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O final alternativo de Lost

Já faz mais de uma semana que a série Lost terminou. Se você ainda não viu o final, tá fazendo o que lendo um post com vários spoilers?!

Dunga, o que você achou do final de Lost?

Bom, posso dizer que quase todo mundo que acompanhava a série já viu seu fim. Alguns gostaram, muitos não entenderam nada e outros detestaram o que aconteceu no fatídico episódio.  E com isso, começou a saga de um engraçadíssimo vídeo com o “final alternativo de Lost”. Um final para redimir o que de fato foi visto por milhões de pessoas.

Pois bem, mas o que isso tem a ver com Copas do Mundo? É que neste post vamos falar do final alternativo para algumas decisões que surpreenderam o mundo. Imaginar o que teria acontecido se grandes favoritas como Holanda e Hungria tivessem sido campeãs. Ou simplesmente pensar no que seria do futebol brasileiro sem o “Maracanazzo”. Já parou para pensar nisso?

Copa de 1950: Brasil x Uruguai, Maracanã, 203 mil pessoas assistem ao empate da nossa seleção  contra a celeste olímpica. O resultado garante o primeiro e único título do Brasil. Barbosa ganha estátua em frente ao estádio. A base campeã é mantida para 1954, adiando a renovação. E a má performance nas Copas seguintes faz o Brasil ganhar fama de time caseiro. O povo não acredita nas chances da seleção na Copa de 2010 e aposta tudo em 2014.

Herói do único título brasileiro em Copas

Copa de 1954: Hungria x Alemanha, Wankdorf Stadium, a poderosa esquadra húngara bate a Alemanha pela segunda vez no torneio e sagra-se campeã. Nossa seleção alviceleste – o uniforme canarinho nunca seria adotado – enfrenta a Hungria, campeã olímpica, no melhor jogo de todos os tempos. Perde, mas sai de cabeça erguida ao reconhecer a superiortidade dos europeus. Até os jornais brasileiros reverenciam Puskas no dia seguinte à partida.

Puskas: um craque temido pelos adversários e pelas frágeis balanças

Copa de 1974: Holanda x Alemanha, Estádio Olímpico de Munique, a Laranja Mecânica se consagra ao bater a seleção anfitriã por 1 a 0. O toque de bola holandês encanta o mundo e dura até 1978, quando são bicampeões. Cruyff, líder do time nos dois torneios, se iguala aos maiores gênios das Copas, como Zizinho e Puskas. A vice-campeã Alemanha, por sua vez, busca seu primeiro título até hoje.

Cruyff para Beckenbauer: "Vocês não vão ver a cor da bola!"

E para você, qual jogo de Copa do Mundo mereceria um final alternativo? Nem precisa ser a grande decisão. O que você acha de mudar o desfecho do traumático Brasil x Itália, de 1982? Talvez, da emocionante partida Inglaterra x Camarões, de 1990? Ou, quem sabe, do suspeitíssimo embate Argentina x Peru, de 1978?

Postado por: Flávio Tamashiro

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Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 5

Era com essa beca que o Zaire, atual República Democrática do Congo, enfrentou os adversários (ou melhor, apanhou deles) na Copa de 1974:

Oh, yeah!

Foi uma Copa de grandes uniformes. Não por acaso, bem no meio da década em que todo mundo parece ter resolvido se vestir de maneira nada discreta.

Década das roupas espalhafatosas, cheias de “personalidade”. Das cores berrantes, das estampas malucas, da moda das ruas, do estilo Black Power. Também a década em que a roupa de “jogar bola” ou de “fazer Cooper”, virou “fashion”, olha só.

Por tudo isso, nenhuma camiseta foi tão anos 70 quanto essa.

***

O Zaire foi o primeiro país da África Negra a participar de uma Copa. A classificação rendeu aos jogadores uma promessa do ditador Mobuto Sese Seko de que ganhariam casa e carro zero.

Só que a chuva na horta durou pouco. Os zairenses fizeram feio na Copa — com exceção do uniforme, claro. Não marcaram nenhum gol e levaram 14 em três jogos. Mas isso não foi o pior.

Baile nos Leopardos.

Depois da estréia, derrota por 2 a 0 para a Escócia, os jogadores africanos ficaram sabendo que não ganhariam mais seus mimos. Recusaram-se então a entrar em campo na partida seguinte, contra a Iugoslávia. Para evitar um vexame internacional, Mobuto mandou avisar que pagaria os atletas. Mesmo desconfiados e desmotivados, eles foram para o jogo.

Melhor seria ter ficado em casa. O jogo terminou 9 a 0 para os iugoslavos. Um vexame internacional. Depois do terceiro gol, ainda no primeiro tempo, o técnico (iugoslavo!) do Zaire, Blagoje Vidinic. trocou o goleiro. Ninguém entendeu direito, e a primeira coisa que o reserva fez foi buscar a bola no fundo da rede — ele nem tocara na bola e já tinha levado um gol.

Muitos anos depois, o técnico contou que um representante do Ministério dos Esportes do Zaire bateu no seu ombro e ordenou a troca. Pelo bem da sua integridade física, ele obedeceu.

Há quem diga que os africanos amoleceram naquele jogo. A verdade é que o moral dos jogadores, que já não eram lá essas coisas, bateu lá embaixo. Estavam pressionados e sem nenhuma perspectiva de ganhar nada além da humilhação pública. Daí, a surra. Mas isso não foi o pior.

(Bola no fundo da rede) x 9.

Depois da partida, Mobuto gentilmente enviou a guarda presidencial aos vestiários para dar o recado ao pé do ouvido: se os jogadores levassem quatro do Brasil, na última rodada, não voltariam vivos para casa.

Mui sabiamente, o time se esforçou ao máximo contra o Brasil. E, ufa, perdeu só de 3 a 0. Mas teve uma coisa esquisita nesse placar: os brasileiros precisavam justamente de três gols de diferença para se classificarem. Hmm…

Estando bom para ambas as partes, os brasileiros passaram de fase, e os zairenses voltaram pra casa. Vivos.

Mas nada disso foi o pior. Nem mesmo o frangaço que o goleiro Muamba (Muamba!) Kazadi engoliu (depois de ter defendido tudo no primeiro tempo) e acabou classificando o Brasil. Não. O pior é que os jogadores do Zaire não sabiam nem formar uma barreira!

***

Mas o uniforme, ah, esse sim, era bacana.

A segunda pele de um Leopardo.

Mais simples, impossível: brasão, nome do pais, colarinho de filme do Burt Reynolds e só. Ao mesmo tempo, marcante: você já viu um distintivo desse tamanho?

E que distintivo: um leopardo, símbolo do time, atacando a coitada de uma bola. Coisa linda. Tanto que as réplicas da camisa fazem sucesso até hoje entre os amantes dos fardamentos “vintage”, ui.

Ah, e tinha também a versão em amarelo:

Nice!

***

Sobre o lance da falta, vale uma explicação. Sim, existe uma explicação para aquela maluquice. E não é o completo desconhecimento da regra.

Naquele momento do jogo, o placar já era de 3 a 0. O brasileiros já estavam classificados. Já os zairenses, se sofressem mais um gol, perderiam a cabeça. Literalmente.

Aí o juiz marca uma falta frontal para o Brasil, então campeão do mundo. Quem vai bater é Rivellino, um dos melhores cobradores de falta de todos os tempos. O que você faria se estivesse na barreira?

Ilunga Mwepu pirou. Saiu correndo e enfiou a bicuda. Há alguns anos revelou que o lance foi mais um reflexo da pressão que os zairenses estavam sofrendo:

“I panicked and kicked the ball away before he (Rivelino) had taken it. “Most of the Brazil players, and the crowd too, thought it was hilarious. I shouted, ‘You bastards!’ at them because they didn’t understand the pressure we were under.”

Mwepu era o jaqueta 2.

Tudo bem, vai, está perdoado. Mas se você não conseguiu parar de rir da cena até agora, não se preocupe. Até Mwepu já fez graça com ela:

Postado por: Marcos Abrucio

***

Ver também: Uniformes Inesquecíveis da Humanidade 1 (Alemanha – 90), 2 (Brasil – 70), 3 (França/Kimberley – 78) e 4 (Cruyff – 74).

Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 4

O cara que surpreendeu novamente o Zagallo.

A seleção da Holanda de 1974 mudou nosso jeito de ver o futebol.

Não só por causa das inovações táticas, do uso da linha de impedimento, do “futebol total”. Disso todos sabem. Mas também porque, graças ao futebol vistoso dos holandeses naquela Copa, até hoje se espera um futebol ofensivo, envolvente, moderno de todo time que joga de laranja.

No entanto, o Uniforme Inesquecível da Humanidade que eu gostaria de destacar aqui não é o flamejante laranjão que os cavalinhos do carrossel vestiram em 1974. É o de apenas um deles. Este aqui, o número 14 de Johan Cruyff:

O grande craque Johan Cr... meu Deus, olha o cabelo do zagueiro!

Ué, mas essa camisa não era igual à dos outros? Não. Repare bem, ela tinha só duas listras nos ombros. As do resto do time tinham três:

Neeskens e Rep: uma, duas, três listras.

Não foi o costureiro que comeu bola. A listra que falta é, na verdade, o ápice de uma rivalidade que começou muito tempo antes e ainda está longe de acabar.

***

Os irmãos Rudolf e Adolf Dassler nasceram na impronunciável cidade alemã de Herzogenaurach.

“Rudi”, o mais velho, era falastrão, explosivo e tinha a manha para vendas. “Adi”, introspectivo e minucioso, era um apaixonado por esportes. Seguindo o ramo do pai, em 1920 ele monta uma sapataria. Mas estava interessado mesmo num negócio totalmente inovador, que juntava suas duas paixões: calçados esportivos.

Em 1924, os manos se juntam e fundam a Gebrüder Dassler Schuhfabrik — ou, com menos consoantes, “Fábrica de Sapatos dos Irmãos Dassler” — dedicada inicialmente a fazer calçados para corrida e chuteiras de futebol.

Os manos Adolf e Rudolf Dassler.

O talento de Adolf para construir pisantes mais leves e flexíveis e o tino comercial de Rudolf fizeram da empresa familiar um sucesso. Cada vez mais atletas usavam os artigos que saíam de Herzogaranourfster.

O incentivo quase obsessivo dos nazistas à pratica esportiva ajudou a bombar a produção da fábrica. Ironicamente, a consagração internacional chegou quando os Dassler conseguiram que Jesse Owens usasse o calçado deles nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O negro americano ganhou quatro medalhas de ouro e deixou o Führer espumando.

Impossible is nothing, Jesse.

As personalidades antagônicas dos irmãos e a luta pelo controle da fábrica sempre causaram brigas homéricas. A Segunda Guerra Mundial levantou a fervura de vez. Os dois tiveram que voltar a morar na mesma casa, e um vivia às turras com o outro.

Durante um bombardeio noturno a Herzougaraiauchfftsrs, Adolf comentou, referindo-se aos aliados: “Lá vêm esses malditos de novo.”. A esposa de Rudolf ouviu e achou que o cunhado falava dela e do marido. Ao fim da guerra, Rudi foi preso pelos americanos, acusado de colaboração com os nazistas. Ele passou a vida inteira jurando que tinha sido o irmão que o havia dedurado.

Nessa altura, não tinha mais jeito: a fábrica tinha que ser dividida. Adolf juntou sílabas do seu apelido e do seu sobrenome e fundou a “Adidas”. Para distinguir seus produtos, meteu três listras em cada um deles.

Rudolf também criou sua empresa, instalada do outro lado de Hierzourchinaurarghtfktls, e usou o mesmo raciocínio para chamá-la de “Ruda”. Depois usou a cabeça e viu que esse nome era feio para dedéu e a renomeou como “Puma”.

A Adidas ganhou destaque na Copa de 1954, quando Adi Dassler colaborou com o Milagre de Berna ao fornecer chuteiras de travas ajustáveis aos jogadores da seleção alemã. Com calçados mais adequados ao campo encharcado da final, eles viraram o jogo contra os favoritíssimos húngaros: 3 a 2.

Os milagreiros campeões mundiais de 1954 e seus pisantes incrementados.

Com o tempo, as duas empresas passaram a fazer bolas, agasalhos e todo tipo de artigo esportivo — além entrar de vez para o guarda-roupas de todos os terráqueos, atletas ou não.

Enquanto a Adidas buscava cooptar todo esportista que via pela frente, a Puma, sem tantos recursos, se concentrava em alguns poucos — mas justamente os que mais chamavam a atenção da mídia, seja por seu talento ou por sua personalidade controversa. Pelos dois critérios, este era o caso de Cruyff.

***

Desde moleque no Ajax, Cruyff logo destacou por seus dribles e arrancadas — mas também pela sua liderança e vaidade.

O meia magrelo transformou um time modesto com estádio acanhado no tricampeão da Europa, sempre jogando com liberdade por todo o gramado, com a anuência do técnico Rinus Michels.

A Puma se aproximou dele rapidinho. Mas não sem passar algumas dores de cabeça. Aos 20 anos, ele já recebia 1.500 florins para usar as chuteiras com a marca do felino. Como forma de conseguir um contrato melhor, passou a usar nos treinos chuteiras Adidas, alegando que as da sua patrocinadora machucavam seus pés.

Apesar de por conta disso ter sido processado pela empresa de Rudolf Dassler, Cruyff acabou ganhando dela, às vésperas da Copa de 1974, um contrato 100 vezes maior.

Consciente do novo papel dos atletas no recém-criado negócio do esporte, ele sempre defendeu que eles deveriam ser muito bem recompensados pelas suas atuações — e, por isso, nunca perdeu a fama de mercenário.

Eu quero minha parte em dinheiro.

***

Para a Copa da Alemanha, a Adidas fechou contrato com a CBF da Holanda. Os jogadores usariam camisas, calções e moletons com as três listras da empresa.

O empresário (e sogro) de Cruyff afirmou aos cartolas laranjas que o craque poderia até dormir com sua filha, mas não usar produtos de outra empresa que não a Puma.

A federação se borrou de medo de perder o principal responsável por levar a Holanda à Copa pela primeira vez desde 1938. A Adidas, de ser responsabilizada pelos torcedores por ele não estar nos gramados alemães. E acabou cedendo.

E assim nasceu o uniforme de duas listras de Cruyff, uma solução salomônica para uma das maiores crises entre os dois irmãos marrentos de Hierzrouchnieszlingaurchiaft.

The brand with two stripes.

Detalhe da camisa paraguaia-holandesa de Cruyff.

Além das listras, havia outra diferença entre o uniforme do meia para o do resto do time: enquanto para todos a numeração seguia a ordem alfabética (o goleiro Jongbloed, por exemplo, era o número 8), ele jogou com o 14, número de sorte dele — dane-se a ordem alfabética, o cara é o dono do time!

***

Cruyff havia se metido em uma ferrenha disputa familiar-empresarial, mas, ao lutar por seus direitos e seus florins, não se deixou transformar em um mero, hã, laranja nessa pendenga.

O que não o impediu de cair numa ”pegadinha” da rival da sua patrocinadora. Conta a jornalista Barbara Smit no excelente “Invasão de Campo”, que quando a Holanda foi tirar a foto oficial para a Copa, um representante da Adidas se misturou com os jogadores e, discretamente, botou uma bolsa da marca bem na frente das chuteiras Puma de Cruyff…

***

Cruyff não foi à Copa seguinte, mas os gêmeos Willy e René van de Kerkhof, patrocinados pela Puma, estavam em campo e, seguindo seu exemplo, também exigiram camisetas com duas listras.

***

Rudolf Dassler morreu em 1974 e Adolf, em 1978. Ambos foram enterrados no mesmo cemitério, em Hierzzougeneregaraurachartsrowlaaaargh. Em lados opostos, claro.

***

Ver também: Uniformes Inesquecíveis da Humanidade 1, 2 e 3.

Postado por: Marcos Abrucio

Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 3

De um lado, a Hungria, vestindo meias, calções e camisas brancas. Do outro, a França, com meias vermelhas, calções azuis e camisa listrada verde e branca. França? De verde?

Seria o Juventude?

Em 1978, a França pintava como uma das promessas do Mundial. A equipe liderada por Michel Platini, já craque aos 22 anos, tinha um futebol vistoso e envolvente. Seria um sopro de alegria numa Copa que acabou marcada por times chinfrins e jogos horrendos.

No primeiro minuto do primeiro jogo, os franceses abriram o placar contra os italianos. Só que nos 89 minutos seguintes o mundo descobriu que os franceses tocavam muito bem a bola pra lá e pra cá, mas eram nada objetivos. A marcação italiana engoliu Platini e a Itália virou para 2 a 1. Este também foi o resultado do segundo jogo, contra os anfitriões argentinos.

Com isso, o último jogo da primeira fase, contra a Hungria, era apenas um amistoso: os dois times já estavam com passagem marcada para casa. Mas antes ainda iriam se envolver em um incidente cromático.

Todos sabem (sabem?) que a tradicional camisa húngara é vermelha, e a não menos clássica vestimenta francesa é azul. Cores bem diferentes entre si.

O azul e o vermelho dos dois países...

Diferentes para quem estivesse lá no estádio, mas indistinguíveis para quem via tudo em preto-e-branco. Era o caso da grande maioria da população argentina, que tinha apenas televisores pb. O vermelho e o azul virariam o mesmo tom de cinza e ninguém entenderia nada.

...seriam vistos assim pelos pobres argentinos pobres.

A FIFA então pediu que a Hungria vestisse seu uniforme 2, todo branco. Ok. Só que aí, ao que parece, os franceses resolveram causar.

A delegação da França viajou até Mar del Plata, local da partida, com apenas sua camisa reserva — também branca. Alegaram que ninguém tinha avisado que eles teriam que ir de azul…

A birrinha dos franceses nasceu do descontentamento com a arbitragem dos jogos anteriores — em especial contra a Argentina, em que um suposto pênalti a seu favor foi ignorado.

Resultado: na hora marcada, estavam 22 jogadores de branco no gramado. O juiz brasileiro Arnaldo Cesar Coelho coçou a cabeça, disse que a regra era clara e exigiu uma atitude. Alguém teria que trocar de roupa.

A solução foi dada por um pequenino time de Mar del Plata, o Club Atletico Kimberley. A equipe alviverde emprestou um jogo de camisas para os franceses, que mantiveram seus calções originais azuis e as meias vermelhas. Ô coisa linda.

Seu time já participou de uma Copa do Mundo? O Kimberley já!

O improvisado fardamento francês se tornou mais um Uniforme Inesquecível da Humanidade. Não por alguma qualidade estética, longe disso. Mas por lembrar para sempre o dia em que a Copa do Mundo teve seu momento várzea. Com todo respeito à várzea.

O resultado do jogo? Putz, esqueci.

Ver também:
Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 1
Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 2

 Postado por: Marcos Abrucio

Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 2

 

O manto do Rei

 

“When you’ve won as many World Cups as Brazil — five — you are allowed to dress in gold.”

É o que diz o jornal inglês Daily Mail, britanicamente jogando com os dois sentidos da palavra “ouro”, ao eleger o uniforme da seleção brasileira como o melhor de todos os tempos.

A camisa canarinho não se dá bem apenas em Copas do Mundo. Ela também coleciona vitórias em eleições desse tipo ­— deixando para trás outras belezinhas como a camisa laranja da Holanda e a branca do Real Madri.

Em 2007, outro jornal inglês, o Times, listou as 50 melhores vestimentas da história do futebol, e o resultado foi o mesmo. Entra vinheta sonora: Brasil-sil-sil!

E isso apesar da combinação amarelo e azul com detalhes verdes não ser das mais perfeitas à primeira vista, segundo os especialistas em moda (hmmm) ingleses.

Mas não foram seus dotes fashion (hmmmmm) que fizeram da amarelinha um ícone, e sim o que ela passou a representar — especialmente após 1970.

Jogador, ator e modelo.

 

O amarelo entrou em campo às vésperas da Copa de 1954, em substituição ao uniforme todo branco — apontado como um dos culpados (!) pela derrota na Copa anterior. Segundo os corneteiros da época, a camisa branca não era “suficientemente nacionalista”.

Com apoio da CBD, a CBF da época, o jornal carioca Correio da Manhã lançou em 1953 um concurso para escolher o modelo a ser usado na Copa. A opção vencedora foi mandada por um gaúcho de Pelotas (ok, chega de piadas) de apenas 19 anos, Aldyr Garcia Schlee, que depois se tornaria um reconhecido jornalista e escritor.

O pai da criança.

 

Com a nova camisa, o Brasil ganhou as Copas de 1958 (apesar de ter usado a reserva azul na final) e 1962. Mas foi depois da Copa de 70 que o amarelo da seleção virou um símbolo com vida própria.

Primeiro, porque foi a primeira Copa transmitida ao vivo, via satélite, para o mundo inteiro. Para muitos países, em cores (no Brasil foi em pb mesmo, ô pobreza). Aí, claro, aquele amarelão se destacou.

Ainda mais naquele time. Nunca uma equipe havia unido tão bem jogo sério com jogo bonito, aplicação tática com talento, eficiência com magia. Depois dessa Copa, ao ver a vestimenta amarela entrando em campo os adversários adquirem a mesma tonalidade, e o público já espera o show.

Ao ver amarelo, atenção.

 

Por último, embora na eleição do Daily Mail o vencedor tenha sido o uniforme brasileiro de “qualquer época”, a camisa de 1970 é certamente a mais feliz que já vestimos.

O modelo simples, sem gueri-gueris, a gola redonda e o tom perfeito do amarelo fazem dela um clássico. O engraçado é que duas empresas fabricaram essa camisa, a Athleta e a Umbro. Os jogadores usavam uma em cada tempo. A diferença entre elas está no formato dos números: os da Athleta eram retos, os da Umbro, arredondados.

Athleta, Umbro.

 

Nos próximos dias, a Nike deve lançar o modelo que os jogadores vão usar na África do Sul — e a gente, em peladas e baladas. Esse é sempre um momento de apreensão: vão deixar a camisa bonita ou vão estragar tudo?

Eu torço para que não inventem. Que seja algo simples, elegante, clássico. Como o fardamento de 70. Esse sim, um legítimo Uniforme Inesquecível da Humanidade.

Ver também: Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 1.

Postado por: Marcos Abrucio

Traumas

Sou só eu ou você também vê algo diferente nesse comercial?

Um cara pede para a seleção ir para a Copa “como quem vai para uma batalha”. Outros exigem “luta” e, em caso de derrota, uma “volta por cima”. Outro avisa: “vamos para a guerra juntos”.

São torcedores do Brasil. Sabe aquele país que sempre se orgulhou do seu “futebol-arte”, berço de craques que jogavam sorrindo e inventavam dribles desmoralizantes? O país onde muitos ainda torcem o nariz para a seleção de 94 porque ela não “ganhou bonito”? Que, aliás, acha que jogar bem é tão importante quanto ganhar? Esse mesmo.

Então o que essas frases estão fazendo na boca da galera? Pode ter certeza que não estão lá à toa. Antes de ligar a câmera para fazer um comercial, infinitas pesquisas são feitas, refeitas e refeitas. Esses gritos de guerra só foram parar no roteiro porque refletem o sentimento do torcedor brasileiro hoje. É fato. Mas o que aconteceu para, no lugar de “artistas”, querermos “guerreiros”?

Fácil: a Copa de 2006, maldita seja.

A Copa a que chegamos como favoritos e da qual saímos com o rabo (e a bola) entre as pernas. Aquela seleção será sempre lembrada como apática, preguiçosa, mascarada, sem gana. É verdade que as expectativas eram muito altas, mas é verdade também que foram muitos os nossos erros. Dos dirigentes, do técnico e dos jogadores. Mas isso é assunto para outro post, ou, pensando bem, melhor não.

2006: falta de Gana

O que eu quero dizer é que o estado de espírito do torcedor brasileiro para a próxima Copa é resultado da catatonia brasileira na Copa anterior. E que esse tipo de trauma é comum, pelo menos nessas bandas.

Em 1950, perdemos a Copa em casa, de virada, podendo empatar e levando um gol Chico Xavier faltando 10 minutos para acabar o jogo. Dureza. Primeiro, o pais inteiro ficou mudo. Depois, soltou os cachorros para todos os lados. Sobrou até para a camisa branca da seleção. Teria dado azar, a desgracenta.

Camisa branca: sai, zica.

Mas quem sofreu mesmo foram os jogadores. Em especial, olha só a merda, os negros e mulatos, como Barbosa, Juvenal e Bigode. Para a massa, faltaram a esses jogadores a raça e hombridade que sobravam nos uruguaios. Nem repararam que o capitão e fodão uruguaio Obdulio Varela também era mulato.

Na Copa seguinte, agora de amarelo, a seleção tratou de mostrar todo o seu apetite. O resultado foi uma das maiores vergonhas da história das Copas: a Batalha de Berna.

Antes do jogo contra a Hungria, os dirigentes brasileiros passaram a noite enchendo a cabeça dos jogadores. Exaltados, os cartolas exigiram honra, patriotismo e até que os jogadores vingassem as mortes dos soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. O que os húngaros tinham a ver com isso, não se sabe.

Os brasileiros entraram em campo pilhados, cheios de fibra. E com 10 minutos, já estava 2 a 0 para a Hungria. No fim, 4 a 2 para os húngaros, Nilton Santos e Humberto expulsos e um baita quebra-pau depois do apito do juiz. Jogadores, cartolas e jornalistas saíram na mão com os adversários, policiais e quem mais aparecesse na frente. Foi feio.

Batalha de Berna: fibra demais dá a maior merda

Outro trauma, enorme, foi o de 82. Para muitos, aquela seleção caiu por só querer atacar. Contra a Itália, “não soubemos jogar pelo empate”. Bem, na Copa seguinte fomos eliminados pela França justamente com um… empate. Os três zagueiros da seleção de Lazaroni em 90 também são filhos diretos das feridas causadas pelas derrotas das seleções “ofensivas” na década anterior.

Aí chegou a Copa de 94, que ganhamos com muito vigor, aplicação defensiva e um sonoro 0 x 0 na final. O grito desentalou da garganta. Finalmente éramos campeões, e agora poderíamos nos soltar (opa), desencanar dos medinhos e nos dedicarmos ao espetáculo, à arte, à diversão, ê, laiá.

É o que vemos no comercial que passava às vésperas da Copa seguinte — repare que o espírito daquela época era exatamente o contrário do de hoje: os jogadores querem se divertir, dar espetáculo (e, no fim, perdem o gol…):

Depois de 2002, com mais uma estrela no peito, esse discurso voltou: a ordem era jogar bonito, com muita alegria e malemolência:

Só que na Alemanha faltou jogar bonito, faltou alegria, faltou malemolência. Faltou ganharmos. E o diagnóstico final: faltou raça.

Mas peraí: no fim, o que nos derrubou não foi a falta de garra, e sim o excesso de talento — só que do outro lado, sob a camisa 10 do adversário.

Clap, clap, clap.

Para conseguirmos superar todos os nossos traumas em 2010, o que eu desejo mesmo é que joguemos tanto quanto esse cara. Na raça e na bola.

Postado por Marcos Abrucio.

Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 1

Você tem? Eu compro.

Você tem? Eu compro.

As camisetas clássicas da Alemanha (aquelas até a Copa de 1986) nunca tinham nada além do preto e do branco. Lindas. Elegantes. Estilosas. Ui. As réplicas das de 1954 e de 1974 ainda hoje vendem como água. Ou cerveja, mais apropriado.

Em 1990, a Adidas resolveu inventar, botando uma bandeirinha ziguezagueando pelo peito. Tinha tudo para dar errado, mas não deu! – pelo menos para os 50% do mundo que, como eu, amou. Os outros 50% cospem pro lado toda vez que vê a dita cuja até hoje.

Foi uma das primeiras camisas de futebol mais, humm, “enfeitadas” que eu vi. O problema foi a enxurrada de excrescências que surgiram no rastro dela nos anos 90 (quando, acho, descobriram que dava pra imprimir colorido em tecidos…).

Mas essa é outra história. Por ora, este é o primeiro dos Uniformes Inesquecíveis da Humanidade.

Jawohl!

Jawohl!

Postado por: Marcos Abrucio