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A seleção de 3976

A Copa avança com duas quartas de final que mereciam ser semifinais (Brasil x Holanda e Alemanha x Argentina, os quatro melhores times até agora) e duas que deviam, no máximo, ser oitavas (Uruguai x Gana e Espanha x Paraguai).

BRA x HOL e ARG x ALE: jogos que acontecem cedo demais.

A seleção brasileira segue exatamente do jeito que se imaginava: eficiente, forte na defesa, letal no contra-ataque, sem um bom reserva para Kaká e sem jogar um futebol lá muito vistoso.

Foi assim que ela triunfou na Copa América, na Copa das Confederações e nas Eliminatórias. E vai ser assim até o fim — tomara que no dia 11.

Nessas horas em que o (bom ou mau) futebol da seleção é debatido em cada palmo do território brasileiro, sempre se evoca um velho embate: o futebol-arte x o futebol-força (ou de resultados).

Ou, como este confronto é normalmente apresentado: a seleção de 82 x a de 94.

Poesia ou prosa?

A VIP de junho montou um quadro comparativo que repete pela enésima vez a pergunta: qual das duas seleções foi melhor? Após um belo rebolation matemático (deram -10 num quesito…) chegou-se a um empate.

Muitos jornalistas e boleiros insistem em dividir o mundo entre os defensores do time de Sócrates e o de Dunga. Mas a oposição entre esses dois times é, na verdade, uma grande bobagem.

Primeiro, porque não é preciso defender um OU outro. Eu gosto dos dois, pronto.  Como uma mãe que ama seus filhos com a mesma intensidade, não importa se um virou um grande médico e o outro, juiz de futebol, os brasileiros têm as duas seleções no fundo do peito.

Outra: o time “eficaz” de 94 fez muita coisa bonita, especialmente graças ao talento de Romário. E o time “artista” de 82 foi capaz de marcar perfeitamente Diego Maradona, no jogo da segunda fase contra a Argentina.

Por isso, muito mais divertido do que imaginar 1982 x 1994 é pensar em 1982 + 1994.

Uma seleção que somasse os pontos fortes de cada uma seria incrível. Um time obediente, aplicado e mortal como o do tetra. E brilhante, leve e apaixonante como o do quase-tetra.

Mas como ficaria o time titular?

***

No gol, não há dúvidas. Valdir Peres teve uma grande história no São Paulo, mas nunca foi unanimidade na seleção. E por conta daquela falha contra a URSS, eu cresci achando que seu nome era sinônimo de frangueiro. Se um moleque da rua levava um gol por entre as pernas, eu já gritava: “Aê, Valdir Peres!”.

Já Taffarel mora na nossa memória afetiva desde 1988, quando defendeu (muito) a seleção olímpica, passando pela Copa de 1990, quando foi um dos poucos que se salvaram e, claro, pelos Mundiais de 1994 e 1998.

Sim, ele tinha sua criaçãozinha de perus. Tinha também muita dificuldade para sair do gol (o “sai que é sua, Taffarel!” era menos um bordão do que uma súplica do Galvão). Mas sua folha de bons serviços prestados à seleção é enorme.

Durante a campanha do tetra, ele jogou mal por apenas 5 minutos (o suficiente para a Holanda empatar nas quartas, mas tudo bem). De resto, foi perfeito.

E pegou pênalti em semi e em final de Copa do Mundo. Super-trunfo.

Nosso goleiro, portanto, é Taffarel. Desculpe, Taffareeeeeeeeeeeeel.

***

Não se pode reclamar dos laterais dos dois times. A turma de 1994 era muito boa. Na direita, Jorginho, habilidoso, bom cruzador, autor de 50% do gol contra a Suécia:

Na final, sentiu uma contusão. Entrou Cafu, que também iria fazer história na seleção, mas nas Copas seguintes.

Na esquerda, Leonardo ia bem até perder a cabeça e quase arrancar a de um americano. Entrou Branco, que havia jogado muito em 86 e 90.

Na Copa dos EUA, no entanto, ele era muito contestado. Por um motivo. Ou melhor, dois: cada uma de suas nádegas, enormes, balofas, balouçantes. Vindo de contusão e já no fim da carreira, Branco estava gigante.

Mas o cara era bom, e tinha estrela (a quarta). Mesmo com toda a desconfiança, jogou bem os últimos três jogos da Copa. E fez aquele gol

Grandes laterais. Mas craques mesmo são os de 82. Os flamenguistas Leandro e Júnior tinham tanto talento que hoje seriam camisas 10 de qualquer time brasileiro (menos o Santos). Júnior, no fim da carreira, virou de fato um meia e foi campeão brasileiro de 92 jogando nessa posição.

Infelizmente na seleção os dois não conseguiram erguer a taça — coisa que cansaram de fazer no rubro-negro. O que não significa que não destruíam também de verde e amarelo. Principalmente naquela Copa.

E justamente por não fazer feio numa roda de bobinho com Zico, Sócrates e Falcão, Leandro e Júnior levam a 2 e a 6, respectivamente.

***

Era para ser os Ricardos, Gomes e Rocha. Ou então o Mozer. Só que eles foram se machucando e ficando para trás. E, na última hora, no improviso, montou-se uma dupla de área improvável: Aldair e Márcio Santos.

Que foi a melhor zaga que eu vi jogar na seleção — até chegar Juan e Lúcio, mas esta é outra história.

Em 94, pela primeira vez na minha vida, eu não tinha palpitação quando o Brasil era atacado. A segurança e o entrosamento dos zagueiros era impressionante — ainda mais se lembrarmos que eles tinham jogado pouco tempo juntos.

Claro que o esquema fechado de Parreira e o ótimo desempenho defensivo dos volantes Mauro Silva (muitas vezes quase um terceiro zagueiro) e Dunga ajudaram muito. Mas a Copa da dupla de beques foi irretocável.

Sim, os zagueiros de 82 eram muito melhores tecnicamente. Oscar era ótimo. Os atleticanos amam Luizinho.

Mas, pô, levaram 3 gols do Paolo Rossi (das mais variadas formas) num jogo só. E estamos falando de Copas. Em 1994, Aldair e Marcio Santos ajudaram mais do que Oscar e Luizinho em 1982.

Eu sei, eu sei, uma pena. Aldair, Márcio Santos, pro campo.

Aldair e Marcio Santos

Eles mesmos, algum problema?

***

Ah, o meio-campo de 82…

Pois é, nunca ouvi ninguém falar: “Ah, o meio-campo de 94…”. Era um quadrado de jogadores aplicados, mas sem grande refinamento: Mauro Silva, Dunga, Zinho e Mazinho.

Para dar mais brilho àquela árida região, Parreira havia tentado Luiz Henrique, Neto, Palhinha, Rivaldo e, por fim, Raí. Mas o craque são-paulino não fez uma boa Copa, e logo foi sacado — por Mazinho, um volante que subiu na vida.

Todos trocavam passes com correção, mas só quem dava grandes lançamentos e assistências era, por incrível que pareça, o capitão Dunga.

Enquanto isso, em 82… Raríssimas vezes na história se viu um meio de campo apenas com craques. Aquele time tinha: Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, ídolos do povo de quatro estados diferentes.

Só craques.

E todos foram bem na Copa, com golaços, assistências, toques magistrais… A tentação é chamar o meio-campo inteiro daquela seleção. Mas espera aí…

O quarteto super-ofensivo não conseguiu bater a Itália naquele dia maledeto. E Cerezo, coitado, tornou-se personagem de um verbete da enciclopédia futebolística: “como não passar uma bola pelo meio da zaga”…

Então será que aquele meio-campo era assim tão perfeito? Será que não faltava justamente aquilo que sobrava no de 94, solidez defensiva?

Não sei. E enquanto meu lado utópico pendura pôsteres dos craques de 82, meu lado que quer o caneco me faz escolher pelo menos um homem de 94, justamente o que teve o melhor desempenho.

Meu meio-campo vai de Dunga, Falcão, Sócrates e Zico.

Dunga-94

Desculpe, Cerezo.

***

Quando criança eu adorava as bombas do Éder. E sempre achei o Chulapa engraçado pra caramba. Os dois que me desculpem. Não dá para não escolher Romário e Bebeto.

Sem os dois, a seleção de 94 seria apenas um time razoável… da Alemanha. A dupla estava no auge, e compensaram a falta de técnica do meio-campo com um exagero de talento e faro de gol.

Em especial, Romário. Romário é rei. Pelo que disse que ia fazer e pelo que fez naquela Copa. Nem vou colocar aqui nenhum vídeo dele porque tudo que ele fez ainda está fresco na nossa memória.

Tá bom, eu coloco.

***

Botando na balança apenas o talento, deveríamos pegar a seleção toda de 82, mais o Taffarel e o Romário e pronto. Mas se pensarmos num time de verdade, que funcionasse na frente e atrás e, com isso, fosse capaz de ganhar, além de encantar, a escalação seria essa:

Taffarel; Leandro, Aldair, Márcio Santos e Júnior. Dunga, Falcão, Sócrates e Zico. Bebeto e Romário.

Podem jogar as pedras agora.  Ou, o que vai ser menos doloroso, mandar suas escalações de 82+94.

Aproveitem para pensar: que jogador de 2010 entraria nesse time? Tem vaga. Mas isso é assunto para outro dia. Daqui uns 15 anos.

Postado por: Marcos Abrucio

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Porra, Jorginho!

O povo tentou. A imprensa tentou. Os colegas de profissão, idem. Mas se tem alguém que poderia fazer Dunga mudar suas convicções na hora da convocação, esse alguém era Jorge Amorim de Oliveira Campos. Ou simplesmente Jorginho.

Parceria desde 1983 e Jorginho ainda não convenceu Dunga a mudar seu estilo

O ex-lateral-direito é parceiro de Dunga na seleção brasileira desde 1983, época em que foram campeões mundiais na categoria júnior. Jogador muito técnico e raçudo, participou de grandes times como o Flamengo (anos 1980) e a seleção brasileira tetracampeã em 1994.

Atuou ao lado de craques como Zico, Júnior, Careca, Bebeto, Romário, Mozer, Mauro Galvão, entre outros. Jogadores de técnica refinada e futebol bonito. Gente que valorizava a arte sem deixar de ser competitivo.

Jorginho na época de Fla: bons tempos em que os laterais brasileiros sabiam cruzar

Ao contrário de Dunga, que baseou sua carreira na força e na raça, Jorginho buscava o jogo bonito. É verdade que sua forma de jogar ganhou vigor com a passagem pela Alemanha – provável inspiração do futebol eficiente pregado por Dunga. E, no fim da carreira, já de volta ao Brasil, Jorginho começou a se destacar mais pela liderança em campo, já que as pernas não tinham mais a mesma força.

A carreira do ex-lateral indicava um futuro treinador com mentalidade mais ofensiva no esquema de jogo. Uma reverência aos grandes esquadrões do Brasil em Copas e – por que não? – ao timaço do Flamengo de sua época.

Ao acompanhar as decisões da dupla Dunga-Jorginho, no entanto, percebemos que outras experiências influenciaram em suas decisões: as Copas de 1990 e 1994.

Caniggia e Taffarel na mesma foto: precisa de legenda?

Em 1990, sob a batuta de Sebastião Lazaroni, a seleção brasileira teve uma das atuações mais controversas em Mundiais: o time não engrenava e o esquema europeizado não agradava. O futebol-força daquela seleção foi deixado para trás em uma arrancada de Caniggia após passe de Maradona.

Já em 1994, Parreira optou pelo futebol defensivo e pragmático para conquistar a Copa. Jorginho foi o titular da lateral-direita naquela seleção e parece ter aprendido os métodos de seu treinador. Futebol sem ousadia, mas eficiente.

Você consegue adivinhar quem está ao lado de Dunga e Romário na foto? Não, não é o Jorginho...

Apesar de saber de todo esse histórico, milhões de brasileiros tinham esperança de que Jorginho lembrasse do passado distante ofensivo e esquecesse do passado recente pragmático. E mais do que isso: percebesse que Kaká não pode ser o único responsável por apresentar lances que decidam uma partida. Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Ganso eram nomes que o antigo Jorginho não deixaria de fora, ou pelo menos, lutaria por eles na lista.

Convocação anunciada, decepção no ar. Porra, Jorginho! Os três ficaram de fora. E muitos representantes do futebol-força – ou seria do futebol esforçado? – estavam na lista definitiva. Lista definitiva? Ronaldinho e Ganso estão na “lista de espera”. Vai que alguém brinca de goleiro em um treino e…

"Que tal trocar suas figurinhas do Josué e do Klebérson pela do Ganso, Dunga?"

Muitos disseram que Dunga foi incoerente ao deixá-los na segunda lista, já que nunca passou pela sua cabeça contar com os dois entre os 23 preferidos. Pensando bem, a lista de espera cheia de jogadores técnicos pode não ter sido por acaso: talvez seja influência do antigo Jorginho, querendo ser coerente com sua origem ligada ao futebol-arte.

Postado por Flávio Tamashiro

Agora é torcer

Kill Your Idols

Como Axl, Dunga também está se lixando para os ídolos.

Agora é torcer. Em todos os sentidos.

Primeiro, óbvio, porque não adianta mais tentar achar os melhores argumentos, fazer campanha, implorar. O time é esse, ponto. Só resta torcer para que ele funcione.

Segundo, porque, a despeito da cabeça dura do Dunga, das incoerências travestidas de coerência, das eventuais afrontas ao futebol contidas na lista, esse é mesmo o time para o qual eu vou torcer. Muito.

Vou ficar com raiva (já estou), vou praguejar, vou sofrer. Mas vou torcer. E comemorar muito quando, tomara, o Lúcio entrar num êxtase religioso-futebolístico e levantar a taça como se fosse o cálice sagrado, amém.

Aí vão os “comprometidos”, os “guerreiros”, os “patriotas” escolhidos por Dunga:

Goleiros: Julio César, Gomes, Doni

Laterais (e “laterais”): Maicon, Daniel Alves, Gilberto, Michel Bastos

Zagueiros: Juan, Lucio, Luisão, Thiago Silva

Meio-campistas: Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué, Kléberson, Elano, Ramires, Kaká, Julio Baptista

Atacantes: Luis Fabiano, Nilmar, Robinho, Grafite

Lista de espera (!?): Alex, Marcelo, Sandro, Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso, Carlos Eduardo e Diego Tardelli.

***

Não adiantou fazer campanha. Faltou o craque. Ganso, Neymar, Ronaldinho Gaúcho, todos ficaram de fora, deixando nos pés de trocentos volantes a responsabilidade de substituir Kaká no caso de uma (toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc) contusão.

Para mim, o absurdo mais absurdo parece ser mesmo Kléberson, reserva do Flamengo, no lugar que poderia ser de Ganso ou de Ronaldinho — que, pelo menos, estão na “lista de espera”. Vai que…

Entre outras polêmicas, estão a ausência, na lateral esquerda, de jogadores que estejam jogando … na lateral esquerda (embora Gilberto passa dar conta do recado); a ausência de Adriano (embora nunca um jogador tenha se esforçado tanto para não ser convocado…); a presença de Grafite, Michel Bastos, Doni (embora… é, sei lá).

Mas uma coisa que poucos comentaram é o desserviço prestado por Dunga ao futuro do futebol brasileiro. Sem Ganso, Neymar, Pato ou o coitado do Victor, que caiu inexplicavelmente na última hora, não teremos, nesta Copa, quase nenhum jogador que vai estar na de 2014.

Com as possíveis exceções de Ramires, Nilmar e Tiago Silva, nenhum outro jovem craque vai sentir o primeiro gostinho de um Mundial para chegar no próximo voando, como antes fizeram Ronaldo e Kaká. E Pelé, que já apareceu arrebentando.

Ao se fechar no grupo que no passado o apoiou, Dunga não pensou no futuro.

Se algo der errado na próxima Copa (toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc,), lembraremos do dia desta convocação.

Foi o dia em que a (hipotética! hipotética!) derrota em casa começou.

Postado por: Marcos Abrucio

Última chamada para o craque

Já tentei de tudo. Humildemente, abri uma campanha para o Dunga limar pelo menos um dos volantes que infestam a seleção. Armei uma seleção “B” cheia de Gansos e Neymars só para atazanar a “A”. Mostrei que Ronaldinho Gaúcho decidiu muito mais do que um jogo. Quase fui para a fogueira ao dizer que ficaria feliz com o sucesso de Messi na Copa.

Nada deu certo, o que no fundo prova apenas a minha insignificância. Mas agora lanço meu último argumento para tentar introduzir um pouco mais de talento na seleção que sempre foi a mais talentosa de todas:

Os craques nos fazem torcer.

Repetindo: ao todo, Dunga pode levar oito volantes e possíveis volantes para a Copa. Uma desproporção, ainda mais que a moda agora é levar só quatro atacantes, e não cinco, como antigamente.

A lista têm muitos carregadores e poucos afinadores de piano. Sem contar que dentre os prováveis escolhidos vários passam por má fase. São reservas em seus times, ou sofrem com contusões. A zica acomete até o nosso principal pianista, Kaká.

Com tudo isso, fica claro: vai faltar craque. O cara que muda o andamento da partida, que surpreende a todos com um drible, que usa a fantasia para decidir o jogo etc.

Muricy Ramalho, que para muitos tem “retranqueiro” escrito na testa, disse na revista da ESPN deste mês:

“Copa do Mundo se ganha com um diferente, e o nosso único diferente é o Kaká, que é o cara que pode pegar a bola no meio campo e levar dentro do gol dos caras.”

Quer ver como o diferente faz diferença? A França fazia campanha opaca na última Copa. Na primeira fase, dois empates e uma vitória magra contra o Togo. Zidane mal aparecia. Nas oitavas de final, perdia de 1 a 0 da Espanha. Aí, ôôô, Zidane voltou. Ele comandou a virada sobre os espanhóis, com direito a um golaço no final:

Zizou engrenou e, no jogo seguinte, fez aquilo que todos lembram contra o Brasil. A França ainda passou por Portugal e só perdeu a final nos pênaltis — quando Zidane não estava mais em campo.

A crença no craque, no diferente, no iluminado, no ET explica a minha campanha pelo Gaúcho, que, pelo jeito, nem ele acreditou. Explica também o clamor popular pelo Ganso e pelo Neymar.

Mas inocular gênios no nosso time não serve apenas para resolver nossos problemas técnicos. O craque pode também nos fazer empolgar de novo com a seleção.

Alguns posts abaixo, listei os motivos do divórcio entre torcida e seleção — entre eles, a falta de jogadores dos times que torcemos, a discordância entre o gosto popular e o do técnico da seleção e a diferença entre o futebol que queremos e o que vemos o Brasil apresentar.

Tantos fatores não permitem uma solução fácil. Mas colocar craques no time pode ser um ótimo paliativo para essa relação.

Veja o caso do Corinthians. A torcida é enorme,  apaixonada e sempre lotou os estádios por onde vai. Aí chegou o Ronaldo. Mais gente, pagando (muito) mais começou a seguir o time. Mulheres, crianças, gente de outros estados, de outros países começaram a ir no estádio, a procurar notícias sobre o time. O ídolo tem seu próprio público.

O primeiro gol que ele fez com a camisa alvinegra, no último minuto de um jogo contra o Palmeiras, fez muitos palmeirenses esquecerem 96 anos de rivalidade para aplaudirem:

Palmeirenses que, independentemente da fase do seu time, sempre ficam mais tranqüilos quando vêem que Marcos está no gol. A mesma coisa com são-paulinos e Rogério Ceni.

Mas os maiores exemplos atuais são o Santos da molecada e o Barcelona de Messi. Neste primeiro semestre, até fiz força, mas não deu para torcer contra a garotada praiana. Não ao ver Neymar tabelando com Robinho e fazendo golaços atrás de golaços em plena final. Não ao presenciar Ganso reinventando o jogo, dando assistências de calcanhar, dando lençóis no espaço de um lenço e exigindo ficar em campo para fazer mais.

O mesmo vale para Messi. De novo: se ele continuar jogando nesse nível na Copa, vamos ter que, simplesmente, aplaudir.

Precisamos de craques para torcer. Para nos envolver, para nos grudar na cadeira. O ídolo faz isso. Jordan, Schumacher, Tiger Woods faziam isso. Pelé, Maradona, Romário, Ronaldo, todos fizeram em algum momento o mundo inteiro sentar do mesmo lado da arquibancada.

Se não temos mais aquela paixão pela “amarelinha” (você sim, Zagallo), ainda temos pelo ídolo. Na década de 80, tínhamos Zico, Sócrates, Falcão, Careca… Em 94, Romário. Em 98, Ronaldo. Em 2002, os 3 Rs: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Em 2006, tínhamos o quarteto mágico, que… é, mau exemplo. Nem sempre só o craque é suficiente. Mas dessa vez temos um time. A seleção de Dunga, fale o que quiser, é um time. Unido, sério, compenetrado, vencedor. Só falta o talento do craque.

O brilho de Kaká (ofuscado pela pubalgia), o de Robinho e o de Luis Fabiano (que de vez em quando piscam) podem não ser o bastante.

Ainda dá tempo de contar com o talento de Ganso. Apertando um pouquinho, dá para o Gaúcho e para o Neymar. Dava até para o Ronaldo — se a Copa fosse no ano passado…

Ainda dá tempo para chamar o craque, Dunga.

E com isso, aqui se encerram as minhas súplicas. Agora é esperar. Até amanhã, às 13h, horário de Brasília.

Postado por: Marcos Abrucio

O Brasil B

O Brasil se dividiu. Uma violenta contenda entre os defensores da Ivete Sangalo e os da Claudia Leitte transformou-se em guerra civil. O resultado da cizânia foi uma irreversível divisão. Metade da população ficou de um lado, metade do outro.

 Surgiu o Brasil B.

 Com bandeira, hino e presidente próprios. E uma seleção própria, também.

Fla x Flu

Graças à tradição do Brasil (doravante chamado de Brasil A), a seleção do Brasil B foi convidada a participar da Copa da África do Sul. No lugar de quem? Ora, da França, que como tinha se classificado roubado nem reclamou.

Os jogadores já convocados para o Brasil A não puderam ser  chamados. O treinador do Brasil B, Mano Menezes, teve que contar com aqueles que estavam fora da lista de Dunga.

O elenco (anunciado ao vivo pela Rede Globo B) ficou assim:

Goleiros:

Marcos (Palmeiras)
Diego Alves (Almeria – ESP)
Hélton (Porto – POR)

Laterais:

Rafinha (Schalke-04 – ALE)
Jonathan (Cruzeiro)
Marcelo (Real Madri – ESP)
Fabio Aurélio (Liverpool – ING)

Zagueiros:

Miranda (São Paulo)
Alex (Chelsea – ING)
Naldo (Werder Bremen)
André Dias (Lazio – ITA)

Volantes:

Hernanes (São Paulo)
Denílson (Arsenal – ING)
Lucas (Liverpool – ING)
Sandro (Internacional)

Meias:

Ronaldinho Gaúcho (Milan – ITA)
Alex (Fenerbahce – TUR)
Paulo Henrique Ganso (Santos)
Diego Souza (Palmeiras)

Atacantes:

Alexandre Pato (Milan – ITA)
Ronaldo (Corinthians)
Neymar (Santos)
Fred (Fluminense)

Pra frente, Brasil B!

A Copa chegou e o Brasil B foi passando pelos adversários com autoridade, apesar da defesa claudicante — Mano tentou naturalizar o Daniel Alves e o Maicon (“Um dos dois, pô!”), sem sucesso.

A falta de entrosamento do time foi superada pelo grande talento individual dos convocados. Motivado a arrebentar em sua 5a. Copa (jogando por dois países diferentes, Brasil A e Brasil B), Ronaldo adotou o corte Cascão de 2002 e chegou ao seu 20o. gol em Mundiais.

Nas semifinais, a seleção B derrotou a Argentina de Messi com um gol de mão de Pato e outro em que Ronaldinho Gaúcho saiu driblando desde o campo de defesa. Até Maradona aplaudiu.

"Que Diós te abençoe."

A grande final pôs frente à frente os Brasis, A e B.

Dunga teve os desfalques de Kaká, que sofreu a Copa toda com sua pubalgia, e Felipe Melo, expulso na semifinal contra a Espanha. Assim, a seleção A entrou em campo com Júlio Cesar, Maicon, Lúcio, Juan e Michel Bastos; Gilberto Silva, Josué, Elano e Ramires; Robinho e Luis Fabiano.

Mano escalou seu time titular (no esquema 4-3-3 do Corinthians de 2009) com: Marcos, Rafinha, Miranda, Alex e Marcelo; Denílson, Hernanes e Ronaldinho Gaúcho; Neymar, Pato e Ronaldo. Lucas, Alex e Diego Souza eram as opções para deixar o time mais fechado, mais cadenciado, ou com apenas dois atacantes.

E aí, quem levava essa?

***

Como se vê, fazer uma seleção imbatível para 2010 não é tão difícil assim, vai.

Basta somar A com B.

Postado por Marcos Abrucio

Por um volante a menos

No Mundial 2010 de Fórmula 1, estarão nas pistas Felipe Massa, Rubens Barrichello, Lucas Di Grassi e Bruno Senna — se a equipe dele realmente existir. Ao todo, serão 3 ou 4 volantes brasileiros.

Já no Mundial 2010 de Futebol, esse número sobe para 8.

É esse o tanto de volantes, ex-volantes e possíveis volantes que Dunga chamou para o amistoso contra a Irlanda. Contem comigo: os “oficiais” Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué e Kleberson. Adicione quem já jogou por ali (e pode jogar de novo sem problema nenhum): Daniel Alves, Elano, Ramires e Julio Batista. Oito.

Como este é o último jogo antes da convocação para a Copa, podemos concluir que essa turma toda já botou um pezinho na África do Sul. E que Ronaldinho Gaúcho, como não foi convocado, deve pensar seriamente em comprar uma TV maior para ver o Mundial em casa.

Calma. Não vamos discutir nomes (senão o Josué nem pegava o passaporte), mas sim o número de volantes.

Com ele, são 9.

Há no grupo de Dunga uma desproporção entre quem é esforçado e quem pode decidir um jogo. São muitos os raçudos, e que bom que eles estão lá. Mas a Alemanha, a Inglaterra, a Itália e a Espanha também os têm aos montes.

Quem sempre fez diferença a nosso favor foi o jogador habilidoso, criativo, imprevisível, capaz de quebrar o esquema adversário com um drible, um lançamento, um corta-luz. Na seleção atual, poucos têm essas credenciais: Kaká (se a pubalgia deixar), Robinho e, vá lá, Luis Fabiano.

Enquanto isso, Ronaldinho Gaúcho voltou a jogar bem pelo Milan. Com alguma irregularidade, mas voltou. Parece mais maduro que na Alemanha e com vontade de voltar à forma de 2004/2005, quando foi o melhor do mundo. Ele não precisa (ainda) ser titular da seleção. Mas precisa estar no avião para a Copa.

Porque craque tem que ir. Dá-se um jeito. Se o treinador Dunga der esse jeito, pode entrar para a história. Onde já está o jogador (volante!) Dunga.

***

Sempre gostei do Dunga dentro de campo. Primeiro, claro, porque ele jogou no Corinthians. Jogou pouco, mas bem. Em um jogo contra o Santos, fez um golaço quase do meio de campo (Juro que isso aconteceu, embora não tenha achado no You Tube. Ou será que o que não está no You Tube não aconteceu?).

Você já se vestiu melhor, Dunga.

Quando criança, achava legal o estilo dele. Era sério e incansável na marcação e, de vez em quando, soltava uns tirambaços de fora da área. No meu quintal, quando mandava umas bicas que faziam voar o chinelo, sempre gritava o nome dele. Por tudo isso, achei injusta a sua crucificação solitária em 1990. Era um time cheio de defeitos e a franjinha do cabeça-de-área, só mais um deles.

Em 1994, o cara fez uma Copa brilhante. Ajudou a proteger a melhor defesa brasileira que eu tinha visto até então. Mais do que isso: liderou a equipe e acertou inúmeros lançamentos longos para os atacantes. Além de converter seu pênalti na final, claro.

Com a inevitável decadência física, em 98 sua liderança já era mais anedótica do que efetiva. Mas ao contrário de outros, caiu em pé. Foi um grande jogador.

***

Nunca gostei do Dunga à beira de campo. Não era o melhor nome para o cargo, insistiu em nomes duvidosos (Afonso? Doni?), foi mal-humorado e rancoroso demais com quem o criticou, muitas vezes lento nas ações e pouco criativo nas substituições. E, como 11 entre 10 técnicos da seleção, teimoso pra dedéu.

Mas é um vencedor. Não se pode negar isso. Levou uma Copa América e uma Copa das Confederações, liderou as eliminatórias e chacoalhou a Argentina algumas vezes. Mais importante: com alguns solavancos, montou uma base.

Por respeito aos resultados de Dunga como técnico, aqui não se discute tanto a convocação que ele fez. Um ou outro jogador, apenas. E principalmente: a opção por levar uma manada de volantes e quase nenhum fora-de-série.

***

O bom trabalho de Dunga até agora o fez convicto de suas decisões. Só que a coerência e a fidelidade a seu grupo podem fazê-lo cometer o único crime que os brasileiros não perdoam numa Copa: dispensar o talento.

Pensa: e se o púbis do Kaká não trabalhar direito e, sei lá, o púbis do Robinho trabalhar demais e por conta disso os dois não brilharem na África? Aí dependeremos apenas da garra. Porque a habilidade vai estar em falta.

#tiraumvolante, Dunga. E leva o Gaúcho.

***

Ok, agora vamos falar de nomes. Com um volante a menos, abre-se espaço para Ronaldinho Gaúcho. O que torna inútil a presença de Júlio Batista, jogador voluntarioso e aguerrido, mas em má fase na Roma.

Sem ele, sobraria mais um lugar na seleção. Lugar pra quem? Responde para eles, Zina.

Porque craque tem que ir.

Postado por: Marcos Abrucio