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Última chamada para o craque

Já tentei de tudo. Humildemente, abri uma campanha para o Dunga limar pelo menos um dos volantes que infestam a seleção. Armei uma seleção “B” cheia de Gansos e Neymars só para atazanar a “A”. Mostrei que Ronaldinho Gaúcho decidiu muito mais do que um jogo. Quase fui para a fogueira ao dizer que ficaria feliz com o sucesso de Messi na Copa.

Nada deu certo, o que no fundo prova apenas a minha insignificância. Mas agora lanço meu último argumento para tentar introduzir um pouco mais de talento na seleção que sempre foi a mais talentosa de todas:

Os craques nos fazem torcer.

Repetindo: ao todo, Dunga pode levar oito volantes e possíveis volantes para a Copa. Uma desproporção, ainda mais que a moda agora é levar só quatro atacantes, e não cinco, como antigamente.

A lista têm muitos carregadores e poucos afinadores de piano. Sem contar que dentre os prováveis escolhidos vários passam por má fase. São reservas em seus times, ou sofrem com contusões. A zica acomete até o nosso principal pianista, Kaká.

Com tudo isso, fica claro: vai faltar craque. O cara que muda o andamento da partida, que surpreende a todos com um drible, que usa a fantasia para decidir o jogo etc.

Muricy Ramalho, que para muitos tem “retranqueiro” escrito na testa, disse na revista da ESPN deste mês:

“Copa do Mundo se ganha com um diferente, e o nosso único diferente é o Kaká, que é o cara que pode pegar a bola no meio campo e levar dentro do gol dos caras.”

Quer ver como o diferente faz diferença? A França fazia campanha opaca na última Copa. Na primeira fase, dois empates e uma vitória magra contra o Togo. Zidane mal aparecia. Nas oitavas de final, perdia de 1 a 0 da Espanha. Aí, ôôô, Zidane voltou. Ele comandou a virada sobre os espanhóis, com direito a um golaço no final:

Zizou engrenou e, no jogo seguinte, fez aquilo que todos lembram contra o Brasil. A França ainda passou por Portugal e só perdeu a final nos pênaltis — quando Zidane não estava mais em campo.

A crença no craque, no diferente, no iluminado, no ET explica a minha campanha pelo Gaúcho, que, pelo jeito, nem ele acreditou. Explica também o clamor popular pelo Ganso e pelo Neymar.

Mas inocular gênios no nosso time não serve apenas para resolver nossos problemas técnicos. O craque pode também nos fazer empolgar de novo com a seleção.

Alguns posts abaixo, listei os motivos do divórcio entre torcida e seleção — entre eles, a falta de jogadores dos times que torcemos, a discordância entre o gosto popular e o do técnico da seleção e a diferença entre o futebol que queremos e o que vemos o Brasil apresentar.

Tantos fatores não permitem uma solução fácil. Mas colocar craques no time pode ser um ótimo paliativo para essa relação.

Veja o caso do Corinthians. A torcida é enorme,  apaixonada e sempre lotou os estádios por onde vai. Aí chegou o Ronaldo. Mais gente, pagando (muito) mais começou a seguir o time. Mulheres, crianças, gente de outros estados, de outros países começaram a ir no estádio, a procurar notícias sobre o time. O ídolo tem seu próprio público.

O primeiro gol que ele fez com a camisa alvinegra, no último minuto de um jogo contra o Palmeiras, fez muitos palmeirenses esquecerem 96 anos de rivalidade para aplaudirem:

Palmeirenses que, independentemente da fase do seu time, sempre ficam mais tranqüilos quando vêem que Marcos está no gol. A mesma coisa com são-paulinos e Rogério Ceni.

Mas os maiores exemplos atuais são o Santos da molecada e o Barcelona de Messi. Neste primeiro semestre, até fiz força, mas não deu para torcer contra a garotada praiana. Não ao ver Neymar tabelando com Robinho e fazendo golaços atrás de golaços em plena final. Não ao presenciar Ganso reinventando o jogo, dando assistências de calcanhar, dando lençóis no espaço de um lenço e exigindo ficar em campo para fazer mais.

O mesmo vale para Messi. De novo: se ele continuar jogando nesse nível na Copa, vamos ter que, simplesmente, aplaudir.

Precisamos de craques para torcer. Para nos envolver, para nos grudar na cadeira. O ídolo faz isso. Jordan, Schumacher, Tiger Woods faziam isso. Pelé, Maradona, Romário, Ronaldo, todos fizeram em algum momento o mundo inteiro sentar do mesmo lado da arquibancada.

Se não temos mais aquela paixão pela “amarelinha” (você sim, Zagallo), ainda temos pelo ídolo. Na década de 80, tínhamos Zico, Sócrates, Falcão, Careca… Em 94, Romário. Em 98, Ronaldo. Em 2002, os 3 Rs: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Em 2006, tínhamos o quarteto mágico, que… é, mau exemplo. Nem sempre só o craque é suficiente. Mas dessa vez temos um time. A seleção de Dunga, fale o que quiser, é um time. Unido, sério, compenetrado, vencedor. Só falta o talento do craque.

O brilho de Kaká (ofuscado pela pubalgia), o de Robinho e o de Luis Fabiano (que de vez em quando piscam) podem não ser o bastante.

Ainda dá tempo de contar com o talento de Ganso. Apertando um pouquinho, dá para o Gaúcho e para o Neymar. Dava até para o Ronaldo — se a Copa fosse no ano passado…

Ainda dá tempo para chamar o craque, Dunga.

E com isso, aqui se encerram as minhas súplicas. Agora é esperar. Até amanhã, às 13h, horário de Brasília.

Postado por: Marcos Abrucio

10 razões para ver Dinamarca x Holanda

Se tem um jogo da próxima Copa que vale a pena ficar de olho, esse jogo é entre a “Dinamáquina” e a “Laranja Mecânica”. Você pode falar que o duelo mais esperado da primeira fase é Brasil vs. Portugal – e provavelmente é. Mas a partida entre dinamarqueses e holandeses também promete pelo histórico, superstições e ofensividade das duas seleções.

Veja algumas razões históricas para não perder esse jogo, em 14 de junho:

10) Dinamarca já foi “Dinamáquina”

A  seleção danesa encheu os olhos dos amantes do futebol na segunda Copa no México, em 1986, com direito ao massacre de 6 a 1 sobre nosso eterno rival Uruguai.

9) Carrossel Holandês de 1974

Time que dispensa comentários. Além de encantar o mundo com seu Futebol Total, arrasou nossos hermanos argentinos naquela Copa: 4 a 0.

8 ) Craques da terra de Hamlet

A Dinamarca também forma craques como Michael e Brian Laudrup. A expectativa é de que apareçam bons jogadores para honrar as camisas que já foram dos irmãos bons de bola.

7) Celeiro de craques batavos

A Holanda – com uma ajudinha do Suriname – sempre revela grandes craques para o futebol mundial. Quem sabe um deles não repita em 2010 o que Johann Cruyff (ou Cruijff) fez em 1974?

6) Euro Top-Top

A prova de que vale a pena ficar de olho nas duas seleções é a presença delas em vários top goals, top matches, top players, etc.

5) Os Daneses já foram de azarões a campeões

Nada como entrar como convidada e terminar o torneio como a grande campeã. Assim foi a Dinamarca na Eurocopa de 1992, na Suécia.

4) A Holanda sabe gritar “É campeã!”

O título mais importante da seleção laranja foi a Eurocopa de 1988 e veio com um timaço que incluía Van Basten, Gullit, Rijkaard e o técnico Rinus Michels (o mesmo de 1974).

3) A força da Holanda em Copas

Vice-campeã em 1974 e 1978, a Laranja protagoniza batalhas épicas em mundiais. O empate na semifinal de 1998 é considerado por muitos o último jogo do Brasil naquela Copa (alguém aí viu o Brasil entrar em campo na final contra a França?).

2) A Dinamarca já assustou o Brasil

A partida de quartas de final em 1998 teve direito a virada, muitos gols e falha do Roberto Carlos (!).

1) Boas recordações da Holanda em Copas recentes

Além do combate em 1998, a seleção laranja enfrentou o Brasil no melhor jogo da Copa dos EUA, em 1994. Essa partida não sai da memória do brasileiros e tem gente agradecendo até hoje a “lordose acentuada” do Romário no lance do terceiro gol .

Postado por Flávio Tamashiro

Uniformes Inesquecíveis da Humanidade – 4

O cara que surpreendeu novamente o Zagallo.

A seleção da Holanda de 1974 mudou nosso jeito de ver o futebol.

Não só por causa das inovações táticas, do uso da linha de impedimento, do “futebol total”. Disso todos sabem. Mas também porque, graças ao futebol vistoso dos holandeses naquela Copa, até hoje se espera um futebol ofensivo, envolvente, moderno de todo time que joga de laranja.

No entanto, o Uniforme Inesquecível da Humanidade que eu gostaria de destacar aqui não é o flamejante laranjão que os cavalinhos do carrossel vestiram em 1974. É o de apenas um deles. Este aqui, o número 14 de Johan Cruyff:

O grande craque Johan Cr... meu Deus, olha o cabelo do zagueiro!

Ué, mas essa camisa não era igual à dos outros? Não. Repare bem, ela tinha só duas listras nos ombros. As do resto do time tinham três:

Neeskens e Rep: uma, duas, três listras.

Não foi o costureiro que comeu bola. A listra que falta é, na verdade, o ápice de uma rivalidade que começou muito tempo antes e ainda está longe de acabar.

***

Os irmãos Rudolf e Adolf Dassler nasceram na impronunciável cidade alemã de Herzogenaurach.

“Rudi”, o mais velho, era falastrão, explosivo e tinha a manha para vendas. “Adi”, introspectivo e minucioso, era um apaixonado por esportes. Seguindo o ramo do pai, em 1920 ele monta uma sapataria. Mas estava interessado mesmo num negócio totalmente inovador, que juntava suas duas paixões: calçados esportivos.

Em 1924, os manos se juntam e fundam a Gebrüder Dassler Schuhfabrik — ou, com menos consoantes, “Fábrica de Sapatos dos Irmãos Dassler” — dedicada inicialmente a fazer calçados para corrida e chuteiras de futebol.

Os manos Adolf e Rudolf Dassler.

O talento de Adolf para construir pisantes mais leves e flexíveis e o tino comercial de Rudolf fizeram da empresa familiar um sucesso. Cada vez mais atletas usavam os artigos que saíam de Herzogaranourfster.

O incentivo quase obsessivo dos nazistas à pratica esportiva ajudou a bombar a produção da fábrica. Ironicamente, a consagração internacional chegou quando os Dassler conseguiram que Jesse Owens usasse o calçado deles nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O negro americano ganhou quatro medalhas de ouro e deixou o Führer espumando.

Impossible is nothing, Jesse.

As personalidades antagônicas dos irmãos e a luta pelo controle da fábrica sempre causaram brigas homéricas. A Segunda Guerra Mundial levantou a fervura de vez. Os dois tiveram que voltar a morar na mesma casa, e um vivia às turras com o outro.

Durante um bombardeio noturno a Herzougaraiauchfftsrs, Adolf comentou, referindo-se aos aliados: “Lá vêm esses malditos de novo.”. A esposa de Rudolf ouviu e achou que o cunhado falava dela e do marido. Ao fim da guerra, Rudi foi preso pelos americanos, acusado de colaboração com os nazistas. Ele passou a vida inteira jurando que tinha sido o irmão que o havia dedurado.

Nessa altura, não tinha mais jeito: a fábrica tinha que ser dividida. Adolf juntou sílabas do seu apelido e do seu sobrenome e fundou a “Adidas”. Para distinguir seus produtos, meteu três listras em cada um deles.

Rudolf também criou sua empresa, instalada do outro lado de Hierzourchinaurarghtfktls, e usou o mesmo raciocínio para chamá-la de “Ruda”. Depois usou a cabeça e viu que esse nome era feio para dedéu e a renomeou como “Puma”.

A Adidas ganhou destaque na Copa de 1954, quando Adi Dassler colaborou com o Milagre de Berna ao fornecer chuteiras de travas ajustáveis aos jogadores da seleção alemã. Com calçados mais adequados ao campo encharcado da final, eles viraram o jogo contra os favoritíssimos húngaros: 3 a 2.

Os milagreiros campeões mundiais de 1954 e seus pisantes incrementados.

Com o tempo, as duas empresas passaram a fazer bolas, agasalhos e todo tipo de artigo esportivo — além entrar de vez para o guarda-roupas de todos os terráqueos, atletas ou não.

Enquanto a Adidas buscava cooptar todo esportista que via pela frente, a Puma, sem tantos recursos, se concentrava em alguns poucos — mas justamente os que mais chamavam a atenção da mídia, seja por seu talento ou por sua personalidade controversa. Pelos dois critérios, este era o caso de Cruyff.

***

Desde moleque no Ajax, Cruyff logo destacou por seus dribles e arrancadas — mas também pela sua liderança e vaidade.

O meia magrelo transformou um time modesto com estádio acanhado no tricampeão da Europa, sempre jogando com liberdade por todo o gramado, com a anuência do técnico Rinus Michels.

A Puma se aproximou dele rapidinho. Mas não sem passar algumas dores de cabeça. Aos 20 anos, ele já recebia 1.500 florins para usar as chuteiras com a marca do felino. Como forma de conseguir um contrato melhor, passou a usar nos treinos chuteiras Adidas, alegando que as da sua patrocinadora machucavam seus pés.

Apesar de por conta disso ter sido processado pela empresa de Rudolf Dassler, Cruyff acabou ganhando dela, às vésperas da Copa de 1974, um contrato 100 vezes maior.

Consciente do novo papel dos atletas no recém-criado negócio do esporte, ele sempre defendeu que eles deveriam ser muito bem recompensados pelas suas atuações — e, por isso, nunca perdeu a fama de mercenário.

Eu quero minha parte em dinheiro.

***

Para a Copa da Alemanha, a Adidas fechou contrato com a CBF da Holanda. Os jogadores usariam camisas, calções e moletons com as três listras da empresa.

O empresário (e sogro) de Cruyff afirmou aos cartolas laranjas que o craque poderia até dormir com sua filha, mas não usar produtos de outra empresa que não a Puma.

A federação se borrou de medo de perder o principal responsável por levar a Holanda à Copa pela primeira vez desde 1938. A Adidas, de ser responsabilizada pelos torcedores por ele não estar nos gramados alemães. E acabou cedendo.

E assim nasceu o uniforme de duas listras de Cruyff, uma solução salomônica para uma das maiores crises entre os dois irmãos marrentos de Hierzrouchnieszlingaurchiaft.

The brand with two stripes.

Detalhe da camisa paraguaia-holandesa de Cruyff.

Além das listras, havia outra diferença entre o uniforme do meia para o do resto do time: enquanto para todos a numeração seguia a ordem alfabética (o goleiro Jongbloed, por exemplo, era o número 8), ele jogou com o 14, número de sorte dele — dane-se a ordem alfabética, o cara é o dono do time!

***

Cruyff havia se metido em uma ferrenha disputa familiar-empresarial, mas, ao lutar por seus direitos e seus florins, não se deixou transformar em um mero, hã, laranja nessa pendenga.

O que não o impediu de cair numa ”pegadinha” da rival da sua patrocinadora. Conta a jornalista Barbara Smit no excelente “Invasão de Campo”, que quando a Holanda foi tirar a foto oficial para a Copa, um representante da Adidas se misturou com os jogadores e, discretamente, botou uma bolsa da marca bem na frente das chuteiras Puma de Cruyff…

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Cruyff não foi à Copa seguinte, mas os gêmeos Willy e René van de Kerkhof, patrocinados pela Puma, estavam em campo e, seguindo seu exemplo, também exigiram camisetas com duas listras.

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Rudolf Dassler morreu em 1974 e Adolf, em 1978. Ambos foram enterrados no mesmo cemitério, em Hierzzougeneregaraurachartsrowlaaaargh. Em lados opostos, claro.

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Ver também: Uniformes Inesquecíveis da Humanidade 1, 2 e 3.

Postado por: Marcos Abrucio

A Copa que afanamos

Ana Carolina?

Hmmmm...

De fato: em 1962, não havia time melhor do que o Brasil.

A base era praticamente a mesma do campeonato da Suécia. Além disso, contava com vários atletas do Santos, então bicampeão mundial de clubes. E o dono da camisa 10 era o melhor jogador do planeta.

No segundo jogo, porém, Pelé teve uma distensão muscular que o vetou para o resto da Copa. Sorte nossa que tínhamos também o segundo melhor jogador do planeta.

Garrincha assumiu o comando do time e foi o melhor em campo em quase todos os jogos. O substituto do Rei, Amarildo, e os agora macacos velhos Nilton Santos, Didi, Zito, Vavá e Zagalo também jogaram muito.

Mas para o Brasil chegar ao bicampeonato, precisou mesmo da atuação decisiva de outro indivíduo: nosso amigo, o juízão.

(E também da Elza Soares, mas essa é outra história.)

Brasil x Espanha

Ahá, uhu, o juizão é nosso.

O homem de preto interveio pela primeira vez no último jogo da primeira fase. Depois de ganhar do México e empatar com a Tchecoslováquia, o Brasil precisava passar pela temível Espanha, que havia nacionalizado dois dos maiores craques de todos os tempos: o húngaro Ferenc Puskas e o argentino Alfredo Di Stefano (que, machucado, não jogou).

O jogo foi casca. Adelardo abriu o placar para os espanhóis, que por várias vezes quase ampliaram. No começo do segundo tempo, Nilton Santos passa o rodo num espanhol dentro da área. A cena seguinte é até hoje reprisada na TV num tom, para dizer o mínimo, bem condescendente (“é a malandragem brasileira, minha gente!”): o lateral dá dois passos sorrateiros para frente, saindo da área. O juiz marca falta.

Após a cobrança, Joaquín Peiró (e não Puskas, como é dito no vídeo abaixo) marca um golaço de bicicleta. Mas o juiz interrompe o lance, apontando uma irregularidade até hoje desconhecida. Absurdo.

Os brasileiros então acordam: Amarildo marca duas vezes, o segundo concluindo uma jogada patenteada de Garrincha. A Espanha foi eliminada, e o Brasil embala no campeonato.

Nas quartas e na semifinal, dois jogos difíceis que Garrincha tornou fáceis: 3 a 1 na Inglaterra e 4 a 2 no Chile. Em 180 minutos, foram quatro gols de Mané.

A partida contra os anfitriões foi nervosa. Depois de apanhar o jogo inteiro, Garrincha revida: sem bola, atinge o zagueiro Rojas. O bandeirinha vê e avisa o juiz, que expulsa o ponta brasileiro.

A história é conhecida: mesmo expulso, Garricha entrou em campo no jogo seguinte. Mas, ao contrário do que se repete, não era certo que ele deveria estar fora — a suspensão automática não estava prevista. Um julgamento decidiria o destino do botafoguense.

Só que o julgamento melou quando o bandeirinha uruguaio Esteban Marino, que, ora, ora, ora, era o mesmo do jogo contra a Espanha, simplesmente não apareceu. A única testemunha do tostão de Garrincha se escafedeu.

Que o sumiço dele foi esquisito e que o cara era um velho conhecido dos brasileiros (ele bandeirava no Campeonato Paulista), todo mundo sabe faz tempo. O dado novo apareceu em fevereiro deste ano, numa entrevista ao Esporte Espetacular.

O árbitro reserva do Brasil na Copa, Olten Ayres de Abreu revelou ao reporter Guilherme Roseguini que o juiz titular brasileiro João Etzel Filho procurou Marino e ofereceu US$ 15 mil (em nome da CBD? De Jango? Dos deuses do futebol?) para ele desaparecer. Anos depois, Olten reeencontraria o uruguaio, que reclamou ter recebido apenas US$ 5 mil…

Não há provas, não há outras testemunhas. Os nomes citados pelo ex-árbitro brasileiro não jogam mais no time aqui da Terra. Mas é mais uma sombra num episódio já bastante nebuloso.

Ronaldo/Garrincha e Homer/Yamasaki

"Sua anta! A final eu vou jogar de qualquer jeito, mesmo..."

Com Garrincha em campo, o Brasil repetiu as atuações dos jogos anteriores, e derrotou a Tchecoslováquia por 3 a 1, de virada. Mais uma vez, jogamos o melhor futebol e conquistamos a taça (nem sempre as duas coisas vêm ao mesmo tempo). Foi lindo.

Por outro lado, também foi feio.

O mundo inteiro pode reclamar da goleada argentina sobre o Peru em 78 e do gol de mão do Maradona em 86. Nós, não. Além do mais, somos reincidentes.

Postado por Marcos Abrucio

O menino, o recruta e o sargento

Em Bauru, o menino sentou-se ao lado do pai na sala de casa, com os ouvidos atentos ao locutor do rádio, que anunciava o início da partida no Maracanã.

No estádio, o recruta assumiu sua posição na arquibancada, com os olhos atentos à segurança do público e aos jogadores no gramado.

Ali perto, na Rua do Monte, Centro da Cidade, o sargento reformado da marinha aumentou o volume do rádio e começou a caminhar de um lado para o outro. Ao contrário da maioria, ele estava nervoso. 

Quando a seleção entrou em campo no dia 16 de julho de 1950, para disputar a final contra o Uruguai, a Copa já estava ganha.  “Estes são os campeões do mundo”, dizia a manchete do jornal da véspera, logo acima de uma foto dos nossos craques.

Em Bauru, o menino ouviu o locutor anunciar o gol de Friaça e abraçou o pai. 1 x 0 Brasil. Entre as 200 mil pessoas no Maracanã, o recruta esqueceu sua função e juntou-se ao grande abraço coletivo. As expectativas estavam se confirmando. Na rua do Monte, o sargento continuou caminhando de um lado para o outro.

Mas o único pecado que os deuses do futebol não perdoam é a soberba.

Quando o locutor do rádio em Bauru anunciou o gol de empate, feito por Schiaffino, o menino olhou para o pai e foi tranquilizado: “calma que o empate é nosso”. No Maracanã, o recruta olhou para a multidão e viu que a festa seguia inabalável. Na rua do Monte, o sargento sentou-se. Estava suando frio. Parecia prever o que iria acontecer.

O castigo veio com o gol de Gigghia. Uruguai 2 x 1. Um golpe tão duro que o capitão uruguaio Obdulio Varela confessaria, anos depois, que não teria se esforçado daquele jeito para ganhar a Copa se soubesse que a derrota iria amargurar tanto o povo brasileiro.

Jules Rimet e Obdulio Varela: a entrega de taça mais triste da história.

Em Bauru, o menino Pelé viu o pai chorando como se também fosse um menino, e prometeu a ele que um dia seria campeão do mundo pela seleção. Promessa que cumpriria oito anos depois.

No Maracanã, o recruta Zagalo viu em silêncio a massa deixar lentamente as arquibancadas, numa gigantesca marcha fúnebre. Derrotado, ele não poderia imaginar que se tornaria o maior vencedor de Copas do Mundo em todos os tempos.

 Na rua do Monte, o sargento reformado da marinha João Soares da Silva não resistiu e faleceu aos 45 minutos do segundo tempo, junto com o apito final do juiz.

Postado por: Rodrigo Mendonça