O Despertar pra Copa*

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Dia frio e seco de outono em São Paulo. Um homem de quase 40 anos desperta do sono, com uma leve dor de cabeça e um mal-estar pelo corpo. Tem aquela sensação de quem dormiu além da conta. Olha em volta e percebe que está em um quarto de hospital. Assim que tenta se levantar – sem sucesso, diga-se de passagem – uma enfermeira se aproxima da cama. Parece espantada por vê-lo acordado e sai pela porta dizendo que vai chamar um médico. Logo ele nota o rosto de um velho conhecido a seu lado no quarto.

– Pô, quem diria que você acordaria bem no dia em que eu tivesse um tempinho pra te fazer uma visita…

– Como assim…?

– Ah, faz tempo que eu tava pensando em dar uma passada, mas o trampo na agência…

– Não, não… Quero dizer, “como assim, acordar…?”

O amigo puxa a cadeira para perto da cama e sua expressão, antes de leveza e alegria, fica pesada e séria.

– Cara, você não lembra? Faz 4 anos que você tá assim…

– Assim como?

– De cama… Sem acordar…

– Eu tava em coma?

– Mais ou menos… Bom, os médicos nunca conseguiram diagnosticar exatamente o que você teve…

– Não entendi. O que aconteceu? Foi acidente?

– É, dá pra dizer que foi… Não gosto nem de lembrar.

– Fala logo ou vou ter um piripaque!

– Outro piripaque não! Espera o médico chegar. Vai que você não pode reviver o que causou o trauma.

– Trauma? É, pode ser…

– Vamos mudar de assunto.

– Tá, tá… Até porque esse papo já tá me dando mais dor de cabeça. Pô, 4 anos, né? Deve ter mudado muita coisa…

– Pois é…

O homem se ajeita na cama enquanto o amigo vai lhe contando as novidades.

– E minha família?

– Todos bem, inclusive a sua sobrinha de 3 anos.

– Eu tenho uma sobrinha de 3 anos?! Caraca! Como ela é? Tem foto pra eu ver?

– Segura a ansiedade que ela tá vindo aí com sua família. Já mandei uma mensagem pra eles.

– Ah, boa. Que baita novidade. O que mais rolou?

– Tanta coisa… Nem sei por onde começar.

– A gente tinha um blog para falar da Copa, né?

– Pois é, tô escrevendo semana sim e outra também pra manter nosso blog ativo.

– Tá no ar ainda? Boa. E a seleção? A última coisa que lembro é que tava aos trancos e barrancos na Copa…

– Mudou muito de lá pra cá. Do que mais você lembra?

– Deixa eu ver… Thiago Silva capitão, o gol contra do Marcelo, o Neymar se contundindo…

– Tem muita gente nova no time, mas o Thiago e o Marcelo tão aí até hoje. E o Neymar foi confirmado com a 10 depois de se recuperar da contusão.

– Nossa, ele ainda tava se recuperando da entrada do Zuñiga?

– Não, tava em tratamento de outra contusão… Aliás, daquele time, o Dani Alves e o Fred tão fora de ação, contundidos.

– Dani Alves seguir na seleção, ok. Mas o Fred “cone”?

– Cara, quanto rancor. O Fred até recuperou o faro de gol depois da Copa.

– Difícil de acreditar… Ele ainda é o camisa 9?

– Não, o 9 é o Gabriel Jesus. E o reserva do ataque é o Firmino.

– Jesus? Firmino?

– Os dois surgiram depois da Copa de 2014 e tão entre os 23 convocados pelo Tite pra Copa na Rússia.

– Ah, o Tite assumiu a seleção depois de 2014. Demorou!

– Demorou mesmo porque quem assumiu depois da Copa foi o Dunga. O Tite só veio em 2016.

– Dunga de novo?! É sério? Não faz sentido algum.

– Desencana de tentar entender. E aí, mais alguma lembrança vem à cabeça?

– Bom, o Brasil tava na semi contra a Alemanha, com Bernard e sem Neymar. Me dava até um desespero…

– Vai com calma aí.

– Peraí, agora eu tô lembrando: o Brasil tava perdendo de lavada! E no primeiro tempo!

– Olha o monitor cardíaco bipando: você tá ficando agitado. E cadê o tal médico que tava vindo? Enfermeira!

– Tá bom, tá bom. Mas me conta o que aconteceu. Tem a ver com meu trauma?

– Então… Você entrou em choque quando o Brasil tomou o terceiro gol e não conseguiu mais ver o resto do jogo. Na verdade, nenhum de nós conseguiu. A gente chamou a ambulância e veio pro hospital com você.

– Que trauma. A Alemanha foi pra final então?

– Sim, os alemães pegaram os hermanos na decisão.

– Argentina finalista?! Com aquele time? Só o Messi se salvava. Deve ter sido outra lavada…

– Pior que não. Teve grande chance de ganhar. O Higuaín perdeu um gol feito quando tava zero a zero. Na prorrogação, a Alemanha fez 1 a 0 e levou o caneco.

– Quem diria, o time que nos massacrou contra a nossa maior rival na final. A torcida deve ter ficado dividida.

– Na verdade, os brasileiros torceram em massa pelos alemães. Nossos vizinhos ficaram bem chateados com isso.

– Os Almeida ficaram chateados?

– Não, os meus vizinhos… Os nossos vizinhos: os argentinos.

– Ah, entendi. Mas depois daquela goleada na semi, dá pra entender por que os hermanos esperavam apoio da nossa torcida.

– Com certeza. Mas a rivalidade falou mais alto.

– Eu não sei o que faria. Acho que não conseguiria torcer pelo time que acabou com nosso sonho do Hexa.

– Foi difícil mesmo.

– Pô, torcer pros “culpados” pela nossa maior derrota em uma Copa jogando em casa…

– É, o Maracanazzo já não detém mais esse título.

– Fora a humilhação de levar 3 a 0 em pleno Mineirão…

– Ih, azedou… Você ainda acha que o jogo acabou 3 a 0? Peraí, que agora eu preciso ter certeza de que alguém tá vindo pra te medicar… Enfermeeeeeira!

*História baseada em fatos bem reais e outros nem tanto pra marcar a volta ao blog após 4 anos.

Postado por: Flavio Tamashiro

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Hipoteticamente escrevendo

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— Eu vou contar um caso hipotético, tá bom?

— Como assim?

— Não aconteceu de verdade. Com ninguém que eu conheça, muito menos comigo. Não tinha nem como acontecer comigo. Eu não tenho dificuldade nenhuma para mijar, você sabe…

— Eu sei?

— É, meia cervejinha depois do expediente e lá vou eu pro banheiro do bar. Pedra no rim não se cria comigo. Entrou, saiu. Então isso que eu vou contar é só hipotético, entendeu?

— Acho que sim.

— Aliás, isso que é ser escritor, né? Ficar escrevendo histórias hipotéticas. Enfim…

— Serjão, onde você tá querendo chegar?

— Eu quero contar uma história de um homem que está no banheiro, mas não consegue mijar, e eu preciso da sua ajuda.

— Ih, caralho. Tá louco?

— Espera, pô. Não fica pensando besteira. É que quem vai contar essa história é um jogador de futebol. Quer dizer, sou eu, mas fingindo que sou um jogador de futebol. Na primeira pessoa, manja?

— Sim, sim. Quer dizer, não. Sei lá.

— Se eu fosse contar essa história na terceira pessoa, seria assim: “Um jogador de futebol está trancado no banheiro há mais de meia hora, mas não consegue fazer xixi.”

— Ok.

— Mas como eu vou escrever na primeira pessoa, como se eu fosse o jogador, seria assim: “Estou trancado no banheiro há mais de meia hora, mas não consigo mijar.” E aí?

— Entendi, entendi.

— Então, agora eu preciso da sua ajuda.

— Não entendi.

— Para continuar essa história!

— Ah, tá. Mas por que você não continua?

— Porque eu não sei nada de futebol. E você passa o dia vendo mesa redonda. Queria tirar umas dúvidas com você…

— Claro! Por que você não falou antes?

— Eu juro que eu tô tentando, Rildo.

— Mas fala aí, como é que começa essa história?

— Pensei em começar assim:

Sempre ouvi dizer que o tempo é relativo. Agora, eu posso confirmar: os minutos passam mais rápido ou mais devagar dependendo do lado do banheiro em que você está — dentro ou fora.

— Sério?

— Uma bosta, né?

— Olha…

— Melhor começar já contando o que aconteceu. Quer dizer, o que hipoteticamente aconteceu:

Estou aqui há mais de meia hora, trancado em um banheiro depois do jogo, com um cara olhando para o meu pau, quando batem na porta:

 “Porra, é tão difícil assim dar uma mijada?”, gritam lá de fora.

Porra, claro que é. Ainda mais com um cara do meu lado, vendo se o mijo que vai para o vidrinho é meu, mesmo.

“Espera, mano”, eu respondo.

Não era para isso estar acontecendo. Não depois de fazer três gols no mesmo jogo. Caramba, meu filho tava na arquibancada, ele tá me esperando lá fora. Ele vai falar a semana inteira que o pai dele é um cracaço, vai encher o saco da mãe até estourar.

Olhei para o homem ao meu lado. Prancheta na mão, óculos, avental. Um cientista analisando meu aparelho urinário. Sorri para ele, ele não sorriu de volta. Entrei em desespero — e minha uretra fechou-se mais ainda.

— E depois?

— Depois nada. Só escrevi isso.

— Só isso?

— Só.

— Eita.

— Tá ruim, Rildo? Muito ruim?

— Não, tá ótimo! Mas é só um começo, né. E tem umas coisinhas…

— Fala, pode falar.

— Primeiro: pode escrever essas coisas de pau, porra, mijada?

— Pode, o texto fica até melhor, mais real. Mais cortante.

— Ah, do caralho. Outra coisa: esse cara, como ele chama?

— Ainda não botei.

— Mas ele tem que ter nome, né? Qual o nome dele?

— É… Roberto.

— Roberto. O Roberto é jogador de futebol, não é?

— É.

— Então ele está acostumado a fazer antidoping. Depois de cada jogo, pelo menos um cara de cada time é sorteado.

— É?

— É.

— Mais cedo ou mais tarde, todo jogador vai para o antidoping. Então por que o Roberto tá assim, com o pau na mão, sem conseguir mijar?

— Hum.

— Se ele tá assim, é porque tem culpa. Sabe que vai pego.

— Porra, Rildo!

— O quê?

— É isso! É a grande revelação: o nosso herói, o craque que reconquista o amor do filho com dois golaços é, na verdade, um golpista inescrupuloso. Tá-daaammm!

Solto o vidrinho vazio e pego o homem de avental pelo colarinho. Tiro uma faca do calção e encosto na jugular dele:

“Você que vai mijar aqui.” 

“Eu? Mas…”

“Vai mijar e vai dizer que o seu mijo é meu. E não vai contar que isso aqui aconteceu, ou eu acho você onde você for e te enforco. O PCC tá comigo, entendeu?”

— Sei não.

— COMO NÃO?

— Calma, cara.

— Desculpa.

— Segura o facho.

— Já pedi desculpa. Mas qual o problema? Você é um gênio, deu a virada que eu precisava para a história…

— Ah, não sei. PCC?

— Tá, eu posso tirar o PCC.

— Não sei se as pessoas querem ler isso. Já veem as manchetes dos jornais todo dia. Vão querer mais violência nos livros?

— Hum.

— E outra, o cara é mauzão, asquerozão, maníaco do antidoping? Não sei se existe alguém assim.

— É uma história hipotética, eu disse…

— Eu sei, mas os leitores querem histórias mais profundas, complexas, contraditórias.

— É… boa, boa!

Seguro o vidrinho vazio, olho para o homem de avental. 

“Só mais um pouquinho, eu vou conseguir”, respondo para a voz que esmurra a porta. 

Eu não devia ter acreditado naqueles caras da federação. Mas eu precisava da grana: quatro meses sem pagar a pensão da Elaine e do Robertinho, prestes a ser preso. E os caras do campeonato precisavam dos meus gols. Sabiam que eu estava fora de forma, com problema de bebida. Para voltar a jogar, só com remédio para emagrecer. E me prometeram que eu nunca seria sorteado no antidoping. Alguém deve ter descoberto. Agora estou a alguns mililitros da ruína. 

— Melhor.

— Muito melhor, Rildo! Você é bom nisso. Vou botar seu nome na dedicatória do meu livro. E vai vender pra caralho! “A história de Roberto”, o herói brasileiro, craque de bola, profundo, complexo.

— Contraditório…

— Contraditório. Pô, vou vender os direitos para a Globo. Cauã Raymond no papel de Roberto. Mariana Ximenes no papel de Elaine, delícia.

— Mas espera. E como termina essa história?

— Hum.

— É importante, né. O final.

— Ah, é. É sim.

— E?

— Não sei. Você que entende de futebol, como poderia acabar essa parada?

— Bom, tem jogador dopado que injeta o mijo de outro jogador limpo, para não ser pego no antidoping.

— Legal, hein?

— O Roberto podia ter uma seringa escondida no calção. Quando o representante da comissão antidopagem…

— Quem?

— O cara que tá junto com ele!

— Ah.

— Quando o representante da comissão antidopagem tivesse um momento de distração, ele fincaria a agulha na bexiga e faria a transfusão de mijos.

— Eita, Rildo. Só de ouvir me deu aflição. Não gosto de agulhas.

— Aí fica difícil.

— Mas você tem razão. O escritor tem que sair da zona de conforto. Escrever sobre aquilo que não é familiar para ele. Vou botar a seringa… A não ser que fosse assim:

Vejo que o representante da comissão antidopagem têm um momento de distração. Então aponto o pau pra ele e mijo no seu avental.   

“O que é isso?”, ele grita.

“O que está acontecendo aí?”, diz o chefe dele, do lado de fora da porta.

Estico o vidrinho e o encho com as gotas que pingam do avental.

“Toma o meu mijo.”

Agora eles poderiam fazer o exame que quisessem. A amostra estava contaminada, eu diria no tribunal. Quimicamente comprometida. Saio do banheiro como quem sai de uma batalha, ainda ouvindo a torcida gritar o meu nome.

— Serjão…

— O quê?

— Essa história de você virar escritor…

— Sim.

— Ela é hipotética, né?

Postado por: Marcos Abrucio

As marcas da corrente

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Não era fácil encontrar traços de humanidade naquele tempo, mas eles ainda existiam.

Vivíamos nos túneis do metrô havia algumas semanas. Por segurança, andávamos o dia inteiro. Os mais fortes na frente, com lanternas e lampiões, depois os pais e mães com as crianças e, lá atrás, os mais velhos e eu — por causa da minha perna. Às vezes o grupo chegava em uma passagem bloqueada por um desabamento. Aí os líderes voltavam, em busca de outro caminho, e nós do fundo nem tínhamos tempo de tomar fôlego antes de mudar de direção. Quando os relógios de pulso diziam que era noite, a gente se sentava nos trilhos e tentava descansar, ignorando o barulho das explosões da superfície. A comida era racionada, e homens e ratazanas estavam sempre tentando roubá-la.

Em uma dessas noites, a moça dos mantimentos se aproximou de mim. Eu massageava a perna boa, sobrecarregada pelo esforço de arrastar a outra. A garota trouxe as quatro bolachas a que eu tinha direito e um pouco de água num copo sujo. Depois, tirou do bolso de trás da calça um velho tablet.

— Você era corintiano, né?, ela perguntou.

Era. Ela então deu play na tela, e começamos a ver juntos a final do Mundial de 2012. Corinthians e Chelsea em Yokohama. Gol do Guerrero no segundo tempo. Fomos campeões do mundo. A moça me deu de presente esse momento de novo.

Assistir a jogos de muitos anos atrás em computadores e celulares recondicionados que passavam de mão em mão era uma espécie de droga para a gente. Uma dose de prazer e entorpecência de 90 minutos mais os acréscimos — com sorte, conseguíamos VTs de partidas com prorrogação e disputa de pênaltis, e era sensacional.

As pessoas se aglomeravam para ver conquistas históricas dos seus antigos clubes, mas não só. O teipe de uma partida sem importância do Campeonato Paulista bastava para um pouco de alegria. Espiávamos até as vitórias dos adversários, mesmo em cima dos nossos times. O segredo era fingir que você não se lembrava do resultado e torcer como da primeira vez.

O vídeo acabava com os jogadores do Corinthians de 2012 dando a volta olímpica. A garota se levantou. Eu agradeci. Até melhorou minha perna, eu disse. Ela se afastou sorrindo. Ao meu lado, ouço uma voz enferrujada:

— Eu estava lá.

O velho não tinha um braço, mas era forte feito um marinheiro aposentado. Havia se juntado ao grupo alguns dias antes. Ficava afastado — e quase nunca se ouvia ele falar. Como seu rosto era irritantemente familiar, muitas vezes eu ficava olhando para ele por mais tempo do que o recomendado. Então eu disfarçava. Quem era ele? Não conhecia ninguém sem braço. Meu cérebro fazia força para responder, mas as sinapses pareciam interrompidas como os túneis pelos quais a gente perambulava. Agora, pela primeira vez, ele lançava uma pista para mim.

— Você foi até o Japão ver o Mundial?, perguntei.

— Eu fui até o inferno pra ver o Corinthians.

Eu não. Desde os quinze anos eu não via um jogo no estádio. Meu pai tinha me proibido, depois que eu me meti em uma briga feia de torcida. Quis continuar o papo com o velho, mas ele já tinha deitado no espaço entre os trilhos, de lado, a cabeça encostada no chão, sem o apoio do braço direito.

No dia seguinte, encontramos um vagão abandonado e montamos acampamento. Perto dali, em uma ramificação sem saída do túnel, havia uma torneira. Depois de algumas marretadas, ela voltou a girar. Aproveitamos para encher algumas garrafas e, depois de muito tempo, tomar banho.

Eu tinha conseguido um vídeo incompleto, mas de boa qualidade, de um Corinthians x Guarani de 1993. 5 a 1 para a gente, gols de Paulo Sérgio, Adil, Viola (2) e Neto. Procurei o homem sem braço. Ele se trocava depois de lavar o corpo. De calça e sem camisa, exibia mais de uma dezena de tatuagens, quase todas sobre o nosso time. Uma delas era igual a de milhares de outros corintianos: um gavião pedindo silêncio com o polegar erguido. Já outra, um relógio de ponteiros bem no centro do peito, eu só tinha visto uma vez na vida. E foi ela que me contou de onde eu conhecia o velho.

Quase trinta anos antes, eu ia ao Pacaembu toda semana, sempre no meio das torcidas organizadas. Era dos mais novos, e me sentia protegido pelos brutamontes que lideravam os pelotões de preto e branco pelas ruas. Eles sabiam que eu não podia correr, então davam um jeito de cuidar de mim. Roubávamos lojas de conveniência de postos de gasolina, e os caras não arredavam pé enquanto eu não conseguisse pegar algo da prateleira.

A gente se encontrava em uma estação de metrô, na Marechal Deodoro ou na Clínicas, e ia a pé para o estádio. Em um dia de jogo contra o Palmeiras, eu estava com outros moleques passando por cima de um viaduto do centro — um que, mais tarde, foi demolido pelos tanques de guerra. Os mais velhos estavam mais à frente. Lá embaixo, um grupo de torcedores rivais bebia cerveja. A ideia foi minha: subimos no parapeito e mijamos nos caras. Eles ficaram loucos, e chamaram os líderes das hordas de verde e branco. Antes que pudéssemos pensar em algo, os brutamontes deles já tinham subido o viaduto.

Meus amigos saíram correndo. Eu fiquei para trás. Tentei alcançá-los e acabei tropeçando. Acho que torci o tornozelo da outra perna. Os palmeirenses tinham me visto mijando e pularam em cima de mim. Obviamente eu teria morrido se um corintiano, com um relógio tatuado no peito, não tivesse voltado para enfrentar sozinho uma dúzia de adversários. Na mão direita, uma corrente de ferro girando sem parar arrancava dentes e olhos de quem estivesse pela frente.

Fabião. Fabião era o nome dele. Algum tempo antes desse dia, lembro de perguntar para ele na arquibancada, quando todos tirávamos a camisa para girar no ar — exatamente como ele fazia agora com a corrente de ferro —, por que ele tinha tatuado um relógio no peito.

— Para não esquecer a hora de voltar para casa, ele respondeu, rindo. Depois, tirou da carteira a foto da mulher e do filho pequeno. Então completou: se deixar, eu fico aqui até de madrugada.

— Some daqui, moleque!, ele gritou pra mim no dia da briga no viaduto.

Me arrastei para fora do bolo. Alguns dos nossos chegavam para ajudar. Tirei a camisa do Corinthians e botei na bermuda. Um minuto depois, olhei para trás. Fabião continuava rodando sua corrente, até um reforço de palmeirenses aparecer e imobilizar o braço direito dele. Um desses homens ergueu um facão de meio metro de comprimento. Não quis mais ver. Me escondi no banheiro de um supermercado.

Eu segurava o celular enferrujado com o VT do jogo de 93 e olhava para o velho sem braço. Fabião. Ele vestiu a camiseta de lã preta e rasgada e tapou o relógio do peito. Percebeu que eu estava estático à sua frente, mas não deu tempo de falarmos nada. A moça dos mantimentos gritou do vagão: tinham roubado parte da nossa comida. Estavam faltando 12 pacotes de bolachas.

Não dormi naquela noite. Primeiro os mais fortes nos obrigaram a ficar enfileirados, em pé sobre os trilhos, enquanto reviravam nossas coisas atrás da comida. Não acharam nada. Depois, voltamos aos nossos lugares e agarramos tudo que tínhamos, com medo de novos ataques. Aos poucos, todos foram silenciando. Assisti, sem som, aos gols do Paulo Sérgio, Adil, Viola (2) e Neto. Até alguém gritar de novo.

Acharam o corpo de um dos líderes com o pescoço esmagado, o rosto todo roxo. Um casaco dele estava jogado no chão; dentro, uma bolsa de pano com os nossos pacotes de bolacha. Olhei em volta, procurando o Fabião. Nem ele, nem os trapos dele estavam mais por perto. Um bolo de pessoas cercava o homem esganado. Passei por elas, me agachei e cheguei bem perto da cabeça. No pescoço, marcas de corrente.

Naquele tempo, até os traços de humanidade tinham traços de selvageria.

Postado por: Marcos Abrucio

 

Tutto tem su pressio

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Não é preciso ser jogador de futebol para saber como é passar a noite encarcerado em uma concentração. Presidiários, faroleiros e tripulantes de missões espaciais também conhecem a força medonha que faz você não aguentar mais a cara de quem está ao seu lado. Que faz você chutar longe livros, DVDs, laptops e Playstations. Que faz você sair andando pelos corredores vigiados de um hotel cafona em busca de uma nesguinha de liberdade. Em uma dessas noites — a mais importante delas —, eu descobri porque o Naldo e o Robson, atacantes titulares da seleção brasileira na Copa do Mundo, queriam se matar. Digo, um matar o outro. Ah, vocês entenderam.

***

A treta entre os dois era manchete há um bom tempo. Voltei ao meu quarto, peguei o laptop caído no chão e, sem acordar o Fabinho, meu companheiro de cela, trombei com algumas:

“Naldo e Robson trocam socos em bar no Rio” (O Globo);

“Naldo jura Robson de morte” (Extra);

“Magia Negra: Robson é visto fazendo despacho para Naldo” (Meia Hora);

“Mesmo com briga, dupla ‘Naldobson’ é aprovada por 58,2% dos paulistanos” (Folha);

“Discussões como a de Naldo e Robson podem ser positivas, aponta estudo” (Estadão);

“Batalha de maria-chuteiras: quem tem as melhores ‘affairs’, Naldo ou Robson?” (UOL).

Parece que a história começou quando eram juvenis do Flamengo. Parceiros em campo, amigos fora. Então discutiram em um treino, o pessoal apartou, mas no vestiário a porrada correu solta. Naldo foi vendido para o Barcelona, Robson para o Real Madrid. Até hoje, a cada jogo entre eles, um novo ‘round’. Os dois, somados, já foram expulsos 17 vezes — sempre por discussões ou entradas violentas que um aplica no outro.

O Fabinho, como sempre, roncava como um motor de camburão a 90 centímetros de mim. Eu continuei googlando, sem me importar com o horário. E daí que amanhã é a final da Copa do Mundo? Eu não vou jogar, mesmo. Sou apenas um zagueiro reserva-do-reserva que fez um campeonato catarinense razoável pelo Joinville e que só foi convocado, às pressas, porque uma sequência absurda de contusões fez com que cinco outros zagueiros fossem cortados. É como se eu estivesse aqui de férias. Um turista em uma cadeia cinco estrelas.

Naldo e o Robson aumentavam a temperatura da briga a cada declaração à imprensa. “É um lixo humano”, dizia um sobre o outro, “Não merece viver”, dizia o outro sobre o um. Apesar do comportamento deplorável, reprovado até pela FIFA, os dois foram convocados para jogarem juntos no ataque da seleção. Por quê? Porque em campo os dois são geniais. Se um faz um gol, o outro se mata para fazer dois ou três. Sem trocar nenhum passe entre si, mas arrebentando em todos os jogos, eles levaram o Brasil até a final. Por isso o pessoal releva essa discussão infinita nos jornais. Por isso eles podem tudo, até terem quartos individuais na concentração — mas isso os jornais não sabem.

Ouvi passos chegando no quarto. Deve ser o segurança, pensei. Era o seu Matias, nosso técnico. Achei que ele ia dividir com a gente mais uma palavra de autoajuda puxada de um livro oriental de guerra. Alguma mensagem especial na véspera do “jogo das nossas vidas”. Ia acordar o Fabinho, mas ele só falou:

— Fica quieto, ouviu? Amanhã a sua hora vai chegar.

E foi embora.

***

Claro que não dormi depois disso. O grupo da seleção (e os torcedores e o Brasil inteiro) estavam divididos entre os simpatizantes do Naldo e os do Robson. No café da manhã, o “Team Naldo” ocupava as mesas perto da cozinha, o “Team Robson” ficava ao lado da janela. Eu, que chegara por último e era o único que não jogava na Europa, não pertencia a “team” nenhum.

Vi o Naldo entrando na fila dos ovos mexidos com o semblante fechado. Queria dizer para ele se não se preocupar. Não sou X-9, não, eu diria. No xadrez, a pior coisa que existe é acharem que você é cagueta. Aqui no Four Seasons Golden Palace, deve ser a mesma coisa. Fui atrás dele. Quando ia encostar em seu braço, seu Matias apareceu na frente e não me deixou passar. Porra, ele era melhor do que eu na marcação. Naldo voltou para a mesa. Virei para o outro lado: Robson levantava-se e saía pela porta de ferro do refeitório, com cara de prisão de ventre. Eu tinha lido que ele é amigo de uns traficas. Tô fudido.

No caminho para o ônibus que nos levaria para o estádio, o Fabinho cochichou no meu ouvido. Não entendi nada. Ele jogava na Itália há anos, mas não tinha aprendido direito o italiano — e ainda havia esquecido o português. Sem contar a língua presa. Enfim, seu idioma particular era um desafio para os melhores fonoaudiólogos. Pedi para ele repetir.

— Tutto tem su pressio. Tu vai recebere seu valore.

O Fabinho sabia de tudo! Mas fiquei confuso. Aquilo que ele falou foi o quê, uma ameaça? Sentei em uma poltrona no meio do ônibus, entre o fundão do Naldo e a frente dos parças do Robson. Revivi na minha mente a noite anterior.

***

Lembrei que eu estava sem saco para mais uma partida de videogame. Liguei no SexyHot mas nem uma punhetinha me animava. Sem chance de dormir, com o Fabinho trovejando na outra cama. Abri a porta, vi dois seguranças conversando de um lado. Do outro, caminho livre. Fluf, fluf, fluf, minhas pantufas deslizaram pelo carpete fofo do corredor. Cheguei à saída de emergência. Eram dois andares fechados para a seleção, com seguranças em cada porta, mas naquela hora um deles tinha abandonado o posto e atravessado o andar para trocar alguma ideia com seu parceiro. Consegui sair para a escada de incêndio que circundava o prédio em estilo neoclássico. A noite linda, estrelada. Ninguém por perto. Até os jornalistas que acampavam lá embaixo dormiam. O ar fresco bateu de leve nos meus pulmões como há muito tempo não acontecia. Desde que nos prenderam nesse lugar. Um barulho interrompeu minha paz: blam! O segurança estava voltando. Para despistar, dei a volta no edifício por fora e entrei pela porta corta-fogo do outro lado do andar. Mais ruídos: o outro segurança devia estar ajudando o primeiro a me procurar. Apareci no corredor deserto. Qual é o meu quarto? Todas as portas são iguais. Deve ser essa. Entrei e vi. Eles viram que eu vi. Fugi.

Depois, no ônibus, não sabia mais se ia para a final da Copa do Mundo ou para a minha execução. Tutto tem su pressio.

***

Como toda final de Copa, foi um jogo truncado, feio, nervoso. Nosso time não repetia as partidas anteriores, vencidas todas com goleadas. A diferença estava em Naldo e Robson, que pareciam perdidos no meio da zaga adversária.

Depois de mais uma bola que a dupla de ataque perdeu, o Sálvio, goleiro reserva, aproximou da minha orelha a mão coberta por uma enorme luva e explicou porque deveria acabar com a minha raça:

— Você estragou tudo!

Mais um que sabia. Seu Matias o afastou, dizendo que tudo daria certo, ele ia ver. O jogo estava chegando ao fim, continuava 0 a 0, e eu não tinha a menor ideia de como tudo poderia dar certo.

Então Robson entrou na área marcado por três adversários, ergueu a cabeça e, pela primeira vez no Mundial, passou a bola para Naldo. Ele dominou, ia chutar para o gol quando um zagueiro o derrubou por trás. Pênalti!

Pulamos todos ao mesmo tempo do banco, como se estivéssemos em assentos ejetores de caças supersônicos. Vamos ser campeões! O goleiro reserva até me abraçou. Só algo nos incomodava: Naldo continuava caído. Não parecia ser para tanto. Uma faltinha normal. Mas ele se contorcia e rolava de um lado para outro. O técnico me chamou. Rápido! Fui até ele, que disse baixinho:

— Sua hora chegou. Entra lá e aproveita.

Tentei argumentar: eu sou zagueiro, vou entrar no lugar do 9? Mas o velho não me ouviu. Naldo saiu de maca e passou perto de mim, olhando fundo nos meus olhos, transmitindo algum recado que eu não conseguia decodificar. Entrei em campo e Robson entregou a bola para mim. Ok. Entendi tudo.

Eu, zagueiro reserva-do-reserva, atleta do modesto Joinville, convocado na última hora depois de uma onda de contusões varrer todos os zagueiros do Brasil, iria bater um pênalti decisivo na final da Copa. Para me consagrar. Para virar ídolo, ser comprado por um time da Europa, ganhar milhões. Esse era o preço do meu silêncio. Um prêmio adiantado que estavam me pagando para eu nunca abrir a boca. Para eu não contar para ninguém que entrei num quarto da concentração e vi Naldo e Robson, os maiores arqui-inimigos do futebol mundial, dormindo de conchinha como antigos amantes.

Agora estava tudo claro. Botei a bola no chão.

***

E, como vocês sabem, chutei pra fora.

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Postado por: Marcos Abrucio

Sobre os critérios de convocação do Senhor

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Bem que a moça do tempo tinha dito, Neílson pensou. Na hora do jogo ia cair um dilúvio. Mesmo assim, ele saiu de casa de shorts e chinelo, com o uniforme dobrado dentro da mochila e sem guarda-chuva. Como morava perto do velho estádio, dispensava o ônibus fretado dos outros jogadores e ia sempre a pé para as partidas. No meio do caminho, o aguaceiro o pegou. Chegou correndo e ensopado ao vestiário, lamentando-se de ter esquecido a previsão da apresentadora bonita do jornal. Mas ela estava errada. Aquele aguaceiro que agora Neílson via pela veneziana não era “um” dilúvio, mas “o” dilúvio. Foi o que a figura bonachona, de terno azul-bebê, veio avisar.

“Preciso falar com você, meu querido”, disse baixinho o homem, com sotaque indecifrável, ao meia-esquerda parado em frente à janela.

O vestiário estava quase vazio. Dois funcionários do clube usavam rodos e panos para secar o chão que começava a ser batucado pelas goteiras. Nenhum jogador tinha chegado — a chuva deve ter atrasado o ônibus, que também não era tão novo assim. Capaz de ter enferrujado de vez. Neílson virou-se para o homem. Ele tinha uma espécie de sorriso perpétuo no rosto, cabelos muito loiros, roupa de representante de vendas de alguma marca de sapatos baratos. Só podia ser uma coisa: empresário de jogador. Italiano. Russo, quem sabe. Dos mais mafiosos. Bom, era o que Neílson gostaria que ele fosse.

“Desculpa, agora não posso. O jogo vai começar assim que a chuva der uma parada”, Neílson respondeu.

“A chuva não vai parar. As janelas do céu se abriram.”

Neílson reconheceu aquele tom. Parecia a Renata, sua mulher. De vez em quando, ela falava coisas simples de um jeito difícil. Quando se conheceram, ela disse que “Deus tinha feito o caminho deles virar um só.” Se ele perdia algum jogo, era “um chamamento para renovar a sua fé.” Agora, estava chovendo, e o homem dizia que “as janelas do céu se abriram”.

“Como você sabe que não vai parar?”, perguntou Neílson. “Também trabalha com previsão do tempo, que nem a moça da TV?”

“Com outro tipo de previsões”, respondeu o homem, sempre sorrindo.

“Ah. Achei que você era empresário”, disse o jogador, sem esconder a decepção. “Da Itália.”

“Não, eu vim te levar para mais longe do que a Itália.”

“Rússia?”

“O reino dos céus.”

Ih, Neílson entendeu tudo. Já tinha ouvido aquela conversa muitas vezes durante a carreira.

“Você é dos Atletas de Cristo?”, perguntou.

O homem deu uma gargalhada de vovô em comercial de margarina: “De certa forma, sim.”

Os funcionários do clube agora usavam baldes para levar a água que subia dos ralos. Lá fora, nenhum torcedor nas arquibancadas de cimento ensopado. Ao fundo, Neílson ouviu de um radinho a voz abafada de um repórter falando algo sobre as chuvas, pontos de alagamento, enchentes. Março era sempre assim. Será que a Renata tinha conseguido chegar em casa? Ela trabalhava como caixa em um supermercado do centro, às vezes ficava duas horas no trânsito, mas nem ligava, ia lendo a Bíblia.

O homem percebeu que tinha perdido a atenção de Neílson, parou de rodeios e foi direto ao ponto: aquela chuva que encharcava o gramado judiado do Santo Antônio F.C. ainda duraria quarenta dias e quarenta noites e mataria toda forma de vida que não estivesse protegida em uma arca. Uma arca mais moderna, com cabines individuais e entretenimento a bordo, mas ainda uma arca. Quem estivesse fora dela, já era.

“Por que tanta violência?”, disse Neílson, com a boca entreaberta.

“O Senhor viu que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra. Ela estava corrompida diante da face de Deus. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem.”

“Caramba, Ele tá nervosão, hein?”

“Tá”. Pela primeira vez, o sorriso some da expressão do homem de terno. “Peraí, você está fazendo pouco das minhas palavras? Não acredita na vontade de Deus?”

“N’Ele eu até acredito”, defendeu-se Neílson, da mesma maneira com que respondia aos Atletas de Cristo e às conversas da Renata. “O que está difícil de acreditar é nessa história de arca aí…” Um relâmpago iluminou o céu e o campo ficou escuro. Aparentemente, os refletores se apagaram. Nenhuma novidade, o clube estava sempre com a conta de luz atrasada. Mas Neílson ficou mais sério: se os túneis do centro encheram, a Renata podia estar presa em algum ônibus.

O enviado de Deus entendeu que sua abordagem não estava adequada. Como Neílson acreditaria no que ele estava falando? Precisava dar a ele uma prova. Uma prova concreta.

“Você está preocupado com a Renata, não é?”, disse o homem.

“Você conhece a minha mulher?”. Neílson não era de ter ciúmes, mas dava para perceber um incômodo na sua voz.

“Na minha função, eu tenho que conhecer todo mundo. A Renata está bem. Fale você mesmo com ela.”

Um ruído como o de um choque elétrico às costas de Neílson o fez virar. Sua mulher estava ali.

“O que aconteceu? Neílson, onde eu tô?”, Renata perguntou, alarmada.

O homem de terno azulzinho tomou a frente: “Eu, na qualidade de mensageiro do Senhor, trouxe você para o lado do seu marido. Estava dizendo para ele que esse mundo vai se acabar em água, e não é maneira de dizer, não.” Um halo amarelado parecia envolver sua cabeça, mas era a lâmpada do vestiário que começava a falhar. Os empregados que tentavam manter o vestiário seco tinham sumido e a água agora chegava aos tornozelos de Neílson, sua mulher e o tal mensageiro.

Renata se ajoelhou na água gelada e ergueu os braços para o teto infiltrado do vestiário: “Sabia que esse dia ia chegar, Senhor. Pode me levar! Estou pronta para ser sacrificada! Pode sacrificar o Neílson também!”

“Pô, Rê…”, Neílson protestou.

“Calma, Renata”, disse o outro homem, ajudando a mulher a se levantar. “Eu vim aqui justamente para dizer ao Neílson que ele vai ser poupado.”

O jogador e sua mulher se entreolharam e falaram ao mesmo tempo: “Como é que é?”

“A ideia inicial era fazer como no primeiro dilúvio”, foi explicando o homem, como se virasse as páginas de um catálogo de vendas. “Salvar os animais, de dois em dois. Faz uma semana que eles foram convocados, já estão lá na arca. Mas como o Senhor queria preservar tudo que o mundo tinha de bom para a eternidade, tivemos que adicionar alguns outros seres.”

Ele contou que, embora decepcionado com a raça humana em geral, Deus também tinha escolhido para povoar o paraíso pintores, poetas, músicos, militantes da paz mundial e contra o aquecimento global, a Fernanda Montenegro, o Paulinho da Viola e o Dráuzio Varella, entre outros. O que a Terra tinha de melhor. Mas esse mundo não seria perfeito, continuou a figura celestial, sem um futebolzinho no domingo — dia em que o Senhor gostava de dar uma relaxada.

“Então eu fiquei de chamar dois goleiros, dois zagueiros-centrais, dois volantes, dois centroavantes… bem, você entendeu. De dois em dois, sempre. Para montar dois times, sabe?”

“E eu?…”, inclinou a cabeça Neílson, cada vez mais atônito.

“Meia-esquerda de um dos times.”

“Caramba, não tinha meia-esquerda melhor no mundo do que eu? E o Messi?”

“O critério não foi só chamar bons jogadores, Neílson. Queríamos pessoas boas.”

“Mas eu, bom? Eu nem sou Atleta de Cristo!”

“Pois é”, sorriu o homem, com o máximo de maldade que era permitida a alguém como ele. Então descreveu a vida e a carreira de Neílson: nunca tinha traído, nunca tinha roubado, nunca tinha entregado um jogo por dinheiro, avisava o juiz quando cometia alguma falta, jogava a bola para fora quando o adversário estava caído. Muitas vezes a torcida o odiava por isso, mas o pessoal lá de cima era fã dele. Seu lugar era no céu, ou melhor, no campo dos céus, ao lado dos mais puros e decentes jogadores.

“O Marcelinho Carioca também foi chamado?”, Neílson perguntou.

“Em princípio não, mas ninguém bate faltas como ele, então o Senhor fez questão. Você vem, Neílson?”

Uma coluna de água entrou pela janela. O mundo inteiro devia estar submergindo naquele momento. Neílson olhou para a mulher. Ninguém mais do que ela merecia a redenção final. “E a Renata?”, perguntou.

O homem de terno fez um gesto pedindo calma e começou a mexer no bolso. Tirou de lá um caderninho com uma caneta presa à capa. Folheou algumas páginas até encontrar o que procurava: “A Renata tá na lista de espera, mas posso dar um jeito de botar vocês na mesma cabine, sem problema!”

Neílson virou de novo para a mulher, dessa vez com os olhos apertados: “Por que você estava só na lista de espera?”

Ela gaguejou, baixou os olhos e foi salva pelo representante divino, que apontou a água que já batia na barriga deles: “Gente, estamos meio sem tempo…”

Silêncio entre o jogador e a mulher. Para acabar com aquilo, o parça de Deus pegou os dois pelos braços e falou: “Neílson, a Renata vai ter quarenta dias e quarenta noites para te explicar. Vamos!”

E desapareceram do vestiário, bem na hora em que a água tomou conta de tudo.

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Postado por: Marcos Abrucio

O consertador de maxilares

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6/3/1994

O pai chegou bem cedo para pegar a gente. Eu já estava acordado, mas o Henrique não levantava de jeito nenhum. É muito engraçado quando ele tá com sono, fala umas groselhas sem sentido. Eu disse que estava na hora, e ele gritou de volta: “Mas eu só tenho sete anos!”, como se estivesse sendo levado para a prisão, e não para ver o jogo do nosso time. Só despertou, ainda com cara de filhote de zumbi, quando o pai entrou no quarto e disse baixinho que ia comprar sorvete para a gente no intervalo do jogo.

Antes de sairmos, a mãe nos fez prometer as coisas de sempre: que vamos tomar cuidado com o sol, ficar longe das brigas, não falar palavrão, não comer porcarias e voltar na hora marcada. Ela pede essas coisas olhando para a gente, mas eu sei que é com o pai que ela está falando. Tanto que é ele que sempre responde: “Combinado, Marina.”

Nosso time não anda muito bem. Faz três sábados que a gente não vê os caras fazerem um golzinho sequer. Meu pai fala que os jogadores estão de sacanagem, querem derrubar o técnico. Que parecem uns jogadores de pebolim, paradões. “Filhos da puta!”, ele grita sem tirar o cigarro da boca, o meu irmão grita igual, e a gente dá risada. Todo mundo em volta dá risada.

O jogo foi duro, como sempre. Muita marcação, gramado ruim, sol forte. Meu pescoço ficou todo vermelho, mas a mãe não percebeu. Zero a zero no primeiro tempo. Fomos ao banheiro, meu pai ensinou o Henrique a mijar sem abaixar a bermuda e deixar a bunda de fora. Manezão. No começo do segundo tempo, quando terminávamos de chupar nossos picolés, o meu de coco, o do Henrique de chocolate, teve um escanteio para nós. Nosso lateral bateu, o goleiro deles espalmou, a bola sobrou para o Zezão, o volante que o pai chama de “Tanque”, não de lavar roupa, de guerra, mesmo, e ele soltou uma bomba.

Aí foi muito horrível.

A bola foi direto no queixo do zagueiro adversário, que caiu na hora. A gente levantou para ver o cara estendido no chão e, juro, ele estava com o rosto todo torto. A bola deslocou o maxilar dele, e a cabeça ficou parecendo um “J”. Rolou um desespero entre os jogadores, entraram correndo os médicos dos dois times para acudir o zagueiro, mas ele não acordava. O Zezão foi até o juiz com os braços para o alto, acho que para não ser expulso. Mas ele seria expulso por quê? Por ter matado um adversário com uma bolada?

Todo mundo ficou nervoso. O Henrique começou a chorar muito. Eu me segurei. Sou oito anos mais velho do que ele, tenho que dar o exemplo. Meu pai pegou o moleque no colo. O jogo já estava parado há uns dez minutos quando veio um homem lá do vestiário do nosso time. Gordinho, barbudo, um rabinho de cavalo atrás da cabeça. Ele tinha os olhos meio fechados, era tão calmo que parecia assoviar. Estranho. Há anos a gente vai no estádio e nunca tinha visto aquele cara antes. E ele ainda mancava de um jeito engraçado, o pé direito girando, como se estivesse encerando o chão. Foi tropicando em direção ao bolinho de jogadores.

A gente foi alguns degraus para cima na arquibancada de cimento para ver melhor o que ia acontecer. O homem ajoelhou ao lado do cara desacordado. Os médicos se levantaram e abriram os braços, para isolar a área, e os jogadores todos deram um passo para trás. Então o gordinho agarrou a cabeça do zagueiro, empurrou com tudo o queixo dele para um lado enquanto puxava a parte de cima da cabeça para o outro. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. Como se ele fosse um profissional daquilo, um consertador de maxilares. Parecia a mãe abrindo o vidro de azeitonas, só que com menos esforço.

O estádio ficou em silêncio durante um instante e então o zagueiro do outro time, que depois eu descobri que chamava Dorival, levantou a cabeça. Aí se sentou no gramado, tossiu um pouco e passou a mão no queixo, como o meu pai quando termina de fazer a barba. Estava inteiro. Logo o jogo começou de novo.

E o legal foi que, uns dez minutos depois, fizemos um gol e o time ganhou pela primeira vez em várias rodadas. Saímos cantando do estádio. Almoçamos no rodízio de pizzas, passamos a tarde no meu pai jogando videogame e comendo pipoca enquanto ele fumava e lia jornal. Chegamos à noite em casa. O Henrique veio no colo do pai, dormindo.

***

31/8/2016

Cheguei na cidade ontem e fui direto para o hospital. Nem vi minha mãe. Eu e o Henrique acabamos passando a noite lá, porque o médico visita os quartos às 7h e queríamos estar por perto. Meu irmão me deixou deitar no sofá. “Eu durmo em qualquer lugar, mesmo”, ele disse. Verdade. Ele logo estava roncando sentado em uma cadeira dura, e eu não fechei os olhos em nenhum minuto.

Fiquei boa parte do tempo olhando para o meu pai todo espetado de sondas, respiradores e canos que eu nem sei para o que servem. Queria falar com ele, embora não soubesse o quê. Deveria ter falado tempos atrás, para ele parar de fumar — e então receber uma risada alta como resposta.

A televisão ficou ligada sem som a noite inteira. Lá pelas quatro, botei no canal de esportes. Estava passando um VT do jogo do último sábado do nosso time. Assisti como se fosse a enésima reprise de um filme querido. Foi difícil acompanhar os jogos nesses anos todos. O time na terceira divisão, eu morando fora. A internet sempre mandava notícias, os últimos resultados, os (poucos) acessos e os (muitos) descensos. Mas ver assim um jogo inteiro, faz tempo que eu não via.

O estádio continuava igual, talvez com a pintura mais descascada. O time também não havia mudado muito, um misto de moleques loucos para jogar na capital e alguns veteranos que haviam rodado todas as divisões até chegar lá. Jogo feio, a bola pulava feito pipoca nos buracos do gramado (gramado?). No fim, zero a zero, a imagem dos torcedores xingando no mute. As vaias que eu não ouvia poderiam ser do meu pai, se ele não estivesse em coma desde a semana passada.

Às 6h30, eu saí para tomar uma água. Fiquei um tempo no corredor, olhando as primeiras luzes do dia entrando pela janela do fundo. Engraçado, não importa se você está numa praia de Fernando de Noronha, às margens do Sena ou num corredor de um hospital velho de uma cidade do interior, o sol nasce bonito em todo lugar. Um homem limpava o chão com um esfregão, movendo-se de lá pra cá sem pressa. Era gordinho, barbudo, rabo de cavalo atrás da cabeça. Quando girou o corpo para trazer o esfregão pingando para o meu lado, vi os olhos semicerrados, tranquilos como os de mestre de ioga. Veio manquitolando e limpando, manquitolando e limpando. Era ele.

“É ele”, falei para o Henrique, chacoalhando seus ombros para acordá-lo. Comecei a falar que eu tinha visto o cara daquele jogo de mais de vinte anos atrás, aquele que salvou o dia de todos nós quando tudo parecia perdido, o homem capaz de desentortar um rosto sem fazer força, era ele, só podia ser. Mas as palavras saíram meio desconexas, o Henrique estava sonado, então percebi que talvez ele fosse pequeno demais na época para lembrar e que provavelmente também eu estivesse com sono demais para ter qualquer certeza. Meu irmão não entendeu nada, claro.

Puxei-o para fora do quarto: “Vem ver”. No corredor, quem se aproximava era o médico do meu pai. Congelamos. Atrás dele, lá no fundo, o consertador de maxilares continuava dando um jeito no piso e assoviava baixinho. Reconheci a melodia: era o hino do nosso time.

Tudo isso misturado, por alguma razão, me fez ficar calmo. Não importava o que o médico falaria depois de examinar o meu pai. Não importava sequer o que aconteceria com o velho dali para frente. Eu sabia que ele estaria bem.

Virei para o meu irmão: “Vamos no jogo semana que vem?”

Postado por: Marcos Abrucio

Homem a homem

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JOHN BROWN, narrador escocês: Desculpe, eu não costumo ser assim tão piegas. Mas não há dúvidas, senhoras e senhores, de que nesta noite assistimos à História sendo escrita bem na nossa frente — uma pena que com tintas tão tristes.

Este jogo, que valia uma vaga para a repescagem das eliminatórias da Copa do Mundo, passou a significar muito mais para todos os que participaram dele. Alan Rough e Davie Cooper, por exemplo. Acabo de vê-los subindo no ônibus do time. Jock Stein colocou esses dois em campo no segundo tempo e, com muita coragem e nenhum pingo de hesitação, eles acabaram salvando a nossa pele. Tinham agora que estar cantando, bebendo, celebrando o belíssimo jogo que fizeram. Mas não: estavam calados, cabisbaixos, as mãos segurando a cabeça, pobres homens. Como todos nós, eles vieram ao Ninian Park, aqui no País de Gales, preparados para a alegria da vitória ou para a decepção de uma derrota, mas nunca para isso. Nunca.

Este é um momento de muita dor, e não só para nós, escoceses; não só para nós, apaixonados pelo futebol; não só para nós, que vivemos profissionalmente dele. Quando um homem morre, todo o drama de uma partida se torna pequeno, ínfimo, e o sentimento da perda fala mais alto. Fala com todos. Com certeza, o mundo inteiro vai se lembrar deste jogo por muitos e muitos an…

***

JIM LEIGHTON, goleiro escocês: Com certeza, um dia para esquecer. Deus me livre. Quero apagar para sempre o que eu vivi nesse estádio. Não tenho mais nada a fal…

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ALAN ROUGH, goleiro reserva escocês: Ainda não consigo entender muito bem o que aconteceu, sabe? Digo, tenho 34 anos, quase aposentado, não era nem para eu estar aqui. Eu engordei, já tinha desistido da seleção. Jock Stein disse que só me convocou porque a senhora dele sugeriu. Ele precisava de um goleiro reserva e não tinha ideia de quem escolher. Aí ela disse: “Eu gosto daquele Alan Rough.” E ele me chamou! “Agradeça à minha mulher”, ele me falou na concentração.

Não esperava jogar hoje. Jim Leighton é um grande goleiro. Há três anos ele é o titular, desde o fim da Copa de 82. Mas com pouco mais de dez minutos, Gales já tinha feito um gol. Eu estava no banco e vi que tinha alguma coisa errada com o Jim. Teve um cruzamento que ele simplesmente deixou passar, como se não tivesse visto a trajetória da bola. No fim do primeiro tempo, ele passou pela gente parecendo uma criança que tinha encontrado um fantasma embaixo da cama.

No intervalo, nós, os reservas, não descemos para o vestiário. Era para fazermos um aquecimento leve, mas não podíamos usar o gramado: uma banda militar ficava andando pelo campo, pra lá e pra cá. Então Davie Cooper e eu inventamos um jogo: ficamos um de cada lado da cancha chutando a bola por cima da cabeça dos músicos e vendo quantos chapéus conseguíamos derrubar. Foi engraçado.

Aí o fisioterapeuta chegou correndo, mandando eu descer. “O Jim está fora!”, ele gritou. Achei que era brincadeira, mas o cara tinha a expressão tão desfigurada que acabei indo. Jock estava em pé na área dos chuveiros, pálido, pensativo. Alex Ferguson, o assistente técnico, mandou eu vestir as luvas. Eu teria que jogar. “Sério?”, eu perguntei. O treinador veio andando devagar até chegar a menos de um palmo do meu nariz. Disse baixinho: “Conto com você, Alan.”

Respirei fundo, botei a luvas bem apertadas nas mãos e saí do vestiário de cabeça erguida. Olhei no fundo dos olhos daqueles milhares de galeses e me senti confiante como nunc…

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***

DAVIE COOPER, atacante reserva escocês: Alan, Alan. Quase se borrou quando soube que jogaria… Eu desci para o vestiário com ele e levamos um susto. Jock Stein estava vermelho, berrando como um capitão viking. Ninguém entendia o que ele falava. Estava puto da vida com o Jim. Claro, o maldito goleiro tinha tido a carreira inteira para contar que era míope, deixou para contar agora, no meio de uma partida decisiva? Tenha dó.

O pessoal me contou depois: ele chegou falando que tinha perdido uma das lentes de contato, por isso estava deixando passar as bolas. Não estava vendo direito! “Lente? Você usa lente?”, alguém perguntou. E aí ele disse que nunca tinha contado a ninguém, com medo de prejudicar a carreira. E prejudicar a gente, ele não pensou? Pior: ele não tinha uma lente reserva. “Mas eu tenho um goleiro reserva!”, gritou Jock. E mandou chamar Alan Rough.

Alan estava com os olhos arregalados. Jock foi andando devagar até ele e falou quase sem abrir a boca: “Você vai entrar, seu gordo filho da puta”. O cara botou as luvas correndo e subiu para o campo. Passou os 45 minutos seguintes tremendo, torcendo para a bola nem chegar perto. Sorte que Gales ficou enrolando no segundo tempo. Só tocando de lado.

Mas ainda estávamos fodidos, né. O resultado era dos caras. E o nosso melhor jogador, Kenny Dalglish, estava na arquibancada, machucado. Faltando uns trinta minutos para o jogo acabar, Jock me botou em campo. E eu resolvi a parada.

Corri, driblei, chutei, infernizei a defesa dos caras até uma bola bater na mão de um zagueiro. Pênalti. Na hora, pedi para bater. Gol. Ainda faltavam uns dez minutos, mas a gente se fechou. A vaga era nossa. Foi lind…

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KENNY DALGLISH, atacante escocês (contundido): Foi horroroso, cara. Que jogo horroroso. Vendo de fora, deu para sentir um pouco a merda que é torcer para essa seleção! A gente deu um rabo tremendo. Se aquela bola não batesse na mão do zagueiro, não faríamos um gol nem se o jogo durasse uma semana.

E quase que o Davie Cooper perde o pênalti. Ele nem queria bater, na verdade, mas os outros dez caras se esconderam. Teve gente que fingiu amarrar o tênis e ficou lá abaixado. Davie não teve alternativa senão pegar a bola e chutar. No fim, foi aquele sufoco. Dava para ver o Jock sem cor, sem expressão. Parecia um peru de Natal antes de entrar no forno. Acabou o jogo, conseguimos um lugar na repescagem — e nem assim deu para comemorar. Tem coisas que só acontecem com a Escócia, mesm…

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MIKE ENGLAND, treinador galês: Eram 43 minutos do segundo tempo, e o juiz apitou uma falta. Jock Stein achou que era o apito final e veio em minha direção, com a mão estendida, para me cumprimentar. Jock era assim: duro, mal-humorado, mas leal até os ossos. “Mantenha a dignidade”, era o que sempre falava.

No meio do caminho, ele tropeçou. Antes de cair, o pessoal segurou o corpo dele. Parecia estar sofrendo um ataque. Os médicos o levaram para os vestiários. Ele nem viu o jogo acabar. Morreu nos vestiários. Depois, Ferguson me disse que ele tinha tido um edema pulmonar. Disse também que ele tinha parado de tomar seus remédios, com medo dos efeitos colaterais. Jock queria estar 100% focado nesse jogo.

Foi muita pressão para ele. A semana inteira só se falava nesse jogo, na Grã-Bretanha inteira. A televisão estava transmitindo ao vivo desde manhã. E todo mundo criticando o homem, dizendo que seria uma vergonha a Escócia não se classificar para a Copa. Agora até a primeira-ministra está fazendo comentários sobre futebol… Gente, é só um jogo. Se Jock ficasse de fora, como no fim eu fiquei, paciência, oras. Esse negócio de “a história está sendo escrita…” me irrita profundamen…

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JOHN BROWN, narrador escocês: Bem, com este resultado, a Escócia vai para a repescagem, e joga por um empate com a Austrália para ir à Copa do México, no ano que vem. E estaremos lá, não é, Joseph?

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JOSEPH JORDAN, comentarista escocês: Com certeza, John!

Postado por: Marcos Abrucio