Doutor, o professor

Postado por: Marcos Abrucio
There Goes My Hero

Sócrates Brasileiro

Além de um bom meia-armador, uma outra espécie anda em falta no futebol brasileiro: o ídolo.

Lembra? Aquele cara que matava a pau dentro de campo e que continuava sendo admirável quando o jogo acabava. E que assim garantia um lugar no pôster que você colava na parede do quarto. (Colava, vai.)

Pois é, as coisas mudaram um pouco. Hoje tem ídolo que ameaça emporcalhar sua biografia ao se bandear para o suspeitíssimo time da cartolagem. (Ainda bem que, surpreendentemente, há exceções.)

Tem ídolo que chega ao primeiro milhão muito antes de chegar ao primeiro titulo. Até aí, tudo bem. Mesmo. O problema é ele não saber que é o futebol que o alimenta. E que, ao mesmo tempo, o futebol é apenas uma parte do seu papel de ídolo e de cidadão.

Tudo bem pensar na balada, na chuteira colorida ou se apareceu bonito no telão. O problema é, simplesmente, não pensar.

Orientado por assessores e patrulhado pelo politicamente correto, os ídolos de hoje não ofendem ninguém, não contrariam chavões, não fogem do roteiro, enfim, não falam nada. (De novo, ainda bem que há exceções aqui e ali.)

E aí, nós, torcedores, começamos a preferir nem chegar muito perto deles, os ídolos. Para não descobrir que você nunca conversaria com o gênio da bola se ele não fosse… um gênio da bola. Melhor não. Eles lá e você aqui.

Mas houve uma época em que isso era diferente. Época em que o ganhador do moto-rádio da rodada também era um cara bem legal de se sentar ao lado numa mesa de bar.

Época de Zico, de Falcão, de Reinaldo.

Época de Sócrates.

O Magro

Minha formação como torcedor se deu assistindo ao time de Sócrates, Casagrande, Wladimir, Biro-Biro… Adorava todos eles, mas Sócrates era claramente o líder, a voz a ser respeitada. Era o herói dos meus irmãos mais velhos, logo, o meu herói.

Cresci admirando tudo que ele fazia ou falava. Sócrates parecia estar sempre do lado certo, embora nem sempre do lado vencedor.

Mesmo sem nunca o ter conhecido, posso dizer que aprendi muito com ele. O Doutor foi meu professor em aulas sobre:

- Liberdade: se o jogador é adulto e responsável, por que tem que ficar confinado em uma concentração? Ou: para fazer seu trabalho direito, a pessoa tem que ficar presa?

Mais: se ele não queria comemorar com a torcida, não comemorava. Ponto. Se sim, sim. Simples assim.

O Magrão me ensinou que somos todos livres.

O gesto

Ele não jogava para a torcida. E a torcida adorava.

- Democracia: todo mundo tem direito a voto, do dirigente ao roupeiro, seja para escolher o esquema de jogo, o nome do técnico ou o presidente da república.

Assim como muita gente, aprendi o significado da palavra “democracia” assistindo a uma partida de futebol.

Democracia a gente aprende jogando.

- Pedagogia: o cara era jogador e… formado em medicina. O melhor argumento possível para mandar as crianças jogarem bola só depois de fazerem a lição de casa.

E esse cara do lado, é o Elzo?

O barbudo com o livro é um jogador de futebol.

E até…

- Educação Moral e Cívica: na estréia do Brasil em 1986, em vez do Hino Nacional, tascaram o hino… da Bandeira. Percebendo a presepada, Sócrates deixa claro o seu protesto.

Mas acho que a maior lição sobre a vida que aprendi com Sócrates é que nem sempre você consegue o que quer.

Um exemplo: o Brasil inteiro queria, depois de duas décadas, votar para presidente. Milhões de pessoas invadiam as ruas em uma campanha emocionante. Entre elas, estava Sócrates. Um dos maiores ídolos esportivos do Brasil afirmava que abriria mão de qualquer transferência para o exterior se a emenda das Diretas Já fosse aprovada.

Era uma demanda popular justa, legítima, que tinha que ser atendida. Não foi.

Digam ao povo que fico

O time das diretas.

Outro exemplo: Sócrates brilhou em um dos melhores time de todos os tempos: a seleção de 82.

Poucas vezes tantos craques ocuparam de uma vez só a mesma escalação, uma espécie de “Best of” do futebol brasileiro.

Até hoje aquele time mexe com a torcida: num almoço na semana passada, a TV do restaurante mostrava os gols da campanha de 82. Em todas as mesas, as pessoas largaram os garfos e passaram a assistir, a comentar e a comemorar (!) cada gol como se não houvesse passado quase trinta anos.

O time de Sócrates, Zico, Falcão, Éder, Cerezo, Júnior e Leandro ganhava seus jogos com autoridade, jogava bem e encantava a torcida. Tinha que ganhar. Não ganhou.

Perder faz parte.

Aprendi muito com o camisa 8 do meu time. Mas admito: de nada adiantaria toda a inteligência dele se ela também não entrasse em campo. Se ele não fosse craque.

E que craque ele era.

Se ele era um herói para mim, o toque de calcanhar era o seu genial superpoder. Uma jogada que nasceu de uma deficiência (alto, magro e com os pés pequenos, Sócrates não conseguia girar o corpo com velocidade. Para não ser desarmado, passou a tocar de primeira,  de costas mesmo), que virou uma marca registrada mas sem nunca deixar de ser objetiva, eficiente — e brilhante.

Sócrates TM

Com a cabeça e o calcanhar.

Não há espaço no futebol de hoje para um jogador barbudão, magrelo, desengonçado, assumidamente fumante e cachaceiro como foi Sócrates. Infelizmente, também não há para um jogador com toda a sua inteligência, clareza, liderança e generosidade.

Sócrates seria um ídolo onde quer que atuasse. O futebol teve a sorte dele ter escolhido ser um jogador. A gente agradece.

Obrigado, Doutor.

***

Mais:

- Casagrande sobre o parceiro: “Metade da minha história foi embora.”

- Zico: “Gênio leal.

- Homenagem na final.

- Por Alexandre Matias.

- Texto no New York Times.

- Na BBC.

- O melhor, no The Guardian.

Clique de @DedeLaurentino.

(Re)começo, por escrito

Postado por: Marcos Abrucio
Derby

É jogo de Copa do Mundo, amigo!

Aos poucos, devagarinho, tocando a bola sem pressa feito o Barcelona, o Copawriters vai voltando.

Além de sinalizar que, sim, estamos vivos, esse post serve também para registrar que ontem começou a Copa de 2014.

É sério. Ontem a bola rolou no primeiro jogo das eliminatórias para o Mundial do Brasil: Montserrat x Belize.

A pelada, digo, a peleja foi em campo neutro, no estádio de Malabar, em Trinidad & Tobago. Motivo: em Montserrat não tinha nenhum estádio dentro com as normas da FIFA — aparentemente, o mesmo problema enfrentado por São Paulo…

Montserrat confirmou a fama de “pior seleção do mundo” e apanhou de 5 x 2. Mas se você é um torcedor fanático desta espécie de Íbis da Concacaf, não precisa se preocupar:  domingo tem o jogo de volta, em Belmopan, capital  de Belize. Ainda dá!

***

E em homenagem ao pontapé inicial da Copa tupiniquim, colocamos aqui uma bela campanha de Renata El Dib e Thiago Bocatto para o curso “Futebol e Literatura”, da Casa do Saber.

As peças contam com (muitas) palavras e nenhuma imagem tudo que aconteceu em três fantásticos jogos de Copa do Mundo: Brasil x Itália (1970), Argentina x Inglaterra (1986) e Inglaterra x Camarões (1990).

Foram mais de 60 horas assistindo aos VTs dos jogos (pô, ninguém me chama?) e descrevendo tudo em uma enorme narrativa. O conceito da campanha (e do curso) é: “O futebol para quem gosta de ler”.

Tudo a ver com o Copawriters. E por isso mesmo, esses anúncios marcam nossa volta.

Clique para aumentar (e ler). Bom jogo!

Show de Pelé

Brasil 4 x 1 Itália (1970)

Show de Maradona

Argentina 2 x 1 Inglaterra

Show de Lineker

Inglaterra 3 x 2 Camarões

Mais futebol e propaganda juntos aqui.

Postado por: Marcos Abrucio

Peça pelo número

O futebol vive de gols. O futebol vive de dribles. O futebol vive glórias. Mas, acima de tudo, o futebol vive de grandes momentos. Ainda mais se eles acontecerem em Copas do Mundo.

E o que aconteceu na Itália, durante a Copa de 1990, é um dos fatos mais curiosos de todos os tempos.

No dia 11 de junho, Inglaterra e Irlanda estreiavam pelo Grupo F, na cidade de Cagliari. E após um jogo bastante disputado, onde Gary Lineker e Sheedy marcaram, o 1 a 1 ficou estampado no placar do Stadio Sant’Elia. No entanto, naquele dia, o camisa dez inglês faria muito mais do que balançar as redes irlandesas.

Sofrendo de dor de barriga desde o dia anterior a partida, Lineker sentiu uma forte pontada no estômago durante o segundo tempo e, na dúvida entre pedir para sair e ajudar a sua equipe em campo, decidiu se aliviar ali mesmo.

Sim, é isso mesmo. Sem vergonha nem cerimônias, o atacante fez o número 2 ali mesmo. Deu uma limpadinha na grama, outra no calção, levantou-se e foi para o jogo, como quem não houvesse feito nada.

Pô, Gary, que cara de bunda.

Se Ronaldo deu uma mijadinha e é chamado de fenômeno, qual o adjetivo que descreveria Gary Lineker?

Postado por: Henrique Rojas.

Favoritos para a Copa de 2014

O fim da Copa de 2010 foi também derradeiro capítulo da história de muitos craques nos mundiais. Henry, Gerrard, Cannavaro, Verón e  Forlán provavelmente fizeram suas últimas participações em uma Copa do Mundo. O momento é de renovar as seleções, a começar pelo time brasileiro.

Neymar: cara nova na seleção

No primeiro teste pós-Copa e com a equipe reformulada, o Brasil fez bonito nos 2 a 0 sobre os EUA. Time leve e solto, alegre e eficiente, encheu os olhos do brasileiros e deu a sensação de que dias melhores virão. Neymar, Ganso, Pato e todos os outros convocados mostraram talento e desenvoltura em campo. Resta saber se em 2014 já terão rodagem suficiente para encarar o mundial sem tremer diante da enorme pressão de jogar em casa. O primeiro teste será na Copa América da Argentina, em 2011.

Falando nos hermanos, a seleção albiceleste estreou o técnico Sérgio Batista – dizem, interino – e venceu a Irlanda por 1 a 0. Maradona já havia renovado boa parte da seleção, o que pode facilitar o entrosamento até as eliminatórias da Copa. Outro ponto positivo é a experiência que os jovens como Messi e Tévez adquiriram no mundial da África do Sul.

O próximo amistoso da Argentina será contra a campeã Espanha, que empatou com o México na primeira partida após o título. É verdade que os espanhóis não atuaram com força máxima.

Já a Alemanha encarou a Dinamarca e empatou por 2 a 2. A seleção jovem formada em 2010 ganha experiência e pode render frutos em terras brasileiras.

A Holanda, vice-campeã do mundo, também renovou o time e empatou com a Ucrânia: 1 a 1. Assim como o Brasil, o time laranja tornou-se uma incógnita para apostadores no próximo mundial.

Na Inglaterra, Gerrard  ainda dá sinais de vida e ajudou o time a vencer a Hungria, com direito a golaço no estádio de Wembley. A questão é: Capello vai iniciar já o rejuvenescimento do  time ou vai esperar até o fim da Euro 2012?

Maiores vexames da última Copa, Itália e França continuam decepcionando seus fãs: a reformulada mas ainda envelhecida Azurra perdeu da Costa do Marfim por 1 a 0; em crise pós-Copa, les Bleus perderam para a Noruega por 2 a 1. A seleção veteraníssima do Uruguai fez melhor e venceu Angola por 2 a 0. É possível acreditar que esses times chegarão à próxima Copa com chances reais de título?

A largada para a Copa do Mundo no Brasil foi dada. Espanha e Alemanha aparecem na frente com bons times montados e cheios de moral. As seleções brasileira e argentina prometem se renovar  com qualidade e também entram nas bolsas de apostas como favoritas.

Imprensa internacional enche a bola do novo Brasil

Itália, França, Inglaterra e também Uruguai precisam arrumar a casa para não penar nas eliminatórias diante de seleções cheias de sangue-novo. Tudo isso soa a pura especulação, admito. Mas é o máximo que podemos fazer até chegar o mundial de 2014.

Postado por Flávio Tamashiro

Time Copeiro x Time de Copa

A nova dupla NeyMano.

É inevitável falar do assunto, amigos.

Ainda mais porque, depois de tudo o que já falamos e refalamos neste blog, a reestréia da Seleção Brasileira em New Jersey só aumentou a sensação de fracasso total deixada pela Copa do Mundo deste ano.

Afinal de contas, o que assistimos sorridentes ontem a noite foi um grupo jovem e diferenciado, que entrou em campo decidido a cumprir uma única tarefa: a de jogar bola. E como é bom ver a Seleção jogando bola!

Ver as pedaladas e jogadas em velocidade de Neymar, Robinho e Pato, os passes e a cadência de Paulo Henrique Ganso, a aplicação e técnica de Lucas e Ramires, a qualidade e tranqüilidade de novatos como Thiago Silva e David Luiz; e por aí vai. Até André Santos, questionado antes do mundial da África, foi bem.

Ganso e Pato também brilharam.

Claro que foi apenas uma primeira impressão. Claro que era um amistoso. Óbvio que o grupo de Mano Menezes não será restrito aos atletas que estiveram em campo nos EUA. Mais óbvio ainda que este time não nasceu pronto. Todavia, ficou ainda mais nítida a impressão de que muitos ali deveriam e mereciam ter envergado a camisa verde-amarela dois meses atrás.

Na verdade, para mim e para 99% da população brasileira, ficou ainda mais claro o quanto aquele time copeiro de Dunga precisava de um pouco mais de time de Copa.

___________________________________________________

Em tempo: a CBF não tem mesmo senso do ridículo.

Depois de comprar a briga de Dunga e jurar que ia junto com o treinador até o fim dos tempos, a máfia de Ricardo Teixeira aproveitou logo a primeira chance que teve para ridicularizar o ex-treinador.

Em uma política mesquinha de “boa vizinhança”, a Confederação Brasileira de Futebol deu uma camisa da Seleção para o jornalista global Alex Escobar como pedido de desculpas pelo mal entendido durante a Copa.

Ou seja, lavou suas mãos não somente quanto às atitudes de Dunga, quanto ao seu fracasso no torneio. Não que seja algo inesperado, mas também não deixa de ser ridículo.

Postado por: Henrique Rojas.