Perder, Ganhar, Viver

Eu tinha 8 anos. Frequentava o Maracanã desde os 6, levado pelo meu pai, para torcer pelo Flamengo.  Foi aí que o futebol começou a se tornar importante na minha vida. O Flamengo vivia o melhor momento da sua história. Para mim, era um time formado por 11 superheróis, imbatíveis, irresistíveis. Ídolos de verdade. Os melhores do mundo. Era tudo que um garoto da minha idade poderia sonhar. O futebol era só alegria. Eu ainda não conhecia o outro lado. Naquele ano de 1982, eu iria conhecer.

A seleção brasileira de 82 tinha muito em comum com o Flamengo. Tinha o Leandro, o Junior, era comandada em campo pelo meu maior ídolo, o Zico. E ela também me parecia imbatível.

O Brasil torceu muito por aquela seleção. Foi a primeira vez que senti o clima de uma copa do mundo. Os muros pintados, os fogos, as bandeirinhas nas ruas em Copacabana. E eu entrei no clima. Li sobre a história das copas num livrinho que ganhei da minha mãe e decorei os apelidos dos jogadores na revista Placar: Peixe-frito, Capacete, Doutor, Galinho, Pé Murcho… era impossível imaginar que o Brasil não seria campeão do mundo. Para mim, ele já era.

No dia do jogo contra a Itália, estávamos reunidos na casa de amigos dos meus pais. Era mais um dia de festa. Não lembro muito bem do que aconteceu enquanto o jogo passava na TV. Mas o que aconteceu depois, não dá para esquecer. Choque. Silêncio. Gente chorando. Tragédia. E um nome que pairava no ar como uma nuvem negra: Paolo Rossi.

Ali eu descobri a cara da derrota. E o futebol começava a me dar suas lições.

Mas como pode? nosso time é muito melhor que o deles.

É, moleque, nem sempre o melhor se dá bem.

E como pode, o Zico perder?

Garoto, nossos ídolos são de carne e osso. Eles também erram. E um dia você vai descobrir que é por isso que a gente se apaixona por eles.

E agora?

Agora? levanta a cabeça. A vida continua e ela é assim mesmo.

E lembro até hoje do título da crônica do Carlos Drummond de Andrade, que saiu no Jornal do Brasil no dia seguinte, e que resume o que aquela copa do mundo me ensinou: “Perder, Ganhar, Viver”.

A derrota é importante. Não a derrota desinteressada e merecida. Esta só serve para nos irritar. Mas a derrota dramática, épica, injusta. Aquela que dói no fundo da alma. Esta nos ensina. E nos mostra como a vida deve ser vivida: com intensidade e emoção. Na vitória e na derrota.

Postado por: Rodrigo Mendonça

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6 Respostas para “Perder, Ganhar, Viver

  1. realmente, as primeiras derrotas são muito sofridas. Para mim, foi no Paulista de 93. Não acreditava que o Corinthians, que ganhava toda quarta e domingo de 5×0, podia perder o jogo final e não ser campeão. Na época, o zagueirão Henrique era o meu Zico…

  2. Mendonça como sempre incorporando sentimentos nos textos que fazem até mesmo os que não estavam nem nos planos de nascer, sentirem o que foi esse momento.
    Segue o jogo.

  3. Acabei de participar desse jogo histórico. Muito bom, Mendonça! abração

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