80 pesos

Era o preço do ingresso da arquibancada na semifinal da Copa de 1970, no México (se quiser, hoje você compra o mesmo bilhete no eBay por 35 libras, ou 105 reais, ou ainda 738 pesos mexicanos. Mas corre).

Na minha mão é mais barato.

E se quando um jogo é bom dizem que ele “valeu o ingresso”, nunca um dinheiro foi tão bem gasto num campo de futebol quanto esses pesitos. Quem esteve no estádio Azteca na tarde daquele 17 de junho assistiu ao maior jogo da história das Copas:

A Itália de Albertosi, Riva e Rivera contra a Alemanha de Maier, Beckenbauer e Müller.

Não sou só eu que está falando. Em rankings de jornais, revistas e sites especializados, essa partida está sempre no topo. Livros, filmes, peças e especiais de TV já homenagearam o chamado Jogo do Século.

Jogo que começou três dias antes, quando a Alemanha fez das tripas coração para ganhar de virada da Inglaterra nas quartas de final. Os ingleses abriram 2 a 0, mas Franz Beckenbauer e Uwe Seeler empataram e levaram o jogo para a prorrogação. Aos 3 minutos da segunda etapa do tempo extra, Gerd Müller definiu: 3 a 2. Enquanto isso, a Itália passava fácil pelo México: 4 a 1.

A Itália entrou na semifinal mais descansada e abriu a contagem logo aos 8 minutos, com um tirambaço de Roberto Bonisegna. Mais uma vez, os tedescos teriam que inverter o placar. E foram para cima.

Com Müller se multiplicando em campo, os alemães espremiam sem dó os azuis. Mas a Itália tranquilamente fazia o que mais gosta: defendia e contra-atacava.

Valia tudo. Né, Gil?

Aos 22 minutos do segundo tempo, começa um drama que só poderia mesmo se passar no México. Beckenbauer invade a área e é derrubado. O juiz peruano marca a infração fora da área, para a cólera dos alemães (Já viu um alemão bravo? Pois é, coitado do peruano).

O pior de tudo é que o líbero continuava no chão. Na queda, ele teve seu ombro deslocado (ou quebrado, luxado, escangalhado, dependendo da fonte). Não dava para continuar.

Só que o técnico alemão já havia feito todas as substituições. O Kaiser continuou. E começou a escrever sua biografia de herói ao não só permanecer em campo mas como ao partir para o ataque toda vez que pegava na bola!

Substituição: sai Beckenbauer, entra o Kaiser.

Aos 44 minutos do segundo tempo, acaba o jogo. E começa o jogaço: bola cruzada na área, Karl-Heinz Schnelinger (que jogava no Milan) se estica e, a la Viola, consegue o empate. 1 a 1. Em seguida, as cortinas do tempo normal se fecham.

E reabrem para a prorrogação mais maluca das Copas, com 5 gols e nenhuma certeza de quem iria ganhar até o apito final.

Retroceder nunca, render-se jamais.

Beckenbauer volta ao jogo com uma tipóia. Já no comecinho do primeiro tempo, Müller vira o jogo: 2 a 1 numa pixotada que você não imaginaria que um zagueiro italiano seria capaz de cometer. 100 mil pessoas não acreditavam no que viam. Os 11 jogadores italianos também não. E aí, fazer o quê?, resolveram ir para a frente.

Aos 9 minutos, Gianni Rivera empata depois da defesa alemã rebater mal. E, um minuto antes do juiz mandar os times trocarem de lado, Luigi Riva domina, dá um corte seco no zagueiro e manda no cantinho. Golaço. A Itália (re)virava o jogo: 3 a 2.

Segundo tempo da prorrogação. Aos 5 minutos, Müller, de cabeça, empata de novo: 3 a 3. Todos no time de branco erguem as mãos para o céu (menos Beckenbauer, claro). A alegria dura 60 segundos. No 111o. minuto de jogo, Rivera, sozinho na área, marca o último gol do jogo: 4 a 3 Itália.

Quem riu por último.

Depois de duas horas escaldantes não só pelo sol mexicano, os 22 jogadores se arrastam até o juiz decretar o fim do espetáculo. Os 80 pesos estavam pagos.

Sete gols de placa.

A Copa de 70 foi mesmo a Copa dos superlativos. O México viu o mais brilhante dos times, os mais incríveis gols perdidos, a maior defesa já feita e até o desarme mais perfeito. E também foi o palco da mais épica das batalhas.

Uma batalha tão sobrenatural que fez até o mais descrente dos tifosi acreditar que, se foi possível derrubar aquele incansável exército alemão, então também daria para ganhar do Brasil.

Aí também não, dom.

Postado por: Marcos Abrucio.

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6 Respostas para “80 pesos

  1. Po, estou escrevendo sobre esse jogo para o lendas da Copa. É o “maior jogo da história das copas”

  2. caraca, esse texto arrepiou até os pêlos mais escondidos!

    “Aí também não, dom.” – Porque com o Riva no time, ali era Curinthia, caralho!

    boa, Abrubas! manda o próximo.

  3. Ricardo Salgado

    FU-DI-DO!

  4. Tem que assistir o vídeo depois de ler o texto. Eu conhecia os lances mas não conhecia a história, fica sensacional!

  5. Pingback: A Alemanha passa por cima « Copawriters

  6. Pingback: ¡Las Diez Más! « Copawriters

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