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Favoritos para a Copa de 2014

O fim da Copa de 2010 foi também derradeiro capítulo da história de muitos craques nos mundiais. Henry, Gerrard, Cannavaro, Verón e  Forlán provavelmente fizeram suas últimas participações em uma Copa do Mundo. O momento é de renovar as seleções, a começar pelo time brasileiro.

Neymar: cara nova na seleção

No primeiro teste pós-Copa e com a equipe reformulada, o Brasil fez bonito nos 2 a 0 sobre os EUA. Time leve e solto, alegre e eficiente, encheu os olhos do brasileiros e deu a sensação de que dias melhores virão. Neymar, Ganso, Pato e todos os outros convocados mostraram talento e desenvoltura em campo. Resta saber se em 2014 já terão rodagem suficiente para encarar o mundial sem tremer diante da enorme pressão de jogar em casa. O primeiro teste será na Copa América da Argentina, em 2011.

Falando nos hermanos, a seleção albiceleste estreou o técnico Sérgio Batista – dizem, interino – e venceu a Irlanda por 1 a 0. Maradona já havia renovado boa parte da seleção, o que pode facilitar o entrosamento até as eliminatórias da Copa. Outro ponto positivo é a experiência que os jovens como Messi e Tévez adquiriram no mundial da África do Sul.

O próximo amistoso da Argentina será contra a campeã Espanha, que empatou com o México na primeira partida após o título. É verdade que os espanhóis não atuaram com força máxima.

Já a Alemanha encarou a Dinamarca e empatou por 2 a 2. A seleção jovem formada em 2010 ganha experiência e pode render frutos em terras brasileiras.

A Holanda, vice-campeã do mundo, também renovou o time e empatou com a Ucrânia: 1 a 1. Assim como o Brasil, o time laranja tornou-se uma incógnita para apostadores no próximo mundial.

Na Inglaterra, Gerrard  ainda dá sinais de vida e ajudou o time a vencer a Hungria, com direito a golaço no estádio de Wembley. A questão é: Capello vai iniciar já o rejuvenescimento do  time ou vai esperar até o fim da Euro 2012?

Maiores vexames da última Copa, Itália e França continuam decepcionando seus fãs: a reformulada mas ainda envelhecida Azurra perdeu da Costa do Marfim por 1 a 0; em crise pós-Copa, les Bleus perderam para a Noruega por 2 a 1. A seleção veteraníssima do Uruguai fez melhor e venceu Angola por 2 a 0. É possível acreditar que esses times chegarão à próxima Copa com chances reais de título?

A largada para a Copa do Mundo no Brasil foi dada. Espanha e Alemanha aparecem na frente com bons times montados e cheios de moral. As seleções brasileira e argentina prometem se renovar  com qualidade e também entram nas bolsas de apostas como favoritas.

Imprensa internacional enche a bola do novo Brasil

Itália, França, Inglaterra e também Uruguai precisam arrumar a casa para não penar nas eliminatórias diante de seleções cheias de sangue-novo. Tudo isso soa a pura especulação, admito. Mas é o máximo que podemos fazer até chegar o mundial de 2014.

Postado por Flávio Tamashiro

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Por uma Copa do Mundo mais enxuta em 2014

Todo mundo diz que a cada edição a Copa do Mundo perde um pouco da graça. A média de gols é cada vez menor, craques desmotivados, menos partidas emocionantes. A causa, dizem alguns, é o número absurdo de seleções que chegam ao mundial.

A ideia original da FIFA era contar com 16 participantes, apenas a nata do futebol. É verdade que na primeira Copa, em 1930, apenas 13 seleções foram ao Uruguai – houve boicote de muitas nações européias  pelo fato de a FIFA optar por um país-sede sul-americano.

Copa de 1950: não quer ouvir pelo rádio? Vá ao estádio

As Copas seguintes contaram com o número desejado de times – exceção ao torneio do Brasil, em 1950, também com 13 participantes por conta do período de reconstrução mundial pós-Segunda Guerra.  E, a cada edição, a Copa chamava mais e mais a atenção dos torcedores ao redor do planeta. Isso porque só era possível acompanhar as partidas pelo rádio – e nos primeiros mundiais, a transmissão nem era ao vivo (!).

Copa de 1982, primeiro álbum com 24 seleções: haja chiclete!

Os anos passaram, a TV surgiu e as transmissões ao vivo começaram para a alegria dos fãs de futebol. Eis que, em 1982, a FIFA aumentou para 24 o número de seleções com o objetivo de globalizar o futebol e gerar mais dinheiro para o evento. Não satisfeita, a entidade máxima do futebol  decidiu aumentar novamente a quantidade de equipes em 1998: 32 seleções.

32 seleções em 1998: haja dinheiro para completar o álbum...

Por conta do inchaço do torneio, muitos críticos afirmam que a Copa só começa de verdade nas oitavas de final, ou seja, quando sobram apenas 16 seleções na disputa. Se levarmos em consideração esse fato, é possível ver a Copa de 2010 com outros olhos:

– 16 times participantes:  6 seleções europeias, 5 sul-americanas, 2 asiáticas, 2 norte-americanas, 1 africana;

– Itália e França não estariam na Copa;

– 44 gols marcados em 16 jogos: média de 2,75 gols por jogo;

– Apenas um jogo sem gols – Paraguai X Japão;

– A Espanha teria sido campeã marcando apenas 4 gols e não sofrendo nenhum;

– Sneijder e Müller dividiriam a artilharia da Copa com 4 gols;

– O melhor ataque seria mesmo da Alemanha, com 11 gols em 4 jogos – só passou em branco na semifinal contra a Espanha, dona da melhor defesa;

– Entre os melhores jogos da Copa somente Eslováquia 3 X 2 Itália nunca aconteceria;

– As grandes partidas da Copa ainda seriam Alemanha  4 X 1 Inglaterra, Argentina  0 X 4 Alemanha, Alemanha 3 X 2 Uruguai, Gana 1 X 1 Uruguai, Holanda 3 X 2 Uruguai.

Pesando prós e contras, talvez seja hora de começar uma campanha pela volta às origens com menos times na Copa do Mundo de 2014. Afinal, quem quer ver Eslovênia X Argélia? Alguém se comove com Austrália X Eslováquia? Suíça X Honduras, então, nem pensar…

Postado por: Flávio Tamashiro

Copawriter na Copa: E o grande favorito ao título é…

Não houve partidas épicas nem grandes clássicos até agora na Copa. Emoção mesmo, só em Itália 2 x 3 Eslováquia. Os times ainda mostram que estão em fase de evolução, mas grande parte da imprensa e da torcida já escolheu o mais forte candidato ao título: o time da Argentina.

Favoritos em campo. Favoritos?

Os hermanos conseguiram três vitórias incontestáveis. Sofreram apenas no jogo com a Nigéria – mais pelos gols desperdiçados do que pela força do time africano. O técnico-deus deles, Maradona, levou seis atacantes para a África do Sul e o esquema é extremamente ofensivo. Além disso, o melhor jogador do mundo atualmente veste a camisa 10 portenha. Alguém consegue apostar contra? Sim.

Precisa de um alfaiate aí, Maradona?

A Argentina venceu bem, é verdade. Mas até agora não teve adversários à altura – o Brasil também não, mas essa é outra discussão. Contra a fraquíssima Coreia do Sul, no Soccer City, tomou susto antes de impor a goleada. Mais motivos para duvidar do prognóstico dos especialistas: a defesa portenha é frágil, o técnico é instável e Messi ainda não mostrou a que veio. Fora a clara preocupação deles com o Brasil, já que Verón e Maradona não param de citar, ou melhor, cutucar  os brasileiros nas entrevistas.

E não é que o Messi tava em campo?

Pode parecer que só nós, brasileiros, desdenhamos a força argentina. Mas o que realmente chama a atenção em Joanesburgo é a confiança que os sul-africanos têm de que o Brasil vai levantar a taça. Apesar de não entenderem a ausência de Ronaldinho Gaúcho, os africanos apoiam nossa seleção tanto quanto o time deles – ou até mais, já que poucos confiavam na seleção de Parreira.

Hey, brasileño, ¿qué haces acá?

Nas ruas, é fácil ouvir alguém dizendo “Brasil, nosso país torce por vocês na final!” ou “O Brasil é forte mesmo jogando mal”. Ok, também ouvi um pai dizer “Filho, torça por Brasil ou Argentina, esse times vão disputar o título!” e outro cara cantar em tom de deboche “All the single ladies” (malditos Neymar, Ganso e Robinho!). Mas até o locutor da TV sul-africana se refere à seleção canarinho como “O poderoso Brasil”. Por todo lado, há bandeiras e camisas brasileiras. A confiança está no ar.

Os bafanas realmente se sentem como brasileiros na torcida pela nossa seleção. Eles se identificam com o time que veste camisas amarelas como o time deles. No jogo contra a Coreia do Norte, até ouvi alguns sul-africanos gritando, em um mix de português-inglês, uma frase típica da torcida brasileira: “Hey, Galvón, vai tomar na c…!”.

Faixa mais educada do que os gritos que ecoavam nas arquibancadas

Postado por: Flávio Tamashiro

O final alternativo de Lost

Já faz mais de uma semana que a série Lost terminou. Se você ainda não viu o final, tá fazendo o que lendo um post com vários spoilers?!

Dunga, o que você achou do final de Lost?

Bom, posso dizer que quase todo mundo que acompanhava a série já viu seu fim. Alguns gostaram, muitos não entenderam nada e outros detestaram o que aconteceu no fatídico episódio.  E com isso, começou a saga de um engraçadíssimo vídeo com o “final alternativo de Lost”. Um final para redimir o que de fato foi visto por milhões de pessoas.

Pois bem, mas o que isso tem a ver com Copas do Mundo? É que neste post vamos falar do final alternativo para algumas decisões que surpreenderam o mundo. Imaginar o que teria acontecido se grandes favoritas como Holanda e Hungria tivessem sido campeãs. Ou simplesmente pensar no que seria do futebol brasileiro sem o “Maracanazzo”. Já parou para pensar nisso?

Copa de 1950: Brasil x Uruguai, Maracanã, 203 mil pessoas assistem ao empate da nossa seleção  contra a celeste olímpica. O resultado garante o primeiro e único título do Brasil. Barbosa ganha estátua em frente ao estádio. A base campeã é mantida para 1954, adiando a renovação. E a má performance nas Copas seguintes faz o Brasil ganhar fama de time caseiro. O povo não acredita nas chances da seleção na Copa de 2010 e aposta tudo em 2014.

Herói do único título brasileiro em Copas

Copa de 1954: Hungria x Alemanha, Wankdorf Stadium, a poderosa esquadra húngara bate a Alemanha pela segunda vez no torneio e sagra-se campeã. Nossa seleção alviceleste – o uniforme canarinho nunca seria adotado – enfrenta a Hungria, campeã olímpica, no melhor jogo de todos os tempos. Perde, mas sai de cabeça erguida ao reconhecer a superiortidade dos europeus. Até os jornais brasileiros reverenciam Puskas no dia seguinte à partida.

Puskas: um craque temido pelos adversários e pelas frágeis balanças

Copa de 1974: Holanda x Alemanha, Estádio Olímpico de Munique, a Laranja Mecânica se consagra ao bater a seleção anfitriã por 1 a 0. O toque de bola holandês encanta o mundo e dura até 1978, quando são bicampeões. Cruyff, líder do time nos dois torneios, se iguala aos maiores gênios das Copas, como Zizinho e Puskas. A vice-campeã Alemanha, por sua vez, busca seu primeiro título até hoje.

Cruyff para Beckenbauer: "Vocês não vão ver a cor da bola!"

E para você, qual jogo de Copa do Mundo mereceria um final alternativo? Nem precisa ser a grande decisão. O que você acha de mudar o desfecho do traumático Brasil x Itália, de 1982? Talvez, da emocionante partida Inglaterra x Camarões, de 1990? Ou, quem sabe, do suspeitíssimo embate Argentina x Peru, de 1978?

Postado por: Flávio Tamashiro

Última chamada para o craque

Já tentei de tudo. Humildemente, abri uma campanha para o Dunga limar pelo menos um dos volantes que infestam a seleção. Armei uma seleção “B” cheia de Gansos e Neymars só para atazanar a “A”. Mostrei que Ronaldinho Gaúcho decidiu muito mais do que um jogo. Quase fui para a fogueira ao dizer que ficaria feliz com o sucesso de Messi na Copa.

Nada deu certo, o que no fundo prova apenas a minha insignificância. Mas agora lanço meu último argumento para tentar introduzir um pouco mais de talento na seleção que sempre foi a mais talentosa de todas:

Os craques nos fazem torcer.

Repetindo: ao todo, Dunga pode levar oito volantes e possíveis volantes para a Copa. Uma desproporção, ainda mais que a moda agora é levar só quatro atacantes, e não cinco, como antigamente.

A lista têm muitos carregadores e poucos afinadores de piano. Sem contar que dentre os prováveis escolhidos vários passam por má fase. São reservas em seus times, ou sofrem com contusões. A zica acomete até o nosso principal pianista, Kaká.

Com tudo isso, fica claro: vai faltar craque. O cara que muda o andamento da partida, que surpreende a todos com um drible, que usa a fantasia para decidir o jogo etc.

Muricy Ramalho, que para muitos tem “retranqueiro” escrito na testa, disse na revista da ESPN deste mês:

“Copa do Mundo se ganha com um diferente, e o nosso único diferente é o Kaká, que é o cara que pode pegar a bola no meio campo e levar dentro do gol dos caras.”

Quer ver como o diferente faz diferença? A França fazia campanha opaca na última Copa. Na primeira fase, dois empates e uma vitória magra contra o Togo. Zidane mal aparecia. Nas oitavas de final, perdia de 1 a 0 da Espanha. Aí, ôôô, Zidane voltou. Ele comandou a virada sobre os espanhóis, com direito a um golaço no final:

Zizou engrenou e, no jogo seguinte, fez aquilo que todos lembram contra o Brasil. A França ainda passou por Portugal e só perdeu a final nos pênaltis — quando Zidane não estava mais em campo.

A crença no craque, no diferente, no iluminado, no ET explica a minha campanha pelo Gaúcho, que, pelo jeito, nem ele acreditou. Explica também o clamor popular pelo Ganso e pelo Neymar.

Mas inocular gênios no nosso time não serve apenas para resolver nossos problemas técnicos. O craque pode também nos fazer empolgar de novo com a seleção.

Alguns posts abaixo, listei os motivos do divórcio entre torcida e seleção — entre eles, a falta de jogadores dos times que torcemos, a discordância entre o gosto popular e o do técnico da seleção e a diferença entre o futebol que queremos e o que vemos o Brasil apresentar.

Tantos fatores não permitem uma solução fácil. Mas colocar craques no time pode ser um ótimo paliativo para essa relação.

Veja o caso do Corinthians. A torcida é enorme,  apaixonada e sempre lotou os estádios por onde vai. Aí chegou o Ronaldo. Mais gente, pagando (muito) mais começou a seguir o time. Mulheres, crianças, gente de outros estados, de outros países começaram a ir no estádio, a procurar notícias sobre o time. O ídolo tem seu próprio público.

O primeiro gol que ele fez com a camisa alvinegra, no último minuto de um jogo contra o Palmeiras, fez muitos palmeirenses esquecerem 96 anos de rivalidade para aplaudirem:

Palmeirenses que, independentemente da fase do seu time, sempre ficam mais tranqüilos quando vêem que Marcos está no gol. A mesma coisa com são-paulinos e Rogério Ceni.

Mas os maiores exemplos atuais são o Santos da molecada e o Barcelona de Messi. Neste primeiro semestre, até fiz força, mas não deu para torcer contra a garotada praiana. Não ao ver Neymar tabelando com Robinho e fazendo golaços atrás de golaços em plena final. Não ao presenciar Ganso reinventando o jogo, dando assistências de calcanhar, dando lençóis no espaço de um lenço e exigindo ficar em campo para fazer mais.

O mesmo vale para Messi. De novo: se ele continuar jogando nesse nível na Copa, vamos ter que, simplesmente, aplaudir.

Precisamos de craques para torcer. Para nos envolver, para nos grudar na cadeira. O ídolo faz isso. Jordan, Schumacher, Tiger Woods faziam isso. Pelé, Maradona, Romário, Ronaldo, todos fizeram em algum momento o mundo inteiro sentar do mesmo lado da arquibancada.

Se não temos mais aquela paixão pela “amarelinha” (você sim, Zagallo), ainda temos pelo ídolo. Na década de 80, tínhamos Zico, Sócrates, Falcão, Careca… Em 94, Romário. Em 98, Ronaldo. Em 2002, os 3 Rs: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Em 2006, tínhamos o quarteto mágico, que… é, mau exemplo. Nem sempre só o craque é suficiente. Mas dessa vez temos um time. A seleção de Dunga, fale o que quiser, é um time. Unido, sério, compenetrado, vencedor. Só falta o talento do craque.

O brilho de Kaká (ofuscado pela pubalgia), o de Robinho e o de Luis Fabiano (que de vez em quando piscam) podem não ser o bastante.

Ainda dá tempo de contar com o talento de Ganso. Apertando um pouquinho, dá para o Gaúcho e para o Neymar. Dava até para o Ronaldo — se a Copa fosse no ano passado…

Ainda dá tempo para chamar o craque, Dunga.

E com isso, aqui se encerram as minhas súplicas. Agora é esperar. Até amanhã, às 13h, horário de Brasília.

Postado por: Marcos Abrucio

Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 4

O cara que surpreendeu novamente o Zagallo.

A seleção da Holanda de 1974 mudou nosso jeito de ver o futebol.

Não só por causa das inovações táticas, do uso da linha de impedimento, do “futebol total”. Disso todos sabem. Mas também porque, graças ao futebol vistoso dos holandeses naquela Copa, até hoje se espera um futebol ofensivo, envolvente, moderno de todo time que joga de laranja.

No entanto, o Uniforme Inesquecível da Humanidade que eu gostaria de destacar aqui não é o flamejante laranjão que os cavalinhos do carrossel vestiram em 1974. É o de apenas um deles. Este aqui, o número 14 de Johan Cruyff:

O grande craque Johan Cr... meu Deus, olha o cabelo do zagueiro!

Ué, mas essa camisa não era igual à dos outros? Não. Repare bem, ela tinha só duas listras nos ombros. As do resto do time tinham três:

Neeskens e Rep: uma, duas, três listras.

Não foi o costureiro que comeu bola. A listra que falta é, na verdade, o ápice de uma rivalidade que começou muito tempo antes e ainda está longe de acabar.

***

Os irmãos Rudolf e Adolf Dassler nasceram na impronunciável cidade alemã de Herzogenaurach.

“Rudi”, o mais velho, era falastrão, explosivo e tinha a manha para vendas. “Adi”, introspectivo e minucioso, era um apaixonado por esportes. Seguindo o ramo do pai, em 1920 ele monta uma sapataria. Mas estava interessado mesmo num negócio totalmente inovador, que juntava suas duas paixões: calçados esportivos.

Em 1924, os manos se juntam e fundam a Gebrüder Dassler Schuhfabrik — ou, com menos consoantes, “Fábrica de Sapatos dos Irmãos Dassler” — dedicada inicialmente a fazer calçados para corrida e chuteiras de futebol.

Os manos Adolf e Rudolf Dassler.

O talento de Adolf para construir pisantes mais leves e flexíveis e o tino comercial de Rudolf fizeram da empresa familiar um sucesso. Cada vez mais atletas usavam os artigos que saíam de Herzogaranourfster.

O incentivo quase obsessivo dos nazistas à pratica esportiva ajudou a bombar a produção da fábrica. Ironicamente, a consagração internacional chegou quando os Dassler conseguiram que Jesse Owens usasse o calçado deles nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O negro americano ganhou quatro medalhas de ouro e deixou o Führer espumando.

Impossible is nothing, Jesse.

As personalidades antagônicas dos irmãos e a luta pelo controle da fábrica sempre causaram brigas homéricas. A Segunda Guerra Mundial levantou a fervura de vez. Os dois tiveram que voltar a morar na mesma casa, e um vivia às turras com o outro.

Durante um bombardeio noturno a Herzougaraiauchfftsrs, Adolf comentou, referindo-se aos aliados: “Lá vêm esses malditos de novo.”. A esposa de Rudolf ouviu e achou que o cunhado falava dela e do marido. Ao fim da guerra, Rudi foi preso pelos americanos, acusado de colaboração com os nazistas. Ele passou a vida inteira jurando que tinha sido o irmão que o havia dedurado.

Nessa altura, não tinha mais jeito: a fábrica tinha que ser dividida. Adolf juntou sílabas do seu apelido e do seu sobrenome e fundou a “Adidas”. Para distinguir seus produtos, meteu três listras em cada um deles.

Rudolf também criou sua empresa, instalada do outro lado de Hierzourchinaurarghtfktls, e usou o mesmo raciocínio para chamá-la de “Ruda”. Depois usou a cabeça e viu que esse nome era feio para dedéu e a renomeou como “Puma”.

A Adidas ganhou destaque na Copa de 1954, quando Adi Dassler colaborou com o Milagre de Berna ao fornecer chuteiras de travas ajustáveis aos jogadores da seleção alemã. Com calçados mais adequados ao campo encharcado da final, eles viraram o jogo contra os favoritíssimos húngaros: 3 a 2.

Os milagreiros campeões mundiais de 1954 e seus pisantes incrementados.

Com o tempo, as duas empresas passaram a fazer bolas, agasalhos e todo tipo de artigo esportivo — além entrar de vez para o guarda-roupas de todos os terráqueos, atletas ou não.

Enquanto a Adidas buscava cooptar todo esportista que via pela frente, a Puma, sem tantos recursos, se concentrava em alguns poucos — mas justamente os que mais chamavam a atenção da mídia, seja por seu talento ou por sua personalidade controversa. Pelos dois critérios, este era o caso de Cruyff.

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Desde moleque no Ajax, Cruyff logo destacou por seus dribles e arrancadas — mas também pela sua liderança e vaidade.

O meia magrelo transformou um time modesto com estádio acanhado no tricampeão da Europa, sempre jogando com liberdade por todo o gramado, com a anuência do técnico Rinus Michels.

A Puma se aproximou dele rapidinho. Mas não sem passar algumas dores de cabeça. Aos 20 anos, ele já recebia 1.500 florins para usar as chuteiras com a marca do felino. Como forma de conseguir um contrato melhor, passou a usar nos treinos chuteiras Adidas, alegando que as da sua patrocinadora machucavam seus pés.

Apesar de por conta disso ter sido processado pela empresa de Rudolf Dassler, Cruyff acabou ganhando dela, às vésperas da Copa de 1974, um contrato 100 vezes maior.

Consciente do novo papel dos atletas no recém-criado negócio do esporte, ele sempre defendeu que eles deveriam ser muito bem recompensados pelas suas atuações — e, por isso, nunca perdeu a fama de mercenário.

Eu quero minha parte em dinheiro.

***

Para a Copa da Alemanha, a Adidas fechou contrato com a CBF da Holanda. Os jogadores usariam camisas, calções e moletons com as três listras da empresa.

O empresário (e sogro) de Cruyff afirmou aos cartolas laranjas que o craque poderia até dormir com sua filha, mas não usar produtos de outra empresa que não a Puma.

A federação se borrou de medo de perder o principal responsável por levar a Holanda à Copa pela primeira vez desde 1938. A Adidas, de ser responsabilizada pelos torcedores por ele não estar nos gramados alemães. E acabou cedendo.

E assim nasceu o uniforme de duas listras de Cruyff, uma solução salomônica para uma das maiores crises entre os dois irmãos marrentos de Hierzrouchnieszlingaurchiaft.

The brand with two stripes.

Detalhe da camisa paraguaia-holandesa de Cruyff.

Além das listras, havia outra diferença entre o uniforme do meia para o do resto do time: enquanto para todos a numeração seguia a ordem alfabética (o goleiro Jongbloed, por exemplo, era o número 8), ele jogou com o 14, número de sorte dele — dane-se a ordem alfabética, o cara é o dono do time!

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Cruyff havia se metido em uma ferrenha disputa familiar-empresarial, mas, ao lutar por seus direitos e seus florins, não se deixou transformar em um mero, hã, laranja nessa pendenga.

O que não o impediu de cair numa ”pegadinha” da rival da sua patrocinadora. Conta a jornalista Barbara Smit no excelente “Invasão de Campo”, que quando a Holanda foi tirar a foto oficial para a Copa, um representante da Adidas se misturou com os jogadores e, discretamente, botou uma bolsa da marca bem na frente das chuteiras Puma de Cruyff…

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Cruyff não foi à Copa seguinte, mas os gêmeos Willy e René van de Kerkhof, patrocinados pela Puma, estavam em campo e, seguindo seu exemplo, também exigiram camisetas com duas listras.

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Rudolf Dassler morreu em 1974 e Adolf, em 1978. Ambos foram enterrados no mesmo cemitério, em Hierzzougeneregaraurachartsrowlaaaargh. Em lados opostos, claro.

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Ver também: Uniformes Inesquecíveis da Humanidade 1, 2 e 3.

Postado por: Marcos Abrucio

Grandes craques que todo mundo esquece – Parte II

Voltando à série que retrata aqueles que jogaram muito, mas não ganharam nem a Copa nem a Chuteira de Ouro, hoje vamos conferir mais 4 craques das Copas. Abram alas para os renegados, amigos, eles merecem.

MICHAEL LAUDRUP
Mais conhecido por suas passagens por Barcelona e Real Madrid durante a década de 90, o irmão mais velho da família Laudrup (que também contou com Brian) é considerado até hoje o melhor jogador da história de seu país. E se você duvida, assista apenas este vídeo: na Copa de 1986, a Dinamáquina contou com o futebol fino do atacante para chegar tão longe – na verdade, até perder por 5 a 1 pra Espanha nas oitavas-de-final, de maneira incompreensível. Esse era craque!

DENNIS BERGKAMP
Bergkamp é mais um daqueles jogadores que integram o hall da fama dos craques que nunca ergueram uma taça pelo seu país. Multi-campeão por Ajax, Internazionale e, principalmente, Arsenal, o camisa 10 holandês disputou três Copas e foi destaque mesmo sem ganhar. Momentos para se lembrar: este gol maravilhoso pelos Gunners e este delicioso diante da Argentina. Dennis, você foi um pimentinha!

Parece Ivan Drago, mas é o camisa 10 holandês

DAVOR SUKER
Ok, pode-se dizer que Suker não foi craque. Mas quando um jogador de um país sem nenhuma tradição em Copas do Mundo se torna artilheiro do torneio e é o principal destaque da campanha que os leva ao 3º lugar é bom ficar de olho. Com brilhante passagem pela Espanha – onde foi artilheiro por Sevilla e Real Madrid -, Suker marcou o mundial de 1998 com gols e um oportunismo único. Sai que é sua, Davor!

Bonita camisa, Sukerzinho.

JAY JAY OKOCHA
A ousadia africana, somada a uma habilidade quase brasileira: este foi Augustine Okocha. Apelidado de “Jay” e, acreditem, renomeado de “Jay Jay” por um treinador gago, Okocha foi o camisa 10 da Nigéria desde muito novo, figurando nas Copas de 94, 98 e 2002. Seus maiores momentos foram o ouro olímpico em 96 (valeu Dida, Aldair, Mussum e Zacarias!) e a campanha na Copa do Japão e da Coréia, quando ajudaram a eliminar a Argentina. Gracías, Jay Jay!

Parece Odvan, mas é Okocha.

E assim se encerra a segunda parte dos craques eternos de uma mente sem lembranças. Aguarde que ainda tem muito mais.

Postado por: Henrique Rojas.