O Copawriters errou. (Mas o Brasil, muito mais.)

Postado por: Marcos Abrucio

Pois é.

Havia um erro elementar no meu último post. Eu dizia que, sem Neymar, a seleção não tinha mais a obrigação de ser campeã. Sem essa pressão, poderia a) se acomodar e aceitar a provável derrota para a Alemanha; ou b) se encher de brios e, mesmo sem seu craque, jogar de forma inteligente e ambiciosa pra tentar ganhar dos caras.

Mas, como até os marcianos agora sabem, existia uma outra alternativa: levar a maior piaba da nossa história.

Cadê a bola?

Cadê a bola?

***

(Melhores partes daquele texto: “…não havia mais o risco de um vexame catastrófico, um novo Maracanazo “; “Vergonha nenhuma cair agora [contra a Alemanha]”.

Sabe de nada, inocente.)

***

Se não dava para prever esse atropelamento, mesmo agora ainda é difícil entender o que aconteceu.

Porque 7×1 não existe. Nem no primário, nem na quadra do condomínio. Nem jogando contra o time do seu irmão mais velho. Nem com três jogadores a menos. Também não existe levar quatro gols em seis minutos. Nem no pebolim você consegue tal proeza.

Mesmo no estádio, eu também achei.

Mesmo no estádio, eu também achei.

Mas existem, sim, explicações. E responsáveis:

1) Os jogadores, claro. Foi certamente o pior desempenho da vida de todos – menos de Fred, que foi igualmente péssimo em todos os jogos. Mas mais grave foi a falta de maturidade e controle emocional naqueles malditos 360 segundos. Ninguém conseguiu botar a bola no chão, ou chutá-la para o mato, ou simular um enfarto, enfim, fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Ao contrário do Fred, a zoeira não para.

Ao contrário do Fred, a zoeira não para.

Porém, culpar o “apagão” é simplificar demais. Pior, é esconder o principal: esse time foi mal montado, mal treinado, mal preparado. Mal era um time. E aí chegamos ao maior dos responsáveis, pelo menos pelo que aconteceu na terça:

2) Luiz Felipe Scolari. Dói apontar o dedo para ele. Sem Felipão, o penta não teria vindo. Mas se em 2002 ele foi perfeito, agora foi desastroso. Teimoso, apegou-se ao time do ano passado como quem se apega a uma cueca da sorte. Tudo bem, a lista de convocados não seria muito diferente dessa, mas faltou treinar alternativas de jogo. Fred claramente não estava funcionando, e nunca foi treinada uma opção sem ele. Nosso meio de campo nunca existiu.

Contra a Alemanha, Felipão se superou. O mundo inteiro conhece, pelo menos desde 2006, a força e o brilho do meio-campo alemão. Os olheiros da seleção, Gallo e Roque Jr., recomendaram povoar aquela área (bom, até o meu post recomendava isso!). Sugeriram escalar Paulinho e William. Mas o técnico bancou Bernard, aberto e solitário na ponta. No meio, um deserto.

Oscar sozinho no meio.

Oscar sozinho no meio.

No dia seguinte, Felipão e Parreira afirmaram que não haviam feito nada de errado. Além de incompetentes, arrogantes.

Mas é ilusão achar que nossos problemas acabam aí. Nunca, jamais, podemos esquecer da…

3) Multimilionária CBF, responsável direta pelo paupérrimo futebol praticado por aqui. Quem acompanha o Brasileirão sabe do que estou falando:

Nossos times estão falidos; os jogos, feios, faltosos e modorrentos; a média de público é pífia; o calendário é burro; os técnicos são defasados e prepotentes (mas também milionários); as categorias de base já não revelam mais ninguém.

Nosso “futebol bonito” agora é um jogo defensivo e covarde. Os craques do meio-de-campo deram lugar a zagueiros gigantes, que fazem gols nas bolas paradas e depois fecham o time para garantir o 1×0.

A raiz disso tudo? Nossa maior paixão é administrada por dinossauros arrogantes, despreparados e/ou corruptos.

Tiranossaurus Marinus

Tiranossaurus Marinus.

Mas se está tudo errado, por que não tínhamos passado por essa vergonha interplanetária antes? Primeiro, porque trata-se de futebol, esporte que nem sempre respeita a meritocracia (olha a Argentina, de administração tão arcaica e corrupta quanto a nossa, na final da Copa); segundo, porque nossos craques sempre livraram a cara da seleção.

Só que eles foram rareando, rareando, até sobrar apenas um – e desde a joelhada do Zuñiga na sexta passada, nenhum. Sem nenhum fora-de-série, nós (e o mundo) demos de cara com o real estado de coisas do nosso futebol.

***

Tudo isso, somado, não explica o 7×1. Sim, foi um resultado atípico. Mas não à toa. Só pra comparar:

Desde 2000, a Alemanha reformulou todo o seu futebol, desde as divisões de base de cada clube. Foram anos estimulando a formação de novos jogadores e técnicos. O físico deixou de ser o mais importante no futebol alemão: desde pequenos, os atletas treinam a parte técnica e tática. Em 2006, começa a aparecer uma nova geração de craques habilidosíssimos, fruto dessa política. A comissão técnica da seleção foi mantida e o time foi ficando mais forte. Chegando ao Brasil, construíram um centro de treinamento na Bahia. Testaram diferentes formações, crescendo ao longo da Copa. Para a semifinal, eles estudaram nossa seleção e montaram ensaiaram jogadas como a do primeiro gol.

E o Brasil, o que fez? Chamou o Vampeta e o Edilson para puxarem o pagode no busão.

Depois eu que não sei de nada.

***

O Mineirão antes do caos.

O Mineirão antes do caos.

Foi duro ver de perto Brasil x Alemanha (ou Alemanha x catado dos moleques do meu bairro, não sei ainda). Ainda mais NO MEIO da torcida alemã!

A Alemanha às minhas costas.

A Alemanha às minhas costas.

Mas o sentimento não é de tristeza, como em 50 ou em 82. No Maracanazo, o país era muito diferente, e a virada no finalzinho foi sofrida e inesperada. No Sarriá, choramos a derrota de uma geração admirável, que jogava como sempre sonhamos.

Não é o caso agora.

O que vai doer mesmo é associar uma Copa que foi tão legal, a esse jogo.

A Copa das Copas, dos memes, da zoeira, das zebras, das prorrogações emocionantes, do times ofensivos, da maior média de gols em décadas, das invasões de torcedores do mundo todo, dos latinos acampando na nossa porta, a Copa mais divertida de todas, a que eu assisti em casa, seja no sofá ou no estádio aqui do lado, não merecia isso.

Vou sempre lembrar dessa Copa com alegria. E para manter viva essa sensação, é só dar play aqui embaixo:

OOOOEEEEEEAAAAAAAAA!

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“Muchos años en blanco”

Postado por: Flávio Tamashiro

Segunda-feira, 7 de julho. Dia morno, sem Copa, só na contagem regressiva para as semifinais. Pergunto a um hermano:

– Como se diz em espanhol que um time está na fila?

– ¿Cómo así?

– Sabe como é, sem ganhar um título há muitos anos…

– Ah, sí: ¡Está muchos años en blanco!

– Boa, então posso dizer que “Argentina está muchos años en blanco”?

– Por supuesto…

* * *

Por incrível que pareça, o diálogo acima não foi uma provocação. Foi por curiosidade mesmo. Esse hermano nem é argentino: é meu amigo colombiano.

A questão é que Alemanha, Argentina e Holanda, as seleções que acompanham o Brasil no mata-mata final, têm algo em comum: estão na fila há tempos. Eu me lembro de acompanhar o último título de cada uma delas e o mais engraçado é que o futuro parecia promissor para as campeãs.

 

26 anos de fila

Em 1988, a Eurocopa oferecia somente o “crème de la crème” do futebol europeu: apenas 8 seleções se classificavam para o torneio. A Holanda tinha um timaço com Van Basten, Gullit e Rijkaard. E no banco o inventor do Futebol Total: Rinus Michels.

Craques da moda (dá um desconto que eram os anos 1980)

Craques da moda (dá um desconto que eram os anos 1980)

Não existia essa de acompanhar os craques pela ESPN e comprar camisas com nome de gringo nas costas. Acompanhar a transmissão de um torneio desses era equivalente a ver uma miniCopa do Mundo. E a Laranja ganhou de forma incontestável ao bater a dona da casa Alemanha na semifinal e a poderosa URSS na final, com direito a um golaço de Van Basten.

A Holanda chegaria à Copa de 1990 como favorita ao título, mas sairia de lá sem uma vitória sequer. Após o título em 1988, os holandeses demoraram 22 anos para disputar uma nova final, a da Copa de 2010.

Em 1990, a Holanda não mostrou futebol nem espírito esportivo

Em 1990, a Holanda não mostrou futebol nem espírito esportivo

 

Há 21 anos, o último herói: Batigol

No início dos anos 1990, a Argentina tinha um timaço com Simeone, Redondo e Batistuta. Mesmo assim, o último título da seleção principal deles na Copa América de 1993, no Equador, não foi de grande brilho. A campanha dos hermanos antes da disputa final com o México incluiu 4 empates e uma única vitória sobre a Bolívia. No caminho, eliminou o Brasil nos pênaltis.

Na final, o atacante Gabriel Batistuta marcou dois gols sobre o time asteca e sacramentou a vitória da albiceleste. Foi o 14º título argentino na história da Copa América.

Depois daquela final, os argentinos chegaram a mais 5 finais, mas não conseguiram acabar o jejum.

Copa de 1990

Copa das Confederações 1995

Copa América 2004

Copa das Confederações 2005

Copa América 2007

 

1996: Fim do sonho Tcheco e início do jejum alemão

“O futebol são 11 contra 11 e no final ganha sempre a Alemanha”, bradou o atacante Gary Lineker após a eliminação de sua Inglaterra no Mundial de 1990. A frase explicitava o força do futebol alemão na época. A conquista de 1996 ratificou a fama do time germânico e serviu para redimi-lo da inesperada derrota para a “Dinamáquina” na final da Euro de 1992.

Lineker, “O pensador de duas cabeças”

Lineker, “O pensador de duas cabeças” 

A Euro de 1996, na Inglaterra, foi a primeira com 16 seleções participantes. Na fase de grupos, a surpresa ficou por conta da eliminação precoce da Itália, que ficou atrás da República Tcheca. A partir daí, os tchecos seguiram sua surpreendente caminhada até a final.

A República Tcheca tinha um tal de Nedved

A República Tcheca tinha um tal de Nedved

Smicer, Poborsky e Nedved eram nomes muito comentados naquele torneio pelo bom futebol. O problema é que na final estava a Alemanha. Os tchecos começaram bem e chegaram a sonhar com a taça ao abrir o placar no segundo tempo de pênalti.

Berger: "Essa Copa é nossa!"

Berger: “Essa Copa é nossa!”

Mas na sequência, a Alemanha voltou a ser a velha Alemanha e deu no que deu: Bierhoff empatou no tempo normal e marcou o gol de ouro na prorrogação, o primeiro de um torneio oficial.

A Alemanha disputou mais finais após aquela Euro, mas não levantou nenhuma taça. Do jeito que vai, o Lineker vai ter de rever sua frase.

Copa de 2002

Euro 2008

Uma desculpa para perder ou uma força para ganhar?

Postado por: Marcos Abrucio

Qual a alternativa?

Qual a alternativa?

Leia (ou releia, vai) este texto amanhã, lá pelas sete e pouco da noite. Logo depois de Brasil x Alemanha. Pegue então uma caneta e assinale a alternativa que mais se aproxima do que aconteceu nesse jogo.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. A seleção já não tinha mais a obrigação de ser campeã mundial. Sem nenhum fora-de-série, sem nenhum gênio, sem nenhum extraterrestre, o favorito virou azarão. Também não havia mais o risco de um vexame catastrófico, um novo Maracanazo. Evidente que os jogadores tiveram esse medo contra o Chile. Não dava para cair numa oitavas-de-final, em casa, contra o eterno freguês. Ninguém queria ser o responsável por essa mancha no nosso currículo. Daí tanto choro, tanta tremedeira, ai, meu estômago ainda dói. Também não podíamos perder para a Colômbia, com todo respeito à seleção que melhor havia jogado até então. Mas beleza, passamos por um e por outro. Agora era semifinal, amigo, só cachorro grande. E contra a Alemanha, o rottweiler das Copas. Mais: uma Alemanha renovada, que une a eterna eficiência alemã ao toque de bola (quem diria!) de caras como Müller, Schweinsteiger, Lahm e Kroos. Vergonha nenhuma cair agora. Isso tirou o peso das pernas dos nossos jogadores – mas também o sangue dos olhos deles. Quando o jogo começou, o Brasil aceitou facilmente o favoritismo alemão. Preocupado demais em cercar os craques tedescos, abriu mão de jogar o seu jogo. E aí não teve jeito: uma hora o talento e o entrosamento dos loirões fez a diferença, vazando o Júlio César sem dó. Claro, nosso extraterrestre fez muita falta. Mas o resto do time aceitou fácil demais a derrota. Talvez achassem que já tinham ido longe demais. Afinal, tinham desculpas demais para entregar os pontos. No fim, a torcida aplaudiu tristemente o esforçado time de operários. Saímos derrotados – na verdade, entramos derrotados.

(  ) Sem Neymar, a pressão se foi. No lugar dela, uma motivação ainda maior. Um time que nessa Copa já tinha se mostrado de mais empenho do que de futebol bonito (quem diria!) entrou em campo ainda mais ligado. Era preciso correr não só por Neymar, mas também pelo capitão Thiago Silva. Mas a seleção chegou ao Mineirão sabendo que não adiantava só entrar com a raça redobrada: tínhamos que jogar bola. E os brasileiros jogaram. Primeiro, marcaram os craques do outro time como se deve: grudadinhos no cangote deles. Depois, botaram os nervos no lugar e a bola no chão. Foi como se lembrássemos que, mesmo sem Neymar, temos um ótimo time, com jogadores habilidosos, que jogam nos maiores clubes do mundo. Um time muito melhor, por exemplo, que Gana e Argélia, que empataram com a Alemanha nessa Copa. Claro, o jogo foi duro, duríssimo. Neymar fez muita falta (em que time ele não faria?), mas o meio-campo, antes um Atacama, foi finalmente povoado. Com as ações equilibradas ali na meiúca, foi a vez da seleção alemã lembrar do trauma que eles têm de jogar contra o Brasil. O jogo deles não encaixa com o nosso, como o nosso não encaixa direito com o do México. E descobrimos, olha só, que a geração dourada alemã também tem seus cabeças-de-bagre. Foi em cima de Höwedes que saíram nossas principais jogadas – e o gol da nossa vitória. Os operários brasileiros também foram solistas e, empurrados pela torcida, pela gana de honrar nosso craque e pelo seu próprio talento, derrotaram a temida seleção alemã e conseguiram seu lugar na final da Copa do Mundo.

***

Amanhã estarei no Mineirão para ver de perto qual alternativa o Brasil vai escolher. E também para ajudar a botar o xizinho no lugar certo.

Minha aposta? Essa aqui:

“Vou torcer para o Brasil perder na semifinal!”

Postado por: Flávio Tamashiro

A frase acima foi dita em alto e bom som por uma torcedora brasileira a seu acompanhante na saída do Estádio Mané Garrincha após o jogo Brasil x Camarões. Tudo porque ela lembrou que só tinha ingressos para mais um jogo: a disputa do 3º lugar em Brasília. E antes mesmo da reação de indignação que tomaria seu acompanhante e os torcedores à sua volta, ela completou a pérola: “É, porque se for minha única chance de ver o Brasil jogar na Copa de novo, prefiro que a seleção dispute o 3º lugar!”

"Perder na semi? Tem dó!"

“Perder na semi? Tem dó!”

A reação dos torcedores foi de censura ainda que silenciosa: olhares de reprovação, risinhos de ironia, gente balançando negativamente a cabeça. Alguém comentou baixinho o quão egoísta era aquele pensamento. Muita gente concordou. “Como alguém pode pensar somente em si mesmo? E em plena Copa do Mundo!”, diria um amigo.

Mas pera aí? Pensar em si mesmos não é o que 99% dos torcedores fazem? E não vale falar da famosa torcida por solidariedade – “Ah, vou torcer pela França também porque meu avô é francês.”

"Eu sou mais eu!"

“Eu sou mais eu!”

Que eu saiba ninguém torce pelo Brasil pensando na felicidade do irmão, do amigo, do vizinho, do avô. Você pode até ter começado a torcer por influência de algum deles, é verdade. Mas com certeza hoje a pessoa que você mais quer ver feliz depois do jogo é você mesmo. E pode apostar que não é um fenômeno brasileiro: deve acontecer a mesma coisa com torcedores na Argentina, na Alemanha e… na Colômbia.

"Pelo amor dos meus filhinhos! Muda o time, Felipão!"

“Pelo amor dos meus filhinhos! Muda o time, Felipão!”

* * *

Nesta Copa, acompanhei dois amigos colombianos nas partidas da seleção deles em Brasília e Cuiabá. A torcida de nossos vizinhos é animada, festeira e fanática por futebol como nós. Na verdade, posso dizer que são mais animados do que nós no que diz respeito a torcer por sua seleção. Meu amigo Juan diz que os 16 anos dos “Cafeteros” longe das Copas é um dos motivos da invasão colombiana no Brasil em 2014.

Sou o colombiano da direita.

Sou o colombiano da direita.

A festa da torcida brasileira no confronto contra Camarões não chegou perto da algazarra provocada pelos colombianos nas partidas contra Costa do Marfim e Japão. Parabéns para eles. O futebol deles também enche mais os olhos do que o da nossa seleção. Ponto para eles novamente.

Febre Amarela nas arenas brasileiras

Febre Amarela nas arenas brasileiras

A vibração deles nas arquibancadas é contagiante. Não é à toa que se sentiram em casa em todas as partidas até agora. Eu mesmo me peguei vibrando com os gols de James e Quintero. Mas hoje a história muda de figura. O jogo é Brasil x Colômbia. Desculpem-me o egoísmo, amigos Juan e Andrés. Sei que sentirei falta da festa colombiana, mas após a partida eu espero poder comemorar mais do que vocês.

Vai, Brasil! P*rra!

Vai, Brasil! P*rra!

Por quem torço

Postado por: Marcos Abrucio

Como se sabe, o melhor do futebol é torcer (em segundo lugar, torcer contra). É por isso que, apesar de todas as suspeitas, bandalheiras, cafonices e decepções, quando chega a Copa eu não abro mão de apoiar o meu time – o Brasil-sil-sil.

(Lembrando que cada um tem seu time, ou nenhum time e torce se quiser. Se estiver a fim de torcer contra a seleção, fica a vontade. Valeu.)

Mas ser torcedor é tão bom que na Copa a gente não se esgoela por uma seleção só. Eu, por exemplo, também torço…

1) Pelos EUA.

Sim, pelos ianques imperialistas malditos. Vibrei nos jogos contra Gana e Portugal e sofri quando a Bélgica mandou os ianques imperialistas malditos para casa. Mas não foi só agora. Em toda Copa, estou eu ao lado desses caras:

Por quê? Imagina que você é um excelente jogador de badminton. Campeão mundial, ídolo na Tailândia e Indonésia, o caramba. Só que ninguém na sua rua sabe disso. Ninguém tem a menor ideia do que é badminton. “Peteca? Você joga peteca?”, todos perguntam.

É o que acontece com o futebol. O Brasil é pentacampeão mundial, teve os melhores jogadores de todos os tempos… e os EUA, que controlam a maioria da mídia e da indústria do entretenimento planetário não estão nem aí. “Com os pés? Vocês pegam na bola com os pés?“, eles perguntam.

Eu acredito que quanto melhores os americanos se saírem nas Copas, mais vão amar o esporte. E mais vão dar valor a quem manda nessa droga, nós.

Torcer pelos EUA (o que não é nada fácil, acredite) = torcer pelo Brasil.

Tá dando certo, olha só:

Em vez de futebol americano, futebol.

Em vez de futebol americano, futebol.

Em vez de beisebol, futebol.

Em vez de beisebol, futebol.

Em vez de House of Cards, futebol.

Em vez de House of Cards, futebol.

***

2) Pelos pequenos.

Eu (e todo mundo, admita) sempre torço pelos timecos contra as potências. Não é (só) espírito de porco. É também a emoção de ver que no futebol todos têm chances, mesmo os menores, os mais fracos, os mais toscos, os americanos.

É o que faz deste o mais democrático dos esportes – e por isso mesmo, o mais nobre dos esportes.

Por isso vibramos tanto com zebras como essa:

***

3) Pelos Grandes (Craques).

Não, não torci pela Argentina ou por Portugal. Mas não torci contra Messi ou Cristiano Ronaldo, como muitos fizeram.

(Para mim, vaiar a cada vez que eles tocam na bola é inexplicável. Os caras são os melhores do mundo no que fazem, e as pessoas ficam torcendo para eles se ferrarem. É como ir a um show do Eric Clapton e torcer para ele errar uma nota.)

Os gênios do esporte merecem respeito – e sempre tiveram a minha torcida. Nunca torci contra Michael Schumacher, Michael Phelps, Michael Jordan e todos os outros grandes Michaels. Apesar de não serem brasileiros, nunca tive problema nenhum com as hegemonias que eles impuseram. Eles são o que a espécie teve de melhor.

Torcer por eles = torcer pela humanidade.

Ele merece.

Ele merece.

***

4) Pelos goleiros.

Aí é por solidariedade de classe. Mas torci muito pelo interminável italiano Buffon, pelo inacreditável mexicano Ochoa, pelo elástico nigeriano Eneyama, pelo surpreendente argelino Rais e pelo milagroso americano Howard.

Mas não adiantou muito, não. Já foram todos para casa.

Ochooooooooooooaaaaaaaaaaaaa.

Ochooooooooooooaaaaaaaaaaaaa.

Raiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis.

Raiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis.

Hoooooooooooooooward.

Hoooooooooooooooward. 

***

5) Pelas prorrogações e pelos pênaltis.

Quando não é o meu time que está no meio, claro. Mas prorrogação e pênaltis para os outros é um belo refresco. E quanto mais dramáticos, mais sangue e mais ranger de dentes, melhor.

É, nesse caso, acho que é espírito de porco, mesmo.

***

Mas eu torço mesmo é…

6) Para essa Copa nunca acabar.

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(foto)

Em casa

Postado por: Marcos Abrucio

Eu tenho uma camiseta da Inglaterra. De goleiro. Comprei porque sempre curti os uniformes da seleção inglesa. Porque gosto de catar no gol. E porque ela é “british green”, verde tradicional das equipes inglesas no automobilismo.

Não comprei, portanto, por uma simpatia especial com os campeões de 66. Pelo contrário: sempre os achei meio grossões. Nunca imaginei que um dia estaria pulando no meio da torcida britânica, comemorando um gol de Wayne Rooney.

No meu primeiro jogo de Copa do Mundo.

Inglaterra x Uruguai, aqui em casa.

Inglaterra x Uruguai, aqui em casa.

Talvez a parte mais emocionante da Copa no Brasil seja justamente essa: a de tornar reais coisas inimagináveis. Por exemplo: aqui na esquina tem um boteco absolutamente comum. Não é pitoresco, gostoso, barato, nada. Pois agora mesmo, voltando pra casa, vi um grupo de torcedores ingleses sentados nesse boteco devorando um contra com fritas. Felizões.

Nunca imaginei.

Hoje, pegando o metrô que eu sempre pego, tive a companhia de milhares de ingleses (a maioria) e uruguaios ­­- e também de mexicanos (um monte), colombianos, croatas, argentinos… Todos em paz, deslocando-se até o outro lado da cidade sem problemas. Um dos gingos, com dentão quebrado de hooligan, até gritou isso no vagão:

Já no estádio, foram muitos outros gritos, “Go, England!” de um lado e os “Soy celeste!” do outro.

Não fui com a camisa da Inglaterra. Isso indicaria uma torcida prévia da minha parte. E, em Copas do Mundo, muitas vezes você escolhe o seu lado pelas circunstâncias do jogo, do momento. Várias coisas podem influenciar: a simpatia por um time mais fraco, a admiração por uma campanha heróica, por um jogador excepcional…

Fiz bem: a neutralidade me deixou livre para me empolgar com os dois lados. Com a adoração que os ingleses têm com Rooney (até quando ele erra uma bola na cara do gol, todos gritam o nome dele ­- e não gritaram o nome de mais ninguém) e com o jogo monstruoso que fez Luis Suárez, cadeirante um mês atrás e que hoje ressuscitou sua seleção.

Os uruguaios estavam em menor número, mas quando subiam a voz, incendiavam o estádio. Mas eu fiquei no lado onde estava a maioria dos ingleses. E aí não deu para não me solidarizar com eles…

Antes do jogo, arrepiou o “God Save the Queen” bem atrás de mim:

A bola rolava e a gente brincava: pô, o Rooney nunca fez gol em Copas! Vai ser hoje, respondiam mais pra eles do que pra nós. Foi emocionante ver o ídolo-mor dos caras finalmente desencantar. Mais ainda foi virar para trás e vê-los estáticos quando Gerrard cabeceou para trás e Suárez botou o Uruguai na frente de novo. De cortar o coração.

Oh, fuck.

Oh, fuck.

Depois, fomos embora todos juntos. No metrô, dois deles olharam para nós, brasileiros de camisa do Brasil, falando de jogadores brasileiros muito melhores do que o Rooney: “Yeah, you can laugh”. Até rimos, mas foi na boa. Estávamos na mesma torcida, cara.

E tudo isso teria sido muito legal em um jogo de Copa em Berlim, em Yokohama, em Roma, na Cidade do México. Mas foi aqui em São Paulo, na minha cidade. Fiz baldeação na estação da Luz (inglesa!) e depois na Paulista. E quando saí do metrô, estava na porta da minha casa. Felizão.

Meninos, eu vi.

Meninos, eu vi.

 

15 motivos para amar a Copa no Brasil (por enquanto, por enquanto)

Postado por: Marcos Abrucio

2010 já era.

2010 já era.

1. Melhor média de gols (3,36 até agora) das últimas 15 Copas.

2. Ainda não teve 0x0.

3. Ainda não teve empate. (Os americanos agradecem.)

4. Já foram cinco viradas (Brasil x Croácia, Espanha x Holanda, Costa do Marfim x Japão, Uruguai x Costa Rica).

5. 800 carros cruzaram a Cordilheira dos Andes em procissão do Chile até Cuiabá. Depois, como os brasileiros, cantaram junto com o time:

 

6. A Holanda se hospedou em Ipanema e os jogadores curtiram o Rio até de manhãzinha. Depois deram uma sacolada na Espanha.

7. A Holanda deu uma sacolada na Espanha.

Repara na legenda.

Legal é a legenda.

8. Teve gol de Pablo Armero. E, claro, o Armeration.

Axé de Bogotá em BH.

Axé de Bogotá em BH.

9. O Beira-Rio ficou azul para França x Honduras.

10. Metade do Maracanã foi tomado por argentinos.

11. A outra metade gritou “ÔôôôôôÔôôôôôÔôôôôôÔ Bós-nia!

12. Esses torcedores gregos:

Não faltou vigor à torcida.

Não faltou vigor à torcida.

13. Esses torcedores suíços:

Brasília, 13h.

Brasília, 13h.

14. Porque, como em toda Copa, teve isso:

 

15. Porque só aqui tem isso:

 

Tá certo que os estádios continuam tendo custado R$ 1 bilhão, que piscou a iluminação do Itaquerão, que tá faltando água e comida nas lanchonetes, que a arbitragem é abaixo da critica e a Suíça ferrou meu bolão aos 47 do segundo tempo, mas até agora… #melhorcopa.

Por enquanto, por enquanto.