saber do plano, sob o risco de ficar melindrado (lembram o que ele fez com o Cavani?). Então eu passava os dias treinando separado, escondido da imprensa, da torcida e do Neymar. Estava sempre a postos. A chance veio quando, na véspera da semifinal, ele passou a noite sem camisa, gravando um comercial para a Nike a ser exibido, se o Brasil for campeão, no primeiro intervalo depois da final. Acordou tossindo.

Os outros jogadores não ficaram preocupados quando eu apareci no vestiário, já de uniforme. Eles conheciam meu potencial: passavam a noite jogando videogame no quarto, sabiam que eu chamo a responsa, que eu sou moleke zika que nem ele. Já Neymar estrilou. Quem é esse comédia, perguntou. Ficou me medindo, não quis me cumprimentar. Ameaçou contar tudo no Twitter, mas seu pai apareceu e o convenceu a ficar quieto (em troca da permissão de comprar um Porsche novo). Tive que driblar o roupeiro e me jogar no chão pedindo pênalti para ele se convencer que ninguém desconfiaria de nada. Por fim, sentou-se em um banco e não saiu de lá até o fim do jogo.

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Fiz dois gols. No primeiro, vim driblando desde o meio de campo e chutei na saída do goleiro, como acontece quando alguém pressiona o quadrado e o R2 simultaneamente. O segundo foi de pênalti, que não deixei o Philippe Coutinho bater. Briguei com um zagueiro e por pouco não fui expulso. Quando o jogo estava decidido, passei o pé por cima da bola levei uma voadora que quase quebrou minha perna. Rolei várias vezes no chão. Ou seja, ninguém desconfiou de nada.

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O jogo acabou, ganhei o prêmio de melhor em campo, dei entrevistas em espanhol meio atrapalhado, acenei para a galera. Fui o último a entrar no túnel. Esperava uma chuva de abraços e cumprimentos, principalmente dele, mas, no lugar disso, encontrei um climão. Meus companheiros nem olhavam para mim, só o Philippe Coutinho, que me olhava com raiva. Como eu disse, também não falavam com Neymar, que estava do outro lado do salão, com cara de poucos amigos. Tite disse ao meu ouvido: melhor tu ir pro hotel, depois a gente conversa. Não estava entendendo nada.

O lugar já estava quase vazio quando Neymar ergueu os olhos na minha direção. Veio andando devagar, sob protestos dos parças: deixa pra lá, Ney. O que é isso aqui, ele perguntou. E me mostrou o celular.

Era uma foto minha com a Bruna Marquezine. Eu posso explicar, disse a ele e repito a vocês. Eu tinha cruzado com ela há pouco na saída do campo. Não imaginava que ela já iria postar assim, e todo mundo veria tão rápido. Às vezes até eu fico deslocado com tanta modernidade. Ela veio me dar parabéns — te dar parabéns, Neymar. E dizer que queria te encontrar à noite, como nos velhos tempos. Ela quer você de novo, parça.

Neymar ficou parado. Olhou para mim com o canto do olho e sorriu. E se foi.

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Mas teve algo que eu não disse a ele:  Bruna me segurou pelo braço e comentou que havia visto algo diferente em mim. Estava mais humano, mais sensível, mais maduro. Um Neymar diferente, ela não sabia explicar. Por isso, queria me ver de novo. Hoje à noite. Como nos velhos tempos.

Estarei a postos. Vai que o resfriado piora.

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“Muchos años en blanco”

Postado por: Flávio Tamashiro

Segunda-feira, 7 de julho. Dia morno, sem Copa, só na contagem regressiva para as semifinais. Pergunto a um hermano:

– Como se diz em espanhol que um time está na fila?

– ¿Cómo así?

– Sabe como é, sem ganhar um título há muitos anos…

– Ah, sí: ¡Está muchos años en blanco!

– Boa, então posso dizer que “Argentina está muchos años en blanco”?

– Por supuesto…

* * *

Por incrível que pareça, o diálogo acima não foi uma provocação. Foi por curiosidade mesmo. Esse hermano nem é argentino: é meu amigo colombiano.

A questão é que Alemanha, Argentina e Holanda, as seleções que acompanham o Brasil no mata-mata final, têm algo em comum: estão na fila há tempos. Eu me lembro de acompanhar o último título de cada uma delas e o mais engraçado é que o futuro parecia promissor para as campeãs.

 

26 anos de fila

Em 1988, a Eurocopa oferecia somente o “crème de la crème” do futebol europeu: apenas 8 seleções se classificavam para o torneio. A Holanda tinha um timaço com Van Basten, Gullit e Rijkaard. E no banco o inventor do Futebol Total: Rinus Michels.

Craques da moda (dá um desconto que eram os anos 1980)

Craques da moda (dá um desconto que eram os anos 1980)

Não existia essa de acompanhar os craques pela ESPN e comprar camisas com nome de gringo nas costas. Acompanhar a transmissão de um torneio desses era equivalente a ver uma miniCopa do Mundo. E a Laranja ganhou de forma incontestável ao bater a dona da casa Alemanha na semifinal e a poderosa URSS na final, com direito a um golaço de Van Basten.

A Holanda chegaria à Copa de 1990 como favorita ao título, mas sairia de lá sem uma vitória sequer. Após o título em 1988, os holandeses demoraram 22 anos para disputar uma nova final, a da Copa de 2010.

Em 1990, a Holanda não mostrou futebol nem espírito esportivo

Em 1990, a Holanda não mostrou futebol nem espírito esportivo

 

Há 21 anos, o último herói: Batigol

No início dos anos 1990, a Argentina tinha um timaço com Simeone, Redondo e Batistuta. Mesmo assim, o último título da seleção principal deles na Copa América de 1993, no Equador, não foi de grande brilho. A campanha dos hermanos antes da disputa final com o México incluiu 4 empates e uma única vitória sobre a Bolívia. No caminho, eliminou o Brasil nos pênaltis.

Na final, o atacante Gabriel Batistuta marcou dois gols sobre o time asteca e sacramentou a vitória da albiceleste. Foi o 14º título argentino na história da Copa América.

Depois daquela final, os argentinos chegaram a mais 5 finais, mas não conseguiram acabar o jejum.

Copa de 1990

Copa das Confederações 1995

Copa América 2004

Copa das Confederações 2005

Copa América 2007

 

1996: Fim do sonho Tcheco e início do jejum alemão

“O futebol são 11 contra 11 e no final ganha sempre a Alemanha”, bradou o atacante Gary Lineker após a eliminação de sua Inglaterra no Mundial de 1990. A frase explicitava o força do futebol alemão na época. A conquista de 1996 ratificou a fama do time germânico e serviu para redimi-lo da inesperada derrota para a “Dinamáquina” na final da Euro de 1992.

Lineker, “O pensador de duas cabeças”

Lineker, “O pensador de duas cabeças” 

A Euro de 1996, na Inglaterra, foi a primeira com 16 seleções participantes. Na fase de grupos, a surpresa ficou por conta da eliminação precoce da Itália, que ficou atrás da República Tcheca. A partir daí, os tchecos seguiram sua surpreendente caminhada até a final.

A República Tcheca tinha um tal de Nedved

A República Tcheca tinha um tal de Nedved

Smicer, Poborsky e Nedved eram nomes muito comentados naquele torneio pelo bom futebol. O problema é que na final estava a Alemanha. Os tchecos começaram bem e chegaram a sonhar com a taça ao abrir o placar no segundo tempo de pênalti.

Berger: "Essa Copa é nossa!"

Berger: “Essa Copa é nossa!”

Mas na sequência, a Alemanha voltou a ser a velha Alemanha e deu no que deu: Bierhoff empatou no tempo normal e marcou o gol de ouro na prorrogação, o primeiro de um torneio oficial.

A Alemanha disputou mais finais após aquela Euro, mas não levantou nenhuma taça. Do jeito que vai, o Lineker vai ter de rever sua frase.

Copa de 2002

Euro 2008