Arquivo da tag: Brasil

O Copawriters errou. (Mas o Brasil, muito mais.)

Postado por: Marcos Abrucio

Pois é.

Havia um erro elementar no meu último post. Eu dizia que, sem Neymar, a seleção não tinha mais a obrigação de ser campeã. Sem essa pressão, poderia a) se acomodar e aceitar a provável derrota para a Alemanha; ou b) se encher de brios e, mesmo sem seu craque, jogar de forma inteligente e ambiciosa pra tentar ganhar dos caras.

Mas, como até os marcianos agora sabem, existia uma outra alternativa: levar a maior piaba da nossa história.

Cadê a bola?

Cadê a bola?

***

(Melhores partes daquele texto: “…não havia mais o risco de um vexame catastrófico, um novo Maracanazo “; “Vergonha nenhuma cair agora [contra a Alemanha]”.

Sabe de nada, inocente.)

***

Se não dava para prever esse atropelamento, mesmo agora ainda é difícil entender o que aconteceu.

Porque 7×1 não existe. Nem no primário, nem na quadra do condomínio. Nem jogando contra o time do seu irmão mais velho. Nem com três jogadores a menos. Também não existe levar quatro gols em seis minutos. Nem no pebolim você consegue tal proeza.

Mesmo no estádio, eu também achei.

Mesmo no estádio, eu também achei.

Mas existem, sim, explicações. E responsáveis:

1) Os jogadores, claro. Foi certamente o pior desempenho da vida de todos – menos de Fred, que foi igualmente péssimo em todos os jogos. Mas mais grave foi a falta de maturidade e controle emocional naqueles malditos 360 segundos. Ninguém conseguiu botar a bola no chão, ou chutá-la para o mato, ou simular um enfarto, enfim, fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Ao contrário do Fred, a zoeira não para.

Ao contrário do Fred, a zoeira não para.

Porém, culpar o “apagão” é simplificar demais. Pior, é esconder o principal: esse time foi mal montado, mal treinado, mal preparado. Mal era um time. E aí chegamos ao maior dos responsáveis, pelo menos pelo que aconteceu na terça:

2) Luiz Felipe Scolari. Dói apontar o dedo para ele. Sem Felipão, o penta não teria vindo. Mas se em 2002 ele foi perfeito, agora foi desastroso. Teimoso, apegou-se ao time do ano passado como quem se apega a uma cueca da sorte. Tudo bem, a lista de convocados não seria muito diferente dessa, mas faltou treinar alternativas de jogo. Fred claramente não estava funcionando, e nunca foi treinada uma opção sem ele. Nosso meio de campo nunca existiu.

Contra a Alemanha, Felipão se superou. O mundo inteiro conhece, pelo menos desde 2006, a força e o brilho do meio-campo alemão. Os olheiros da seleção, Gallo e Roque Jr., recomendaram povoar aquela área (bom, até o meu post recomendava isso!). Sugeriram escalar Paulinho e William. Mas o técnico bancou Bernard, aberto e solitário na ponta. No meio, um deserto.

Oscar sozinho no meio.

Oscar sozinho no meio.

No dia seguinte, Felipão e Parreira afirmaram que não haviam feito nada de errado. Além de incompetentes, arrogantes.

Mas é ilusão achar que nossos problemas acabam aí. Nunca, jamais, podemos esquecer da…

3) Multimilionária CBF, responsável direta pelo paupérrimo futebol praticado por aqui. Quem acompanha o Brasileirão sabe do que estou falando:

Nossos times estão falidos; os jogos, feios, faltosos e modorrentos; a média de público é pífia; o calendário é burro; os técnicos são defasados e prepotentes (mas também milionários); as categorias de base já não revelam mais ninguém.

Nosso “futebol bonito” agora é um jogo defensivo e covarde. Os craques do meio-de-campo deram lugar a zagueiros gigantes, que fazem gols nas bolas paradas e depois fecham o time para garantir o 1×0.

A raiz disso tudo? Nossa maior paixão é administrada por dinossauros arrogantes, despreparados e/ou corruptos.

Tiranossaurus Marinus

Tiranossaurus Marinus.

Mas se está tudo errado, por que não tínhamos passado por essa vergonha interplanetária antes? Primeiro, porque trata-se de futebol, esporte que nem sempre respeita a meritocracia (olha a Argentina, de administração tão arcaica e corrupta quanto a nossa, na final da Copa); segundo, porque nossos craques sempre livraram a cara da seleção.

Só que eles foram rareando, rareando, até sobrar apenas um – e desde a joelhada do Zuñiga na sexta passada, nenhum. Sem nenhum fora-de-série, nós (e o mundo) demos de cara com o real estado de coisas do nosso futebol.

***

Tudo isso, somado, não explica o 7×1. Sim, foi um resultado atípico. Mas não à toa. Só pra comparar:

Desde 2000, a Alemanha reformulou todo o seu futebol, desde as divisões de base de cada clube. Foram anos estimulando a formação de novos jogadores e técnicos. O físico deixou de ser o mais importante no futebol alemão: desde pequenos, os atletas treinam a parte técnica e tática. Em 2006, começa a aparecer uma nova geração de craques habilidosíssimos, fruto dessa política. A comissão técnica da seleção foi mantida e o time foi ficando mais forte. Chegando ao Brasil, construíram um centro de treinamento na Bahia. Testaram diferentes formações, crescendo ao longo da Copa. Para a semifinal, eles estudaram nossa seleção e montaram ensaiaram jogadas como a do primeiro gol.

E o Brasil, o que fez? Chamou o Vampeta e o Edilson para puxarem o pagode no busão.

Depois eu que não sei de nada.

***

O Mineirão antes do caos.

O Mineirão antes do caos.

Foi duro ver de perto Brasil x Alemanha (ou Alemanha x catado dos moleques do meu bairro, não sei ainda). Ainda mais NO MEIO da torcida alemã!

A Alemanha às minhas costas.

A Alemanha às minhas costas.

Mas o sentimento não é de tristeza, como em 50 ou em 82. No Maracanazo, o país era muito diferente, e a virada no finalzinho foi sofrida e inesperada. No Sarriá, choramos a derrota de uma geração admirável, que jogava como sempre sonhamos.

Não é o caso agora.

O que vai doer mesmo é associar uma Copa que foi tão legal, a esse jogo.

A Copa das Copas, dos memes, da zoeira, das zebras, das prorrogações emocionantes, do times ofensivos, da maior média de gols em décadas, das invasões de torcedores do mundo todo, dos latinos acampando na nossa porta, a Copa mais divertida de todas, a que eu assisti em casa, seja no sofá ou no estádio aqui do lado, não merecia isso.

Vou sempre lembrar dessa Copa com alegria. E para manter viva essa sensação, é só dar play aqui embaixo:

OOOOEEEEEEAAAAAAAAA!

Anúncios

Uma desculpa para perder ou uma força para ganhar?

Postado por: Marcos Abrucio

Qual a alternativa?

Qual a alternativa?

Leia (ou releia, vai) este texto amanhã, lá pelas sete e pouco da noite. Logo depois de Brasil x Alemanha. Pegue então uma caneta e assinale a alternativa que mais se aproxima do que aconteceu nesse jogo.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. A seleção já não tinha mais a obrigação de ser campeã mundial. Sem nenhum fora-de-série, sem nenhum gênio, sem nenhum extraterrestre, o favorito virou azarão. Também não havia mais o risco de um vexame catastrófico, um novo Maracanazo. Evidente que os jogadores tiveram esse medo contra o Chile. Não dava para cair numa oitavas-de-final, em casa, contra o eterno freguês. Ninguém queria ser o responsável por essa mancha no nosso currículo. Daí tanto choro, tanta tremedeira, ai, meu estômago ainda dói. Também não podíamos perder para a Colômbia, com todo respeito à seleção que melhor havia jogado até então. Mas beleza, passamos por um e por outro. Agora era semifinal, amigo, só cachorro grande. E contra a Alemanha, o rottweiler das Copas. Mais: uma Alemanha renovada, que une a eterna eficiência alemã ao toque de bola (quem diria!) de caras como Müller, Schweinsteiger, Lahm e Kroos. Vergonha nenhuma cair agora. Isso tirou o peso das pernas dos nossos jogadores – mas também o sangue dos olhos deles. Quando o jogo começou, o Brasil aceitou facilmente o favoritismo alemão. Preocupado demais em cercar os craques tedescos, abriu mão de jogar o seu jogo. E aí não teve jeito: uma hora o talento e o entrosamento dos loirões fez a diferença, vazando o Júlio César sem dó. Claro, nosso extraterrestre fez muita falta. Mas o resto do time aceitou fácil demais a derrota. Talvez achassem que já tinham ido longe demais. Afinal, tinham desculpas demais para entregar os pontos. No fim, a torcida aplaudiu tristemente o esforçado time de operários. Saímos derrotados – na verdade, entramos derrotados.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. No lugar dela, uma motivação ainda maior. Um time que nessa Copa já tinha se mostrado de mais empenho do que de futebol bonito (quem diria!) entrou em campo ainda mais ligado. Era preciso correr não só por Neymar, mas também pelo capitão Thiago Silva. Mas a seleção chegou ao Mineirão sabendo que não adiantava só entrar com a raça redobrada: tínhamos que jogar bola. E os brasileiros jogaram. Primeiro, marcaram os craques do outro time como se deve: grudadinhos no cangote deles. Depois, botaram os nervos no lugar e a bola no chão. Foi como se lembrássemos que, mesmo sem Neymar, temos um ótimo time, com jogadores habilidosos, que jogam nos maiores clubes do mundo. Um time muito melhor, por exemplo, que Gana e Argélia, que empataram com a Alemanha nessa Copa. Claro, o jogo foi duro, duríssimo. Neymar fez muita falta (em que time ele não faria?), mas o meio-campo, antes um Atacama, foi finalmente povoado. Com as ações equilibradas ali na meiúca, foi a vez da seleção alemã lembrar do trauma que eles têm de jogar contra o Brasil. O jogo deles não encaixa com o nosso, como o nosso não encaixa direito com o do México. E descobrimos, olha só, que a geração dourada alemã também tem seus cabeças-de-bagre. Foi em cima de Höwedes que saíram nossas principais jogadas – e o gol da nossa vitória. Os operários brasileiros também foram solistas e, empurrados pela torcida, pela gana de honrar nosso craque e pelo seu próprio talento, derrotaram a temida seleção alemã e conseguiram seu lugar na final da Copa do Mundo.

***

Amanhã estarei no Mineirão para ver de perto qual alternativa o Brasil vai escolher. E também para ajudar a botar o xizinho no lugar certo.

Minha aposta? Essa aqui:

“Vou torcer para o Brasil perder na semifinal!”

Postado por: Flávio Tamashiro

A frase acima foi dita em alto e bom som por uma torcedora brasileira a seu acompanhante na saída do Estádio Mané Garrincha após o jogo Brasil x Camarões. Tudo porque ela lembrou que só tinha ingressos para mais um jogo: a disputa do 3º lugar em Brasília. E antes mesmo da reação de indignação que tomaria seu acompanhante e os torcedores à sua volta, ela completou a pérola: “É, porque se for minha única chance de ver o Brasil jogar na Copa de novo, prefiro que a seleção dispute o 3º lugar!”

"Perder na semi? Tem dó!"

“Perder na semi? Tem dó!”

A reação dos torcedores foi de censura ainda que silenciosa: olhares de reprovação, risinhos de ironia, gente balançando negativamente a cabeça. Alguém comentou baixinho o quão egoísta era aquele pensamento. Muita gente concordou. “Como alguém pode pensar somente em si mesmo? E em plena Copa do Mundo!”, diria um amigo.

Mas pera aí? Pensar em si mesmos não é o que 99% dos torcedores fazem? E não vale falar da famosa torcida por solidariedade – “Ah, vou torcer pela França também porque meu avô é francês.”

"Eu sou mais eu!"

“Eu sou mais eu!”

Que eu saiba ninguém torce pelo Brasil pensando na felicidade do irmão, do amigo, do vizinho, do avô. Você pode até ter começado a torcer por influência de algum deles, é verdade. Mas com certeza hoje a pessoa que você mais quer ver feliz depois do jogo é você mesmo. E pode apostar que não é um fenômeno brasileiro: deve acontecer a mesma coisa com torcedores na Argentina, na Alemanha e… na Colômbia.

"Pelo amor dos meus filhinhos! Muda o time, Felipão!"

“Pelo amor dos meus filhinhos! Muda o time, Felipão!”

* * *

Nesta Copa, acompanhei dois amigos colombianos nas partidas da seleção deles em Brasília e Cuiabá. A torcida de nossos vizinhos é animada, festeira e fanática por futebol como nós. Na verdade, posso dizer que são mais animados do que nós no que diz respeito a torcer por sua seleção. Meu amigo Juan diz que os 16 anos dos “Cafeteros” longe das Copas é um dos motivos da invasão colombiana no Brasil em 2014.

Sou o colombiano da direita.

Sou o colombiano da direita.

A festa da torcida brasileira no confronto contra Camarões não chegou perto da algazarra provocada pelos colombianos nas partidas contra Costa do Marfim e Japão. Parabéns para eles. O futebol deles também enche mais os olhos do que o da nossa seleção. Ponto para eles novamente.

Febre Amarela nas arenas brasileiras

Febre Amarela nas arenas brasileiras

A vibração deles nas arquibancadas é contagiante. Não é à toa que se sentiram em casa em todas as partidas até agora. Eu mesmo me peguei vibrando com os gols de James e Quintero. Mas hoje a história muda de figura. O jogo é Brasil x Colômbia. Desculpem-me o egoísmo, amigos Juan e Andrés. Sei que sentirei falta da festa colombiana, mas após a partida eu espero poder comemorar mais do que vocês.

Vai, Brasil! P*rra!

Vai, Brasil! P*rra!

Chutou, é fogo, é gol II – A pintura e a poesia

Postado por: Marcos Abrucio

Rio de Janeiro, 16 de julho de 1950. Depois do apito final, só se ouviu o silêncio.

200 mil brasileiros estavam em choque. E não muitos uruguaios estavam lá para comemorar: sem esperança do título, os dirigentes da celeste voltaram para casa antes do jogo. “Só ficaram o técnico, o preparador físico e três massagistas”, lembra Ghiggia, aquele que martelou o último prego no nosso caixão.

Depois daquele velório, o Brasil foi cinco vezes campeão do mundo, enquanto o futebol uruguaio mergulhou em uma longa decadência. Até hoje, procuram substitutos para Ghiggia, Varela, Máspoli…

Os heróis de 50. Ou vilões, né.

Os heróis de 50. Ou vilões, né.

Até os 15 anos, Victor Hugo Morales acreditava que poderia ser um desses caras. Treinava todos os dias para ser o próximo uruguaio a levantar a Copa. Mas então teve a revelação: era ruim demais para isso. Decidiu se tornar jornalista – esportivo, é claro.

Ele nunca imaginaria que essa decisão o faria participar de um dos maiores momentos da história das Copas. E que, nesse momento, ele não vestiria as cores do Uruguai, mas da rival da outra margem do Rio da Prata: a Argentina.

***

Colônia do Sacramento, 20 de abril de 1964. Com apenas 16 anos, Victor Hugo vai pedir emprego na Radio Colônia. Dois anos depois, já era, segundo ele, o locutor mais jovem das Américas.

Logo foi para Montevidéu, onde acumulou os cargos de narrador e diretor de esportes da Radio Oriental. No fim da década 70, sua oposição à ditadura uruguaia começou a lhe causar problemas. Pressionado pelos militares, mudou-se para a Argentina em 1981. Nunca mais voltou.

Na Copa de 1982, narrou para a TV argentina aquele Itália 3 x 2 Brasil, ugh. O jogo acabou e Victor Hugo olhou para a arquibancadas, onde os torcedores antes batucavam sem parar. Viu os brasileiros mais uma vez calados.

Foi uma das poucas vezes na carreira em que se sentiu completamente vulnerável. Começou a chorar imediatamente:

“Me partió el corazón el silencio de los espectadores brasileños. No entendían nada en la tribuna del estadio.”

20032013_Rossi

Nossa segunda morte.

Quatro anos depois, sua emoção seria ainda mais forte.

***

Cidade do México, 22 de junho de 1986. O locutor uruguaio-argentino estava tenso. Primeiro, porque tinha parado de fumar e sentia uma fome incontrolável. Estava 14 quilos mais gordo.

Mas o motivo principal era o jogo à sua frente: Argentina x Inglaterra, valendo uma vaga nas semifinais da Copa do México. Mentira: a partida valia muito mais do que isso.

(Um ótimo relato dela está aqui.)

Dentro de campo, argentinos e ingleses se estranhavam desde 1966, quando o pau quebrou em plena Copa do Mundo. Depois de pontapés e xingamentos dos dois lados, o argentino Rattín acabou expulso. Na saída, torceu a bandeira do Reino Unido pendurada no escanteio e se sentou no tapete da rainha. Os ingleses se saíram vencedores e passaram a chamar carinhosamente os rivais de “animais”.

Fora de campo, a encrenca foi mais séria. Em 1982, tropas argentinas tentaram recuperar o controle das Ilhas Malvinas, em uma manobra populista dos militares que governavam o país. No começo, a manobra deu certo, despertando o sentimento patriótico nos hermanos. Mas logo o poderio bélico inglês se impôs, e as Ilhas voltaram a se chamar Falklands, ao custo de quase mil mortos, em sua maioria argentinos.

De volta ao jogo, agora em definitivo. Victor Hugo começa a narrar. Primeiro tempo morno, 0 x 0. No segundo, ele vê Diego Armando Maradona reescrever a história, ops, História.

Aos 6 minutos, El Pibe vence uma disputa aérea com Peter Shilton e abre o placar. O estádio inteiro viu que foi com a mão. Bilhões de pessoas ao redor do mundo viram que foi com a mão. O juiz não. Tão incrível quanto isso é um cara de 1,65 cm conseguir subir mais que um goleiro um palmo mais alto do que ele…

Sai que é sua, Shilton!

Sai que é sua, Shilton!

Uma animosidade de 20 anos atravessada na garganta, uma guerra fresca na memória, um gol de mão recém-convertido. Tudo isso borbulhava na cabeça de todos.

Aí Maradona, em um equivalente futebolístico de um solo perfeito de guitarra, pegou a bola em seu campo, driblou meio time da Inglaterra e tocou para dentro. Ele não apenas fez o maior gol das Copas, mas redefiniu o conceito de golaço. O ritmo crescente dos dribles, a velocidade da corrida e a epifania final são até hoje o padrão com o qual qualquer gol de placa é comparado.

Mas Maradona não fez aquela obra-prima sozinho: Victor Hugo Morales ajudou a deixar aquele gol ainda mais bonito.

Sua narração daqueles segundos se tornou histórica – ironicamente, por narrar quase nada do lance. Ele simplesmente para de relatar o que estava acontecendo para se deixar levar por uma corrente de sentimentos. Grita, chora, faz de improviso uma poesia que resume perfeitamente um momento histórico complexo – e que emociona até hoje.

A maior narração de todos os tempos. Olho no lance:

– Ahí la tiene Maradona, lo marcan dos, pisa la pelota Maradona. Arranca por la derecha el genio del fútbol mundial. Puede tocar para Burruchaga… Siempre Maradona. Genio, genio, genio! Ta, ta, ta, ta, ta … Gooooooool gooooooool! Quiero llorar! Dios santo, viva el fútbol, golaaaazo! Diegoooool! Maradona! Es para llorar, perdónenme, Maradona en recorrida memorable, en la jugada de todos los tiempos, barrilete cósmico, de qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés, para que el país sea un puño apretado gritando por Argentina? Argentina 2 – Inglaterra 0. Diegol, Diegol!, Diego Armando Maradona. Gracias, Dios. Por el fútbol, por Maradona, por estas lágrimas, por este Argentina 2 – Inglaterra 0. 

***

Victor depois diria que era um dos poucos jornalistas que acreditava naquela seleção desde o começo. A explosão na hora do gol seria em parte causada pelo “prazer que dá ter razão”. Mas não foi só isso: ele percebeu na hora que algo gigantesco estava acontecendo – por isso cravou ao microfone: “a jogada de todos os tempos”.

Sem contar, claro, a mais linda das metáforas, ao chamar Maradona de “pipa cósmica” (!). Pipa por ter movimentos imprevisíveis, cósmico para dar ideia do tamanho daquela realização.

A poesia e a pintura.

A poesia e a pintura.

Em entrevista ao jornal “As”, Victor Hugo Morales admitiu ter passado anos sem assistir ao lance. O motivo?

“Era como se tivessem me filmado correndo bêbado e pelado pela rua. (A narração daquele gol) É um striptease espiritual.”

Depois mudou de ideia e fez a pazes com a narração: “quem sou eu para ficar alheio a algo que tanto me deu?”

Gracias.

Victor Hugo Morales.

Victor Hugo Morales.

***

Veja também: Chutou, é fogo, é gol I.

44 anos depois, uma tarde no Azteca

Postado por: Henrique Rojas

41 minutos do segundo tempo. Tostão rouba uma bola na esquerda e recua para Piazza. Piazza toca para Clodoaldo que, cercado, toca para Pelé. Pelé para Gérson, Gérson para Clodoaldo, que deixa quatro zagueiros pra trás e passa para Rivellino. De Riva para Jairzinho, deste novamente para Pelé e, em uma rolada de bola açucarada, Carlos Alberto manda um foguete no canto do goleiro Albertosi.

Deste gol todo mundo se lembra. Do resultado, então, ninguém vai conseguir se esquecer nunca: Brasil, primeiro tricampeão do mundo, 4, Itália, “só” bi, 1. Mas uma da slembranças mais incríveis diz respeito ao palco deste jogo, o Estádio Azteca.

Inaugurado em 1966 para abrigar jogos das Olimpíadas de 1968, o Azteca se consolidou mesmo em Copas do Mundo. Sediou as finais dos mundiais de 70 e 86 (quando a Colômbia teve que desistir de sediá-lo) e, desde então, o gigante com 105 mil lugares se tornou um ícone do esporte.

Eu, do alto dos meus 28 anos, não pude ver nenhum destes jogos nem in loco nem ao vivo pela TV. Mas, felizmente, 44 anos depois do gol que encantou o mundo, posso dizer que pisei no solo sagrado do Coloso de Santa Úrsula.

Eu, o Azteca e minha Corona

Eu, o Azteca e minha Corona

Foi no sábado passado, clássico local entre América e Pumas. O resultado final foi 3×1 para os visitantes universtarios, mas, sendo sincero, o placar importa pouco – ou quase nada – para quem foi lá pelo espetáculo.

A verdade é que o Estádio Azteca tem alma. E você a sente a quilômetros de distância, quando avista aquele gigante no horizonte, e se depara com os milhares de torcedores que cantam em direção a ele. Quando pisa lá dentro, então, é de arrepiar até os poucos fios de cabelo do Canhotinha de Ouro.

Festa dos 25 mil visitantes

Festa dos 25 mil visitantes

As rampas de acesso aos lugares chegam a três andares seguidos e suas cadeiras são bem mais apertadas do que manda o “Padrão Fifa”. As torcidas organizadas ficam separadas em cantos opostos, mas, no geral, todos assistem aos jogos misturados. A  lá Estados Unidos, a cerveja é liberada somente meia hora antes do jogo e existem brincadeiras tanto dentro de campo quanto nos telões – exatamente como na NBA.

Mas, como um todo, a atmosfera e o clima são latinos. E embora bastante reformado e modernizado em relação a sua estreia na década de 60, adentrar o Azteca é como se automaticamente aquele monte de cimento te contasse tantos anos de história em alto e bom som.

Mesmo que seja só por 90 minutos. Mesmo em um jogo pelo Campeonato Mexicano. Imagina na Copa!

O gigante 2h antes da partida

O gigante 2h antes da partida

E se a Copa fosse no Brasil?

Postado por: Marcos Abrucio

A final vai ser aqui. Bem, mais ou menos aqui.

A final vai ser aqui. Bem, mais ou menos aqui.

Esse é o grande problema das datas: uma hora elas chegam. Já está entre nós 2014, o ano que há algum tempo é sinônimo em nossas cabeças de “Copa no Brasil! Copa no Brasil!”.

Desde pequeno ficava imaginando: como seria uma Copa do Mundo por aqui? Itália e Alemanha jogando no mesmo campo de Bangu x América. Os camelôs do Pacaembu vendendo camisetas de Argentina e Camarões. Um bandeirão abrindo no meio da torcida da Inglaterra…  Se o Mundial de 78 foi o do jeito argentino de jogar e torcer, com mais papel higiênico do que grama em campo, uma Copa no Brasil seria uma forma do mundo inteiro ver o jogo como a gente o vê.

A Seleção Alemã adentra o gramado do Maracanã.

A Seleção Alemã adentra o gramado do Maracanã.

Na Copa das Confederações do ano passado, tivemos uma boa amostra de como a “nossa” Copa vai ser, pelo menos dos portões para dentro: tudo no “padrão FIFA”, com o que isso tem de bom e de ruim.

Estádios novos (alguns já velhos), com visual moderno e conforto para o torcedor inédito por estas bandas (também, com as cadeiras e os estádios mais caros do mundo). Tudo muito organizado, limpo, bem sinalizado… e muito pouco brasileiro.

Ops.

Ops.

Já reparou que quando a câmera mostra o interior de qualquer uma dessas novas “arenas” (é, nem estádio chama mais), não dá para saber qual é? Do lado de fora, a arquitetura ainda é única, mas dentro é tudo no tal padrão: as cadeiras são iguais, a distância da torcida para o campo é igual, as dimensões do gramado são iguais, as redes são iguais, até o ângulo de câmera é sempre igual.

Não precisava ser assim. Poderíamos ter uma Copa do Mundo no Brasil que fosse… no Brasil.

Claro que os estádios estavam caindo aos pedaços. Que não dava mais para ser tratado como gado para entrar e sair da arquibancada. Mas era possível fazer reformas estruturais sem perder a nossa cara. Bastava ter pensado melhor em algumas questões:

• Por que em todo estádio o véu da noiva tem que chacoalhar da mesma forma?
A nova rede do Maracanã é igual à do Mané Garrincha que é igual à do Soccer City que é igual à de Yokohama… Por que não podemos ver uma semifinal de Copa do Mundo no Mineirão com seu filó do tamanho de um latifúndio? Ou no Maracanã com aquela rede que já acaba logo depois da linha? Melhor ainda: imagina um jogo decisivo na Fonte Nova com aquelas traves que pareciam de futebol de botão e a rede que quase arrastava no chão:

• Por que não posso comer um McPernil?
Ok, o McDonald’s tem acordo com a FIFA. Legal, vamos vender Big Mac. Mas sem proibir feijão tropeiro no Mineirão, acarajé em Salvador e sanduíche de pernil na porta do estádio em São Paulo (pensando bem, acho que esse a Vigilância Sanitária proibiria de qualquer jeito).

Número 2.

Número 2.

• Por que estádios, desculpe, arenas novinhas em Cuiabá, Manaus, Natal e Brasília, onde nenhum time consegue lotar um estádio, quanto mais uma arena?
Tudo bem, essa é fácil: muita politicagem e algum excesso de otimismo no turismo são a resposta. Mas prossigamos.

Em vez de Manaus, por que não jogar em Belém, onde o Mangueirão está sempre cheio para ver Remo e Paysandu? Em vez de Brasília e Cuiabá, por que não o Serra Dourada, que por décadas sempre foi conhecido como o único dos nossos campos com uma grama decente?

Serra Dourada e seu gramado psicodélico, 1981.

Serra Dourada e seu gramado psicodélico, 1981.

• A Copa tinha que ser no Itaquerão?
Temos que admitir: o Morumbi é um trambolho gigantesco. Tem milhares de pontos cegos, os assentos são distantes do campo, treme assustadoramente, é longe pra burro (desculpe se você mora ali perto, mas você mora longe pra burro) e muito feio esteticamente duvidoso.

Mas sua história também é gigantesca. Acostumamos a tê-lo de pano de fundo de jogos mitológicos. E vá lá: não é possível que uma reforminha bem feita não resolva boa parte dos seus problemas. Reforma que faria bem não só a ele e ao São Paulo, mas aos torcedores de todos os times.

E também à Copa do Mundo: imagine o Fred fazendo um golaço ali e correndo feliz para a galera, como tantas vezes o Careca e o Raí já fizeram. Imagine o Neymar fazendo algo parecido com isso.

Feio? Pensando bem, poucas coisas são tão bonitas como o Morumbi de casa cheia, com um mar de bandeiras como este:

A torcida alemã vibra no Morumbi.

A torcida alemã vibra no Morumbi.

• Mas só o Morumbi presta?
São Paulo já tinha o projeto de dois estádios novos, modernos, reluzentes, pimpões: o do Corinthians e o Palmeiras. Se eles ficassem prontos a tempo da Copa, ótimo. Seriam boas alternativas. Ou poderíamos ainda dar um tapa no Pacaembu, onde 40 mil pessoas estariam maravilhosamente acomodadas. Como sempre estiveram, aliás (lembrando que até jogo de Copa já rolou por ali).

Morumbi reformado, estádios novos, Pacaembu garibado. Na verdade, são todas boas opções. A escolha, então, deveria ser muito simples: a que custasse menos dinheiro público. É, então…

• E o Maraca, hein?
É, parece que do jeito que estava não dava mais. A estrutura estava podre e corria sério risco de cair. Nem vamos lembrar que outras duas reformas já tinham gastado rios de dinheiro nos últimos 15 anos – e que, pelo jeito, deram em nada.

Mas beleza: poderiam ter reformado de novo e mantido não só a fachada, mas também o layout interno, com seus anéis imponentes. E não deixá-lo com cara de uma arena genérica.

Veja bem: o Maracanã está lindo. Mesmo. Mas vale lembrar a impressão de Arbeloa, lateral da Espanha que foi judiado pelo Neymar na final da Copa das Confederações:

 “Quando estivemos no Maracanã, não tive a sensação de jogar em um estádio com tanta tradição. Você chega e vê um estádio moderno, novo, cheio de cores, então não é capaz de te transmitir a história. Tem vestiários confortáveis, modernos e amplos. Não é como quando vamos a Anfield, La Bombonera, ao Monumental de Nuñez, onde você sente o tempo, te transmite a história. Eu gostaria de jogar lá antes da reforma. Não fui capaz de sentir nem pensar que aqui atuaram jogadores tão importantes na história do futebol. Tive a mesma sensação quando joguei, por exemplo, nos estádios novos da África do Sul no Mundial ou os da última Eurocopa. Não parecia um estádio mítico do futebol.”

Disse tudo, cara.

Claro que não há mais espaço no futebol moderno para a geral do Maracanã, mas… peraí, será que não, mesmo? Na Alemanha os torcedores do Borussia tem um espaço para assistir aos jogos como sempre assistiram: em pé, urrando como doidos.

Mané e os geraldinos.

Mané e os geraldinos.

Talvez não desse para manter o fosso e os geraldinos quase sem visão, mas será que não dava para preservar o espírito do estádio, o mais democrático do mundo?

O povão dava o recado no Maraca.

O povão dava o recado no Maraca.

Será que não poderíamos ter a final da Copa em um estádio moderno e confortável, mas que carregasse as marcas da sua história? De perto, o Camp Nou é imponente, colossal, bem cuidado, mas não esconde que tem mais de 50 anos. O Maraca Nou poderia ser assim também.

Outra coisa: encurtaram o gramado! O Maracanã tinha um dos maiores campos do mundo, com espaço bastante para não deixar nenhuma retranca funcionar – o que sempre ajudou o nosso jeito de jogar.

• Resumindo:
Poderíamos consertar as infiltrações, melhorar a visibilidade da platéia, instalar um telão novo mas mantendo as dimensões do tapete – e deixando o palco de tantas histórias mais reconhecível.

Com cara de quem já viu vitórias e derrotas, comédias e tragédias. De quem já viu Pelé fazer o primeiro dos gols de placa e o milésimo dos gols de Rei. De quem viu Mané sorrir e dizer adeus. Já viu goleadas históricas e peladas perfeitamente esquecíveis. Viu Romário dar uma caneta em Maradona, viu Maradona acertar o travessão do meio do campo, viu Gaúcho pegar pênalti, viu Rivelino, Dinamite, ouviu o Frank. Viu Zico jogar.

Não é pouca coisa.

Gênios trabalhando no Maracanã.

Gênios trabalhando no Maracanã.

E, por fim,

• Pô, por que raios tiraram o orelhão de trás do gol do Maracanã?

Alô?

Cadê você?

Os 23 hoje, 24/07/2012

Postado por: Marcos Abrucio

Para espantar a poeira destas bandas, inauguro agora mais uma espetacular seção* aqui no Copawriters: Os 23 hoje.

O propósito dela é, como o nome sutilmente sugere, listar os 23 jogadores que deveriam estar na seleção se o dia da convocação para a Copa fosse… hoje.

O critério científico para a elaboração desta lista é justamente imaginar que não falta mais nenhum minuto para o prazo final. Não dá mais para esperar um bom lateral-esquerdo aparecer, o Kaká voltar a jogar bem ou o Adriano perder 20 kg. Já era, acabou o tempo.

Nesse cenário, com quem a seleção deveria contar? Ora, eu digo. De nada, Mano.

“Joia!”

Tudo isso, claro, segundo a minha reles opinião, desculpaê. E como amanhã a minha opinião vai ser diferente da de hoje, que aliás é diferente da de ontem, a lista vai mudar o tempo todo.

Por isso esta seção será atualizada periodicamente. Para ver os nomes que se manterão, os que ficarão pelo caminho, os que surgirão do nada. No fim, vamos conferir quais integrantes da lista oficial, citados com orgulho na entrevista coletiva da CBF às vésperas da Copa, estiveram por aqui desde o começo. Oh, que expectativa.

***

Escrevo a lista abaixo antes das Olimpíadas, que certamente queimarão minha língua. Mas tudo bem. A ideia é essa mesmo: ver os fatos me contradizerem.

E lógico que vão me contradizer, ô se vão. A realidade tem essa mania chata de desmentir tudo que a gente acha.

Certeza que amanhã mesmo algum jogador que eu “convoquei” vai se contundir seriamente; outro vai cair na gandaia; um vai parar de jogar bem, outro vai voltar a jogar mal; vai ter jogador ficando sem clube, jogador sendo vendido para a Espanha (e caindo na gandaia), sendo vendido para a Ucrânia (e caindo em depressão); jogador sumindo, mascarando, namorando uma paniquete, se aposentando ou, sei lá, trocando de sexo (e caindo na gandaia).

Bom, hoje esses caras fazem parte dos 23. Amanhã, pode ser que não.

Certeza também que um moleque de quem nunca se ouviu falar, que hoje tem 15 anos e joga bola numa rua de terra ou na quadra da escola ou no condomínio ou na escolinha do Rivellino vai chegar arrebentando em 2014 e será convocado após um clamor nacional e se tornará o craque da Copa, amém.

Esse moleque não está nos 23 hoje. Amanhã, pode estar.

***

Última (e dolorosa) coisa: não temos 23 craques. Alguns nomes desta lista estão bem longe disso. Mas eu não podia deixá-la incompleta.

Goleiro, por exemplo. Tá fraco. Pensei em colocar como terceira opção um cone, mas fiquei com medo de confundirem com o Doni, então melhor não.

Craques, tapa-buracos ou enganadores, isso é o que temos por hoje:

Goleiros:
Julio Cesar (Internazionale/ITA)
Jefferson (Botafogo)
Gabriel (Milan/ITA)

Laterais:
Daniel Alves (Barcelona/ESP)
Maicon (Internazionale/ITA)
Marcelo (Real Madrid/ESP)
Rafael (Manchester/ING)

Zagueiros:
Thiago Silva (Paris Saint Germain/FRA)
David Luiz (Chelsea/ING)
Dedé (Vasco)
Juan (Internazionale/ITA)

Meio-campistas:
Sandro (Tottenhan/ING)
Rômulo (Spartak/RUS)
Paulinho (Corinthians)
Hernanes (Lazio/ITA)
Ramires (Chelsea/ING)
Oscar (Chelsea/ING)
Ronaldinho Gaúcho, pois é (Atlético Mineiro)
Lucas (São Paulo)
Messi  (Ah, não pode? Perdão.)

Atacantes:
Neymar (Santos)
Leandro Damião (Internacional)
Bernard (Atlético Mineiro)
Hulk (Porto/POR)

Agora eu te entendo, Dunga. Mentira, não entendo, não.

Agora eu te entendo, Dunga. Mentira, não entendo, não.

***

* E, em breve, voltamos com mais uma seção, os Uniformes Inesquecíveis da Humanidade. Prometo!).