Wonder Year

Todo mundo tem uma Copa de estimação (todo mundo que liga para essas coisas, logo, todo mundo que interessa). Uma Copa que brilha mais na prateleira do seu cérebro, pela época da vida em que você estava, pelo tanto que você se envolveu, pelo resultado final.

E nunca nenhuma outra Copa vai ser igual a ela. Porque você nunca mais vai ter aquela idade, não vai mais ver aqueles jogos, com aquelas pessoas, com aquela expectativa. A emoção que você sentiu só vai se repetir na sua memória.

A minha Copa de estimação é a de 1994.

"Pô, precisava lembrar?"

 

Em 1994, eu completei 15 anos, e isso já explica muita coisa. Fazia o primeiro colegial em uma nova escola, com novos amigos, ouvindo novas músicas, descobrindo novas idéias e aprendendo muito a cada aula… vaga.

Além disso, 94 foi mesmo um ano incrível. Ano da morte do Senna, do Kurt Cobain e do Tom Jobim, do Forrest Gump e do Pulp Fiction, de mudança de moeda e de presidente. Embora nada disso tenha sido tão importante quanto assistir à minha primeira Copa fora de casa.

Até então, Copa do Mundo era um evento realizado a cada quatro anos, que eu assistia com meus pais e irmãos, vestido de verde e amarelo e com uma bandeirinha na janela, em que o Brasil debulhava na primeira fase e apanhava no mata-mata, ponto.

Em 1994, tudo isso mudou (menos a parte dos quatro em quatro anos, claro).

Meus irmãos, todos mais velhos, já não moravam em casa. E a idéia de assistir aos jogos com a galera da escola era muito mais atraente do que em casa, com meu pai e minha mãe.

O primeiro jogo, contra a Rússia, foi na casa do Fabiano, junto de uma turma enorme. No jogo seguinte, contra Camarões, fomos para a casa da Vanessa, e a turma já não era a mesma (aos 15 anos, a vida muda completamente de uma rodada para a outra).

Em uma época de tantas transformações, só tínhamos uma certeza, que eu fazia questão de repetir a cada gol: “O Romário é phoda!”

Com PH maiúsculo.

 

Enquanto amigos viravam namorados e namorados viravam inimigos mortais, o Brasil abria passagem, com algum talento e muito drama.

O maior deles durou os 45 minutos finais de Brasil x Holanda, em que passamos da comemoração histérica pelos gols de Bebeto e Romário para o desespero do empate holandês, com a certeza de que mais uma Copa cumpriria seu script e mandaria a Seleção de volta pra casa. E daí para o tirambaço de Branco, para a tirada de corpo do Romário, para o choro generalizado, para os chutes no Warley (acusado, com razão, de estar secando a seleção), para a certeza de aquela Copa era mesmo diferente.

 
(Nunca vi o Galvão tão alterado quanto nesse vídeo. Agressivo, soltando frases desconexas em voz oscilante, parecia que ia desabar em prantos a qualquer momento.)

A final foi a única partida que assisti em casa, ao lado da família toda. Mas não foi como em Copa passadas. Primeiro, o Brasil finalmente estava na final, porra! Segundo, porque nunca nenhum jogo tinha sido como aquele: 120 minutos de tensão, bolas na trave, jogadores destruídos, um cara do meu time entrando no final, driblando sete e quase virando ídolo interplanetário, o trauma dos pênaltis, a cobrança do Romário que triscou na trave, a comemoração do Dunga, a bola do Baggio pra fora, Amém.

Todos em casa explodiram ao mesmo tempo. Meu sobrinho, na época com um ano, já nem mais chorava, de tão assustado com os gritos e fogos. A família comemorava junta. Mas eu tinha 15 anos, e era hora de sair.

Assim, fomos eu e o André (e mais dois milhões de pessoas) brindar a Copa do Mundo, os gols do Romário, os dribles do Viola, a homenagem ao Senna e, principalmente, os nossos 15 anos em plena avenida Paulista. Curiosamente, bem em frente ao prédio onde hoje, 15 anos depois, eu moro com a minha mulher, Katia. Que, não à toa, também estava ao meu lado assistindo aos jogos do Mundial…

E foi assim que eu vivi aquele ano e aquela Copa incríveis: with a little help from my friends.

Postado por: Marcos Abrucio

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6 Respostas para “Wonder Year

  1. É minha copa do coração também Abrucio.
    Phoda com ph maiúsculo.

  2. 94 foi o ano que ganhei minha saudosa cadela pastora alemã. Viveu 12 anos. Tenho saudade dela até hoje (menos de quando ela arrancava minhas roupas do varal). Porém, minha copa preferida foi a primeira fase de 2002 empatada com a primeira fase de 2006. Confuso? Eu?

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