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Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 2

 

O manto do Rei

 

“When you’ve won as many World Cups as Brazil — five — you are allowed to dress in gold.”

É o que diz o jornal inglês Daily Mail, britanicamente jogando com os dois sentidos da palavra “ouro”, ao eleger o uniforme da seleção brasileira como o melhor de todos os tempos.

A camisa canarinho não se dá bem apenas em Copas do Mundo. Ela também coleciona vitórias em eleições desse tipo ­— deixando para trás outras belezinhas como a camisa laranja da Holanda e a branca do Real Madri.

Em 2007, outro jornal inglês, o Times, listou as 50 melhores vestimentas da história do futebol, e o resultado foi o mesmo. Entra vinheta sonora: Brasil-sil-sil!

E isso apesar da combinação amarelo e azul com detalhes verdes não ser das mais perfeitas à primeira vista, segundo os especialistas em moda (hmmm) ingleses.

Mas não foram seus dotes fashion (hmmmmm) que fizeram da amarelinha um ícone, e sim o que ela passou a representar — especialmente após 1970.

Jogador, ator e modelo.

 

O amarelo entrou em campo às vésperas da Copa de 1954, em substituição ao uniforme todo branco — apontado como um dos culpados (!) pela derrota na Copa anterior. Segundo os corneteiros da época, a camisa branca não era “suficientemente nacionalista”.

Com apoio da CBD, a CBF da época, o jornal carioca Correio da Manhã lançou em 1953 um concurso para escolher o modelo a ser usado na Copa. A opção vencedora foi mandada por um gaúcho de Pelotas (ok, chega de piadas) de apenas 19 anos, Aldyr Garcia Schlee, que depois se tornaria um reconhecido jornalista e escritor.

O pai da criança.

 

Com a nova camisa, o Brasil ganhou as Copas de 1958 (apesar de ter usado a reserva azul na final) e 1962. Mas foi depois da Copa de 70 que o amarelo da seleção virou um símbolo com vida própria.

Primeiro, porque foi a primeira Copa transmitida ao vivo, via satélite, para o mundo inteiro. Para muitos países, em cores (no Brasil foi em pb mesmo, ô pobreza). Aí, claro, aquele amarelão se destacou.

Ainda mais naquele time. Nunca uma equipe havia unido tão bem jogo sério com jogo bonito, aplicação tática com talento, eficiência com magia. Depois dessa Copa, ao ver a vestimenta amarela entrando em campo os adversários adquirem a mesma tonalidade, e o público já espera o show.

Ao ver amarelo, atenção.

 

Por último, embora na eleição do Daily Mail o vencedor tenha sido o uniforme brasileiro de “qualquer época”, a camisa de 1970 é certamente a mais feliz que já vestimos.

O modelo simples, sem gueri-gueris, a gola redonda e o tom perfeito do amarelo fazem dela um clássico. O engraçado é que duas empresas fabricaram essa camisa, a Athleta e a Umbro. Os jogadores usavam uma em cada tempo. A diferença entre elas está no formato dos números: os da Athleta eram retos, os da Umbro, arredondados.

Athleta, Umbro.

 

Nos próximos dias, a Nike deve lançar o modelo que os jogadores vão usar na África do Sul — e a gente, em peladas e baladas. Esse é sempre um momento de apreensão: vão deixar a camisa bonita ou vão estragar tudo?

Eu torço para que não inventem. Que seja algo simples, elegante, clássico. Como o fardamento de 70. Esse sim, um legítimo Uniforme Inesquecível da Humanidade.

Ver também: Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 1.

Postado por: Marcos Abrucio

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Traumas

Sou só eu ou você também vê algo diferente nesse comercial?

Um cara pede para a seleção ir para a Copa “como quem vai para uma batalha”. Outros exigem “luta” e, em caso de derrota, uma “volta por cima”. Outro avisa: “vamos para a guerra juntos”.

São torcedores do Brasil. Sabe aquele país que sempre se orgulhou do seu “futebol-arte”, berço de craques que jogavam sorrindo e inventavam dribles desmoralizantes? O país onde muitos ainda torcem o nariz para a seleção de 94 porque ela não “ganhou bonito”? Que, aliás, acha que jogar bem é tão importante quanto ganhar? Esse mesmo.

Então o que essas frases estão fazendo na boca da galera? Pode ter certeza que não estão lá à toa. Antes de ligar a câmera para fazer um comercial, infinitas pesquisas são feitas, refeitas e refeitas. Esses gritos de guerra só foram parar no roteiro porque refletem o sentimento do torcedor brasileiro hoje. É fato. Mas o que aconteceu para, no lugar de “artistas”, querermos “guerreiros”?

Fácil: a Copa de 2006, maldita seja.

A Copa a que chegamos como favoritos e da qual saímos com o rabo (e a bola) entre as pernas. Aquela seleção será sempre lembrada como apática, preguiçosa, mascarada, sem gana. É verdade que as expectativas eram muito altas, mas é verdade também que foram muitos os nossos erros. Dos dirigentes, do técnico e dos jogadores. Mas isso é assunto para outro post, ou, pensando bem, melhor não.

2006: falta de Gana

O que eu quero dizer é que o estado de espírito do torcedor brasileiro para a próxima Copa é resultado da catatonia brasileira na Copa anterior. E que esse tipo de trauma é comum, pelo menos nessas bandas.

Em 1950, perdemos a Copa em casa, de virada, podendo empatar e levando um gol Chico Xavier faltando 10 minutos para acabar o jogo. Dureza. Primeiro, o pais inteiro ficou mudo. Depois, soltou os cachorros para todos os lados. Sobrou até para a camisa branca da seleção. Teria dado azar, a desgracenta.

Camisa branca: sai, zica.

Mas quem sofreu mesmo foram os jogadores. Em especial, olha só a merda, os negros e mulatos, como Barbosa, Juvenal e Bigode. Para a massa, faltaram a esses jogadores a raça e hombridade que sobravam nos uruguaios. Nem repararam que o capitão e fodão uruguaio Obdulio Varela também era mulato.

Na Copa seguinte, agora de amarelo, a seleção tratou de mostrar todo o seu apetite. O resultado foi uma das maiores vergonhas da história das Copas: a Batalha de Berna.

Antes do jogo contra a Hungria, os dirigentes brasileiros passaram a noite enchendo a cabeça dos jogadores. Exaltados, os cartolas exigiram honra, patriotismo e até que os jogadores vingassem as mortes dos soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. O que os húngaros tinham a ver com isso, não se sabe.

Os brasileiros entraram em campo pilhados, cheios de fibra. E com 10 minutos, já estava 2 a 0 para a Hungria. No fim, 4 a 2 para os húngaros, Nilton Santos e Humberto expulsos e um baita quebra-pau depois do apito do juiz. Jogadores, cartolas e jornalistas saíram na mão com os adversários, policiais e quem mais aparecesse na frente. Foi feio.

Batalha de Berna: fibra demais dá a maior merda

Outro trauma, enorme, foi o de 82. Para muitos, aquela seleção caiu por só querer atacar. Contra a Itália, “não soubemos jogar pelo empate”. Bem, na Copa seguinte fomos eliminados pela França justamente com um… empate. Os três zagueiros da seleção de Lazaroni em 90 também são filhos diretos das feridas causadas pelas derrotas das seleções “ofensivas” na década anterior.

Aí chegou a Copa de 94, que ganhamos com muito vigor, aplicação defensiva e um sonoro 0 x 0 na final. O grito desentalou da garganta. Finalmente éramos campeões, e agora poderíamos nos soltar (opa), desencanar dos medinhos e nos dedicarmos ao espetáculo, à arte, à diversão, ê, laiá.

É o que vemos no comercial que passava às vésperas da Copa seguinte — repare que o espírito daquela época era exatamente o contrário do de hoje: os jogadores querem se divertir, dar espetáculo (e, no fim, perdem o gol…):

Depois de 2002, com mais uma estrela no peito, esse discurso voltou: a ordem era jogar bonito, com muita alegria e malemolência:

Só que na Alemanha faltou jogar bonito, faltou alegria, faltou malemolência. Faltou ganharmos. E o diagnóstico final: faltou raça.

Mas peraí: no fim, o que nos derrubou não foi a falta de garra, e sim o excesso de talento — só que do outro lado, sob a camisa 10 do adversário.

Clap, clap, clap.

Para conseguirmos superar todos os nossos traumas em 2010, o que eu desejo mesmo é que joguemos tanto quanto esse cara. Na raça e na bola.

Postado por Marcos Abrucio.