Copawriter de Fora I: Meu tetra, por Ricardo Diniz

Amigos, inauguramos hoje uma nova seção aqui no blog: o “Copawriter de Fora”. E o convidado que vai abrir o novo espaço é Ricardo Diniz, 26 anos, também redator publicitário, botafoguense doente e filho de ortopedista (que já operou jogadores de futebol, claro). O assunto não é novo, mas o cenário é.

Aproveitem.

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Meu tetra

Era tarde da noite e eu, assim como a maioria das crianças de dez anos de idade, já estava de pijamas. Sentei ao lado dos meus irmãos no sofá, meus pais e seus amigos atrás de nós e, assim como a maioria dos brasileiros de qualquer idade, estávamos em frente a uma televisão. Afinal, o Brasil iria estrear contra a Rússia.

Mamãe gritava o hino enquanto meu pai batia forte no peito o orgulho de vestir verde e amarelo, imitando os árabes que se açoitavam na rua para reafirmar sua crença em Alá. A camisa que ele vestia era do Banco do Brasil, a peça de roupa mais próxima de um uniforme que havia na casa. Seus amigos, cada um de um país diferente, curtiam nosso vício com o deles na mão: scotch on the rocks.

A gente já morava no Bahrein há mais de dois anos. Então, qualquer oportunidade de patriotismo era aproveitada. E não havia evento mais adequado do que a Copa do Mundo de 94.

Eis a zona do agrião.

Redator publicitário e sheik nas horas vagas.

Meu entendimento sobre a importância dessa competição era pequeno. Acompanhava pouco o futebol. Sabia apenas que o Botafogo tinha sido bicampeão carioca poucos anos antes. Eu gostava mesmo era de jogar. Sendo assim, acompanhei sem nervosismo, mas com muito sono a classificação do Brasil. Os jogos que começavam de madrugada terminavam quase na hora em que os árabes já estavam agachados rezando, corpos virados para Meca, quando o primeiro raio de sol atingia o deserto.

Aláaaaa, meu bom Alá!

Não entendia porque meu pai xingava tanto o tal do Raí. O camisa 10 não era para ser um dos melhores? Gol de pênalti até sua mãe faz, dizia ele, quero ver levar o time nas costas como o Romário. Detalhe: o baixinho jogou tanto, o que não era novidade para ninguém, que nomeamos nosso gato em sua homenagem.

Era engraçado ver aqueles adultos loucos da vida por causa dos jogos. Por causa do horário das partidas e pela bebida, os velhos quase sempre estavam para lá de Manama, capital do Bahrein. Confesso que não lembro muito do melhor jogo da Copa, contra a Holanda. Minha referência de jogo nervoso foi contra os EUA, quando até o amigo americano do meu pai torceu pelo Brasil.

Pois bem, Brasil na final, como Parreira planejou e fuga de Bahrein bem sucedida, como meu pai planejou. Depois de dois anos e meio, estávamos voltando para casa. Mas antes, faríamos uma viagem pela Indonésia e Estados Unidos. O timing seria perfeito: assistir à final em Bali, na casa de um brasileiro conhecido do meu pai, e chegar a Los Angeles, cidade da final, dias depois.

Tudo certo? Não. Fizemos escala nos Emirados Árabes e lá ficamos.
– You have to understand. Brazil is going to play tomorrow and I have to watch the game in Bali, seu merda.
– I’m sorry, sir. The flight is overbooked. You will have to sleep here and take the next flight tomorrow.
– I don’t care, seu viado terrorista, if your country will never go to a World Cup. Mine is about to win one.
– Sorry, sir. Have a nice stay.

Fomos para o hotel e demos uma volta por Abu Dhabi para conhecer. Meu pai estava furioso, apesar de ter se comportado bem no jantar rodeado de italianos. Menos mal que a companhia aérea nos ofereceu uma sala VIP no dia seguinte para acompanharmos o jogo.

17 de julho de 1994. Eu, meu irmão, irmã, pai e mãe fomos ao aeroporto com antecedência. O vôo era bem mais tarde, quase meia-noite. De acordo com os nossos cálculos, viajaríamos sabendo do resultado. Na sala VIP, ganhamos a companhia de uma família árabe que também iria no mesmo vôo e estava torcendo pelo Brasil.

Não preciso lembrar como foi o jogo, da canelada de esquerda na pequena área do Bebeto, do gol quase sem goleiro que o Romário perdeu, do beijo na trave do Pagliuca, da defesa do Taffarel no chute do Massaro, muito menos do Viola fazendo fila. A verdade é que eram passados 10 minutos do segundo tempo da prorrogação, vou repetir, 10 minutos do segundo tempo da prorrogação, quando o alto-falante do aeroporto cansou de esperar:
– Attention passengers of the flight X8GK2 to Bali. Don’t pretend you’re not listening, you know who you are. This is our last call. Last call!

E lá fomos nós e a família árabe, olhando para trás e esticando os ouvidos para tentar captar algum grito de gol do narrador. Nada. Sentamos nas poltronas e obviamente perguntamos para a aeromoça o placar do jogo. Ela não sabia do que se tratava. Perguntamos para um comissário de bordo. Ele foi procurar saber e voltou sem resposta. Avião em silêncio. Era de madrugada e as pessoas estavam se preparando para viajar dormindo, com tapa-olhos.

Esse mesmo comissário voltou mais tarde, tocou no ombro do meu pai e disse:
– Brazil won on the penalty shootout, 3 to 2.

E cinco brasileiros se levantaram, pularam e gritaram como loucos no avião. Os passageiros com os olhos arregalados nos encaravam. Ao fundo, vimos a família árabe que, percebendo nossa alegria, entendeu o recado e se levantou também.

Após alguns minutos de estranhamento e sussurros entre os demais passageiros, o comandante finalmente anunciou que na Copa do Mundo o Brasil havia derrotado a Itália nos pênaltis e era tetracampeão. Em coro o avião soltou um aaaaaaaaah e os comissários nos serviram champagne, cortesia da Garuda Indonesia.

Enquanto todos os brasileiros comemoravam à sua maneira em solo, nós cinco estávamos a alguns mil metros de altitude.

"Obrigado por voar Garuda."

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4 Respostas para “Copawriter de Fora I: Meu tetra, por Ricardo Diniz

  1. Fala Rico, muito bom o texto. Boas lembranças de 94, né? Acho que a final é um dia em que todos os brasileiros lembram onde estavam. Bjo grande

  2. Guilherme Tavares

    Eu conheço o autor e posso afirmar: Gosta de futebol, entende do assunto. Mas jogar, que é bom, não. Se esforça, mas não tem a genialidade necessária. Né não, Sabino?

  3. Pingback: Copawriter de Fora III: A Argentina de 2010 é o Brasil de 1994, por Caio Cassoli « Copawriters

  4. Muito bom!
    me emocionei nessa frase: “E cinco brasileiros se levantaram, pularam e gritaram como loucos no avião.”

    abs

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