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Não quero nem saber

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— Pai, uma amiguinha da escola me deu umas figurinhas de uns homens

Olívia tem 3 anos e meio e, para meu alivio financeiro, ainda não conhece o álbum da Copa.

— Filha, são as figurinhas da Copa do Mundo!

— Eu não sei o que é a Copa do Mundo.

Oras, que espécie de pai sou eu? Como não apresento à minha filha o ápice da aventura humana na Terra? Mas essa é a minha deixa. A oportunidade perfeita para contar a ela o que faz desses próximos dias a época mais incrível de todas.

— Oli, a Copa é o campeonato de futebol mais legal do mundo, com times de muitos países jogand…

Ela me interrompe.

— Pai! Eu não quero saber o que é a Copa do Mundo.

Olívia tem 3 anos e meio e, para meu profundo desgosto, não quer nem saber o que é a Copa do Mundo.

***

Isso foi há algumas semanas, e ainda estou me recuperando do mini-infarto que sofri naquele dia. Pensei em deserdá-la, mas depois lembrei: ela não está sozinha. Pela primeira vez, a maioria dos brasileiros não tem interesse pela Copa. Pela primeira vez, eu sou minoria.

Bom, nos últimos quatro anos não faltaram motivos para isso. Ainda mais depois de 2014 — com tudo o que a Copa no Brasil teve de bom e de ruim. De bom: foi a Copa que a gente viu de perto, pô! Vivemos um mês respirando futebol o tempo todo, nas conversas, nas ruas, na mídia. E aí rolou uma overdose, claro. De ruim: levamos a maior de todas as traulitadas, tão grande que virou piada.

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Mas teve mais: de lá para cá o ex-manto da seleção virou o uniforme de uma facção política com uma ideia muito clara: derrubar quem estava no poder. O resultado — um país muito pior depois disso — faz com que as pessoas agora tenham vergonha de usar a camisa do Brasil até trancadas sozinhas no quarto.

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A torcida brasileira sempre foi mais exigente (= chata) do que apaixonada pela seleção. Só que agora o país está é de bode dessa coisa toda. Acho que depois do primeiro jogo, tudo isso muda. Em todo caso, vou me esforçar para fazer a minha parte.

***

— Filha, essa vai ser a sua primeira Copa! Não é legal? Na outra, você estava na barriga da mamãe.

— É?

— É, e você se comportou direitinho. A mamãe, com aquele barrigão, assistia a todos os jogos do meu lado no sofá. E dormia em todos…

Como se vê, Olívia puxou da mãe o apreço pelo futebol. Eu continuo:

— Só teve um jogo que foi complicado. Eu estava no estádio vendo o Brasil, a mamãe ficou em casa. O Brasil foi levando gols lá e ela aqui foi ficando sem ar, sem ar, parou até no hospital. Nada a ver com o jogo, ela não liga muito, acho que foi bronquite. Mas deu tudo certo. Com vocês duas, né, porque o Brasil, mesmo, levou sete.

Por sorte, Olívia não estava mais me ouvindo. Estava ocupada botando as bonecas para dormir no sofá.

***

A estreia da Olívia em Copas me lembrou de outras estreias. O primeiro jogo de Mundial que eu vi na TV: Brasil x Espanha em 86. Gol de Sócrates, eu pulando no sofá da casa minha avó, o juiz roubando os espanhóis num gol claro que só ele não viu:

Em 2002, a estreia do Brasil na Copa teve outra roubalheira a nosso favor. Viramos o jogo contra a Turquia num pênalti totalmente inventado: o juiz marcou uma falta no Luizão que nem existiu — e cujo lance foi fora da área.

Estreia do Brasil em 2006. Jogo contra a Croácia. Tínhamos uma seleção sensacional, com a maior quantidade de craques por metro quadrado em campo desde 1982. Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano, Roberto Carlos. Cafu, Robinho (ok, nem todos eram craques). O time tinha ganho tudo (e ainda dado baile) no ano anterior. Quando chegaram na Alemanha, os jogadores estavam todos gordos e anestesiados. Era como se o país inteiro tivesse ficado sóbrio de uma hora para outra e os jogadores ainda estivessem bêbados. Um negócio assustador de se ver.

2014: a minha estreia in loco em jogos de Copas. Uruguai x Inglaterra no Itaquerão. Não teve preço a emoção de ver um jogo de Mundial na casa do meu time. Não teve preço pegar um trem pra ZL conversando com hooligans. Não teve preço saber que o mundo inteiro estava olhando para onde eu estava. Aliás, não teve preço mesmo: ganhei o ingresso da minha cunhada, à qual agradeço até hoje: valeu, Dani!

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***

Tite tem dois grandes desafios neste ano: o primeiro é recuperar a autoestima de uma equipe que levou 10 gols nos últimos dois jogos de Copa. Paradoxalmente, o outro é conter a euforia de uma equipe que, sob o seu comando, voltou a ganhar e a jogar bem. Boa sorte, professor.

Mas muito maior é o meu desafio: fazer a Olívia curtir a Copa. Ou pelo menos, curtir 1% do que eu curto. Já vai ser muito.

Posso me ver no próximo domingo, dia de Brasil x Suíça:

— Filha, vamos ver o jogo do Brasil?

— …

— Eu te pago um sorvete depois. De morango.

— Vamos!

Canarinho-Pistola

Postado por: Marcos Abrucio

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Os Caniggias

Postado por: Marcos Abrucio

Se o Brasil não ganhou TODAS as edições da Copa do Mundo, a culpa é deles. Dos algozes, dos carrascos, dos verdugos do Brasil. Dos Caniggias.

Para quem não lembra ou estava no maternal na época: Caniggia foi o cara que, com sua pose de vocalista do Poison, recebeu uma bola açucarada de Maradona, driblou Taffarel e defenestrou a seleção do Lazaroni em 1990:

Giggia, Paolo Rossi, Cruyff, Zidane (duas vezes) também nos entubaram em Copas do Mundo. Mas foram ótimos jogadores, dos maiores de todos os tempos. O fato de terem esmigalhado o Brasil foi apenas um de seus muitos feitos.

Já Claudio Caniggia, não. Quando se fala nele, a gente só se lembra daquela tarde em Turim. Do ponto final de uma das piores campanhas brasileiras de todos os tempos. (Tudo bem, vai. A gente também lembra dessa foto.)

Pois bem, quem foram nossos Caniggias? Pra começar, um dos nossos maiores executores, o…

1) Chuveirinho Assassino

Talvez você não tenha reparado, mas nas últimas três Copas que o Brasil perdeu (2010, 2006 e 1998), fomos derrubados por gols de bola parada.

Pausa para a sessão nostalgia-masoquista. 1998 e o “Quem é que sobe?!”:

2006 e o “Sai, Dida!”:

2010 e o “Fica, Júlio Cesar!”:

Dureza. Mas tão perigoso quanto a sanguinária bola aérea é o…

2) Já-ganhou dos Infernos

Claro que o Uruguai tinha um grande time. Mas o diabólico clima de “já-ganhou” criado nos dias que antecederam a final de 1950 foi determinante para a derrota brasileira.

Não por culpa dos jogadores, que fique claro. Um jornal carioca botou em letras garrafais, em cima da foto da seleção: “Eis os Campeões Mundiais” – ANTES do jogo. Políticos não saiam da concentração. Mendes de Morais, então prefeito do Rio, exigiu a vitória em discurso inflamado no Maracanã: “Eu cumpri minha palavra construindo esse estádio, cumpram agora seu dever vencendo a Copa do Mundo.

Com tanto peso nos ombros, não podia dar certo.

Claro que a Holanda de Cruyff era melhor que o Brasil em 1974. Se os dois times jogassem mais duzentas vezes, talvez empatássemos uma ou duas e olhe lá. Mas que o Brasil menosprezou aquele time, ah, menosprezou. Não é, Zagallo?

Além desses dois, também fomos vítimas de outro Caniggia: o…

3) Destino Vil e Cruel

Só o Destino Vil e Cruel explica o grande Leônidas da Silva, artilheiro e melhor jogador da Copa de 1938, tenha sido apenas o terceiro colocado no Mundial.

Diamonds are forever.

Diamonds are forever.

O Destino Vil e Cruel, esse fanfarrão, determinou que a geração de Zico, Sócrates e Falcão não levantasse o caneco ao menos uma vez. O DVC, esse dissimulado, ainda nos fez acreditar que o Galinho, ao perder aquele pênalti em 86, era o nosso algoz. Mentira. A culpa é do Destino, esse canalha. Canalha, vil e cruel.

Por outro lado, ora, ora, ora, quem também nos abateu em pleno voo foi o…

4) Destino Sábio e Misericordioso

Sim, ele também sabe o que faz. E acertadamente nos tirou de Copas que não merecíamos, de forma alguma, vencer. Como em 1930, 34, 54, 78 e 90.

Em 30 e 34, as federações cariocas e paulistas brigaram, impedindo craques como Arthur Friedenreich de embarcarem para a Copa. Perdemos logo de cara, bem feito para nós.

Em 54, apanhamos da Hungria na bola e partimos para o pau, em um dos episódios mais tristes das Copas, a Batalha de Berna. Feio, feio…

Para a Copa de 66, foram convocados 47 jogadores (!), entre eles dois Ditões (!!). O certo era o do Corinthians, mas chamaram por engano o do Flamengo. Para não ficar chato, deixaram os dois.  Na Argentina, em 78, Chicão foi convocado, Falcão não. Dá pra ser campeão assim?

Em 90, um time triste, com três zagueiros, três volantes – e ninguém marcando o Maradona. Quis o Destino, de forma sábia e misericordiosa, que não passássemos das oitavas. Não merecíamos mais do que isso. Mais do que o Caniggia argentino, foi a intervenção desse Caniggia onipotente que nos mandou de volta para casa mais cedo.

***

Que Caniggia pode nos derrubar agora? Difícil dizer antes da bola rolar. Os Caniggias são sorrateiros e aparecem de surpresa na área, sem marcação (né, Dunga, Alemão, Mozer, Ricardo Gomes, Mauro Galvão?).

Grandes adversários vão aparecer em nosso caminho. Mas por enquanto, meu maior temor é de um parente do Já-ganhou dos Infernos: o Terrível Não-Pode-Perder-Nem-Ferrando. O medo das consequências de uma derrota (vergonha mundial? Saques? Quebra-quebra?) pode pressionar nosso time a ponto de paralisá-lo.

Toc, toc, toc. Vira essa boca pra lá.

Por ora, importante mesmo é o que o vídeo abaixo comprova: a Copa finalmente chegou no Brasil!

 

A Copa do Mundo dos pênaltis não é nossa

Postado por: Henrique Rojas

Certa vez, Antonio Franco de Oliveira (o lendário Neném Prancha) afirmou que pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube. Imagine, então, quando se trata de uma disputa de penalidades máximas valendo vaga na próxima fase de uma Copa do Mundo.

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Acabooou, acaboooou… É tetraaaaaa!!!

 

O desempate em jogos eliminatórios através da marca da cal existe desde o mundial de 1978, na Argentina – ano onde, curiosamente, não houveram empates nas fases finais. A partir de 1982, no entanto, os pênaltis começaram a se fazer presentes para alegrar ou aterrorizar quem lá está.

Brasileiros que somos, logo lembramos de 1994, Rose Bowl, Baggio, um verdadeiro field goal, cambalhota no gramado e “é tetra”. Outros irão até se lembrar das semifinais de 1998, quando eliminamos a Holanda em grande presença de Taffarel. Se voltarmos a 86, no entanto…

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Deu ruim pro Galinho

O fato é que, se a Copa do Mundo fosse decidida somente em disputas de pênalti, dificilmente seríamos penta.

O time mais frio do mundo nessas horas é – adivinhem? – o alemão, que contabiliza quatro decisões e quatro vitórias (82/86/90/06). Os argentinos vêm logo atrás, com três triunfos, e depois temos França (já mencionei 1986?) e Brasil, com duas explosões de êxtase.

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Os alemão pira

Já os países que mais amarelam na hora de bater penalidades, contando com três derrocadas em mundiais, são Itália (já mencionei 1994?) e Inglaterra (que, sem presidente, teria que pedir ao Príncipe Charles para que cobrasse). França, México, Espanha e Romênia seguem a fila, com um duplo fracasso.

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Motherfucker penalties

O histórico da Copa mostra que em 204 penais já batidos em decisões deste tipo, 144 foram convertidos, 41 defendidos e 19 desperdiçados. Mas, sinceramente, quem liga para os 71% que entraram se são os outros 29% que ficam marcados?

Marcos, o Santo que pegou várias cobranças na carreira (mas não precisou pegar cobranças do tipo em 2002), disse certa vez que o momento do penal é todo do goleiro. Fazer é obrigação, pegar não.

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Sai que é sua, Taffarel \o/

Zico, Baggio, Gerrard e tantos outros craques sentiram isso na pele e deu no que deu. Sorte a nossa que antes da hora fatal temos 120 de bola rolando.

Pessimistas 9 x 2 Otimistas

Postado por: Henrique Rojas

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Brilha, Pacheco!

A Copa está aí. Faltam 8 dias para o início do maior torneio de futebol do Mundo e, ao contrário do que acontece no segundo deles – a Champions –, nós estaremos lá. Aliás, estaremos aqui. E somos favoritos!

Para melhorar, motivos para esse otimismo todo não faltam: o grupo está fechado faz algum tempo (e são poucas as contestações), nosso treinador já ganhou um Mundial, vencemos a Copa das Confederações de maneira incontestável no ano passado e, sim, jogamos em casa.

Não que esteja tudo perfeito (nunca está) e o título seja certo (nunca é), mas, convenhamos, está tudo bem tranquilo, graças aos deuses da bola.

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Deixa com o papai, fera 😉

Só que enquanto eu e você estamos indo rumo aos estádios superfaturados cheios de confiança, alguns anciãos estão vindo na contramão, batendo o cajado do apocalipse na grama e dizendo que #VaiTerCopa, mas que #VaiDarRuim.

Só pra citar alguns nomes famosos, já ouvi José Trajano, Antero Greco e Mauro Cézar Pereira falando que temem esta calmaria toda. Que quando está assim é estranho, que nunca dá certo… e repertório eles têm.

Eu, sinceramente, quero dar um chute a lá Roberto Carlos na boca deles e dizer que isso é besteira. Mas, analisando a história das Copas mais emblemáticas que disputamos, me obrigo a dizer, totalmente a contragosto, que eles têm razão. Malditos.

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Foi esse cara que começou a zoeira sem limites

Comecemos por 1950. Aliás, somente passemos por lá. O assunto é tão incômodo e óbvio que nem vou me estender: 1 a 0 para os pessimistas, gol dele, Ghiggia.

Em 1958 permanecíamos com aquele complexo de cachorro vira-latas. A derrota em casa ainda era dolorida, o fracasso de 1954 era recente e Pelé ainda não era um conhecido e tarimbado craque. No entanto, fomos até a Suécia e sapecamos todo mundo – ajudando na tese de que tudo funciona melhor quando estamos desconfiados: 2×0.

Já em 1962, o papo foi outro. Éramos os melhores do mundo, a Copa foi no vizinho Chile e, apesar da lesão de Pelé (que, aí sim, já era Pelé), confirmamos o favoritismo com um baile de Garrincha e Amarildo. Ponto para os inabaláveis otimistas, que descontam antes do final do primeiro tempo.

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Ninguém parou Garrincha (nem os otimistas)

Em 1970 tínhamos, sem dúvida, um timaço (o medo era Félix no gol). Mas, mesmo com a troca de treinador pouco antes do Mundial e com o país envolto pelo caos da ditadura, a Seleção não se abateu com o fracasso de 66, vencendo e convencendo no México. Os otimistas dançam nas arquibancadas, cantam ser o time da virada e do amor (lelelê lelelê lelelê), e empataram o duelo em 2 a 2.

Foi então que vieram dois golpes duríssimos: 1982 e 1986. São as Copas mais tristes que o Brasil já viveu, tamanha qualidade e má sorte (com uma pitada de incompetência) dos escretes que foram a campo. Pessimistas nadaram de braçada nessa e abriram dois tentos de diferença.

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Deu ruim

1990 era uma Copa pessimistas para todos. Depois de dois fracassos seguidos, com duas equipes da melhor qualidade, nem tinha como ser otimista com Lazaroni. Essa não vai pra ninguém.

Em 1994 mais uma vitória dos pessimistas. Mesmo classificados na repescagem sul-americana diante do Uruguai, com Parreira contestado e Mazinho na vaga de Raí logo no segundo jogo, voltamos com o Tetra.

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Comemora mesmo, Dunga: a gente não acreditava em vocês

Pessimistas 5, Otimistas 2. Tá virando goleada.

Em 1998, mais uma vez, o otimismo estava de pé. Ronaldo era o melhor do mundo, time voando baixo, um campeonato praticamente perfeito até a final e… falhamos. Assim como em 86, caímos para a França, com direito a convulsão e Zidanadas. Meia dúzia pra eles.

Quatro anos depois, veio o sétimo tento dos pessimistas. Mesmo com Felipão chamado às pressas, vitórias sofridas no final das Eliminatórias e uma sonora derrota pra Honduras na Copa América dois anos antes, vencemos! Era o Penta na Ásia, contra todas as expectativas: 7 a 2.

E como sempre acontece quando ganhamos a última edição, chegamos a Copa de 2006 ainda mais confiantes. Era o tal do “Quadrado Mágico” dando resultado em todos os torneios, era Ronaldinho Gaúcho voando baixo e nada tiraria o Hexa da gente. Exceto uma meia ajeitada dentro da área e outro cambal sofrido para os franceses.

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Trio Parada Dura

Já 2010 foi uma coisa meio antagônica: enquanto o time ganhava tudo o que disputava dentro de campo (alimentando os otimistas), Dunga conseguia reunir o ódio da imprensa e dos pessimistas. E no quem é que sobe, trombamos com o Felipe Melo e deu Holanda, amigo. Haja coração partido e 9 a 2 no placar.

Ou seja: no frigir dos ovos, chegamos a 2014 com goleada histórica: 9 a 2 pra turma do “vai dar merda”. O que pode até não dizer nada, mas indiscutivelmente deixa aquele climinha (merda) no ar.

Minha esperança é que o futebol é uma caixinha de surpresas, que nossos jogadores vão dar 110% e, se Deus quiser, sairemos do Maracanã dia 13 de julho com os três pontos. E a taça na mão. Vira esse jogo, Brasil!

No lucro

Chico, é você?

Para nós, torcedores brasileiros, vai ser lindo. A Copa de 2014 será no nosso quintal — aliás, se você mora em São Paulo e tem um quintal maiorzinho, avise a FIFA e a CBF: elas ainda estão procurando um lugar para abrigar os jogos na capital paulista… Tsc, tsc, tsc.

Agora, para nós, cidadãos brasileiros… É bom não esperar grandes benesses. Nem estou falando de eventuais desvios, superfaturamentos, estouros de orçamento e outras modalidades de roubalheira do nosso dinheiro. É que, ao contrário do que cartolas e governantes sempre juraram, uma Copa do Mundo talvez nunca consiga dar lucros a quem a sedia.

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A tese é de Simon Kuper e Stefan Szymanski, autores do livro “Soccernomics”, obra que cruza dados, cifras e estatísticas para enxergar de maneira mais esperta o mundo do futebol — lembrou de “Freakonomics”? Na mosca.

O subtítulo é curtinho, não?

Sempre se espera que uma Copa (ou uma Olimpíada) traga melhorias na infraestrutura do país-sede, no seu sistema de transportes, na rede hoteleira, nos índices de emprego, no número de turistas, na imagem perante o mundo. Há ainda a lembrança de Barcelona, que aproveitou a Olimpíada de 1992 para recuperar partes decadentes da cidade e subir no ranking dos maiores destinos turísticos do mundo.

Só que os dois jornalistas fizeram as contas e concluíram que os gastos exigidos pela FIFA (ou pelo COI) são tão gigantescos que o país sempre sai perdendo.

O roteiro se repete: os cartolas querem do pobre país-sede (no nosso caso, pobre mesmo) isenções de impostos, obras viárias gigantescas, uma grande quantidade de vagas em hotéis de luxo, novos aeroportos e, claro, novos estádios, mesmo quando há no local outros em condições de sediar os jogos (alguém aí falou “Morumbi”?).

Tudo isso é muito, muito caro. E, no fim, acaba saindo ainda mais caro: orçamentos iniciais ingênuos ou mal-intencionados normalmente estouram — graças a atrasos, imprevistos, regimes de urgência urgentíssima ou simplesmente quando entram em contato com a realidade.

Assim, a grana que entra não cobre a que sai. Sem contar que o número de turistas muitas vezes é superestimado, os empregos gerados pelo evento são, em sua maioria, temporários e muitas das caríssimas obras viram elefantes brancos. Mais: há quem diga que Barcelona iria se reerguer de qualquer jeito, com ou sem Olimpíada…

Desastre total? Calma, também não é assim. Abrigar uma Copa também tem seus pontos positivos. Entre eles, o impacto que uma competição mundial provoca na auto-estima dos habitantes que a recebem. E também a propaganda planetária que ela faz do país.

Um comercial de 30 dias de duração.” Foi assim que uma dirigente de uma província sul-africana encarou a Copa 2010 quando percebeu que os benefícios econômicos diretos esperados pelo país simplesmente não chegariam. Para os sul-africanos, o jeito será tentar tirar o prejuízo a longo prazo, com os turistas que chegarão no futuro, incentivados pelo que viram na TV no último mês.

A Copa da África do Sul ficou no vermelho nas finanças. E nos campos?

***

É consenso que a seleção brasileira ficou devendo. Mas, para mim, a Copa de 2010 como um todo deixou os apreciadores do futebol no lucro.

E sei que essa opinião não é nenhum consenso.

(Do UOL) Insira aqui sua piada com "futebol-arte"e "arte marcial".

“Que Copinha, hein?” foi uma das frases que mais ouvi no último mês, só atrás de “Ah, Larissa Riquelme…”. Até o Rojas, meu nobre colega aqui no Copawriters, afirmou que a Copa foi morna.

Desculpe, galera, desculpe, Rojas. Mas eu gostei desta Copa. Bastante, aliás. Sim, eu sei que a média de gols foi baixa. Que teve 1 a 0 pra todo lado, que a Espanha não chutava pro gol, que raiva que dava! Sei que os craques chegaram baleados à Copa, que com 32 países a Copa tem muito time ruim.

Mas é que eu meço uma Copa do Mundo de outra forma: pela taquicardia que ela provoca; pelos jogos eletrizantes que ela proporciona.

Nem vou lembrar das Copas no México, em 70 e 86, com tantos jogos inesquecíveis que muita gente séria chegou a propor que todo Mundial deveria ser realizado em solo mexicano… Não, seria covardia. Lembremos de 1994, no EUA. Aquela Copa foi grande, entre muitas outras razões, pelos grandes jogos que ali ocorreram. Sem nenhum esforço, vem à cabeça Brasil x Holanda, Romênia x Argentina, Suécia x Romênia, Itália x Nigéria, Itália x Bulgária… até Arábia Saudita x Bélgica foi legal.

Por outro lado, 2006 foi modorrenta pela falta de futebol e também pela falta de suor no sovaco do torcedor. Jogaço mesmo, só um: a semi entre Itália e Alemanha:

Reconheço que muitos jogos de 2010 tiveram nível mais baixo que as coletivas do Dunga. Mas mesmo algumas peladas fizeram o mais contido dos torcedores se exaltar.

Por exemplo, EUA x Argélia, com o gol da classificação americana no último minuto e uma explosão da torcida ianque como nunca se viu:

Espanha x Paraguai também poderia ter sido na Rua Javari, mas a seqüência de pênaltis perdidos e o gol chorado da Espanha fizeram a adrenalina (naftalina, segundo o Jardel) bater no teto.

Os minutos finais de Itália x Eslováquia foram de arrepiar. Naqueles parcos momentos, os italianos resolveram jogar tudo que não tinham jogado em, sei lá, 4 anos. Levavam de 2 a 0, chegaram a descontar, mas levaram outro gol e, mesmo com a pressão e mais um gol nos acréscimos, acabaram dando arrivederci ao penta. 3 x 2 Eslováquia:

E essas foram as peladas. Não podemos esquecer também dos cinco jogos realmente bons da Copa, já listados pelo Flavio: Alemanha x Inglaterra, Alemanha x Argentina, Holanda x Uruguai, Alemanha x Uruguai e, claro, Uruguai x Gana.

Neste último, vimos uma sucessão de eventos que já virou um dos momentos mais catárticos da história das Copas:

A cabeçada ganesa no último minuto da prorrogação, a defesa de Suárez na linha, a lembrança de que, ei, o Suarez é centroavante, não goleiro!, o pênalti marcado e a expulsão de Suárez, a cobrança do penal já nos acréscimos, enquanto Suarez marchava desolado para o vestiário, a chute de Gyan, o craque de Gana, na trave, o choro de Suárez transformado em êxtase, o beijo na trave do goleiro Muslera, o apito final, a decisão por pênaltis, a cavadinha de Loco Abreu, a volta do Urugual às semifinais depois de 40 anos.

Amém.

Daria um livro.

Uma Copa que proporciona cenas como essas não pode ser fraca, morna, Copinha.

Copona, galera.

***

Espera aí. Não falamos aqui que o Copawriters existiria apenas durante a “Época de Copa”, que vai da hora em que o Brasil se classifica para o Mundial até “os garis varrerem os papéis picados da comemoração do último jogo”?

Pois é, as ruas já estão limpas. “Vuvuzela” e “Jabulani” são termos fadados ao desuso. O polvo Paul e a Larissa Riquelme contam os últimos segundos dos seus 15 minutos de fama (corre, Playboy). E o Copawriters continua aqui.

É que foi muito legal escrever nesse espaço. A Copa é o momento mais bacana do esporte que mais gostamos. O evento que gera a época mais legal que existe acumula um estoque quase infinito de lembranças pessoais, histórias e imagens fantásticas.

Daria para a gente continuar escrevendo sobre isso para sempre… Que seja assim, então.

Ei, e tem outra: o Brasil, claro, está classificado para a próxima Copa. Logo, tecnicamente, já começou outra Época de Copa. Logo, o Copawriters continua na ativa.

As atualizações talvez não sejam tão frequentes. Mas estaremos sempre por aqui, desenterrando histórias esquecidas e inesquecíveis das Copas passadas e contando os minutos para a próxima.

Copawriters, agora em definitivo.

Postado por: Marcos Abrucio

Uma Copa morna

Pois é, amigos, a Copa se foi.

1 lminuto de silêncio, por favor.

E apesar de o mundo da bola já ter nos ensinado infinitas vezes que os números são frios e literalmente calculistas, podemos dizer dessa vez que os dígitos do mundial foram, ao menos, mornos.

Não que a lógica boleira tenha sido destruída, nem que o Polvo Paul sabia de tudo desde o início, mas o saldo matemático foi quase o mesmo que o saldo emocional. Se não, vejamos…

  • Foram 145 gols marcados em 64 jogos, com média de 2.2 por jogo.
  • O resultado mais popular foi o 1×0, repetido 17 vezes.
  • Um quarto das partidas teminaram em empate (16).
  • A campeã Espanha marcou 8 tentos em 7 jogos, repetindo a vitória simples em quatro de suas sete partidas.
  • Os artilheiros foram Forlán, Müller, Sneijder e Villa (5 gols cada).
  • Foram aplicados 259 cartões amarelos (4 por jogo) e 17 vermelhos (0,25 por partida).

Resumindo rapidamente, foi uma Copa de poucos gols e de muita aplicação tática, onde o lema que imperou para a maioria das equipes foi o de se arriscar pouco e de ganhar quando possível.

de 1 a 0 em 1 a 0, a Fúria encheu o papo.

Tanto que, exceto pela 3ª colocada Alemanha (melhor ataque do torneio e único time a enfiar 4 gols em três equipes diferentes), tanto Espanha quanto Holanda e Uruguai mostraram um futebol de pura objetividade. O que não quer dizer em absoluto que jogavam feio.

A Fúria, por exemplo, tem um toque de bola bonito de se ver. Não fosse a incompetência de alguns de seus finalizadores (leia-se Fernando Torres e Pedro) ou as boas atuações dos arqueiros adversários (leia-se Eduardo), os espanhóis poderiam ter goleado mais vezes. O próprio Uruguai, apontado como time de força defensiva, teve como destaque seu trio de ataque! E a Holanda… bom, essa sempre jogou na conta do chá.

O fato é que dá pra contar nos dedos da mão esquerda do presidente Lula quais foram os grandes jogos da Copa. E por mais que o torneio tenha naturalmente uma aura mágica, é possível contar nos dedos dos dois pés da Cicarelli as partidas horrorosas que tivemos.

Entendeu a analogia?

Mas se basta lembrar da versão de 2002 para perceber que tudo poderia ter sido melhor, também basta lembrar de 2006 para perceber que esta Copa não foi nenhuma aberração histórica. Foram altos e baixos, números mentirosos e verdadeiros, quentes e frios. Abaixo do que esperávamos pré-mundial, porém acima do que imaginamos pós-1ª rodada.

Enfim, mais uma Copa. Morna, mas ainda sim uma Copa.

Que venha 2014!

Postado por: Henrique Rojas.

A mensagem é o meio

Escrevo antes da final da Copa. E antes que o assunto seleção brasileira murche de vez, aqui vai uma última e breve divagação.

As reações apaixonadas aos posts contra e a favor de Dunga (de Antonio Nogueira e de Antero Neto) que propositalmente confrontamos aqui chamaram minha atenção para dois pontos, um ligado ao outro.

O primeiro é que cada texto (e seus respectivos apoiadores) se associa a uma maneira oposta de ver o futebol.

Uma visão é a de que o futebol é berço da arte, do prazer, da alegria. Para os defensores deste lado, mais importante que ganhar é encantar. E a melhor maneira de entrar para a história é jogando bonito.

Quem está deste lado provavelmente condenou o futebol pregado pelo (agora ex) treinador da seleção.

Uma visão antagônica a essa lembra que o futebol, antes de ser um espetáculo, é um esporte. E no esporte, busca-se a vitória, ora essa. Beleza? Arte? Nada: o resultado é mais importante. Como na guerra, quem entra para os livros é quem ganha.

Quem concorda com isso deve estar entre os que apoiaram o texto que livra a cara de Dunga.

Mas outra coisa chamou a minha atenção:

As seleções brasileiras das duas últimas Copas foram talhadas para agradar em cheio os defensores de cada uma dessas posições — a de 2006 era a que jogaria bonito; a de 2010, traria a vitória a qualquer custo. Só que essas seleções acabaram decepcionando até quem concordava com a visão que elas representavam.

Explico: a seleção de 2006, com seu quadrado mágico, com atletas que foram eleitos os melhores do mundo e tocavam a bola de pé em pé embalados pelo mantra “joga bonito”, deveria encantar quem apóia um futebol mais, digamos, artístico.

Só que ela acabou desapontando os defensores da poesia no futebol ao desfilar na maior parte do tempo uma performance apática, desinteressada, sem inspiração. Fosse um espetáculo, levaria tomates.

Já 2010 seria a forra de quem sempre viu no grupo anterior um bando de mercenários sem gana. Agora teríamos um técnico enérgico, que faria de tudo pelo resultado e comandaria um grupo de guerreiros, de “comprometidos” com a seleção brasileira.

Mas a guerreira e comprometida seleção de 2010 fraquejou ante à Holanda. Perdeu todo o prumo após dois gols bestas. As pernas tremeram e ninguém conseguiu fazer nada para conseguir o resultado — aquele que justificaria tudo, lembra?

As duas visões extremas sobre o futebol falharam. Então pergunto: por que não o caminho do meio?

Como em 2002, quando Felipão botou ordem na casa depois da mais acidentada campanha que o Brasil já teve nas eliminatórias.

Ele fortaleceu a defesa, botou três zagueiros e fechou os ouvidos para os pedidos por um envelhecido Romário. Mas apostou nos craques. Botou Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo para decidirem a Copa. Decidiram.

O meio, gente. Como em… 1970.

Isso mesmo, a mais brilhante seleção de todos os tempos, a que mais deu espetáculo e mais abasteceu o You Tube com lances superlativos era sim, “comprometida”.

A começar pelo começo: a delegação foi a primeira a chegar no México, para se aclimatar à altitude. A preparação foi tão perfeita que em todos os jogos a seleção sobrava no segundo tempo.

Ela tinha também muita obediência tática. Tostão sempre lembra que, quando não tinha a bola, aquele time voltava todo para marcar a saída do adversário. Solto, só ficava Pelé.

Pelé, aliás, é outro exemplo de seriedade daquele grupo. Ele já era a maior estrela do futebol mundial há uma década. Mas botou na cabeça que faria de tudo para ganhar e arrebentar na sua última Copa. Ganhou e arrebentou.

Perceba, pelos exemplos, que o meio não é sinônimo de medíocre. Pelo contrário. Evitar os extremos pode ser o caminho para ser brilhante.

Pois é. No futebol, nem sempre o melhor é jogar pelas pontas.

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Agora escrevo logo após a final da Copa. E deu Espanha.

O time com os jogadores mais habilidosos, que nunca maltratou a bola e que ganhou tudo desde as categorias de base superou merecidamente um time pragmático e que bateu muito, na Copa toda e em especial na final.

O futebol bonito venceu o futebol de resultados?

Calma, nada é tão simples. O time do futebol-arte foi o campeão com o menor númerode gols na história das Copas. E, embora tocasse lindamente a bola, muitas vezes não tinha objetividade alguma.

E o time que não se importava com o espetáculo havia vencido todos os seus jogos desde as eliminatórias, tinha feito doze gols na Copa e contava com dois grandes jogadores, Robben e Sneijder.

Como a vida, o futebol é complicado. E, em ambos, convém não ser nem tanto lá, nem tanto cá.

(* amanhã, mais sobre a final da Copa.)

Postado por: Marcos Abrucio