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Uma desculpa para perder ou uma força para ganhar?

Postado por: Marcos Abrucio

Qual a alternativa?

Qual a alternativa?

Leia (ou releia, vai) este texto amanhã, lá pelas sete e pouco da noite. Logo depois de Brasil x Alemanha. Pegue então uma caneta e assinale a alternativa que mais se aproxima do que aconteceu nesse jogo.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. A seleção já não tinha mais a obrigação de ser campeã mundial. Sem nenhum fora-de-série, sem nenhum gênio, sem nenhum extraterrestre, o favorito virou azarão. Também não havia mais o risco de um vexame catastrófico, um novo Maracanazo. Evidente que os jogadores tiveram esse medo contra o Chile. Não dava para cair numa oitavas-de-final, em casa, contra o eterno freguês. Ninguém queria ser o responsável por essa mancha no nosso currículo. Daí tanto choro, tanta tremedeira, ai, meu estômago ainda dói. Também não podíamos perder para a Colômbia, com todo respeito à seleção que melhor havia jogado até então. Mas beleza, passamos por um e por outro. Agora era semifinal, amigo, só cachorro grande. E contra a Alemanha, o rottweiler das Copas. Mais: uma Alemanha renovada, que une a eterna eficiência alemã ao toque de bola (quem diria!) de caras como Müller, Schweinsteiger, Lahm e Kroos. Vergonha nenhuma cair agora. Isso tirou o peso das pernas dos nossos jogadores – mas também o sangue dos olhos deles. Quando o jogo começou, o Brasil aceitou facilmente o favoritismo alemão. Preocupado demais em cercar os craques tedescos, abriu mão de jogar o seu jogo. E aí não teve jeito: uma hora o talento e o entrosamento dos loirões fez a diferença, vazando o Júlio César sem dó. Claro, nosso extraterrestre fez muita falta. Mas o resto do time aceitou fácil demais a derrota. Talvez achassem que já tinham ido longe demais. Afinal, tinham desculpas demais para entregar os pontos. No fim, a torcida aplaudiu tristemente o esforçado time de operários. Saímos derrotados – na verdade, entramos derrotados.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. No lugar dela, uma motivação ainda maior. Um time que nessa Copa já tinha se mostrado de mais empenho do que de futebol bonito (quem diria!) entrou em campo ainda mais ligado. Era preciso correr não só por Neymar, mas também pelo capitão Thiago Silva. Mas a seleção chegou ao Mineirão sabendo que não adiantava só entrar com a raça redobrada: tínhamos que jogar bola. E os brasileiros jogaram. Primeiro, marcaram os craques do outro time como se deve: grudadinhos no cangote deles. Depois, botaram os nervos no lugar e a bola no chão. Foi como se lembrássemos que, mesmo sem Neymar, temos um ótimo time, com jogadores habilidosos, que jogam nos maiores clubes do mundo. Um time muito melhor, por exemplo, que Gana e Argélia, que empataram com a Alemanha nessa Copa. Claro, o jogo foi duro, duríssimo. Neymar fez muita falta (em que time ele não faria?), mas o meio-campo, antes um Atacama, foi finalmente povoado. Com as ações equilibradas ali na meiúca, foi a vez da seleção alemã lembrar do trauma que eles têm de jogar contra o Brasil. O jogo deles não encaixa com o nosso, como o nosso não encaixa direito com o do México. E descobrimos, olha só, que a geração dourada alemã também tem seus cabeças-de-bagre. Foi em cima de Höwedes que saíram nossas principais jogadas – e o gol da nossa vitória. Os operários brasileiros também foram solistas e, empurrados pela torcida, pela gana de honrar nosso craque e pelo seu próprio talento, derrotaram a temida seleção alemã e conseguiram seu lugar na final da Copa do Mundo.

***

Amanhã estarei no Mineirão para ver de perto qual alternativa o Brasil vai escolher. E também para ajudar a botar o xizinho no lugar certo.

Minha aposta? Essa aqui:

Blame Jabulani

Glu

Green Chicken.

Após os primeiros jogos da Copa, duas coisas já ficaram bem claras.

A primeira é que os jogadores estão realmente penando com a nova bola. Não era chororô. Parece que a jaburu faz mesmo uma “segunda curva”, mas só quando ela quer.

Os atacantes já carimbaram algumas vezes a Lua, e dois goleiros (Green, da Inglaterra e Chaouchi, da Argélia) já levaram frangaços — embora no caso destes últimos a bola tenha sido menos culpada do que a ruindade deles.

Outra constatação gritante é a minha total incapacidade de acertar um resultado sequer no bolão da Copa.

Botei 2 a 1 para o México na primeira partida. Os mexicanos vinham bem, ganharam da Itália na semana passada. Depois, me arrependi. Fiquei com dó da África do Sul. Pô, os caras são legais, pensei. Chegaram cantando no estádio. O Mandela perdeu a bisneta, que sacanagem. Vamulá, Bafana Bafana, vocês merecem!

Descobri nesse momento que não consigo apostar contra quem eu torço.

Ai tentei trocar o meu palpite inicial por outro, talvez um 1 a 1, ia ficar bom pra todo mundo. Mas era tarde demais, o jogo já ia começar. Resultado final: 1 a 1.

Apostando no Ribéry, cravei a vitória da França sobre o Uruguai. Foi 0 a 0. Que foi o que eu coloquei em Coréia do Sul x Grécia. Vitória dos coreanos. Acertei a vitória da Argentina, mas errei o placar: foi 1 a 0, e não 3 a 1, porra, Enyeama.

Enyeama

Messi foi bem, mas vai sonhar com ele.

Confiei no Rooney, mas a Inglaterra não passou do empate contra os EUA. Porra, Green. Eslovênia e Argélia tinham tudo para ser o 0 a 0 mais feio da Copa. Foi feio, mas no fim o tal Chaochi mandou o peru para dentro (opa).

Gana vinha de 3 derrotas no pré-Copa. Apostei na Sérvia. Gana ganhou. Acertei a vitória da Alemanha, mas não por quatro gols, Porra, Podolski, Klose, Muller e Cacau.

Pelada

Lance de Alemanha e Austrália.

Todos esses desencontros e a minha classificação no bolão (23o. entre 26 pessoas) indicam obviamente uma coisa:

A culpa é da Jabulani.

Postado por Marcos Abrucio

80 pesos

Era o preço do ingresso da arquibancada na semifinal da Copa de 1970, no México (se quiser, hoje você compra o mesmo bilhete no eBay por 35 libras, ou 105 reais, ou ainda 738 pesos mexicanos. Mas corre).

Na minha mão é mais barato.

E se quando um jogo é bom dizem que ele “valeu o ingresso”, nunca um dinheiro foi tão bem gasto num campo de futebol quanto esses pesitos. Quem esteve no estádio Azteca na tarde daquele 17 de junho assistiu ao maior jogo da história das Copas:

A Itália de Albertosi, Riva e Rivera contra a Alemanha de Maier, Beckenbauer e Müller.

Não sou só eu que está falando. Em rankings de jornais, revistas e sites especializados, essa partida está sempre no topo. Livros, filmes, peças e especiais de TV já homenagearam o chamado Jogo do Século.

Jogo que começou três dias antes, quando a Alemanha fez das tripas coração para ganhar de virada da Inglaterra nas quartas de final. Os ingleses abriram 2 a 0, mas Franz Beckenbauer e Uwe Seeler empataram e levaram o jogo para a prorrogação. Aos 3 minutos da segunda etapa do tempo extra, Gerd Müller definiu: 3 a 2. Enquanto isso, a Itália passava fácil pelo México: 4 a 1.

A Itália entrou na semifinal mais descansada e abriu a contagem logo aos 8 minutos, com um tirambaço de Roberto Bonisegna. Mais uma vez, os tedescos teriam que inverter o placar. E foram para cima.

Com Müller se multiplicando em campo, os alemães espremiam sem dó os azuis. Mas a Itália tranquilamente fazia o que mais gosta: defendia e contra-atacava.

Valia tudo. Né, Gil?

Aos 22 minutos do segundo tempo, começa um drama que só poderia mesmo se passar no México. Beckenbauer invade a área e é derrubado. O juiz peruano marca a infração fora da área, para a cólera dos alemães (Já viu um alemão bravo? Pois é, coitado do peruano).

O pior de tudo é que o líbero continuava no chão. Na queda, ele teve seu ombro deslocado (ou quebrado, luxado, escangalhado, dependendo da fonte). Não dava para continuar.

Só que o técnico alemão já havia feito todas as substituições. O Kaiser continuou. E começou a escrever sua biografia de herói ao não só permanecer em campo mas como ao partir para o ataque toda vez que pegava na bola!

Substituição: sai Beckenbauer, entra o Kaiser.

Aos 44 minutos do segundo tempo, acaba o jogo. E começa o jogaço: bola cruzada na área, Karl-Heinz Schnelinger (que jogava no Milan) se estica e, a la Viola, consegue o empate. 1 a 1. Em seguida, as cortinas do tempo normal se fecham.

E reabrem para a prorrogação mais maluca das Copas, com 5 gols e nenhuma certeza de quem iria ganhar até o apito final.

Retroceder nunca, render-se jamais.

Beckenbauer volta ao jogo com uma tipóia. Já no comecinho do primeiro tempo, Müller vira o jogo: 2 a 1 numa pixotada que você não imaginaria que um zagueiro italiano seria capaz de cometer. 100 mil pessoas não acreditavam no que viam. Os 11 jogadores italianos também não. E aí, fazer o quê?, resolveram ir para a frente.

Aos 9 minutos, Gianni Rivera empata depois da defesa alemã rebater mal. E, um minuto antes do juiz mandar os times trocarem de lado, Luigi Riva domina, dá um corte seco no zagueiro e manda no cantinho. Golaço. A Itália (re)virava o jogo: 3 a 2.

Segundo tempo da prorrogação. Aos 5 minutos, Müller, de cabeça, empata de novo: 3 a 3. Todos no time de branco erguem as mãos para o céu (menos Beckenbauer, claro). A alegria dura 60 segundos. No 111o. minuto de jogo, Rivera, sozinho na área, marca o último gol do jogo: 4 a 3 Itália.

Quem riu por último.

Depois de duas horas escaldantes não só pelo sol mexicano, os 22 jogadores se arrastam até o juiz decretar o fim do espetáculo. Os 80 pesos estavam pagos.

Sete gols de placa.

A Copa de 70 foi mesmo a Copa dos superlativos. O México viu o mais brilhante dos times, os mais incríveis gols perdidos, a maior defesa já feita e até o desarme mais perfeito. E também foi o palco da mais épica das batalhas.

Uma batalha tão sobrenatural que fez até o mais descrente dos tifosi acreditar que, se foi possível derrubar aquele incansável exército alemão, então também daria para ganhar do Brasil.

Aí também não, dom.

Postado por: Marcos Abrucio.