A Alemanha passa por cima

Alemanha na semifinal? Oba, jogaço à vista. Foi assim em 1970 e em 2006, contra a Itália. E igualmente palpitante foi a partida contra a França, pela Copa de 1982.

Um embate memorável por vários motivos. Pelo futebol vistoso de Platini, que comandou a reação francesa. Pela prorrogação com quatro gols. Pela intervenção messiânica de Rummenigge. Pelo gol de bicicleta no final. Pela primeira decisão por pênaltis da história das Copas.

Mas não adianta. Todo mundo se lembra desse jogo por causa dessa cacetada:

Os alemães repetiam naquela Copa o seu desempenho quadrienal típico: sempre aos trancos e barrancos, mas sempre chegando. Perderam na estréia para a Argélia e só foram à segunda fase graças a uma marmelada no jogo contra a Áustria (em uma só frase, temas para dois outros posts…).

Para a semifinal, tinham um problemão: Karl-Heinz Rummenigge, o craque do time, estava machucado, e seria mantido no banco para entrar apenas em caso de extrema necessidade.

Já a França era o time que, tirando o Brasil, desfilava o futebol mais bonito do Mundial. A geração de Platini, Rocheteau e Trésor tinha amadurecido bastante depois do fracasso de quatro anos antes (e ainda se tornariam os campeões europeus de 1984).

Só que a Alemanha nunca ligou muito para essa história de futebol bonito. Aos 17 minutos, Littbarski abriu a contagem para os germânicos. Dez minutos depois, pênalti para a França. Platini empatou, 1 a 1.

Aos 20 minutos do segundo tempo, Platini sutilmente coloca o zagueiro Battiston, que acabara de entrar, na cara do goleiro Herald Schumacher. O arqueiro esquece a bola, sobe na sobreloja e sutilmente quebra a cara de Battiston.

O juiz apita na hora. Só que apita tiro de meta, para revolta dos franceses.

Schumacher abalroa Damon Hill. Não, Battiston!

Battiston jaz no gramado, inconsciente. Os azuis cercam o colega e entram em desespero. Platini chega a pensar que ele tinha morrido. Mas Battiston “só” teve uma concussão, uma lesão cervical e alguns dentes perdidos (de dois a quatro, dependendo da fonte e do dentista).

Enquanto isso, Schumacher alongava-se e esperava para bater o tiro de meta…

O tempo normal se encerrou nesse clima gostoso de fraternidade. Para vingar o parceiro ferido, os franceses partiram para cima logo no começo da prorrogação. Aos 3 minutos, Trésor faz, de virada, um golaço. França, de virada, 2 a 1.

Era, definitivamente, um caso de extrema necessidade. E Rummenigge, mesmo vetado pelos médicos, foi a campo. No entanto, antes que ele pudesse tocar na bola, Giresse ampliou para os franceses: 3 a 1.

Aos 12 minutos, na sua primeira jogada, Rummenigge divide com o goleiro e um zagueiro e diminui: 3 a 2. A Alemanha se enche de brios, o que, em Copas do Mundo, nunca é boa notícia para o adversário. Aos 3 minutos da etapa final, Fischer empata lindamente, de bicicleta. Quem disse que alemão não liga para futebol bonito?

Fim de jogo, 3 a 3. Pela primeira vez, uma partida de Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis. Giresse, Amoros e Rocheteau convertem as primeiras cobranças para a França. Kaltz e Breitner acertam seus chutes para a Alemanha. Já a bola de Stielike vai para as mãos do goleiro francês Ettori.

O libero alemão, um dos melhores em campo no tempo normal, se ajoelha e chora. Amparado pelos companheiros, nem vê que Schumacher defende o pênalti seguinte, de Six.

Os brutos também choram.

Em seguida, Littbarski marca e deixa tudo igual. Os craques Platini, de um lado, e Rummenigge, do outro, encerram a série de cobranças. 4 a 4.

Nas cobranças alternadas, Schumacher decide que ele, e mais ninguém, seria o protagonista daquele jogo. Ele defende mais um pênalti, de Bossis. Hrubesch faz o dele e bota ponto final naquele drama: 5 a 4.

A Alemanha estava na final. Os franceses, a despeito de todo o seu talento, voltavam para casa mais cedo de novo.

Logo após a partida, uma revista francesa perguntou aos leitores quem era a pessoa mais odiável de todos os tempos. Os vencedores foram dois alemães. Adolf Hitler foi o segundo. Harold “The Ripper” Schumacher foi o primeiro.

Veja outro jogaço aqui.

Postado por: Marcos Abrucio

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8 Respostas para “A Alemanha passa por cima

  1. Só digo uma coisa aos gauleses: Wenn Sie es nicht nehmen können, warum kamen Sie?

    Ou, pra que entendam bem: Si vous ne pouvez pas le prendre, pourquoi êtes-vous venu?

    O que todo brasileiro conhece por: Se não aguenta, porque veio?…

  2. Isso foi fichinha perto do que fizeram na final de 90.

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  6. Os minutos finais deste jogo genialmente recriados: http://vimeo.com/9426271

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