Em casa

Postado por: Marcos Abrucio

Eu tenho uma camiseta da Inglaterra. De goleiro. Comprei porque sempre curti os uniformes da seleção inglesa. Porque gosto de catar no gol. E porque ela é “british green”, verde tradicional das equipes inglesas no automobilismo.

Não comprei, portanto, por uma simpatia especial com os campeões de 66. Pelo contrário: sempre os achei meio grossões. Nunca imaginei que um dia estaria pulando no meio da torcida britânica, comemorando um gol de Wayne Rooney.

No meu primeiro jogo de Copa do Mundo.

Inglaterra x Uruguai, aqui em casa.

Inglaterra x Uruguai, aqui em casa.

Talvez a parte mais emocionante da Copa no Brasil seja justamente essa: a de tornar reais coisas inimagináveis. Por exemplo: aqui na esquina tem um boteco absolutamente comum. Não é pitoresco, gostoso, barato, nada. Pois agora mesmo, voltando pra casa, vi um grupo de torcedores ingleses sentados nesse boteco devorando um contra com fritas. Felizões.

Nunca imaginei.

Hoje, pegando o metrô que eu sempre pego, tive a companhia de milhares de ingleses (a maioria) e uruguaios ­­- e também de mexicanos (um monte), colombianos, croatas, argentinos… Todos em paz, deslocando-se até o outro lado da cidade sem problemas. Um dos gingos, com dentão quebrado de hooligan, até gritou isso no vagão:

Já no estádio, foram muitos outros gritos, “Go, England!” de um lado e os “Soy celeste!” do outro.

Não fui com a camisa da Inglaterra. Isso indicaria uma torcida prévia da minha parte. E, em Copas do Mundo, muitas vezes você escolhe o seu lado pelas circunstâncias do jogo, do momento. Várias coisas podem influenciar: a simpatia por um time mais fraco, a admiração por uma campanha heróica, por um jogador excepcional…

Fiz bem: a neutralidade me deixou livre para me empolgar com os dois lados. Com a adoração que os ingleses têm com Rooney (até quando ele erra uma bola na cara do gol, todos gritam o nome dele ­- e não gritaram o nome de mais ninguém) e com o jogo monstruoso que fez Luis Suárez, cadeirante um mês atrás e que hoje ressuscitou sua seleção.

Os uruguaios estavam em menor número, mas quando subiam a voz, incendiavam o estádio. Mas eu fiquei no lado onde estava a maioria dos ingleses. E aí não deu para não me solidarizar com eles…

Antes do jogo, arrepiou o “God Save the Queen” bem atrás de mim:

A bola rolava e a gente brincava: pô, o Rooney nunca fez gol em Copas! Vai ser hoje, respondiam mais pra eles do que pra nós. Foi emocionante ver o ídolo-mor dos caras finalmente desencantar. Mais ainda foi virar para trás e vê-los estáticos quando Gerrard cabeceou para trás e Suárez botou o Uruguai na frente de novo. De cortar o coração.

Oh, fuck.

Oh, fuck.

Depois, fomos embora todos juntos. No metrô, dois deles olharam para nós, brasileiros de camisa do Brasil, falando de jogadores brasileiros muito melhores do que o Rooney: “Yeah, you can laugh”. Até rimos, mas foi na boa. Estávamos na mesma torcida, cara.

E tudo isso teria sido muito legal em um jogo de Copa em Berlim, em Yokohama, em Roma, na Cidade do México. Mas foi aqui em São Paulo, na minha cidade. Fiz baldeação na estação da Luz (inglesa!) e depois na Paulista. E quando saí do metrô, estava na porta da minha casa. Felizão.

Meninos, eu vi.

Meninos, eu vi.

 

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2 Respostas para “Em casa

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