Vilões

Bom moço, articulado, bem-apessoado, arrumadinho, limpinho e talvez até cheirosinho. Este era Leonardo, lateral-esquerdo do Brasil em 1994. Ele só deixou de ser o marido que toda mãe sonhava para sua filha quando, nas oitavas-de-final, seu cotovelo entrou feito um trem na fuça do americano Tab Ramos.

Não importa que aquele tenha sido um ato impensado, que o americano estivesse fungando no seu cangote e que nunca antes nem depois disso Leonardo tenha feito nada parecido. A cena horrorosa e a conseqüente suspensão do lateral até o final do torneio fizeram dele o vilão do Mundial.

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.

K.O.

Muitos outros vilões já deram as caras em Copas. Em 1974, Ernst Jean-Joseph, zagueiro do Haiti, foi o primeiro jogador a cair no antidoping. Seu julgamento foi sumário: logo que o resultado do exame foi divulgado, representantes do ditador haitiano Baby Doc arrancaram o zagueiro do hotel e cobriram o cara de porrada, por ele ter “envergonhado a pátria”, “sujado o nome do pais”, ou coisa que o valha — claro que essa pena não valia para o próprio Baby Doc

Já vimos que, em 1982, uma voadora desgovernada do goleiro alemão Harald Schumacher sobre o francês Battiston o fez ser mais odiado entre os gauleses do que Hitler. Na verdade, o posto de malfeitor daquela Copa poderia ser estendido a todo o time da Alemanha e mais o da Áustria, os co-autores da maior marmelada das Copas.

A Alemanha tinha perdido da Argélia (!) e precisava da vitória para passar de fase. 1 a 0 já estava bom. A Áustria podia perder de um gol de diferença que também se classificaria. Adivinha qual foi o resultado?

Não podemos esquecer também dos vilões nacionais. Para os ingleses, por exemplo, Diego Maradona foi um dos dois grandes escroques da Copa de 1986. O outro foi o juiz tunisiano Bin Nasser, que validou o gol de mão do argentino naquelas quartas-de-final.

Os argentinos, por sua vez, consideram o presidente da FIFA, João Havelange, o grande crápula da Copa de 1994. A raiva se justifica se a história a seguir for verdadeira.

Havelange teria autorizado Maradona, que estava (mais) balofo e vinha de uma suspensão por doping, a usar quaisquer recursos para entrar em forma. O argentino não precisaria se preocupar: incomodado com a falta de caras conhecidas do público naquele Mundial, o dirigente teria garantido que o craque não cairia no anti-doping.

Maradona ficou fininho e jogou muito na primeira fase. Mas após o jogo contra a Grécia, para a sua surpresa, ele foi convidado a deixar seu xixi num frasco. O resultado do exame apontou a presença de efedrina e outras substâncias que “agem sobre o sistema nervoso central e circulatório, com o efeito de melhorar os reflexos, aumentar a oxigenação do sangue e diminuir a sensação de fadiga”, segundo o relatório oficial.

“Cortaram minhas pernas”, disse Maradona, suspenso da Copa, que viu a Argentina ser eliminada em seguida.

Maradona xixi

Rumo ao último xixi.

Entre os brasileiros, ninguém foi tão crucificado quanto Barbosa, o goleiro da Copa de 1950. Eternamente culpado pelas falhas na final, virou sinônimo de fracasso para boa parte do público e da imprensa. Perto do que fizeram com ele, as reações ao passe errado de Toninho Cerezo, ao pênalti perdido por Zico ou ao meião de Roberto Carlos não fazem nem cócegas.

A atual Copa, que, ufa, melhorou muito em relação à primeira rodada, já apresentou alguns fortes candidatos a vilão: a Jabulani, as vuvuzelas, o time inteiro da França.

Para mim, no entanto, ninguém ganha do delay.

(Não confundir com Delei, meia que jogou no Fluminense, Botafogo e Palmeiras.)

Delei

Ele sempre chegava atrasado nas jogadas.

Estou me refirindo ao atraso entre a programação da TV normal e a programação digital, em HD, cabo, parabólica, o diabo. São vários os níveis de atraso, dependendo da TV que você tem em casa (e as da vizinhança, claro).

Mas, em geral, o negócio é mais ou menos assim: seu vizinho, que tem TV de antena ou TV a cabo simples, grita Gooooooooooooolllll!

(barulhinhos de grilo)

E só agora, na sua casa com TV à cabo-digital-parabólica-HD-de-merda, o Galvão grita: Gooooooooooooolllll!

É um inferno que aporrinha muita gente: pela primeira vez a Copa tem transmissão digital para um  numero considerável de lares. O pior de tudo é que você nunca esquece que o delay existe. Suas orelhas estão sempre em pé, prestando atenção se alguém grita lá fora.

O desastre é completo quando seu time precisa fazer um gol e tem, por exemplo, uma falta para bater na entrada da área. Você não consegue deixar de atentar à vizinhança. E se ninguém está gritando, você já sabe: por mais que o atacante esteja ajeitando a bola com carinho, ela não vai entrar.

Se na sua casa a transmissão é analógica, fique feliz. Você gasta muito menos e assiste ao jogo verdadeiramente ao vivo.

Mas se você quer se mostrar para a vizinhança, dizendo que já tem, sim, uma TV digital, uma dica: ao ver o gol do Brasil, segure o grito na garganta. Eu sei, vai ser difícil. Mas mantenha-o lá, preso, por uns cinco segundos. E aí, quando o Galvão já tiver parado de gritar, abra a janela e grite com fé: Gooooooooooooolllll!

(Uma dica bem melhor está aqui.)

***

A seleção foi muito bem no jogo contra a Costa do Marfim e o técnico, muito mal na entrevista.

O olhar ensandecido de Dunga enquanto ele balbuciava ofensas durante a coletiva foi uma das cenas mais assustadoras que eu vi na vida.

Que fique claro: o “chupa Globo” é totalmente compreensível, pelo histórico de distorções, equívocos e não-jornalismo (esportivo ou não) da emissora. É ótimo que os brasileiros comecem a ver TV de forma mais critica. Hoje há muito mais canais de informação e participação do público, e vejo isso de forma otimista: com mais gente tomando conhecimento de mais lados de mais notícias, cai a chance de manipulação.

Mas o ódio contra o plin-plin não pode justificar tudo, muito menos o comportamento demente do treinador da seleção. Ele foi mal-educado com todos que o assistiam, não só com o jornalista global. Foi burro ao se portar assim em um evento da FIFA. E foi covarde, ao murmurar suas infâmias em vez de despejá-las em alto e bom som, diretamente a quem os merecia (ou não).

Mas o pior foi aquele olhar. Olhar de vilão de filme.

Todos sabemos, no entanto, que Dunga só será um vilão de verdade se o Brasil for eliminado. Tudo que relevamos até aqui (porque o time está bem, porque ganhamos tudo até agora, porque durante a Copa a gente torce mesmo, uai) virá à tona: seu complexo de perseguição, sua inconstância, seu despreparo, sua loucura.

Tomara que não. Prefiro lembrar dele de outra maneira:

Postado por: Marcos Abrucio

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5 Respostas para “Vilões

  1. HA! Com certeza o maior vilão da copa. Maldito Delay.

  2. Paulo Gallardi

    Excelente texto Abrucio,… eu também sofri com o tal de Delay, quando no primeiro jogo do Brasil o meu vizinho gritava goooool e eu não entendia o que estava acontecendo. Só me lembrei do Delay alguns segundos depois quando aconteceu o gol em casa.

    Depois disso fui pesquisar sobre o “infeliz” do Delay:

    Delay “atraso” – é na realidade o tempo que o sinal da transmissão percorre para que os dados subam e desçam do espaço à Terra. No delay analógico o sinal demora cerca de um quarto de segundo para ir até o satélite e outro para voltar até a base, no máximo. Ou seja, se a transmissão for enviada para todo o País, o sinal ainda precisa fazer outra viagem de ida e volta até chegar às telinhas, o que pode acrescentar um pouco mais de atraso.

    O delay pelo rádio não chega a um segundo a partir da geração. Pela TV analógica no máximo 3 segundos; na TV a Cabo cerca de 5 segundos de atraso; e se assistir via web terá 12 segundos de atraso em relação à TV a Cabo, o que dará no final, um delay de 15 a 17 segundos em relação ao rádio. Isso quer dizer que, se assistir pela web, é bem possível que você veja o gol no mesmo tempo em que esteja passando o replay na TV analógica. Maluco, não?

    Só pra registro: chupaaaa França

  3. Pior é para quem é amigo do Antero. Porque ele tem o dom de prever o resultado dos jogos. Isso quer dizer que toda a humanidade tem um delay em relação ao Antero. Às vezes é um delay de dias, às vezes de semanas . Por exemplo, ele previu que um time africano vai ganhar a Copa. Ele já sabia que Gana vai papar esse mundial. Não adianta torcer para mais ninguém. Vai dar Gana.

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