Meu Amigo Marroquino

França, junho de 1998. Brasil e Noruega se enfrentariam em Marselha pela última rodada da primeira fase da Copa do Mundo. O Brasil já estava classificado em primeiro lugar no grupo e jogaria apenas para cumprir tabela. A Noruega precisava ganhar para ir adiante na Copa. A vitória do Brasil daria a classificação para Marrocos, caso este também vencesse seu jogo contra a Escócia.

Eu estava em Cannes, perto de Marselha, participando do festival de publicidade. E obviamente, estava louco para ver pela primeira vez, no estádio, uma partida de Copa do Mundo.

No dia do jogo, chega a notícia de que um dos patrocinadores do festival iria distribuir ingressos para a delegação brasileira. Nem acreditei. Vesti minha camisa do Brasil, corri para o local marcado e fui colocado dentro de um ônibus, junto com dezenas de publicitários brasileiros, todos sedentos para ver a seleção.

Chegamos em Marselha faltando meia hora para começar a partida. Só então o patrocinador informou que não tinha ingressos suficientes para todos e que iria fazer um sorteio. Revolta generalizada. O jogo prestes a começar. Ir até lá e não entrar no estádio seria demais. O alívio veio quando escutei meu nome sendo sorteado. Agarrei meu ingresso, voei para dentro do ônibus e fui deixado em uma praça que, segundo disseram, era perto do estádio Vélodrome. Olhei no relógio: 5 minutos pra começar. Olhei em volta: nem sombra do estádio.

Saí correndo como um louco, guiado pelo som da torcida. Quando consegui chegar no portão do Vélodrome, suado e à beira de um enfarte, a bola já estava rolando há 15 minutos.

Uma moça da organização me levou rapidamente até o meu setor na arquibancada. Meu lugar estava lá, vazio, esperando por mim. O único em todo o setor. Já pensou se fosse no Maracanã?

Sentei, olhei pro campo e vi o Ronaldo com a bola. Nem acreditei que eu estava ali. Olhei em volta. Só torcedores da Noruega. Acho que toda a população do país foi ao jogo. Olhei pro sujeito ao meu lado. Um marroquino, devidamente trajado com o uniforme da sua seleção. Ele olhou pra mim e, imediatamente, selamos um pacto silencioso. Naquela arquibancada, éramos nós contra o resto.

Lá pela metade do segundo tempo, Denílson cruzou da esquerda e Bebeto fez de cabeça, bem na nossa frente. Eu e meu amigo marroquino nos abraçamos e provocamos a multidão de vikings que nos cercava.

O placar anunciou Marrocos 3, Escócia 0. Tudo perfeito. Meu amigo estava eufórico.

Mas a Noruega tinha um tal de Flo, centroavante que estava incomodando bastante a nossa defesa. E ele empatou logo depois, para delírio dos noruegueses. Encolhido em meu assento, olhei para o meu amigo e percebi a tensão que se instalou em seu rosto.

No penúltimo minuto, Junior Baiano puxou Flo na área. Do nosso lugar não deu para ver o pênalti, mas ele foi marcado. Eu e meu amigo marroquino, indignados, xingamos o juiz em português, árabe e francês. Gol da Noruega. Marrocos estava eliminado da Copa.

O apito do árbitro encerrou a partida e a nossa amizade. O marroquino me encarou com raiva, virou as costas e foi embora.

Postado por: Rodrigo Mendonça

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s