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Há um ano

Postado por: Marcos Abrucio

Sejamos francos (sempre quis começar um texto assim, com “sejamos francos”; legal, gostei): na maioria dos dias, não acontece nada.

Nada de realmente importante, quero dizer. Tudo bem, de vez em quando rola “Curtindo a Vida Adoidado” na Sessão da Tarde. Mas fora isso, é o mesmo trânsito de sempre, uma ou outra discussão no Congresso, mais um golaço do Messi. Nenhuma novidade.

No entanto, existem alguns dias em que tudo acontece. 11 de junho do ano passado foi um deles.

Foram tantas coisas legais juntas que fica difícil dizer qual foi a mais incrível. Vejamos (sempre quis botar um “vejamos” no meio de um texto…):

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Para começar, 11 de junho de 2014 foi o meu aniversário. O dia mais legal que existe — pelo menos para quem faz aniversário nesse dia, no caso eu, o Hugh Laurie, o Gene Wilder e, droga, o J.Hawilla.

No seu aniversário, o universo inteiro o trata como você e a sua autoestima gostariam de ser tratados todos os dias. Naquelas 24 horas, você é o cara.

Fale por você. Eu sou cara todo dia.

Fale por você. Eu sou o cara todo dia.

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Mas beleza, aniversário tem todo ano. Ontem mesmo rolou um deles, valeu, galera! Mas 11 de junho do ano passado foi também a véspera das minhas férias.

E todo mundo que já foi à escola sabe o que isso significa: é o dia mais cheio de esperanças, expectativas e empolgação do ano todo. Todas as obrigações estão às suas costas. À sua frente, só alegria. O despertador some da sua vida e você experimenta a inigualável sensação de não ter a menor ideia de que dia da semana é hoje. É demais.

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Tá legal, férias também tem todo ano (cara, espero do fundo do meu coração que você tenha férias todo ano), mas 11 de junho do ano passado também foi o dia da véspera da Copa do Mundo. E aí vamos para outro patamar de coisa legal.

Big Itaquera Stadium, one year ago.

Big Itaquera Stadium, one year ago.

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Como esse espaço (não muito frequentado ultimamente, é verdade) sempre repete: a época da Copa é a mais legal de todas. Ela começa quando o Brasil se classifica para o Mundial (sempre, por favor) e vai até o zelador do estádio da final apagar os refletores.

Mas o auge é mesmo no mês em que o mundo inteiro para para ver os jogos mais fantásticos que existem (ok, menos Nigéria x Irã).

E lembremos todos (“lembremos todos” também é legal, hein?) que esta não foi uma Copa qualquer, e sim a Copa das Copas.

Não foi (só) papo da Dilma. Torcedores, jogadores, jornalistas de todo o mundo consideraram a Copa do Brasil uma das melhores de todos os tempos. Jogões, golaços, viradas emocionantes, prorrogações… Para quem gosta de futebol, a nossa Copa teve de tudo (clique aqui, vale a pena).

Gracias!

Gracias!

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Só que, há um ano, nem todo mundo estava empolgado com isso. O rescaldo das manifestações de 2013 ainda pairava sobre a Copa. O mau-humor era generalizado. Olha só a capa da Folha no dia da abertura da Copa:

30 dias depois, essa manchete seria o contrário.

30 dias depois, essa manchete estaria invertida.

Ok, havia motivos para o pé atrás: o gasto exagerado em estádios que poderiam virar elefantes brancos (e, surpresa!, viraram) era uma preocupação mais do que válida. Sim, podíamos ter feito uma Copa mais brasileira. Com menos gastos, desconfianças, roubalheiras. Sim, a FIFA é abominável — e que bom que seus líderes fétidos começaram a cair.

Mas eu acreditava que dava para ser crítico à organização do Mundial e, ao mesmo tempo, curtir a melhor época que existe. No fim, foi o que rolou: quem não tinha ingresso deu um jeito de comprar, os estádios lotaram, os gringos vieram para se divertir, a gente se divertiu com eles, a Vila Madalena virou a ONU (e mictório, também) compramos toneladas de figurinhas e todos gritamos a plenos pulmões: OEAAAAA!

Foi tão legal que nem a maior derrota de todos os tempos foi capaz de tirar o gosto bom que essa Copa nos deixou.

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A expectativa pela Copa teria tudo para ser a coisa mais bacana daquele 11 de junho. Mas…

Mas em 11 de junho do ano passado eu fiquei sabendo que aquele voluminho na barriga da minha mulher não era um voluminho qualquer. Era uma menininha.

E não era uma menininha qualquer, e sim a menininha das menininhas: Olívia!

Sorry, Copa, mas não dá para competir com isso:

Falemos a verdade!

Falemos a verdade!

Eu nem imaginava, mas há um ano verdadeiramente começava a época mais legal de todas…

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Sobre timing e posicionamento

Postado por: Marcos Abrucio

No futebol, timing é tudo, já ensinava o mestre Romário. Como ninguém, ele parecia estar sempre na hora certa, no lugar certo.

Timing que parece ter faltado a jogadores que brilharam em seus clubes, mas que quando chegava a Copa, alguma coisa desandava com eles. O resto do time não era bom, contusões atrapalhavam, a sorte desaparecia na hora H. Resultado: Puskas, Di Stefano e Zico não foram campeões do mundo.

Mas o Anderson Polga, sim.

Zico, zica.

Zico, zica.

Pior é o caso do Zé Roberto. Lateral-esquerdo da Portuguesa vice-campeã brasileira de 1996, foi para o meio de campo na Alemanha, onde jogou no Bayer Leverkusen, Bayern de Munique e Hamburgo.

Na Copa de 98, era reserva de Roberto Carlos – vice-campeão mais uma vez. Em 2006, vivia a melhor fase da carreira. Foi disparado o melhor jogador brasileiro na Copa da Alemanha. Só que mais uma vez a França nos mandou de volta para o aeroporto.

Entre as duas Copas, a de 2002: vitória brasileira, Família Scolari, show de Ronaldo e Rivaldo, olha o Denílson contra a Turquia!, olha o Olodum tocando, ah, que beleza, ah, que saudade… Mas Zé Roberto não foi convocado.

Belletti, Gilberto Silva, Kléberson e Vampeta, sim.

Foi mal, Zé.

Désolé, Zé.

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A Copa de 2014 no Brasil seria mais um exemplo de falta de timing?

Quem gosta de futebol sempre quis ver uma Copa em casa. E logo agora que ela chegou, putz, o clima tá tenso. Protestos, greves, raiva, indignação coletiva — tudo ao mesmo tempo, fazendo quem quer ver a bola rolar se sentir até culpado.

Como disse no post anterior, tudo isso é legítimo. O que não falta no Brasil é motivo para ficar puto e ir para a rua (® Fiat). Também não acho errado aproveitarem justo essa época para protestar. Faz todo sentido gritar quando todo mundo tá olhando, ora essa. Na África do Sul já foi assim.

Se a Copa (ou melhor, a organização incompetente e corrupta da Copa, por parte do comitê organizador, Fifa, CBF, Governos Federal, Estaduais e Municipais) foi o estopim para a galera se coçar, beleza, azar o dela. Antes agora do que nunca.

Outra coisa: será que teríamos feito tudo diferente em outras épocas? Não teríamos superfaturado, desviado, procrastinado? Será que governos anteriores teriam aberto mão do Mundial frente às exigências da FIFA? Não teriam financiado estádios privados?

Duvido.

Estádios incompletos.

Estádios incompletos.

Em 1950, houve atrasos, gambiarras e dinheiro público derramado à vontade – e ninguém se importou muito com isso. A culpa foi só do Barbosa.

Assim, Copa atual não chegou em hora errada, pelo contrário. Dessa vez, nossa reação foi diferente, indignada com o que houve de errado. Sinal de que o país amadureceu.

***

Outra prova de amadurecimento, dessa vez de cada um de nós, seria conseguirmos diferenciar as coisas.

De um lado, está a vontade de protestar e acabar com tudo que o Brasil tem de errado, injusto, e cruel. Do outro, a paixão pelo futebol e a vontade de torcer pela seleção. Acredite: uma coisa não briga com a outra.

De novo: protestar é legítimo e necessário. E ninguém é obrigado a gostar de futebol, muito menos a torcer pela seleção. Torce quem quer, pra quem quiser. E não faltam motivos para torcer contra.

Mas o cidadão que comprou aquela TV de 95 polegadas nas Casas Bahia porque gosta de futebol, gosta da Copa e gosta do time brasileiro (e tem bastante espaço na sala) não precisa ficar com vergonha. Ele pode torcer pela seleção e ao mesmo tempo reivindicar um país melhor para ela.

Pode parecer difícil achar uma posição entre o oba-oba acrítico e a vontade de arrancar o escalpo do Neymar . Mas já fizemos isso antes.

Uma das épocas mais tristes da história do Brasil.

Tostão em uma das épocas mais tristes da história do Brasil.

Em uma das fases mais críticas da ditadura, fizemos festa para cada um dos 19 gols da seleção de 70. Não porque erámos todos alienados hipócritas. Mas porque sabíamos que uma derrota daquele time não iria soltar ninguém das masmorras.

Eram coisas diferentes.

E olha que o Brasil de junho de 1970 era muito pior do que o de junho de 2014. A tortura e a censura eram corriqueiras, a saúde e a educação eram (ainda) mais precárias e a liberdade era artigo em falta no mercado — não queira se imaginar indo para a rua (® Fiat) naqueles tempos.

Isso não quer dizer que não havia um conflito interno entre os brasileiros. Até entre os jogadores. Para variar, Tostão escreveu um lindo texto sobre aquela Copa. Aí vai um teco:

“Pensei em não ir a Brasília, onde a seleção seria recebida pelo ditador Médici, como protesto. Refleti, racionalizei e achei que deveria ir, pelo compromisso com a seleção, com os companheiros, que deveria separar a política do esporte (…). Freud gostava de repetir uma frase de Shakespeare: ‘A consciência nos faz todos covardes’, no sentido de ser racional, prudente, ético, justo e social. Por outro lado, deixamos, com frequência, de lutar por nossos profundos e verdadeiros desejos, nem sempre compatíveis com nossos deveres sociais.”

Que bom que hoje a gente tem mais liberdade para gritar e ser ouvido. Vamos fazer isso! Mas, ao mesmo tempo. como escreveu o Antônio Prata no último domingo, deixar de curtir a Copa aqui “só deixará sua vida mais chata.”.

Vai-ter-copa-ou-não

***

É possível ser crítico à organização da Copa e ao mesmo tempo curtir o que essa época tem de mais emocionante.

É possível protestar no feice contra os elefantes brancos espalhados pelo Brasil e ao mesmo tempo comprar as figurinhas do Mundial.

E é possível conseguir separar uma vitória sensacional ou uma derrota acachapante da seleção do numerozinho que se vai digitar nas urnas em outubro. Isso sim, seria uma prova de maturidade.

Aposto que vamos conseguir fazer isso. E tomara que eu seja tão preciso nessa aposta quanto ele era dentro da área:

Por que a Copa?

Postado por: Marcos Abrucio

2010

Copa da África do Sul, 2010.

Há exatos quatro anos, o pessoal da Editora Cortez me pediu um texto sobre a Copa do Mundo. Para quem não conhece, a Cortez cresceu no meio acadêmico, principalmente entre as ciências sociais. O texto seria disparado para o mailing da editora — formado em sua maioria por professores, psicólogos, sociólogos, cientistas políticos…

Ih, ferrou. De cara, estava descartada qualquer tentativa de explicação antropológica das Copas, sob o sério risco de passar vergonha. Nada que eu falasse seria novo ou revolucionário. E pô, é a Copa, nunca ouviram falar?

Inglaterra, 1966.

Copa da Inglaterra, 1966.

Resolvi simplemente falar porque eu gosto tanto desse campeonatinho mequetrefe — o que, no fundo, é o que venho fazendo aqui há tanto tempo.

Lembrei hoje daquele texto por dois motivos. O primeiro é o debate, necessário e importante, sobre a realização da Copa no Brasil. Sim, os escândalos, os superfaturamentos, as pataquadas e roubalheiras do trio FIFA-CBF-governos brasileiros são vergonhosos – embora algumas vergonhas não são assim tão sinceras

Sim, não era preciso ter gasto tanto dinheiro para fazer uma Copa aqui – e bem que ela podia ser um pouco mais brasileira. No fundo, nem era preciso fazer essa joça aqui. Tudo isso é verdade. Mas, ao mesmo tempo, essa joça é um dos eventos mais legais do planeta

O que me leva ao segundo motivo de ter lembrado daquele texto, que foi ter relido a magnífica frase de Mauro Cézar Pereira: O futebol é a maior invenção do homem.

Talvez não seja (já comeu doce de leite argentino?). Mas que tá no Top 5, ah, tá. Abaixo, reproduzo o o texto que mandei para a Cortez . Depois, eu volto para atualizar meu pensamento.

*** 

A detestável Copa do Mundo

Nas ruas de qualquer cidade do Brasil, um cenário pós-apocalíptico. O comércio está fechado, as calçadas vazias, e o trânsito evaporou — ei, até que a imagem não é assim tão ruim.

A sensação de abandono só não é completa porque, bem ao fundo, você ouve uma voz ritmada. E depois, um grito em uníssono de “Gol!”. Você descobre, enfim, que os brasileiros não foram vitimas de uma hecatombe nuclear. Estão todos em frente a TVs e telões, dentro de casas e bares, assistindo à estreia do Brasil na Copa do Mundo.

México, 1970.

Copa do México, 1970.

Os brasileiros não estão sozinhos. A audiência esperada para esta Copa ultrapassa em muitas vezes o número de habitantes da Terra. Isso quer dizer que praticamente todas as pessoas do planeta verão mais de um jogo do Mundial. Algumas, todos. Mas o que explica o sucesso de um evento tão detestável?

Sim, são muitos os motivos para a odiar a Copa do Mundo.

Enquanto ela não acaba, assuntos realmente importantes como as eleições, o combate à miséria, a educação, a saúde e o sentido da vida são deixados de lado. Ninguém dá bola para nada a não ser para… a bola.

A Copa cria um nacionalismo de fachada, que exige a vitória contra os estrangeiros sem se preocupar com uma real melhoria do pais.

As rivalidades atiçadas pela bola rotineiramente se transformam em violência, como mostram os hooligans ingleses, os barra bravas argentinos e os torcedores organizados brasileiros.

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Inglaterra, qualquer época.

O negócio do futebol bate cartão nas páginas policiais, com transações escusas, denúncias de corrupção e de lavagem de dinheiro. Até a camisa dos times e a bola do jogo teriam culpa no cartório — pelo suposto uso de trabalho infantil por parte das fabricantes de material esportivo.

E tudo isso é soterrado pelo rolo compressor do marketing que, meses antes do apito inicial, decreta que só ela, a Copa, importa. E que ela justifica tudo.

Ufa. Mas sabendo de tudo isso (você sabia, né?), por que ainda damos trela para a tal Copa?

A resposta está dentro de campo: no próprio futebol e em suas histórias.

Os gregos já incensavam a prática esportiva como forma de levar o corpo à sua plenitude, o que o conhecimento e a filosofia fazem pela mente. Com o passar do tempo, o esporte se mostrou muito mais do que isso.

Trata-se de um celeiro interminável de histórias fantásticas e de personagens que são admirados por suas façanhas sobre-humanas — ou apenas por sua humanidade. E talvez nenhum esporte tenha conseguido conquistar tanta gente e motivado tantas paixões como o futebol.

Não há certezas sobre as razões disso, apenas suposições. Há quem diga que o futebol é fascinante por ser uma metáfora perfeita da vida (ou da guerra) — e há quem concorde, mas justamente por ele não ser nada disso.

Para muitos, este é o esporte mais democrático de todos, em que baixinhos como Maradona e Romário, jogadores com as pernas tortas como Garrincha e de joelhos estropiados como Ronaldo podem vencer os maiores, os mais fortes e os mais saudáveis.

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O baixinho, 1986.

Em uma época em que em várias partes do mundo os negros não podiam nem dividir o banco de um ônibus com um branco, o futebol alçava à categoria de “rei” um negro, Pelé. O brasileiro se tornou um ídolo planetário, até de quem tomava os negros como cidadãos de segunda classe.

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O negão, 1973.

Em 1998, Irã e Estados Unidos se encontraram na Copa da França. Antes do jogo, os jogadores dos dois times trocaram flores e posaram juntos para a foto oficial. Fizeram o que os governantes dos dois países não conseguiram até hoje: conviver em paz.

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Copa da França, 1998.

Antes da reunificação de fato das Alemanhas, o povo alemão das duas bandas do muro comemorou junto a vitória ocidental na Copa de 90:

Alemanha Campeã

Copa da Itália, 1990.

Mas não é preciso ir tão longe. Todo mundo que tem um time de coração já viu (e viveu) dezenas de histórias de superação, dezenas de vitórias e de derrotas que ensinaram valiosas lições.

O futebol tem o dom de se fazer a coisa mais importante do mundo e nos elevar às alturas da dor e do prazer. E, em seguida, de nos puxar de volta ao solo como se dissesse: “Calma, é só futebol. Importante é a vida”.

Golaços como os citados fazem o futebol ser tão apaixonante. E como a Copa do Mundo é o momento máximo desta paixão, nada mais natural do que pararmos e admirarmos cada um de seus lances. Apesar de tudo. Por causa de tudo. Agora, shhhhh, que o jogo vai começar.

***

Quatro anos depois, o contexto e o clima da Copa são diferentes. Perdemos a chance de usar o evento mais legal do mundo para deixar o país melhor. Perdemos a chance de mostrarmos o que temos de melhor para o mundo — e fizemos o contrário, escancarando os nossos piores defeitos para o mundo.

Por um lado, foi até bom: a Copa no Brasil catalisou um sentimento de indignação que parecia irremediavelmente adormecido. De unanimidade entre os brasileiros, a ela virou pretexto para protestarmos contra tudo que não concordamos.

Se uma coisa tem a ver com a outra ou não, é outra história. Eu realmente acredito que existe um caminho intermediário entre a empolgação acéfala com o Mundial e a demonização total de tudo que ele significa.  Mas isso é assunto para outro post. Amanhã escrevo.

Por hoje, achei pertinente relembrar essa velha defesa da abominável Copa do Mundo.

E se a Copa fosse no Brasil?

Postado por: Marcos Abrucio

A final vai ser aqui. Bem, mais ou menos aqui.

A final vai ser aqui. Bem, mais ou menos aqui.

Esse é o grande problema das datas: uma hora elas chegam. Já está entre nós 2014, o ano que há algum tempo é sinônimo em nossas cabeças de “Copa no Brasil! Copa no Brasil!”.

Desde pequeno ficava imaginando: como seria uma Copa do Mundo por aqui? Itália e Alemanha jogando no mesmo campo de Bangu x América. Os camelôs do Pacaembu vendendo camisetas de Argentina e Camarões. Um bandeirão abrindo no meio da torcida da Inglaterra…  Se o Mundial de 78 foi o do jeito argentino de jogar e torcer, com mais papel higiênico do que grama em campo, uma Copa no Brasil seria uma forma do mundo inteiro ver o jogo como a gente o vê.

A Seleção Alemã adentra o gramado do Maracanã.

A Seleção Alemã adentra o gramado do Maracanã.

Na Copa das Confederações do ano passado, tivemos uma boa amostra de como a “nossa” Copa vai ser, pelo menos dos portões para dentro: tudo no “padrão FIFA”, com o que isso tem de bom e de ruim.

Estádios novos (alguns já velhos), com visual moderno e conforto para o torcedor inédito por estas bandas (também, com as cadeiras e os estádios mais caros do mundo). Tudo muito organizado, limpo, bem sinalizado… e muito pouco brasileiro.

Ops.

Ops.

Já reparou que quando a câmera mostra o interior de qualquer uma dessas novas “arenas” (é, nem estádio chama mais), não dá para saber qual é? Do lado de fora, a arquitetura ainda é única, mas dentro é tudo no tal padrão: as cadeiras são iguais, a distância da torcida para o campo é igual, as dimensões do gramado são iguais, as redes são iguais, até o ângulo de câmera é sempre igual.

Não precisava ser assim. Poderíamos ter uma Copa do Mundo no Brasil que fosse… no Brasil.

Claro que os estádios estavam caindo aos pedaços. Que não dava mais para ser tratado como gado para entrar e sair da arquibancada. Mas era possível fazer reformas estruturais sem perder a nossa cara. Bastava ter pensado melhor em algumas questões:

• Por que em todo estádio o véu da noiva tem que chacoalhar da mesma forma?
A nova rede do Maracanã é igual à do Mané Garrincha que é igual à do Soccer City que é igual à de Yokohama… Por que não podemos ver uma semifinal de Copa do Mundo no Mineirão com seu filó do tamanho de um latifúndio? Ou no Maracanã com aquela rede que já acaba logo depois da linha? Melhor ainda: imagina um jogo decisivo na Fonte Nova com aquelas traves que pareciam de futebol de botão e a rede que quase arrastava no chão:

• Por que não posso comer um McPernil?
Ok, o McDonald’s tem acordo com a FIFA. Legal, vamos vender Big Mac. Mas sem proibir feijão tropeiro no Mineirão, acarajé em Salvador e sanduíche de pernil na porta do estádio em São Paulo (pensando bem, acho que esse a Vigilância Sanitária proibiria de qualquer jeito).

Número 2.

Número 2.

• Por que estádios, desculpe, arenas novinhas em Cuiabá, Manaus, Natal e Brasília, onde nenhum time consegue lotar um estádio, quanto mais uma arena?
Tudo bem, essa é fácil: muita politicagem e algum excesso de otimismo no turismo são a resposta. Mas prossigamos.

Em vez de Manaus, por que não jogar em Belém, onde o Mangueirão está sempre cheio para ver Remo e Paysandu? Em vez de Brasília e Cuiabá, por que não o Serra Dourada, que por décadas sempre foi conhecido como o único dos nossos campos com uma grama decente?

Serra Dourada e seu gramado psicodélico, 1981.

Serra Dourada e seu gramado psicodélico, 1981.

• A Copa tinha que ser no Itaquerão?
Temos que admitir: o Morumbi é um trambolho gigantesco. Tem milhares de pontos cegos, os assentos são distantes do campo, treme assustadoramente, é longe pra burro (desculpe se você mora ali perto, mas você mora longe pra burro) e muito feio esteticamente duvidoso.

Mas sua história também é gigantesca. Acostumamos a tê-lo de pano de fundo de jogos mitológicos. E vá lá: não é possível que uma reforminha bem feita não resolva boa parte dos seus problemas. Reforma que faria bem não só a ele e ao São Paulo, mas aos torcedores de todos os times.

E também à Copa do Mundo: imagine o Fred fazendo um golaço ali e correndo feliz para a galera, como tantas vezes o Careca e o Raí já fizeram. Imagine o Neymar fazendo algo parecido com isso.

Feio? Pensando bem, poucas coisas são tão bonitas como o Morumbi de casa cheia, com um mar de bandeiras como este:

A torcida alemã vibra no Morumbi.

A torcida alemã vibra no Morumbi.

• Mas só o Morumbi presta?
São Paulo já tinha o projeto de dois estádios novos, modernos, reluzentes, pimpões: o do Corinthians e o Palmeiras. Se eles ficassem prontos a tempo da Copa, ótimo. Seriam boas alternativas. Ou poderíamos ainda dar um tapa no Pacaembu, onde 40 mil pessoas estariam maravilhosamente acomodadas. Como sempre estiveram, aliás (lembrando que até jogo de Copa já rolou por ali).

Morumbi reformado, estádios novos, Pacaembu garibado. Na verdade, são todas boas opções. A escolha, então, deveria ser muito simples: a que custasse menos dinheiro público. É, então…

• E o Maraca, hein?
É, parece que do jeito que estava não dava mais. A estrutura estava podre e corria sério risco de cair. Nem vamos lembrar que outras duas reformas já tinham gastado rios de dinheiro nos últimos 15 anos – e que, pelo jeito, deram em nada.

Mas beleza: poderiam ter reformado de novo e mantido não só a fachada, mas também o layout interno, com seus anéis imponentes. E não deixá-lo com cara de uma arena genérica.

Veja bem: o Maracanã está lindo. Mesmo. Mas vale lembrar a impressão de Arbeloa, lateral da Espanha que foi judiado pelo Neymar na final da Copa das Confederações:

 “Quando estivemos no Maracanã, não tive a sensação de jogar em um estádio com tanta tradição. Você chega e vê um estádio moderno, novo, cheio de cores, então não é capaz de te transmitir a história. Tem vestiários confortáveis, modernos e amplos. Não é como quando vamos a Anfield, La Bombonera, ao Monumental de Nuñez, onde você sente o tempo, te transmite a história. Eu gostaria de jogar lá antes da reforma. Não fui capaz de sentir nem pensar que aqui atuaram jogadores tão importantes na história do futebol. Tive a mesma sensação quando joguei, por exemplo, nos estádios novos da África do Sul no Mundial ou os da última Eurocopa. Não parecia um estádio mítico do futebol.”

Disse tudo, cara.

Claro que não há mais espaço no futebol moderno para a geral do Maracanã, mas… peraí, será que não, mesmo? Na Alemanha os torcedores do Borussia tem um espaço para assistir aos jogos como sempre assistiram: em pé, urrando como doidos.

Mané e os geraldinos.

Mané e os geraldinos.

Talvez não desse para manter o fosso e os geraldinos quase sem visão, mas será que não dava para preservar o espírito do estádio, o mais democrático do mundo?

O povão dava o recado no Maraca.

O povão dava o recado no Maraca.

Será que não poderíamos ter a final da Copa em um estádio moderno e confortável, mas que carregasse as marcas da sua história? De perto, o Camp Nou é imponente, colossal, bem cuidado, mas não esconde que tem mais de 50 anos. O Maraca Nou poderia ser assim também.

Outra coisa: encurtaram o gramado! O Maracanã tinha um dos maiores campos do mundo, com espaço bastante para não deixar nenhuma retranca funcionar – o que sempre ajudou o nosso jeito de jogar.

• Resumindo:
Poderíamos consertar as infiltrações, melhorar a visibilidade da platéia, instalar um telão novo mas mantendo as dimensões do tapete – e deixando o palco de tantas histórias mais reconhecível.

Com cara de quem já viu vitórias e derrotas, comédias e tragédias. De quem já viu Pelé fazer o primeiro dos gols de placa e o milésimo dos gols de Rei. De quem viu Mané sorrir e dizer adeus. Já viu goleadas históricas e peladas perfeitamente esquecíveis. Viu Romário dar uma caneta em Maradona, viu Maradona acertar o travessão do meio do campo, viu Gaúcho pegar pênalti, viu Rivelino, Dinamite, ouviu o Frank. Viu Zico jogar.

Não é pouca coisa.

Gênios trabalhando no Maracanã.

Gênios trabalhando no Maracanã.

E, por fim,

• Pô, por que raios tiraram o orelhão de trás do gol do Maracanã?

Alô?

Cadê você?

Doutor, o professor

Postado por: Marcos Abrucio
There Goes My Hero

Sócrates Brasileiro

Além de um bom meia-armador, uma outra espécie anda em falta no futebol brasileiro: o ídolo.

Lembra? Aquele cara que matava a pau dentro de campo e que continuava sendo admirável quando o jogo acabava. E que assim garantia um lugar no pôster que você colava na parede do quarto. (Colava, vai.)

Pois é, as coisas mudaram um pouco. Hoje tem ídolo que ameaça emporcalhar sua biografia ao se bandear para o suspeitíssimo time da cartolagem. (Ainda bem que, surpreendentemente, há exceções.)

Tem ídolo que chega ao primeiro milhão muito antes de chegar ao primeiro titulo. Até aí, tudo bem. Mesmo. O problema é ele não saber que é o futebol que o alimenta. E que, ao mesmo tempo, o futebol é apenas uma parte do seu papel de ídolo e de cidadão.

Tudo bem pensar na balada, na chuteira colorida ou se apareceu bonito no telão. O problema é, simplesmente, não pensar.

Orientado por assessores e patrulhado pelo politicamente correto, os ídolos de hoje não ofendem ninguém, não contrariam chavões, não fogem do roteiro, enfim, não falam nada. (De novo, ainda bem que há exceções aqui e ali.)

E aí, nós, torcedores, começamos a preferir nem chegar muito perto deles, os ídolos. Para não descobrir que você nunca conversaria com o gênio da bola se ele não fosse… um gênio da bola. Melhor não. Eles lá e você aqui.

Mas houve uma época em que isso era diferente. Época em que o ganhador do moto-rádio da rodada também era um cara bem legal de se sentar ao lado numa mesa de bar.

Época de Zico, de Falcão, de Reinaldo.

Época de Sócrates.

O Magro

Minha formação como torcedor se deu assistindo ao time de Sócrates, Casagrande, Wladimir, Biro-Biro… Adorava todos eles, mas Sócrates era claramente o líder, a voz a ser respeitada. Era o herói dos meus irmãos mais velhos, logo, o meu herói.

Cresci admirando tudo que ele fazia ou falava. Sócrates parecia estar sempre do lado certo, embora nem sempre do lado vencedor.

Mesmo sem nunca o ter conhecido, posso dizer que aprendi muito com ele. O Doutor foi meu professor em aulas sobre:

Liberdade: se o jogador é adulto e responsável, por que tem que ficar confinado em uma concentração? Ou: para fazer seu trabalho direito, a pessoa tem que ficar presa?

Mais: se ele não queria comemorar com a torcida, não comemorava. Ponto. Se sim, sim. Simples assim.

O Magrão me ensinou que somos todos livres.

O gesto

Ele não jogava para a torcida. E a torcida adorava.

Democracia: todo mundo tem direito a voto, do dirigente ao roupeiro, seja para escolher o esquema de jogo, o nome do técnico ou o presidente da república.

Assim como muita gente, aprendi o significado da palavra “democracia” assistindo a uma partida de futebol.

Democracia a gente aprende jogando.

Pedagogia: o cara era jogador e… formado em medicina. O melhor argumento possível para mandar as crianças jogarem bola só depois de fazerem a lição de casa.

E esse cara do lado, é o Elzo?

O barbudo com o livro é um jogador de futebol.

E até…

Educação Moral e Cívica: na estréia do Brasil em 1986, em vez do Hino Nacional, tascaram o hino… da Bandeira. Percebendo a presepada, Sócrates deixa claro o seu protesto.

Mas acho que a maior lição sobre a vida que aprendi com Sócrates é que nem sempre você consegue o que quer.

Um exemplo: o Brasil inteiro queria, depois de duas décadas, votar para presidente. Milhões de pessoas invadiam as ruas em uma campanha emocionante. Entre elas, estava Sócrates. Um dos maiores ídolos esportivos do Brasil afirmava que abriria mão de qualquer transferência para o exterior se a emenda das Diretas Já fosse aprovada.

Era uma demanda popular justa, legítima, que tinha que ser atendida. Não foi.

Digam ao povo que fico

O time das diretas.

Outro exemplo: Sócrates brilhou em um dos melhores time de todos os tempos: a seleção de 82.

Poucas vezes tantos craques ocuparam de uma vez só a mesma escalação, uma espécie de “Best of” do futebol brasileiro.

Até hoje aquele time mexe com a torcida: num almoço na semana passada, a TV do restaurante mostrava os gols da campanha de 82. Em todas as mesas, as pessoas largaram os garfos e passaram a assistir, a comentar e a comemorar (!) cada gol como se não houvesse passado quase trinta anos.

O time de Sócrates, Zico, Falcão, Éder, Cerezo, Júnior e Leandro ganhava seus jogos com autoridade, jogava bem e encantava a torcida. Tinha que ganhar. Não ganhou.

Perder faz parte.

Aprendi muito com o camisa 8 do meu time. Mas admito: de nada adiantaria toda a inteligência dele se ela também não entrasse em campo. Se ele não fosse craque.

E que craque ele era.

Se ele era um herói para mim, o toque de calcanhar era o seu genial superpoder. Uma jogada que nasceu de uma deficiência (alto, magro e com os pés pequenos, Sócrates não conseguia girar o corpo com velocidade. Para não ser desarmado, passou a tocar de primeira,  de costas mesmo), que virou uma marca registrada mas sem nunca deixar de ser objetiva, eficiente — e brilhante.

Sócrates TM

Com a cabeça e o calcanhar.

Não há espaço no futebol de hoje para um jogador barbudão, magrelo, desengonçado, assumidamente fumante e cachaceiro como foi Sócrates. Infelizmente, também não há para um jogador com toda a sua inteligência, clareza, liderança e generosidade.

Sócrates seria um ídolo onde quer que atuasse. O futebol teve a sorte dele ter escolhido ser um jogador. A gente agradece.

Obrigado, Doutor.

***

Mais:

– Casagrande sobre o parceiro: “Metade da minha história foi embora.”

– Zico: “Gênio leal.

Homenagem na final.

– Por Alexandre Matias.

– Texto no New York Times.

– Na BBC.

– O melhor, no The Guardian.

Clique de @DedeLaurentino.

A seleção de 3976

A Copa avança com duas quartas de final que mereciam ser semifinais (Brasil x Holanda e Alemanha x Argentina, os quatro melhores times até agora) e duas que deviam, no máximo, ser oitavas (Uruguai x Gana e Espanha x Paraguai).

BRA x HOL e ARG x ALE: jogos que acontecem cedo demais.

A seleção brasileira segue exatamente do jeito que se imaginava: eficiente, forte na defesa, letal no contra-ataque, sem um bom reserva para Kaká e sem jogar um futebol lá muito vistoso.

Foi assim que ela triunfou na Copa América, na Copa das Confederações e nas Eliminatórias. E vai ser assim até o fim — tomara que no dia 11.

Nessas horas em que o (bom ou mau) futebol da seleção é debatido em cada palmo do território brasileiro, sempre se evoca um velho embate: o futebol-arte x o futebol-força (ou de resultados).

Ou, como este confronto é normalmente apresentado: a seleção de 82 x a de 94.

Poesia ou prosa?

A VIP de junho montou um quadro comparativo que repete pela enésima vez a pergunta: qual das duas seleções foi melhor? Após um belo rebolation matemático (deram -10 num quesito…) chegou-se a um empate.

Muitos jornalistas e boleiros insistem em dividir o mundo entre os defensores do time de Sócrates e o de Dunga. Mas a oposição entre esses dois times é, na verdade, uma grande bobagem.

Primeiro, porque não é preciso defender um OU outro. Eu gosto dos dois, pronto.  Como uma mãe que ama seus filhos com a mesma intensidade, não importa se um virou um grande médico e o outro, juiz de futebol, os brasileiros têm as duas seleções no fundo do peito.

Outra: o time “eficaz” de 94 fez muita coisa bonita, especialmente graças ao talento de Romário. E o time “artista” de 82 foi capaz de marcar perfeitamente Diego Maradona, no jogo da segunda fase contra a Argentina.

Por isso, muito mais divertido do que imaginar 1982 x 1994 é pensar em 1982 + 1994.

Uma seleção que somasse os pontos fortes de cada uma seria incrível. Um time obediente, aplicado e mortal como o do tetra. E brilhante, leve e apaixonante como o do quase-tetra.

Mas como ficaria o time titular?

***

No gol, não há dúvidas. Valdir Peres teve uma grande história no São Paulo, mas nunca foi unanimidade na seleção. E por conta daquela falha contra a URSS, eu cresci achando que seu nome era sinônimo de frangueiro. Se um moleque da rua levava um gol por entre as pernas, eu já gritava: “Aê, Valdir Peres!”.

Já Taffarel mora na nossa memória afetiva desde 1988, quando defendeu (muito) a seleção olímpica, passando pela Copa de 1990, quando foi um dos poucos que se salvaram e, claro, pelos Mundiais de 1994 e 1998.

Sim, ele tinha sua criaçãozinha de perus. Tinha também muita dificuldade para sair do gol (o “sai que é sua, Taffarel!” era menos um bordão do que uma súplica do Galvão). Mas sua folha de bons serviços prestados à seleção é enorme.

Durante a campanha do tetra, ele jogou mal por apenas 5 minutos (o suficiente para a Holanda empatar nas quartas, mas tudo bem). De resto, foi perfeito.

E pegou pênalti em semi e em final de Copa do Mundo. Super-trunfo.

Nosso goleiro, portanto, é Taffarel. Desculpe, Taffareeeeeeeeeeeeel.

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Não se pode reclamar dos laterais dos dois times. A turma de 1994 era muito boa. Na direita, Jorginho, habilidoso, bom cruzador, autor de 50% do gol contra a Suécia:

Na final, sentiu uma contusão. Entrou Cafu, que também iria fazer história na seleção, mas nas Copas seguintes.

Na esquerda, Leonardo ia bem até perder a cabeça e quase arrancar a de um americano. Entrou Branco, que havia jogado muito em 86 e 90.

Na Copa dos EUA, no entanto, ele era muito contestado. Por um motivo. Ou melhor, dois: cada uma de suas nádegas, enormes, balofas, balouçantes. Vindo de contusão e já no fim da carreira, Branco estava gigante.

Mas o cara era bom, e tinha estrela (a quarta). Mesmo com toda a desconfiança, jogou bem os últimos três jogos da Copa. E fez aquele gol

Grandes laterais. Mas craques mesmo são os de 82. Os flamenguistas Leandro e Júnior tinham tanto talento que hoje seriam camisas 10 de qualquer time brasileiro (menos o Santos). Júnior, no fim da carreira, virou de fato um meia e foi campeão brasileiro de 92 jogando nessa posição.

Infelizmente na seleção os dois não conseguiram erguer a taça — coisa que cansaram de fazer no rubro-negro. O que não significa que não destruíam também de verde e amarelo. Principalmente naquela Copa.

E justamente por não fazer feio numa roda de bobinho com Zico, Sócrates e Falcão, Leandro e Júnior levam a 2 e a 6, respectivamente.

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Era para ser os Ricardos, Gomes e Rocha. Ou então o Mozer. Só que eles foram se machucando e ficando para trás. E, na última hora, no improviso, montou-se uma dupla de área improvável: Aldair e Márcio Santos.

Que foi a melhor zaga que eu vi jogar na seleção — até chegar Juan e Lúcio, mas esta é outra história.

Em 94, pela primeira vez na minha vida, eu não tinha palpitação quando o Brasil era atacado. A segurança e o entrosamento dos zagueiros era impressionante — ainda mais se lembrarmos que eles tinham jogado pouco tempo juntos.

Claro que o esquema fechado de Parreira e o ótimo desempenho defensivo dos volantes Mauro Silva (muitas vezes quase um terceiro zagueiro) e Dunga ajudaram muito. Mas a Copa da dupla de beques foi irretocável.

Sim, os zagueiros de 82 eram muito melhores tecnicamente. Oscar era ótimo. Os atleticanos amam Luizinho.

Mas, pô, levaram 3 gols do Paolo Rossi (das mais variadas formas) num jogo só. E estamos falando de Copas. Em 1994, Aldair e Marcio Santos ajudaram mais do que Oscar e Luizinho em 1982.

Eu sei, eu sei, uma pena. Aldair, Márcio Santos, pro campo.

Aldair e Marcio Santos

Eles mesmos, algum problema?

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Ah, o meio-campo de 82…

Pois é, nunca ouvi ninguém falar: “Ah, o meio-campo de 94…”. Era um quadrado de jogadores aplicados, mas sem grande refinamento: Mauro Silva, Dunga, Zinho e Mazinho.

Para dar mais brilho àquela árida região, Parreira havia tentado Luiz Henrique, Neto, Palhinha, Rivaldo e, por fim, Raí. Mas o craque são-paulino não fez uma boa Copa, e logo foi sacado — por Mazinho, um volante que subiu na vida.

Todos trocavam passes com correção, mas só quem dava grandes lançamentos e assistências era, por incrível que pareça, o capitão Dunga.

Enquanto isso, em 82… Raríssimas vezes na história se viu um meio de campo apenas com craques. Aquele time tinha: Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, ídolos do povo de quatro estados diferentes.

Só craques.

E todos foram bem na Copa, com golaços, assistências, toques magistrais… A tentação é chamar o meio-campo inteiro daquela seleção. Mas espera aí…

O quarteto super-ofensivo não conseguiu bater a Itália naquele dia maledeto. E Cerezo, coitado, tornou-se personagem de um verbete da enciclopédia futebolística: “como não passar uma bola pelo meio da zaga”…

Então será que aquele meio-campo era assim tão perfeito? Será que não faltava justamente aquilo que sobrava no de 94, solidez defensiva?

Não sei. E enquanto meu lado utópico pendura pôsteres dos craques de 82, meu lado que quer o caneco me faz escolher pelo menos um homem de 94, justamente o que teve o melhor desempenho.

Meu meio-campo vai de Dunga, Falcão, Sócrates e Zico.

Dunga-94

Desculpe, Cerezo.

***

Quando criança eu adorava as bombas do Éder. E sempre achei o Chulapa engraçado pra caramba. Os dois que me desculpem. Não dá para não escolher Romário e Bebeto.

Sem os dois, a seleção de 94 seria apenas um time razoável… da Alemanha. A dupla estava no auge, e compensaram a falta de técnica do meio-campo com um exagero de talento e faro de gol.

Em especial, Romário. Romário é rei. Pelo que disse que ia fazer e pelo que fez naquela Copa. Nem vou colocar aqui nenhum vídeo dele porque tudo que ele fez ainda está fresco na nossa memória.

Tá bom, eu coloco.

***

Botando na balança apenas o talento, deveríamos pegar a seleção toda de 82, mais o Taffarel e o Romário e pronto. Mas se pensarmos num time de verdade, que funcionasse na frente e atrás e, com isso, fosse capaz de ganhar, além de encantar, a escalação seria essa:

Taffarel; Leandro, Aldair, Márcio Santos e Júnior. Dunga, Falcão, Sócrates e Zico. Bebeto e Romário.

Podem jogar as pedras agora.  Ou, o que vai ser menos doloroso, mandar suas escalações de 82+94.

Aproveitem para pensar: que jogador de 2010 entraria nesse time? Tem vaga. Mas isso é assunto para outro dia. Daqui uns 15 anos.

Postado por: Marcos Abrucio

Copawriter de Fora III: A Argentina de 2010 é o Brasil de 1994, por Caio Cassoli

O terceiro Copawriter a escrever nesta seção é, na verdade, um Copartdirector de mão cheia. Caio Cassoli trocou a caneta do tablet pelo teclado e trouxe uma constatação assustadora: a atual seleção argentina lembra muito mais a brasileira de 1994 do que a gente gostaria de admitir…

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A Argentina de 2010 é o Brasil de 1994.

Não, não acho que essa Argentina é retranqueira, não é isso. A Argentina não joga igual ao Brasil do Parreira. Até porque o ataque dos hermanos é o sonho de qualquer jogador de Winning Eleven: Messi é o melhor do mundo, Milito fez 2 gols na final da Champions League, Higuain e o Tevez estão arrebentando.

O que eu acho bizarro são as coincidências entre esses dois times. Vamos a elas:

Classificação sofrida: aqueles dois gols do Romário no Maracanã e a vitória vocês-vão-ter-que-me-engolir do time de Maradona em Montevidéu.

Ultimo jogo das eliminatórias com o Uruguai.

Técnico desacreditado: em 94, quem não entoou o mantra “Parreira burro”? Hoje, graças ao seu desempenho no banco, Maradona desceu de pedestal de “Díos”. O que, no caso dos argentinos, é o equivalente de chamar o Parreira de burro.

O craque do time joga no Barcelona: Romário fazia dupla com Stoichkov no time catalão em 94. Hoje quem está lá é Messi.

Campeão 24 anos depois: se for campeã nesse ano, a Argentina vence 24 anos depois de 86, como o Brasil em 94 — 24 anos depois de 70.

Num país sem tradição no futebol: em 94 nos Estados Unidos, país do basquete, baseball e futebol americano; hoje, na África do Sul, país do rugby e cricket.

E as coincidências entre Brasil e Argentina não param por ai:

Os 2 países foram campeões no México (Brasil – 70 e Argentina – 86), oito anos depois da última conquista (62 e 78) e com o maior craque da história do país (Pelé e Maradona).

Bom, vou parar por aqui, senão daqui a pouco vou descobrir que sou argentino.

Ver também: Copawriter de Fora I e Copawriter de Fora II